A Cuca Recomenda: Guerras Eternas

Guerras Eternas é o terceiro volume da Série Tempos de Sangue, do autor Eduardo Kasse. Foi também o terceiro livro que li dele, apesar de já ter lido outros contos também. A série trata de vampiros na era medieval, uma época na qual nem se conhecia ainda o termo e, através de uma visão que mistura paganismo e cristianismo, o autor tece uma história que mistura precisão, fantasia sombria e uma muito bem-vinda crítica social e religiosa. Ah, e claro, cenas extremamente sensuais.

Obs.: essa resenha tem spoilers dos dois primeiros volumes da série: O Andarilho das Sombras (leia a resenha) e Deuses Esquecidos (leia a resenha).

“‘Eu vejo a imortalidade como um dom. Outros a enxergam como uma maldição. Eu busco o prazer, o sangue e a satisfação. Há aqueles que desejam somente a redenção e o fim da culpa e do sofrimento. E entre nós se arrastam guerras eternas.’

Guerras Eternas é o terceiro romance da Série Tempos de Sangue, de Eduardo Kasse, e narra o pânico causado na Catedral de Canterbury e cercanias por demônios bebedores de sangue na Inglaterra dos primeiros anos do século XIII. O arcebispo Stephen Langton se arriscará ao enfrentar um antigo mal que não teme o poder de Deus e se farta com as vidas de padres, monges e noviços, deixando os seus corpos exangues a apodrecer nas beiras das estradas. E continua a jornada de Harold Stonecross, o sedutor e vaidoso imortal de O Andarilho das Sombras. Acompanhe-o enquanto a igreja e poderosos earls tentam combater as sombras que encobrem seus lares e almas, contando com a inesperada ajuda do mais improvável dos seres.” Fonte

No primeiro livro, O Andarilho das Sombras, conhecemos Harold, enquanto que em Deuses Esquecidos foi a vez de acompanharmos a trajetória de Alessio. Apesar de ambos serem vampiros – ou, para Igreja, demônios -, os dois são muito diferentes; enquanto Harold aceita sua nova condição e abraça os prazeres que a acompanham, Alessio vive em constante conflito; ele era um camponês simples, temente a Deus, e portanto nunca aceitou sua condição e especialmente o fato de precisar matar para viver. Em Guerras Eternas essas duas histórias – assim como outros personagens dos volumes anteriores – se encontram em meio a uma Guerra Santa iminente: a Igreja e os nobres estão assustados com as muitas mortes atribuídas aos “demônios” e, claro, querem exterminá-los. Mas como matar criaturas imortais?

O livro é quase totalmente narrado em terceira pessoa, com uma visão ampla dos fatos, seja dos personagens que já conhecíamos, bem como de personagens novos, até mesmo os nobres e autoridades da Igreja. Isso por um lado enriquece a história, mas por outro amplia demais o leque de informações em alguns momentos – o leitor tem uma visão muito ampla dos fatos, enquanto os personagens não, e às vezes isso pode causar um conflito, já que para o leitor as informações são repetidas e para o personagem não. De fato, sou adepta do mostre, não conte, e algumas vezes o autor procurou explicar vários pormenores da trama que poderiam estar um pouco mais ocultos e, dessa maneira, trazer um pouco mais de tensão e suspense ao livro. Às vezes é benéfico que o leitor desconfie dos personagens, até mesmo daqueles que já conhece o passado e as motivações; colocar a dúvida na cabeça do leitor gera tensão e surpresa, elementos que faltaram em quase todo o livro.

“Não conseguia me controlar ou conter esse mal dentro de mim.
Estava completamente sozinho.”

Mas notem que eu disse que o livro é quase totalmente narrado em terceira pessoa, porque há apenas um personagem que ganha uma narrativa em primeira pessoa: Harold, o antigo protagonista de O Andarilho das Sombras e, ao que parece, o protagonista da saga. Isso pode até ter sido um motivo para colocá-lo nessa narrativa, além dos livros anteriores também utilizarem o mesmo recurso para a narrativa dos protagonistas, mas ainda assim essa narração não me convenceu por vários motivos. O primeiro deles é o fato de que, apesar de principal, Harold não aparece tanto assim no livro, há vários e vários personagens, inúmeras visões, e às vezes Harold demora dois, três capítulos para voltar em cena; o uso da primeira pessoa, em um livro tão cheio de visões, confunde um pouco o leitor. Porém, além disso, também senti que não havia um motivo mais profundo para Harold ser o único com voz ativa em todo o livro; aqui, ele já está totalmente convicto de seu modo de vida (às vezes convicto demais, beirando a arrogância e pretensão). Um outro motivo pelo qual eu encararia como válido o uso da primeira pessoa apenas para Harold seria se, por essa visão limitada, fosse introduzido algum suspense, como a desconfiança de outros personagens, especialmente Tita, vampira que aparece em Deuses Esquecidos e se junta ao bando de forma tempestuosa (adoro essa personagem!), ou principalmente de Alessio, que tem outras convicções bastante distintas das de Harold. Em determinado momento do livro senti que isso poderia acontecer, mas, justamente por tentar mostrar amplamente todas as visões de outros personagens do livro, o autor acabou perdendo uma ótima oportunidade de criar um gancho fantástico de suspense, o que me decepcionou um pouco.

Os ganchos, aliás, foram algo que deixaram a desejar em Guerras Eternas; os finais de capítulos foram excessivamente conclusivos, algumas vezes mornos, e o leitor, apesar de ser envolvido pela trama geral, acabava não sentindo aquela necessidade pungente de seguir para o próximo capítulo, justamente pela falta de ganchos entre eles. Foi algo que poderia ter sido melhor trabalhado, especialmente na revisão da obra.

“(…) o bem e o mal não são conceitos tão distintos assim. E, talvez, nem existam da forma como definimos.”

Por outro lado, o leitor é realmente fisgado pela riqueza dos personagens. Além de Alessio e Harold, temos três personagens que, para mim, são as mais brilhantes dos livros: Tita, Liádan e Stella. Todas são vampiras e muitas vezes mais sábias e eficazes que os protagonistas. Tita, com sua personalidade marcante, divertida e petulante, tem uma grande importância na história, apesar de ter aparecido pouco em Deuses Esquecidos; ela é a que tem a aparência mais jovem do grupo, mas é a mais antiga; já Liádan e Stella, que conhecemos de O Andarilho das Sombras, também têm um grande papel na história: Liádan é sábia e prudente, enquanto Stella é ousada e sensual. Todas elas enriquecem imensamente a aventura. Os personagens, em sua maioria, são extremamente bem desenvolvidos e o leitor se vê envolvido nas suas histórias, até mesmo naquelas dos membros do clero e da nobreza, que também possuem suas tramas particulares. Na verdade, os únicos personagens que não acrescentaram à história foram alguns meninos “perdidos”, que realmente pareciam deslocados no meio da trama principal e poderiam ter facilmente sido cortados na revisão.

Aliás, algo a se mencionar é que Guerras Eternas, assim como seus antecessores, não é mesmo um romance de vampiros daquele estilo romantizado que muitas vezes nos deparamos no mercado: esqueça os vampiros atuais, esqueça até mesmo Anne Rice; as histórias de Eduardo Kasse são repletas de ação, sangue – em todos os sentidos -, cenas muitas vezes perturbadoras – o que foi sensacional – e, especialmente nesse terceiro volume, sexo, muito sexo. O autor consegue conduzir com a mesma habilidade as cenas sensuais quanto as de guerras, sem nunca perder o fôlego.

“O mal, afinal, era um bom negócio.”

Outra coisa importante a ser mencionada é, como sempre, a formidável pesquisa e precisão histórica do autor. A ambientação é imersiva e precisa, conduzindo o leitor de maneira admirável dentro da história e daquele mundo; é como se verdadeiramente fôssemos transportados para a era medieval. É com romances como Guerras Eternas que Eduardo Kasse prova que os livros são mesmo a melhor maneira de viajar – inclusive no tempo.

Ficha Técnica

Título: Guerras Eternas
Autor: Eduardo Kasse
Editora: Draco
Páginas: 228
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Douglas Fernandes disse:

    Parece ser uma série muito boa, ja quero ler os livros, gosto de historias sobre vampiros e seres sobrenaturais, e me interessou que tbm fala de religião, algo que me deixou curioso tbm.

  • Ana Paula Barreto disse:

    Não gosto de vampiros, mas talvez isso se dê pela forma como eles são retratados na literatura contemporânea.
    E pelo visto, aqui a coisa é mais “crua”, mais agressiva, como os “originais”. Isso é ponto positivo.
    Também achei bacana esse desenvolvimento profundo de cada um dos personagens.
    bjs

  • Suelen Mendes disse:

    Gosto bastante de histórias de fantasia,mas religiosas não são mto a minha praia.
    Acabei desgostando da série por alguns motivos,não acho que seria uma leitura que iria apreciar.
    Bjus

  • Cristiano Konno disse:

    A volta de Harold, mais o encontro com o protagiista do segundo livro, que eu não li, parece bem interessante. Ainda num cenário de guerra.. eita… ansioso para ler XD

  • Maristela G Rezende disse:

    Querendo muito ler a série e espero fazer isso em breve. Gostei da resenha, amo histórias de fantasias, e alguns vampiros e outras coisas mais.

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