A Cuca Recomenda: Apocalipse Zumbi – Os Primeiros Anos

Sempre tive muita curiosidade para ler esse livro. Apocalipse Zumbi, de Alexandre Callari, foi o primeiro livro nacional do gênero. E eu sou completamente fascinada por zumbis. Leio/assisto/devoro tudo o que encontro sobre o assunto. Por todos esses motivos, esse era um livro pelo qual eu ansiava muito e, claro, construí expectativas. No entanto, mesmo que eu não as tivesse criado, acredito que ainda assim me decepcionaria. Eu queria muito gostar desse livro, queria mesmo, mas não consegui. Encarem essa resenha quase como um desabafo. E é mesmo.

“O caos reina no mundo. A civilização entrou em colapso. As comunicações, a energia elétrica e a vida em sociedade, como a conhecemos, praticamente se extinguiram. Nem toda nossa tecnologia foi capaz de nos proteger e evitar que dois terços da humanidade morressem. Os poucos que sobreviveram estão exaustos e tentam reunir o que ainda resta das suas forças e recursos para se manterem vivos. E, para piorar, eles não estão a sós. Dia e noite, são perseguidos pelos contaminados – sempre à espreita com seus olhos vermelhos, pele pálida, dentes podres e uma terrível sede de sangue e de carne humana. Nesse cenário de terror e desesperança, Manes luta desesperadamente para manter sua comunidade unida. Ela subsiste em uma construção cercada por paredes de concreto chamada Quartel. Porém, quando alguns de seus membros estão em apuros do lado de fora, sendo cruelmente caçados pelos contaminados, Manes parte para resgatá-los. A sua ausência e a chegada do enigmático Dujas abalam severamente o tênue equilíbrio interno do Quartel, colocando em risco a vida de todos. O perigo e o medo tomarão conta deste, que é um dos poucos redutos em que homens e mulheres vivem em “segurança”. Cheio de intrigas, mistério e horror, Apocalipse Zumbi é uma aventura de ficção eletrizante, com muitos elementos de realidade que mexerão com a mente e o coração dos leitores. Alexandre Callari oferece nesta obra o melhor do gênero zumbis e, ao mesmo tempo, cria um mundo à parte, que conta com suas próprias regras e lógica. Bem-vindo ao universo de Apocalipse Zumbi!” Fonte

Apocalipse Zumbi é um livro mais sobre pessoas do que sobre zumbis. Compreensível e corretíssimo, claro, são os personagens que movem uma história, seja ela de zumbis ou de qualquer outro tema. O problema é que o autor não conseguiu construir nenhum personagem cativante. Nenhum. Durante toda a leitura tentei me apegar a alguém, mas não funcionou. Na verdade, acho que o mais gigantesco de todos os problemas nesse livro são os personagens. Impossível se identificar com alguém dessa história. Não consegui torcer por ninguém, não consegui me afeiçoar com nenhum personagem, cheguei a ficar feliz quando alguns morreram. Sabe aquele sentimento de “já foi tarde”? Pois é. Remotamente eu gostei um pouquinho da Zenóbia, mas essa admiração logo caiu por terra quando percebi que ela foi criada com o único propósito de ser o objeto (e sim, vou usar essa palavra: “objeto”, porque é assim que o personagem e o autor a tratam) de afeição do Manes, o personagem principal.

Vamos por partes. Ou melhor dizendo, por personagens.

Manes é o “líder” da comunidade a respeito da qual gira a história do livro. E o negócio já começa pelo nome dele (aliás, todo personagem tem no seu nome um significado, o que no final se tornou excessivo e cansativo e, claro, chegou uma hora que perdeu o sentido): Manes. Fui pesquisar porque achei o nome estranho e percebi que o nome do personagem foi inspirado no nome do fundador da filosofia do maniqueísmo, um profeta chamado exatamente Manes ou Maniqueu. Não sabe/não lembra o que é maniqueísmo? A Wikipedia explica:

“O Maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Maniqueu que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal.” Fonte

Então é isso aí: ou você é bom ou você é ruim, não existem nuances. Manes é o exemplo vivo disso. Contudo, ele não é o único: todo e qualquer personagem desse livro segue essa filosofia. O autor tenta sim colocar alguns defeitos neles, mas falha e muito quando, ao mesmo tempo, tenta explicar esses defeitos, até mesmos justificá-los, como uma mãe faria para defender seus filhos. Foi exatamente essa a impressão que o livro me passou: o autor tem um grande apreço por alguns de seus personagens enquanto detesta outros e então, na tentativa de humanizá-los, insere falhas, mas paralelamente tenta justificá-las para o leitor. Parece que Alexandre tem receio de que seus leitores amem ou odeiem as pessoas erradas e o resultado é que você não consegue gostar de nenhum deles por isso. Os personagens não parecem reais, verossímeis. É muito difícil mergulhar no universo e acreditar nele. E quando você não acredita no que está lendo fica muito complicado se envolver com a história.

apocalipse_zumbi_interno

Voltando ao personagem principal, Manes. Ele nos é apresentado como um líder querido por quase toda a comunidade (mais tarde percebemos que não é bem assim, mas sim, Manes é querido, admirado, até mesmo idolatrado pelos personagens considerados bons pelo autor – olha aí o maniqueísmo novamente). O problema já começa quando ele é citado como líder, o que é quase a todo momento. Manes não é um líder. Em administração, quando se estuda liderança, há uma diferença muito clara e simples entre um líder e um chefe: o líder inspira e obtêm respeito através de seus exemplos e sua atitude; já o chefe ordena e obtém respeito através da coerção, do medo, da punição. Exemplos de líderes na literatura, inclusive de zumbis? Rick Grimes, de Walking Dead, é um líder, mas deixa de ser quando se torna autoritário – todas as pessoas de quem ele cuida começam a desconfiar dele quando percebem que ele não é mais equilibrado e que suas ações não refletem sua liderança (isso muda mais tarde, quando ele retoma sua consciência). Outros líderes? Roland, de A Torre Negra. Aragorn, em Senhor dos Anéis. E existem vários outros. Esses sim são líderes, que conquistaram essa liderança e o respeito de seu povo/grupo pela inspiração e confiança que transmitem. Manes não faz nada disso durante todo o livro. Suas ações são completamente desencontradas e ele não tem nenhum planejamento. Ele está completamente perdido e isso é compreensível como um drama para o personagem, o que não é compreensível é que seu grupo, em quase sua totalidade, e o próprio autor, continuem venerando-o e tratando-o como um ser supremo e inatingível, quase inquestionável. Apenas os personagens ruins o questionam. Algumas vezes um ou outro personagem bom faz isso, mas é com completa e abjeta subserviência. Todos o tratam como um superior militar e até parece que todos ali eram soldados – apesar do autor se referir dessa maneira ao grupo de batedores que deixam o Quartel e se aventuram no mundo. Manes é imprudente, autoritário e obcecado pelo poder – nenhuma dessas características é qualidade de um líder. Ele é apenas um chefe – e um chefe muito ruim, daqueles que fazem a gente querer deixar o emprego, se fosse o caso – e muito superestimado, tanto por seu grupo, quanto pelo autor. De fato, parece que o autor é fascinado pelo personagem e tenta sempre exaltá-lo. Entendo que personagens são como filhos para o autor, mas não se pode dar esse tipo de preferência: ela fica evidente para o leitor e é uma atitude enervante durante a leitura.

– Você cala a boca, seu merdinha. Você não tem direito de falar aqui dentro, entendeu? Você não me questiona aqui dentro, entendeu? Você não faz parte da comunidade, só está aqui como cortesia e, quando eu voltar – e eu vou voltar -, nós dois iremos ter uma conversa bastante séria. Agora cala essa boca e saia daqui.

O trecho acima ocorre já na página 39, o que significa que eu fiquei com essa má impressão de Manes desde aí e por todo o livro. Era só ele aparecer (e ele aparece muito, claro, é um dos ou o personagem principal), que eu já torcia o nariz. Essa frase citada certamente não é a atitude de um líder.

Além disso, perceberam o problema estilístico da construção do parágrafo? A repetição? Como é um diálogo, a gente pode até deixar passar – as pessoas não pensam em estilo quando conversam, principalmente quando estão irritadas. Tudo bem. Porém, isso se repete também nas narrações. Há vários erros de estilo, repetição de palavras, erros de revisão por parte da editora e distração do autor que não podiam passar de maneira alguma. Outro exemplo:

Três grupos grandes no meio do caminho e mais a volta… Aja bala para tantos deles. Página 57.

“Aja”? A conjugação verbal “aja” vem do verbo agir, mas claramente no sentido empregado a intenção era utilizar o verbo haver, no sentido de “existir”. Isso não podia passar na revisão, mas também não podia passar pelo autor, graduado em Letras, como é informado na contracapa. Isso é um erro frequente em fanfics, não em livros editados. Várias vezes, no entanto, esse mesmo erro ocorre com o verbo haver durante todo o livro. E o autor também abusa das exclamações, outro problema que não podia passar pela revisão. O excesso de exclamações dá a impressão de um texto imaturo, portanto, elas devem ser utilizadas somente quando necessário, geralmente em diálogos, e devem ser evitadas com intensidade ainda maior nas narrações. Mas há também erros de grafia, como na página 331: “Ela era um ser humano descente e valoroso (…)”. Eu coloquei um marcador especialmente nesse trecho com a palavra em caixa alta. Mas tem mais, sim, tem mais.

Ainda assim, não guardava memórias recentes de como havia chegado ali, naquele lugar onde estava (…). Página 64.

Vocês concordam que ou você coloca “chegado ali” ou “naquele lugar onde estava”? Redundância gritante. Outro erro de estilo que poderia ser evitado, especialmente na revisão. Certo, eu estou sendo implicante. Mas é que foram muitas coisas que me incomodaram. Muitas mesmo. Esse livro foi o campeão de marcações que eu fiz. Por isso tantas citações aqui na resenha. Vamos continuar.

apocalipse_zumbi_marcadores

Preciso agora comentar algo que me deixou muito irritada, mas que provavelmente pode gerar discussão (não é a primeira vez que isso acontece comigo em resenhas, mas enfim): O tom machista do livro. Não posso ficar calada quanto a isso. Principalmente por ser mulher e por ter tantas vezes passado por humilhações devido ao machismo, não devo ficar calada nesse sentido. Vou começar com exemplos:

Dujas deu de ombros. Pelo menos não havia apanhado dessa vez. Judite podia ser mulher, mas ela com certeza lhe daria uma surra também – era bastante durona. Página 40.

Ela levou as mãos à cintura mimetizando o clássico sinal de indignação. Havia raiva em seu olhar, a raiva típica que o orgulho das mulheres aponta quando elas são preteridas. Página 59.

Conflitos internos são o calcanhar de Aquiles de qualquer estrutura, e o que é melhor para causá-los do que uma mulher? Página 73.

As citações falam por si mesmas e isso é uma pequena porção do quanto, em várias situações, o livro é machista. Até mesmo nas mulheres que o autor tenta colocar como “guerreiras”, percebe-se claramente o tom diferenciado com o que tanto os personagens, quanto o próprio autor, tratam as mulheres. Liza, a esposa de Manes, é a típica vidente, uma mulher descrita como frágil e vulnerável; no final, achei que ela fosse se redimir e fazer alguma coisa, mas não. Outra que tem destaque é Ana Maria, que passa o livro inteiro servindo para ser a esposa, a mulher bonita, a mãe do bebê salvador (vou comentar mais sobre isso daqui a pouco). As mulheres nesse livro não parecem ter vontade própria e estão sempre subordinadas a algum homem. Elas não tem personalidade. Conhecem o teste de Bechdel? Pois é, esse livro não passa no teste, na verdade, tira zero nele. Enquanto isso, Zenóbia, que é de longe uma das poucas mulheres com potencial no livro, é rebaixada a mero objeto de afeição de Manes, como eu já disse ali em cima. Para completar, ela e Manes protagonizam uma das cenas mais revoltantes que eu já li e foi nessa cena que eu quase abandonei o livro. O único motivo para não fazê-lo era porque o livro era de parceria. Vou citar a cena abaixo, quem quer ler, leia, mas acredito que são spoilers. Estão avisados. O trecho está na íntegra.

De repente, Zenóbia, tremendamente irritada com tudo o que ocorrera, cerrou os punhos e deu uma pancada com as duas mãos como se fossem martelos no peito de Manes, berrando:

– Eu avisei que isso ia acontecer, cacete. Mas você tinha que me contradizer.

– Eu fiz o que achei certo, Zenóbia. – retrucou o líder sem demonstrar arrependimento.

– Ô caramba. Se Cortez tivesse dito para não correr, você o teria escutado. Mas como fui eu que falei, você fez exatamente o oposto. Agora olha só no que deu. Meus parabéns.

Sem pestanejar, Manes virou um violento tapa no rosto da moça, pondo fim à sua histeria. Sua mão pesada a arremessou a dois metros de distância, e o sangue de todos no grupo gelou com a atitude inesperada do líder. Zenóbia caiu no chão, tamanha a força do impacto. Colocou-se imediatamente de quatro na posição cachorrinho, os joelhos nus raspando no contrapiso malfeito, as palmas abertas apoiadas e os cabelos negros lambendo o rosto suado. Acometida por um sentimento de humilhação, ela deu uma leve sacudida na cabeça e se recompôs. Olhou para Manes e, ao erguer o rosto, revelou que já havia um enorme hematoma em sua face e um pequeno corte sobre o supercílio.

– Você está em uma missão, soldado, e aqui eu não vou tolerar esse tipo de comportamento, entendeu?

Zenóbia levantou-se com ódio no olhar e bateu uma continência forçada.

– Sim, senhor! Como quiser, senhor!

Obviamente a atitude irônica dela foi outra forma de desafiar a autoridade do líder, mas Manes concluiu que não era hora de discutir sobre aquilo. Página 113.

Ok. Eu preciso respirar fundo antes de comentar esse trecho, porque apenas ao reler essa parte já fico tremendo de nervoso. Foi exatamente aqui que eu fechei o livro e passei mais de uma semana sem tocá-lo. Essa cena é tão aviltante que me dá nojo. O problema não é ter um homem violento no livro que tem uma atitude estúpida como essa: oras, nós sabemos como são as coisas ainda no mundo, infelizmente, e também sabemos que existem homens desse tipo, que na verdade não são homens, mas sim bárbaros pré-históricos. O problema real aqui é que esse personagem que fez isso é o tão glorioso líder da comunidade, “o bom e justo Manes”, e pior, ele é citado como líder exatamente nesse trecho. Isso é um líder, gente? Um homem com uma atitude dessas? Isso sequer é um homem de verdade. Isso é um covarde. Isso não é um ser humano.

Bater em mulher não é engraçado, não é bonito. É revoltante. Isso não é uma atitude aceitável, nunca deveria ter sido e certamente não é agora. E o personagem que fez isso é visto no livro como um bom homem, um bom líder. O tom desse trecho é de que ele, Manes, fez o que era certo, apenas exerceu sua autoridade – como homem das cavernas, com certeza – enquanto Zenóbia, rebelde, desafiou-o e teve seu castigo. Repararam na posição que o autor a colocou e frisou? “Cachorrinho” foi o termo utilizado. Uma posição historicamente humilhante na qual a mulher torna-se subjugada. Ler essa parte do livro foi ultrajante. E não só para mim, que sou uma mulher, para um homem também é. Porque nenhum homem decente quer ter um exemplo como esse, uma figura como essa sendo exaltada como um “bom homem”. Uma coisa é você inserir um personagem desse tipo no livro e mostrar o mal que ele representa; outra completamente diferente é colocá-lo como um personagem do bem, um personagem que deve ser admirado, um líder, um protagonista respeitado pelos demais. Um personagem que claramente está no livro para que os leitores torçam por ele. Não, gente, isso não é legal.

Sabem o que é pior? Depois disso, eles transam. Sim, meus amigos, eles tem uma ardente cena de sexo, cheia de paixão.

Não vou comentar isso. Não consigo. Ficou travado na minha garganta o quanto isso é detestável. O quanto isso é tratar a mulher como um objeto de uso puramente sexual. Mulheres são pessoas, são seres humanos. Mesmo em um mundo devastado após um apocalipse, você tem que ter noção disso. E não me digam que esse personagem horroroso é um líder e uma boa pessoa. Ele é um dos personagens mais odiosos que eu já conheci. Sério, esse Manes deveria ir preso, mas infelizmente isso aqui é o apocalipse. Se a Zenóbia tivesse alguma fibra e sangue correndo nas veias, ela daria uma lição nesse cara – exatamente como no filme A Vingança de Jennifer, ironicamente citado no livro. Para mim, isso seria o único final que salvaria a história. Mas não, ela transa com ele.

Agora, tirando essa situação horrenda que é descrita como aceitável, vamos comentar outras coisas sobre o trecho. Primeiro: isso não foi um tapa, foi um soco. Os personagens estavam próximos demais para que fosse um simples tapa. E ela voar por dois metros de distância? Isso é o quê, U.F.C., por acaso? E ninguém faz nada a respeito, o povo só assiste a essa barbaridade? “Obviamente a atitude irônica dela foi outra forma de desafiar a autoridade do líder”, sim, eu tenho que citar isso novamente, porque é revoltante! Quer dizer que depois de tudo isso, de a personagem questionar esse personagem imbecil que só faz errar o livro inteiro, é ela que está errada?! Ela é culpada por “desafiar a autoridade”? Que autoridade tem um homem das cavernas como esse? Vou repetir: isso não é homem.

Além disso, o autor não precisava explicar que a atitude de Zenóbia foi irônica. Isso estava óbvio apenas pela descrição do seu gesto e pelas suas palavras. E não foi a única vez que isso ocorreu. Vamos a mais trechos:

Conan virou-se para ver quem havia dito aquilo e deu de cara com Kogiro. Os dois nunca haviam conversado muito, e ele achou curioso que o oriental o tivesse abordado daquela forma.

– O que você disse?

Na verdade, ele havia entendido muito bem a frase, mas agiu daquela forma de propósito. Foi o artifício que encontrou para estender o contato com o japonês. Página 62.

Os cientistas chegaram à conclusão de que fatores intrínsecos e extrínsecos (fatores ambientais, estilo de vida, condições nutricionais e a presença de doenças) atuavam de forma a acelerar ou retardar a contaminação (…). Página 63.

Quando eu estava na escola – faz tempo, mas eu me lembro -, nas aulas de redação e de português, os professores diziam que, se eu fosse explicar alguma coisa, jamais colocasse entre parêntesis. Por exemplo, se eu fosse colocar alguma sigla, jamais deveria inseri-la e depois abrir parêntesis para explicá-la.

Modo errado: “O IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) é um imposto brasileiro instituído pela Constituição Federal cuja incidência se dá sobre a propriedade urbana.”

Modo correto: “O Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) é um imposto brasileiro instituído pela Constituição Federal cuja incidência se dá sobre a propriedade urbana.” Fonte

Foi isso que eu aprendi quando tinha aulas de redação. Se você colocar a explicação, seja de uma sigla, seja de uma palavra, entre parêntesis, você estará sendo indelicado com o leitor. E na primeira citação, por que ele explicou que o cara perguntou “o que você disse?” de propósito? Dava para entender claramente. É um ato comum!

Mas vamos voltar aos personagens, que são os maiores problemas do livro.

Já falamos de Manes e de Zenóbia, então agora vamos falar de alguns outros que dão as caras no livro. Cufu, Conan, Espartano, Kogiro. Gente, que nomes são esses? E no Brasil ainda? Claramente o autor quis dar significado a quase todos dos personagens no livro, ligando o nome às características da pessoa. Clichê cansativo. Cufu é um guerreiro negro, enorme, muito religioso. Conan, bem, esse eu não preciso descrever, ele é como o Conan, o Bárbaro, claramente uma citação (e o nome dele é esse, não é apelido). Espartano… bem, a frase This is Esparta! já diz muito sobre o personagem. Kogiro é japonês, tá na cara. Samurai, claro, porque se você é japonês, você automaticamente é samurai. Sério, não ficou legal. Eu entendo querer fazer citações e homenagens, mas tem que ser algumas só, para dar aquele brilho na história, não encher o livro disso. Não fica bom; pelo contrário, torna-se cansativo e forçado.

Agora mais nomes: Ana Maria, Marcos José e Dujas. Ana Maria está grávida de uma criança que, segundo Liza, a vidente, será o salvador do mundo. Deixa eu esclarecer um pouco mais as coisas: “Dujas” é um anagrama de “Judas”.

Não, isso também não foi legal. Aliás, foi de pouquíssima criatividade e excepcional mau gosto. É mesmo que o vilão da história tem praticamente o mesmo nome do traidor bíblico? E que os pais da “criança salvadora” se chamam Maria e José? Eu esperava, realmente esperava, que no final do livro dessem o nome de Jesus ao menino, ou ainda um outro anagrama, quem sabe outro dos nomes de Cristo… Mas eu fui frustrada nessa parte porque não deram ainda um nome para o menino, por enquanto. Talvez eu nunca saiba se ele realmente teve algum nome desses porque, sinceramente, não vou ler as continuações.

Ah, gente, e o Dujas? Dujas parecia ser um vilão altamente promissor, mas à medida que o livro foi avançando ele se tornou tão caricato (aliás, quase todos os personagens desse livro são caricaturas), mas tanto, que ficou engraçado e decepcionante, claro. Toda vez que ele aparecia eu começava a rir porque ele era simplesmente patético. Não inspirava nem raiva, nem ódio, nem aversão, antipatia, empatia, nada, ele só inspirava graça. Ele foi se tornando ridículo, nada mais. Foi uma grande perda para a história o vilão se tornar tão burlesco.

E também há o fato irritante de que todos os personagens centrais parecem ter saído de um filme de Hollywood. Todas as mulheres são lindas, com corpos esculturais e perfeitos, esguias e fantásticas. Todos os homens são musculosos, gigantes e verdadeiros guerreiros saídos de Esparta. Vocês assistiram 300? É bem por aí. Quem não segue esse padrão ou é inútil ou é nerd. Ou isso:

Seria cômico se não fosse trágico ver mulheres gordas, que dentro do Quartel tinham a função de limpar ou cozinhar, enfrentarem a morte armadas de vassouras e frigideiras; ao lado delas, homens, supostamente incapazes de lutar, ao terem a vida ameaçada, deixaram vir para fora uma bravura até então escondida e viram suas mãos serem transformadas em armas. Página 297.

Machismo mandou um alô de novo. Quer dizer que “mulheres gordas” só servem para limpar e cozinhar e, ao lutarem por suas vidas, são quase uma comédia, enquanto homens incapazes de lutar são bravos e valorosos. Ok, eu não consigo voltar nesse assunto porque fico seriamente enjoada.

Tudo nesse livro é tão pretensioso e as situações são tão sem pé nem cabeça que a obra cheira a um filme hollywoodiano, mas um filme B. Só que o problema maior de um filme B não é ele ser sem sentido: é ele se levar a sério. E esse livro se leva muito a sério. Houve partes em que eu não resisti e comecei a rir, porque era a única maneira de seguir a leitura adiante: rindo do que estava acontecendo. Trechos como:

O líder concordou. Ele e o gigante nórdico forçaram as portas (…). Página 203.

Certo senso de responsabilidade, misturado com dor, medo e principalmente culpa, começou a crescer gradativamente em seu estômago, subindo como um foguete, passando apertado pela garganta inchada, até explodir nos lábios na forma de um violentíssimo grito que, se tivesse sido tão alto quanto ela gostaria, teria sido ouvido pelo estado inteiro, e não só pela vizinhança. Página 88.

Gigante nórdico? Violentíssimo grito? O autor tenta ser tão rebuscado, que termina sendo pretensioso. O resultado é cômico. A parte do “teria sido ouvido pelo estado inteiro, e não só pela vizinhança” é uma citação a música Há Tempos, do Legião, mas novamente não foi uma citação certeira, não teve o efeito pretendido de impactar, mas ficou desencontrada e proporcionou uma sensação incômoda de irrealidade. Ficou parecendo um exagero, não poesia. Porque zumbis e poesia dificilmente combinam. O segundo trecho é tão enfeitado que eu não consegui me ligar sentimentalmente a personagem e a situação aparentemente triste que estava ocorrendo ali teve um efeito engraçado ao invés de sensível. Se tudo isso (e todos os outros trechos antes e depois dele) fossem resumidos, o efeito seria muito melhor. Na verdade, o livro todo poderia ser resumido.

Há um capítulo inteiro (19) que é inteiramente dedicado a uma conversa entre dois personagens (nerds, claro, porque segundo o livro, nerds só servem para serem técnicos, resolverem problemas de informática e falar de nerdices) sobre ícones populares. Filmes do Romero, bandas, jogos. O capítulo inteiro é dedicado a isso e não acrescenta absolutamente nada à trama. É um capítulo que você tranquilamente pode pular e continuar a leitura do livro. O capítulo praticamente só serviu para mostrar o quanto o autor domina o assunto filmes. Completamente desnecessário.

A sensação de irrealidade perdura durante todo o livro. Durante uma cena de estupro, a personagem pensa “Meu Deus do Céu! Eu estou sendo violentada!”. Quem, em sã consciência, pensa isso, dessa maneira, em um momento de extremo desespero como esse?

apocalipse_zumbi_ilustracao

O livro é repleto de ilustrações sofríveis. Eu não sei desenhar, não sou nenhuma especialista, mas era difícil de olhar para as figuras, algumas vezes eu não conseguia identificar do que elas se tratavam. Quanto à diagramação, as letras são muito pequenas e espremidas, as margens são estreitas, o que torna o livro ainda mais cansativo do que já é. Eu demorei tanto para lê-lo que sei com certeza que passei do prazo previsto nas regras de parceria da editora. Li uns dois ou três livros enquanto tentava ler Apocalipse Zumbi, porque a leitura simplesmente não avançava. Se eu tenho alguma coisa boa a dizer é que senti um alívio tremendo ao terminá-lo.

Deixo vocês com mais um trecho do livro. Adeus, Apocalipse Zumbi! Não lerei mais você nem suas continuações!

Manes sentia como se estivesse lendo uma obra-prima, um livro que, de tão bom, já nasce um clássico. Um livro que chega a ferir os olhos do leitor, tal o entusiasmo que suas páginas determinam, mas que, inexplicavelmente, encerra em seu cerne uma única página ruim, medíocre ao extremo, cheia de desconcertos, incoerências e absurdos. Uma página fora do tom, capaz de comprometer o valor da obra em sua totalidade; uma página cujo número o leitor jamais esquecerá, pois, mesmo que ele decida reler o livro – já que tem uma história muito boa -, pulará a dita página, quando a hora chegar. Uma página maldita que, arrancada de sua posição inicial, amassada e abandonada na lata do lixo, não faria a menor falta. Página 267.

Livro cedido em parceria com a Editora Generale para leitura e resenha. 

Ficha técnica:

Título: Apocalipse Zumbi
Autor: Alexandre Callari
Editora: Generale
Páginas: 336
Onde comprar: Livraria Cultura
Minha avaliação: 

Compartilhe:
  •  
  •  
  •  
  •  


  • Daniel Monteiro disse:

    Fiquei sem palavras… Desceu a porrada mesmo =o
    Não sei se conseguiria terminar um livro que odiei tanto a leitura, parabéns pela força de vontade.
    Agora quanto aos erros, muitos deles me parecem um reflexo de imaturidade na escrita, especialmente o de ficar explicando termos para o leitor. Pode ser que o autor seja novo ainda (de idade mesmo) e não adquiriu uma postura crítica de si mesmo.
    Não sou fã de zumbi, pelo contrário. Acho sem sentido filmes e jogos, mas uma vez peguei um livro para ler e até gostei, se chama Oásis.

    [Reply]

    Karen Reply:

    Acredite, eu também não sei como consegui terminar. Foi muita força de vontade mesmo.
    Também me pareceu imaturidade, mas não por causa da idade, e sim na escrita mesmo.
    Vou procurar o livro que indicou. Gosto muito da temática de zumbis. =)

    [Reply]

  • Jullyane Prado disse:

    Noossa fiquei impressionada com o machismo do livro, é realmente horrível a forma como eles tratam as mulheres. Pra ser sincera eu não curto muito Zumbis, talvez seja por isso que não fiquei com um pingo de vontade de ler o livro. rsrrsrs!

    [Reply]

    Karen Reply:

    É uma pena, porque tem histórias de zumbis muito boas, mas essa não valeu mesmo. Esse tom machista pra mim foi o pior mesmo de todo o livro, foi o que quase me fez abandonar, mas vai contra meus princípios fazer resenha de um livro abandonado…

    [Reply]

  • Mari disse:

    Kakazinha, amei sua resenha. Eu também sou fascinada por zumbis e como você, queria muito ler esse livro e gostar dele. Mas depois de ler tudo isso que você colocou, todas as críticas bem fundamentadas, eu desisti de ler. Vou passar raiva se insistir na idéia, principalmente com esse tom machista que o livro claramente tem.
    Isso, e tem também o fato que a trilogia Newsflesh, da Mira Grant, tá acabando comigo no momento. Fica aí uma dica para quem gosta de ler sobre zumbis. Li o primeiro, chamado Feed, e sinceramente tô muito impressionada. É sobre zumbis, mas também é sobre jornalismo, liberdade de expressão, extremismo religioso, bioterrorismo e de como muitas vezes são os próprios humanos os piores causadores de tragédias.
    E claro, tem Guerra Mundial Z também. O livro é mil vezes melhor que o filme. Mais do que isso, o que o filme tem em comum com o livro é o título e um ou outro detalhe.
    Eu ainda quero achar um nacional que eu goste. Esse eu risquei da lista. Valeu, Kakazinha!

    [Reply]

    Karen Reply:

    Mari, eu não sabia que tu era apaixonada por zumbis também! Sou e muito! Acho que em breve vou ler Apocalipse Z do Manel Loureiro ou Celular, do King, para tirar a má impressão que o livro dessa resenha me deixou… blé.
    E como eu disse, eu queria mesmo gostar dele. Tava super apostando no livro. Espero que apareça algum livro do gênero bom nos nacionais. Não vou desistir!
    Obrigada pelos elogios! ^^
    E anotei tuas indicações! =)))

    [Reply]

  • Melissa de Sá disse:

    Kakazinha, parabéns pela coragem dessa resenha. Fazer resenha negativa de literatura nacional não quer dizer que se está metendo o pau na mesma, mas sim que não estamos passando a mão na cabeça de autor brasileiro. Existem inúmeros livros nacionais de excelente qualidade que nada perdem para livros estrangeiros. Dizer que todo livro nacional é bom é desvalorizar a nossa literatura.

    Quanto à resenha, sinceramente, que pena. Esse machismo do livro sinceramente me assustou. Nossa sociedade é machista, temos personagens machistas em vários livros, mas ter esse machismo defendido com unhas e dentes foi ridículo. Porque desse jeito, o autor está é endossando essa posição. Sem comentários sobre as mulheres gordas…

    Essa dos nomes foi pedante mesmo. Que isso, gente. E quanto esteriótipo, hein? Esteriótipo de mulheres, de negros, de japoneses, de nerds… Super maniqueísta MESMO.

    Mas pra mim o que afundou mesmo foi essa ideia de ficar defendendo os personagens. Gente, que coisa mais infantil, que coisa de escrita imatura. Personagem é personagem. Pronto acabou.

    Pior ainda é a falta de revisão de estilo. Geeeeeeeeeeeente, isso é essencial!

    [Reply]

    Karen Reply:

    Obrigada, Mel. Como você, eu também acho que não se deve passar a mão na cabeça. Existem livros bons e ruins em todo lugar. Não dá para dizer que um livro é bom só porque é nacional, tem que apontar os problemas também, senão a gente vai estar desvalorizando ao invés de incentivar nossa literatura. E eu fui bem mais crítica nessa resenha do que às vezes sou em outras porque justamente foi um livro que passou pelo crivo de uma editora; quando o livro é independente, a gente até dá um desconto. Mas quando é editado, não dá.
    Eu fiquei muito assustada também com o machismo e sinceramente, de todos os problemas da trama, esse foi o que quase me fez abandonar a leitura. Só prossegui mesmo por ser um livro de parceria. O ruim não é aparecerem personagens machistas nos livros, o problema é, como você endossar isso.
    O livro é repleto de esteriótipos mesmo. Super cansativo. Como o livro.

    [Reply]

  • Cris Aragão disse:

    Eu não sou a maior fã de zumbis, na verdade não tenho o menor interesse por eles e os meus conhecimentos sobre o assunto são pra lá de básicos, mas se o livro fosse bom, com uma trama bem escrita e personagens interessantes eu com certeza me animaria em ler um nacional sobre o tema. Mas não dá para elogiar simplesmente por ser de autor brasileiro, parabéns pela resenha sincera e pela coragem de levar a leitura até o final.

    [Reply]

    Karen Reply:

    Pois é, Cris, é isso mesmo que eu sinto: não dá pra elogiar só porque é um autor brasileiro. Isso não é incentivar nossa literatura. A gente tem que ser sincero. E, quem acompanha minhas resenhas, vê que eu falo a verdade e, muitas vezes, ela é agradável, há vários livros brasileiros que eu li e são ótimos, recomendo pra todo mundo. É assim que são as coisas: tem livros bons e ruins em qualquer lugar.
    Obrigada pelos elogios. =)

    [Reply]

  • A Cuca Recomenda em outras palavras: Morgan, o único « Por Essas Páginas disse:

    […] já li outros livros de zumbis. Já tive outra experiência com um livro de zumbis brasileiro que não foi muito boa, mas Morgan, em comparação a esse outro livro, dá de mil a zero. Sério. Só que, quando eu li […]

  • Gabriela S. disse:

    Uma coisa que eu odeio é esse sentimento de “já foi tarde” que você descreveu. haha, que horrível!
    Sempre gostei desse tipo de tema, tanto em série quanto em livro. Mas do jeito que vc falou, nem fiquei com vontade de ler, hasusahusa.
    Beijocas, ótima resenha!

    [Reply]

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu tenho esse livro aqui, e eu tbm sou fã de zumbis, adoro os filmes, as séries, os jogos, enfim gosto muito, e tinha muita vontade de ler esse livro, e agora fiquei com muito medo… hahahahaahah
    perdi completamente a vontade, depois vou ver se leio pra tirar minhas proprias conclusoes, mas acredito ser parecida com as suas… hahahaaha

    [Reply]

  • Sexta do Sebo #148 « Por Essas Páginas disse:

    […] eu não leio mais? Acho que Alexandre Callari, autor de Apocalipse Zumbi – Os Primeiros Anos (leia a resenha). Detestei o livro, a escrita e os personagens eram extremamente estereotipados, sem contar umas […]

PREENCHA OS CAMPOS ABAIXO PARA DEIXAR SEU COMENTÁRIO




Mensagem