A Cuca Recomenda: Flashback – Duas vidas em rota de colisão

Antes de ler esse romance tinha lido dois contos do autor Samuel Cardeal; um deles, presente no pequeno e-book de contos Todo Dia é Dois de Novembro, me surpreendeu positivamente e me fez ter vontade de procurar outros textos de sua autoria. Foi então que me deparei com seu mais recente lançamento (o autor tem três livros publicados, dois de maneira independente) pela Editora Cata-vento: a obra de ficção científica Flashback – Duas vidas em rota de colisão. Comecei o livro com uma certa expectativa, mas confesso que me decepcionei; com uma escrita imatura e personagens pouco envolventes, o livro não convenceu.

“Mark 357 é um cidadão comum, mora sozinho em um apartamento confortável e tem um bom emprego no governo. No futuro onde vive, as interações sociais são quase nulas, e sua personalidade se encaixa bem nesses parâmetros. No entanto, Mark tem sofrido com pesadelos terríveis que lhe atormentam todas as noites.
Sem conseguir mais dormir, Mark procura ajuda profissional. É então que ele descobre que aqueles pesadelos que o fazem não querer mais dormir não são apenas pesadelos, são lembranças; lembranças de uma outra vida.
Com a ajuda de Vomis, um psiquiatra excêntrico envolvido em pesquisas sobre viagem no tempo, Mark volta ao passado para consertar as coisas, salvar a si mesmo e acabar com seus pesadelos. Mas essa missão pode ser muito mais difícil do que ele imagina, e a viagem entre os tempos pode não ter volta.
O que esconde o passado de Mark?
E como ele poderá salvar a si mesmo em uma outra existência?” Fonte

Em Flashback conhecemos Mark357, ou simplesmente Mark, um cidadão comum que vive em um mundo bem diferente do nosso: nele, as pessoas vivem em níveis, alguns deles sem acesso à luz do sol, e trabalham em jornadas insanas, transportando-se por tubos controlados e alimentando-se de pílulas totalmente sem graça. A população é controlada pelo governo e há uma tecnologia avançada, também controlada. Mas Mark é um hacker e sabe como acessá-la, pelo menos parte dela. Mesmo assim, ele vive razoavelmente bem e acomodado em sua rotina até que é acometido por estranhos pesadelos, que acabam por transtorná-lo e forçá-lo a procurar ajuda profissional. É então que descobre que seus sonhos são mais que isso: são lembranças e, para se curar, ele precisará retornar ao passado, através de métodos nada convencionais de viagem no tempo do um psiquiatra quase maluco.

Há dois pontos extremamente positivos nesse livro: o universo, criativo e bem construído, descrito em detalhes bastante intrigantes, e a trama, que mistura viagens no tempo e outras vidas, sem cair no aspecto religioso do tema. É possível até que você pense “mas viagens no tempo é um tema esgotado e perigoso”, e realmente é, mas Samuel Cardeal abordou o tema de maneira original e surpreendente. Além disso, a sinopse realmente me deixou intrigada e curiosa, mas, infelizmente, os pontos positivos terminam aí.

20150106_211446

Logo de cara é possível perceber uma certa imaturidade na escrita. É evidente que o autor teve pouca paciência e não soube dosar os momentos certos de entregar as respostas para o leitor; à medida que o livro gerava dúvidas e questionamentos, também respondia prontamente a todas eles, logo em seguida, às vezes até no mesmo capítulo. Isso me causou uma grande frustração durante a leitura, já que a trama ficou quase desprovida de mistérios, e eram frequentes os momentos em que eu me desligava do livro, sem nada que me prendesse a ele ou me desse vontade de prosseguir a leitura. Para completar essa sensação, os términos de capítulos são anti-climáticos, sem ganchos que instiguem o leitor, utilizando recursos batidos como “e o personagem adormeceu”.

Eu disse quase porque houve sim um suspense que o autor carregou até, pelo menos, a metade do livro (e talvez isso seja um spoiler, se não quiser saber, pule para o próximo parágrafo), que foi o motivo pelo qual Mark foi condenado à morte por assassinato em sua vida anterior. No entanto, quando esse motivo foi revelado, fiquei decepcionada: excessivamente simples, a trama foi pouco elaborada, o que novamente foi frustrante.

A partir daí o livro caminha para o lado da ação, em sequências um pouco confusas, mas esse não é o maior problema. São os personagens: eles não têm profundidade, nem mesmo o protagonista. Todos parecem artificiais e falham ao tentar envolver e cativar o leitor, que logo perde o interesse por eles. Em tempo, os vilões são extremamente estereotipados e quase cômicos, assemelhando-se a caricaturas. Mas o que realmente me entristeceu foi o fato de que as mulheres são bastante renegadas na obra; também estereotipadas, elas não têm nenhuma história ou voz próprias, basicamente figurando no livro para cumprir funções específicas na trama, como serem vítimas ou amantes. Ou as duas coisas juntas.

20150106_211529

A edição, no entanto, foi caprichada, com uma capa chamativa e condizente com o tema, e um papel ligeiramente amarelado e confortável para a leitura; apenas senti que o tamanho da fonte estava um pouco pequeno, mas as margens com bom espaçamento compensaram o desconforto.

Com todos esses problemas, Flashback – Duas vidas em rota de colisão foi uma leitura complicada e cansativa. Fica a torcida para que o autor desenvolva mais sua escrita e amadureça sua condução de trama e personagens, uma vez que tem boas ideias.

Ficha Técnica

Título: Flashback – Duas vidas em rota de colisão
Autor: Samuel Cardeal
Editora: Cata-vento
Páginas: 189
Onde comprar: Site da editora Cata-vento 
Avaliação: 

Essa postagem está participando do Top Comentarista de Janeiro. Por favor, preencha o formulário abaixo após postar seu comentário. Basta clicar na imagem para abri-lo em nova página!

top-comentarista_junho

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...


  • Samuel Cardeal disse:

    Oi, Karen.

    Esperei ansiosamente pela sua resenha, mesmo já sabendo o quão decepcionante foi a leitura pra você. Apesar disso, apenas os dois pontos positivos apontados no terceiro parágrafo já me deixam contentes, pois me fazem crer que há algo que ainda pode ser aproveitado no futuro. Esse livro provoca sentimentos dúbios em mim, e você bem sabe das razões.

    Só tenho a agradecer pela atenção, pela disponibilidade, por ter comprado o livro mesmo por um preço nada atraente e pela amizade sempre. Pode ter certeza que cada apontamento será muito útil para mim. Espero que não desiste de ler outras coisas minhas, e que eu posso entregar trabalhos melhores.

    Grande Beijo

  • Karen disse:

    Oi Samuel!

    O livro tem sim pontos positivos, como apontei, acredito que apenas precisava ser mais trabalhado. A ideia foi ótima, mesmo, e a sinopse foi muito atraente. E pode deixar que vou ler sim outras coisas suas. Acredito em você.

    Eu que agradeço pela amizade de sempre, moço. 😉

    Beijos!

  • Gustavo disse:

    A capa e a sinopse realmente cativam, tanto que mesmo com o livro não dado tão certo assim com você ainda assim me interessou muito. Fiquei decepcionado pelos mistérios serem logo desvendados e os capítulos acabarem sem um gancho, mas me animou o universo ser bem construído e detalhado. Estou em dúvidas se ponho na minha lista de desejos interminável, ou se deixo passar batido… Acho que vou colocar, apesar de tudo rs

  • Netto Baggins disse:

    Parabéns a Karen pela resenha, como sempre muito bem escritna e com observações muito interessantes e pertinentes. Mas um parabéns maior ainda para o Samuel Cardeal, é muito difícil para alguém que se dedica a algo com paixão (o que, creio, deve ser o caso dele) receber críticas negativas, ainda que construtivas, e ele lidou muito bem com a situação. Continue assim e você se tornará um profissional – e um ser humano – cada vez melhor.

  • Carolina disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Eu achei a premissa do livro muito interessante e fiquei triste em saber que houve problemas no desenvolvimento da trama. Mais para frente tentarei ler esse livro, pois achei bem interessante a sinopse.
    Bjkas

  • Brenda Carolina disse:

    Não tinha ouvido falar desse livro ainda, mas não me interessei muito pela história não. Parece ser um livro super cansativo de ser lido. Quem sabe mais pra frente eu dê uma chance mas no momento não rs.
    Eu adorei a capa *-* Muito linda!
    Ótima resenha!
    Beijos

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu tbm fico desanimado quando acontece isso, gosto de um suspense, faz com que o leitor se prenda no livro, imaginando e tentando desvendar o misterio e tal, o autor deu bobeira em aí, agora é torcer pra que ele conserte isso nos proximos livros e consiga cativar o leitor né.

PREENCHA OS CAMPOS ABAIXO PARA DEIXAR SEU COMENTÁRIO




Mensagem