A Cuca Recomenda: A Máquina de Contar Histórias

Há muito tempo eu queria ler alguma obra do Maurício Gomyde. Antes desse livro, ele teve outras quatro publicações independentes, e admiravelmente foi galgando seu espaço até publicar A Máquina de Contar Histórias pela Novo Conceito. Foi nesse momento que pensei: bem, agora não tenho mais desculpas, vou conhecê-lo! E criei expectativas altíssimas. Pois é, vocês sabem muito bem o que acontece quando a gente cria expectativas…

“Na noite em que o escritor best-seller Vinícius Becker lançou A Máquina de Contar Histórias, o novo romance e livro mais aguardado do ano, sua esposa Viviana faleceu sozinha num quarto de hospital. Odiado em casa por tantas ausências para cuidar da carreira literária, ele vê o chão se abrir sob seus pés. Sem o grande amor da sua vida, sem o carinho das filhas, sem amigos… O lugar pelo qual ele tanto lutou revela-se aquele em que nunca desejou estar. Vinícius teve o mundo nas mãos, e agora, sozinho, precisa se reinventar para reconquistar o amor das filhas e seu espaço no coração da família V. Uma história emocionante, cheia de significados entrelaçados pela literatura, mostrando que o amor de um pai, por mais dura que seja a situação, nunca morre nem se perde.” Fonte

A sinopse desse livro é incrível. Assim que a li – e me deparei com essa capa lindíssima – tive certeza: é um livro que vou chorar litros e me emocionar demais. Comecei a ler com as expectativas lá em cima e… pois é, eu não chorei e muito menos me emocionei. Fiquei com uma sensação péssima ao invés disso.

Vinícius Becker é um escritor famoso, bem sucedido e que conseguiu muito mais do que pagar as contas com sua profissão: ficou rico. Só que o preço a pagar por tudo isso foi muito maior do que qualquer valor em sua conta bancária; por conta dos eventos e dos prazos, Vinícius acabou deixando de lado a própria família. Sua esposa, Viviana, foi diagnosticada com leucemia e, por quatro anos, batalhou contra o câncer, tendo ao lado as filhas, principalmente Valentina, adolescente, que por ser mais velha chegava a ficar no hospital com a mãe. Vinícius, porém, manteve-se ausente. O livro dá várias explicações para isso – como nós mesmos fazemos quando não queremos admitir a própria culpa -, mas o que ficou pra mim é que Vinícius teve medo. Medo de encarar algo tão real e doloroso como o câncer. Medo de encarar a morte de frente. Mas, mais do que isso: Vinícius era um covarde.

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Vou precisar abrir um parêntesis aqui nessa resenha. Câncer, para mim, é um velho conhecido, infelizmente. Já tive duas duras perdas na família por conta da doença, já vi a realidade da dor e dentro dos hospitais muito cedo. E não importa se você é rico ou pobre, o câncer dilacera tudo que vê pela frente, sem se preocupar com o quanto você tem na conta bancária. Por tudo isso, toda vez que eu vejo um filme ou leio um livro sobre um assunto, eu choro. Sempre, sempre me emociono, sempre fico acabada. Mas, apesar disso, A Máquina de Contar Histórias não me tocou em nenhum instante. Nem mesmo quando se referia à dor que a doença causa.

Assim como Vinícius, o livro é frio. É quase como o próprio Vinícius descreve seus próprios romances: A Máquina de Contar Histórias é um livro muitíssimo bem escrito, técnico, com palavras bem colocadas, mas… falta sentimento. Falta veracidade. Faltou muita coisa no livro para que eu acreditasse na história, embarcasse nela e fosse realmente tocada.

“- Perdoar também é fácil. O difícil é acreditar sinceramente nesse perdão.
– Se você tivesse lido o meu último livro, talvez isso ficasse menos difícil.
– Para perdoar, palavras de um livro podem ser pouco.” Página 152

É impossível se conectar ao personagem de Vinícius. Após a morte da esposa e o fato de que ele não esteve presente em seu último suspiro, ele finalmente percebe que errou (mas ainda tenta encontrar algumas desculpas, como uma criança que admite que está errada mas ao mesmo tempo quer se explicar). As filhas, Valentina e Vida, estão distantes. Valentina, que ficou ao lado da mãe todo esse tempo, sozinha, está revoltada, coberta de razão. Como perdoar um pai que abandonou a família, abandonou a mãe doente, abandonou a filha sozinha para cuidar da mãe e vê-la partir? É duro demais, sério demais. Não é uma situação para ser consertada em duas semanas. Mas é isso que Vinícius deseja fazer: ele leva as filhas em uma viagem para reconquistá-las. O gesto até seria louvável se ele não tratasse a viagem como mais um dos seus projetos e o amor das filhas uma meta a ser atingida. Amor, confiança, amizade, não são fins: são meios. Sentimentos são construídos e alimentados continuamente. Mas Vinícius mais parece um menino mimado que quer porque quer realizar um objetivo. Como leitora, não consegui acreditar que seus sentimentos eram legítimos. E fiquei com pena de Valentina por ter um pai como esse. Ao menos, para mim, isso não é um pai. Antes da viagem ou depois da viagem, Vinícius permaneceu o mesmo; no fundo, ele não evoluiu tanto quanto o livro quer nos fazer acreditar. É como diz dentro do próprio livro: não explique, mostre. E em uma das cenas finais, quando ele tenta explicar o que estava fazendo, para mim foi o fim: se você tem que explicar algo com todas as letras, é porque algo definitivamente não está certo.

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Valentina foi a melhor personagem do livro, a única que é verdadeira e que me fez virar as páginas, mas sua evolução ao longo do mesmo não é verídica. Já passei por uma situação semelhante à de Valentina e, portanto, foi muito fácil me colocar no lugar dela, entender a dor e a revolta pelas quais ela passa no livro. Mas nada disso passa com uma viagem e um pai que resolve pagar o que há de melhor no mundo para compensar uma perda. Faltaram cenas mais simples, com mais amor e envolvimento, e menos ostentação. O final ficou forçado, corrido, previsível e faltou, como eu disse antes, sentimento em todas as páginas. Também houve um excesso de técnicas literárias no livro – a explicação das mesmas -, o que pode ser cansativo para um leitor casual; se você está envolvido com o universo das letras, é gostoso ler esse tipo de coisa, do contrário, só se for com moderação, e no livro não é. Juntando todos esses fatores o que sobrou pra mim foi um enorme vazio, mas ainda assim, quero ler outros livros do Maurício Gomyde. Não se compra um livro pela capa e muito menos um autor por uma única história.

Livro gentilmente cedido em parceria para resenha pela Editora Novo Conceito.

Ficha Técnica

Título: A Máquina de Contar Histórias
Autor: Maurício Gomyde
Editora: Novo Conceito
Páginas: 192
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Suelen Mendes disse:

    Odeio quando isso acontece,a gente criar grandes expectativas com um livro e se decepcionar depois!Comigo acontece sempre!
    Realmete a capa esta maravilhosa,e já ouvi falar mto do autor,uma pena esse livro ser assim,tão desprovido de sentimento.
    Vou ver se começo a ler o autor por Ainda não te disse nada,que pela sinopse parece maravilhoso!
    Bjus

  • Michely Reis disse:

    Noossa…odeiioo isso também da gente criar tantas expectativas em um livro e ele decepcionar tanto a gente!
    eu também achei a capa do livro lindaa..mas sinceramente nem mesmo com as resenhas que eu havia lido sobre o livro.nada me chamava atenção para ler..e pelo visto nao perdi nada por isso ksksk..
    é com certeza o cancer abala muita gente e realmente ele não ve conta bancária de ninguem apenas ataca..e se for tarde demais não adianta aquela conta toda..que nem os mais ricos conseguem se livrar..enfim, também não gosto de livro que não tem sentimento..aahhh é ruim não me prende e pelo visto O vinícios nem mudou porque ele conquista a filha em uma viagem? ah sinceramente acho isso meio dificil para quem o pai abandonou juntamente com a mãe.
    não li nenhum livro do autor…vamos ver se algum dia eu animo ksksks
    beiiijooos*–*

  • Marília Sena disse:

    Poxa, que decepção. Eu criei altas expectativas à respeito desse livro, pena que ele não é tão bom quanto imaginei. Agora o que me resta é sentar ali no cantinho e chora (não, pera). Adoro essas suas resenhas sinceras, beijos!

  • Michele Lopez disse:

    Oie…
    Já vi algumas resenhas do livro e tenho bastante interesse em lê-lo. Mesmo que vc tenha dito que ele não é tão bom assim. Pra mim, parece ser um excelente enredo e espero ter um resultado melhor da leitura.
    Também gosto bastante de suas resenhas sinceras, elas acabam criando mais confiança entre o blog e os leitores!

  • Patrini Viero disse:

    Cria expectativas não é legal, eu mesma já me decepcionei muito com todas as falsas aparências que a gente enxerga não sei como. Mas confesso que as minhas expectativas com relação a esse livro eram mais ou menos iguais ou relativas às tuas, porque só ouvi falar bem dele, e todo mundo que leu adorou. Infelizmente, eu ainda não tive a oportunidade de ler, mas percebi na tua resenha que o autor pecou em muitos pontos. Já na sinopse não consegui me identificar com Vinícius, e acho que não o perdoaria, assim como Valentina. Enfim, ainda quero ler o livro, mas agora vou com menos sede ao pote.

  • Solange Cristina disse:

    Esse tema de perdão é muito complicado …
    O Vinícius pareceu, como vc disse na resenha, alguém que só quer ter feito alguma coisa pra dizer que conseguiu fazer e pronto .
    É muuito difícil perdoar um erro como esse e leva muuito tempo, e dependendo do caso, às vezes nem é possível .. Sou suuper Team Valentina e assim como ela faria a mesma coisa!!
    O livro tem um tema incrível mas parece que o autor se perdeu um pouco. Falta de sentimento em uma história é complicado sempre, assim como finais corridos.
    Quero ler outro livro desse autor e ver o que eu acho dele de verdade ^^.

  • Nathalia Simião disse:

    Eu tava cheia de expectativa de ler esse livro, você acabou com todas kkkkk eu achei que esse livro era todo sentimental, emocionante, jura que não é? 🙁 Agora não sei mais se quero ler kk bj

  • A Cuca Recomenda: Surpreendente! | Por Essas Páginas disse:

    […] segunda chance, e ainda bem que fiz isso com Maurício Gomyde; o primeiro livro que li dele foi A Máquina de Contar Histórias, um livro que definitivamente não me agradou. Decidi que não ia pedir Surpreendente! para a […]

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