A Cuca Recomenda: O Andarilho das Sombras

O romance O Andarilho das Sombras faz parte da série Tempos de Sangue – da qual já li e resenhei aqui no blog o livroDeuses Esquecidos e o conto Sobre Guerras e Deuses, todos lançados pela Editora Draco. É também o primeiro volume da série (sim, eu comecei ao contrário, lendo o segundo volume antes do primeiro, mas o mais legal é que isso é totalmente possível e não senti nenhum problema por fazê-lo) e o romance de estreia do autor Eduardo Kasse. O autor tem uma predileção por fantasia histórica, e é exatamente isso que vemos aqui nesse seu primeiro livro: uma história densa, fantástica e com uma espantosa fidelidade histórica. ‘Bora lá saber o que achei dela?

“No romance O Andarilho das Sombras, primeiro volume da série Tempos de Sangue, Eduardo Kasse conta uma história instigante de como escolhas e uma promessa maliciosa criaram um grande mal. Para salvar a vida de quem amava, Harold Stonecross sacrificou sua alma em um jogo de poder entre deuses decadentes e se tornou um demônio em busca de sangue. Nesta fantasia sombria, entre lendas esquecidas, dogmas e mitos, Harold narra passagens de sua longa existência, repletas de conexões com tempos imemoriais, enquanto caminha pelas ruelas escuras e imundas da Europa da Idade das Trevas. Sedutor e fatal, Harold fez do mundo o seu palco. Em sua atuação, a História escrita pelos homens confunde-se com as histórias de terror contadas pelos mais velhos. Nobres, sacerdotes, homens comuns, não importa: sempre haverá um rastro de sangue após as cortinas baixarem.” Fonte

Em O Andarilho das Sombras acompanhamos a trajetória de Harold Stonecross em duas épocas de sua vida: a primeira, quando deixou sua família, amedrontado – o pai o desprezava – e começou a peregrinar pela Inglaterra medieval, modestamente, fazendo amigos e inimigos pelo caminho. A segunda época de sua vida foi quando, já vampiro e imortal, Harold fez suas andanças por vários países da Europa, espalhando sangue, morte e lendas, seduzindo mulheres e causando a ruína dos homens. A narrativa é intercalada entre as duas vidas e, em ambas, Harold ainda é, essencialmente, um andarilho, como diz o título do livro.

“Os olhos suplicantes e temerosos da lebre não me saíam da mente. Era estranho nós, homens, escolhermos, definirmos a vida ou a morte desses seres indefesos.”

A história começa quando Harold, já imortal, conhece uma bela jovem, Liádan, pela qual se encanta. Essa é uma das personagens mais brilhantes e surpreendentes do livro – guardem seu nome. Quando ela está já à beira da morte, Harold não resiste e a transforma em uma igual, uma imortal. Mas em certo momento ela segue seu próprio caminho, deixando um Harold desolado e sozinho. Não que isso seja algo eterno… sendo imortal, Harold sempre acaba superando o luto e seguindo em frente, encontrando novos caminhos… e mulheres. Há essa parte no livro bastante sensual, mas não é como os clichês de vampiros (muito menos os vampiros atuais). É mais como Anne Rice, talvez; Harold é um vampiro sedutor, porém impiedoso, e sua sede está sempre acima do restante – na maioria das vezes. Em outras, Harold verdadeiramente  se afeiçoa a poucos humanos, suportando a sina que é deixá-los para trás, inevitavelmente, quando sua vida se esgota.

O protagonista foi um personagem que me dividiu, confesso. Em alguns momentos, eu o considerava pomposo e arrogante; em outros, sentia sua dor e me afeiçoava a ele. Acredito que isso demonstra o quanto, acima de tudo, ele é um personagem bem construído, com ambos os lados de luz e trevas, como qualquer um. Em sua vida humana, Harold era mais simplório e humilde, mas já é possível enxergar alguns traços do que ele se tornará. Ele não foi meu personagem preferido, mas é um excelente protagonista. O interessante aqui é notar como o autor delineou bem sua personalidade e a dos demais personagens do livro (e são muitos!), mas mesmo assim, é sempre possível distingui-los e sofrer a perda deles quando esta ocorre.

“E nossos corpos nus se entrelaçaram como o espinheiro e a rosa selvagem.”

Aliás, preciso dizer o quanto apreciei o fato de que, apesar do livro se passar em uma época onde as mulheres eram rebaixadas e desprezadas, o livro demonstra uma grande força feminina. Não posso me estender muito porque seriam spoilers, mas as personagens femininas desse livro, especialmente Liádan, são de arrasar. Elas têm uma importância ímpar, são ricamente construídas e secretamente conduzem os caminhos da obra. Sensacional.

Apesar disso, há uma absurda fidelidade histórica: é possível sentir a veracidade dos fatos e a pesquisa intensa que o autor fez antes e durante a escrita da obra. O cenário é perfeito (mas não há excesso de descrições, o que é um ponto extremamente positivo e que me agradou), você realmente se sente no clima daquela época e naqueles lugares. É completamente imersivo, e isso só foi possível pela habilidade do autor e sua extensa pesquisa sobre o ambiente e a época.

“- Não se irrite senhor Harold – falou Will – É que há muita pressão em mim depois que o velho morreu!
– Então vá cagar para ver se alivia essa pressão – respondi bravo.”

Porém, senti falta, durante todo o livro, do conflito mencionado na sinopse: o jogo de poder entre os deuses. O livro fala muito sobre religião – como o volume posterior da série -, especialmente sobre a transição sangrenta e dolorosa para a religião cristã, cheia de pecados e mazelas, e em como os deuses antigos foram sendo esquecidos, substituídos pelo Deus da cruz. Há sempre essa trama permeando a história, mas ela só é realmente aprofundada e apresentada em toda sua glória bem no final do livro – um final sensacional e surpreendente. Porém, eu gostaria que esse potencial tivesse sido mais bem aproveitado durante o restante do livro. O autor se apega muito aos fatos banais e cotidianos da vida de Harold – seja a humana ou a imortal -, que não deixam de ser interessantes (e muitas vezes hilários! Há muito humor também no livro, um humor autêntico que rouba várias risadas do leitor), mas que, reunidos em vários e vários capítulos, tornam algumas vezes a leitura um pouco arrastada. Senti falta do conflito principal do livro impulsionando o leitor a ler e ler com voracidade os próximos capítulos. Apesar de haver sim conflitos e batalhas durante o livro – há bastante sangue! -, esses conflitos foram tratados como rotineiros, e realmente, era o que eram e o que acontecia na época: bandidinhos de estrada e brigas entre homens orgulhosos. Eles não eram o foco principal do livro e senti a ausência do verdadeiro conflito da história – a disputa dos deuses – descrito de uma maneira que impulsionasse mais fortemente a leitura. Senti-me, por quase todo o livro, extremamente segura, algo que não aconteceu em Deuses Esquecidos, por exemplo.

“Jesus Cristo era lembrado em um momento de dor, em sua cruz de madeira. E a cada sermão, os padres martelavam cada vez mais fundo os pregos da cruz nas almas das pessoas.”

Aqui há que se levar em conta dois fatos, acredito. Primeiro: era o romance de estreia do autor. Já tendo lido seu segundo livro e outros contos que ele escreveu mais tarde, percebi rapidamente a diferença de maturidade de sua escrita comparando-se esse primeiro livro e os demais. E, em um primeiro romance, um autor nem sempre sabe dosar quais cenas devem ou não realmente estarem lá. Às vezes uma cena é ótima, vista separadamente, mas não faz tanto sentido assim no cenário como um todo. Isso é uma coisa que deveria ter sido vista na revisão. Acredito que o revisor pecou um pouco nesse ponto; ele poderia ter cortado e resumido algumas cenas. Também encontrei alguns outros erros de revisão, nada que realmente incomode, mas que passou batido pelo revisor.

Mas e aí? A Cuca Recomenda? Sim! É um romance bem escrito, que retrata fielmente um período histórico e traz um toque fantástico delicioso. Não sou muito de vampiros, mas aprecio os do universo de Tempos de Sangue: eles são os vampiros clássicos, com sede de sangue, sedutores no ponto certo, mas verdadeiramente perigosos (e isso é muito importante). Também é interessante esse mote religioso dos livros, que falam essencialmente das batalhas entre deuses decadentes, que fazem da humanidade – e dos vampiros! – peões em seus jogos sombrios. É uma história inteligente, com um final de tirar o fôlego. Se você curte esse tipo de leitura, recomendo O Andarilho das Sombras. E estou aguardando com curiosidade o final série, o terceiro volume Guerras Eternas, que será lançado pela Draco ainda esse ano.

Ficha Técnica

Título: O Andarilho das Sombras
Autor: Eduardo Kasse
Editora: Draco
Páginas: 384
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Douglas Fernandes disse:

    Ja aconteceu isso comigo tbm, ja li um segundo livro… hahahahaha eu preferia ter lido o primeiro da série que li, mas deu pra entender, isso foi muito bom… 😀
    Adoro esse tipo de historia, nao conhecia essa série, mas já fiquei com muita vontade de ler, tbm acho que vampiros e a maioria dos seres sobrenaturais tem que mostrar um lado mais sombrio, mais perigoso.

  • Karen disse:

    Leia sim, Douglas! Mas o legal nessa série é que, de fato, os livros são independentes. Por isso não senti problema algum em fazer o caminho inverso. xD

  • Jéssica Maria disse:

    Adorei sua resenha, adoro livros assim que tenha pontos palpáveis, mas que ainda assim é fantasia, sempre me apaixono por esses livros, e ainda é sobre um vampiro, um de verdade aliás, não como os novos né hahahaha, gostei bastante e leria o livro e o reator da série.

  • Karen disse:

    Vampiros de verdade são muito mais divertidos! hahahaha xD
    Leia sim, Jéssica!!!

  • Ana Lúcia Merege disse:

    Recomendo muito a série. Gostei mais do segundo livro, mas mesmo tendo visto as falhas de revisão que você achou no primeiro, acho que vale muito a pena começar por ele.

  • Karen disse:

    Sim, também achei que é válido começar pelo primeiro, Ana, ainda mais porque o segundo é mais maduro, então você segue gradualmente. Mas também valeu a pena fazer o caminho inverso. O legal é que as histórias serem entidades diferentes em um ambiente comum te dão essa liberdade de escolher.

  • Marília Sena disse:

    Eu nunca li o segundo livro de uma série antes do primeiro, deve ser bem legal poder fazer isso. Dois pontos positivos que já me agradaram bastante no livro foi o fato de ter uma pesquisa aprofundada, o que torna a história mais real, mesmo sendo de fantasia. E, além disso, as personagens bem construídas, que eu acho super importante. Achei bem interessante, e como grande fã do sobrenatural talvez eu dê uma checada 😉
    Beijos.

  • Karen disse:

    É muito legal que a série dê essa liberdade, Marília. É aquela coisa de você não estar preso à uma sequencia, isso é incrível. Além do fato que eu li ao contrário, as pessoas também podem simplesmente ler apenas um dos dois livros se quiserem. É bem legal! Vale a leitura!

  • Ana disse:

    Como pessoa não gosto de livros assim que envolvam religião dessa forma, mas como leitora, as vezes não posso deixar de apreciar um bom livro. Percebi que o livro tem algumas falhas, mas pelo que li percebo que por ser seu primeiro romance o autor acertou bastante né, principalmente pelo fato de não ser um tema tão simples.Creio que nunca li um livro que contenha vampiros pra falar a verdade, conheço histórias, mas nunca li.

  • Karen disse:

    Mas Ana, o livro trata religião de duas maneiras: de um jeito fantástico e sobrenatural e, por outro lado, com uma intensa crítica social. É bem interessante. Não é a religião tratada de um jeito moral, sabe? Na verdade, eu diria que é bem imotal! hahahaha

  • Fabiana Strehlow disse:

    Este livro já havia me chamado atenção pelo título. Mas, não sabia que se tratava de uma série. Ao ler sua resenha, Karen, percebi uma certa semelhança com Drácula, principalmente no que diz respeito a tempos históricos.
    Mas, sinceramente, não é o meu gênero literário favorito.

  • Karen disse:

    Olha, Fabiana, tem sim semelhança com Drácula! Eu senti isso durante a leitura. Confesso que também não é a minha zona de conforto, mas gostei da leitura, apesar disso!

  • Gustavo disse:

    Adoro fantasia histórica, é muito legal quando o autor consegue se manter fiel á época que ele escreve. A capa é bem simples, mas bonita e a sinopse é muito boa, realmente instiga a comprar o livro.
    Gosto de personagens que nos dividem, sem saber ao certo se gostamos deles ou não.
    Adorei a resenha, e com certeza vou colocar o livro na minha lista interminável de interesse e esperar o último sair pra comprar kkk

  • Karen disse:

    Ah, leia sim, Gustavo! Se você curte fantasia histórica, vai gostar muito dessa série! 😉

  • Débora Mille disse:

    Quando vc começou a resenha falando de um livro de fantasia. Não imaginava que ia entrar um vampiro… considero mais como romance sobrenatural do que fantasia. Mas isto é neura minha.
    Estou querendo reunir vários títulos da fantasia nacional, pra poder ler e fazer um comparativo. Gosto muito de fantasia, mas pouco li de fantasia brasileira.

  • Karen disse:

    Débora, acredito que romance sobrenatural tenha sido atribuído à vampiros há apenas alguns anos. Não digo nem que seja por causa de Crepúsculo, eu mesma classifico os livros da Anne Rice como romances sobrenaturais. Mas Drácula, por exemplo, pra mim é um terror/fantasia. E O Andarilho das Sombras é uma fantasia porque, além do mote dos vampiros, também lida com outros fatores, como a guerra dos deuses. =)
    Sugiro que dê uma olhadinha na tag Literatura Nacional do blog. Tem várias resenhas de fantasias legais por lá. Além desse livro do Eduardo, recomendo bastante também a série da Ana Lúcia Merege, também da Draco.

  • Samuel Cardeal disse:

    Eu procuro sempre me afastar dos vampiros, gosto bem mais dos demônios, não sei porque. Mas o livro parece bem interessante. Agora, começar uma série de trás pra frente é realmente inusitado. Apesar de que, eu assisti “O Retorno do Rei” nos cinemas, sem saber nada sobre O Senhor dos Aneis o.O

  • Karen disse:

    Mas como eu disse na resenha, esse dois livros não são como Senhor dos Anéis ou como as séries que normalmente conhecemos, que são contínuas e têm uma sequência de fatos. Enquanto O Andarilho das Sombras narra a história de Harold, Deuses Esquecidos narra a história de Alessio. Em comum temos o ambiente e os vampiros, mas são histórias bem diferentes e que – ainda – não se interligaram.

  • Débora Mille disse:

    Não estou conseguindo dar “Reply”. Então vou responder por aqui.
    Muito obrigada pelas dicas de literatura fantástica nacional! Esta tag de Literatura Nacional, eu não tinha visto. Tirei várias boas sugestões de lá. 🙂
    Obrigada por aumentar ainda mais minha lista de futuras leituras/aquisições ehehehe Não sei se isto é uma coisa boa.

  • Raquel Pereira disse:

    Ainda não conhecia a série e nem o autor, mas adoro livros assim.
    Me fez lembrar um pouco os do André Vianco.

    Bjok

  • Karolyne K. disse:

    Outro que não conhecia (repito que deve ser por causa da editora, que não procuro muitos livros dela).
    Eu gostei do conteúdo em si, parece ser bem trabalhado e ser uma história que te prende até o final da leitura.
    Mas não sei se eu leria agora =/ Apesar do livro chamar a atenção, não compraria ele no momento, por ter outros em mente, mas futuramente sim =)

  • Top Ten Tuesday: Top 10 livros que vou ler no verão « Por Essas Páginas disse:

    […] O Andarilho das Sombras – Já lido e resenhado aqui no blog, os livros do Eduardo Kasse possuem uma tradição de serem companheiros de viagem […]

  • A Cuca Recomenda: Guerras Eternas « Por Essas Páginas disse:

    […] essa resenha tem spoilers dos dois primeiros volumes da série: O Andarilho das Sombras (leia a resenha) e Deuses Esquecidos (leia a […]

  • Shadai disse:

    Acabei de lê-lo!
    Após exato 1 ano em que o recebi do próprio Eduardo esse livro ganhado no sorteio de aniversário desse mesmo querido blog que sempre visito hehehe
    Apesar de ser um pouco longo (e concordo contigo que poderia ter cortado/resumido algumas cenas), li até que rapidamente em pouco menos de 10 dias.
    E isso se deve por ter gostado! Uma leitura fluida, graças a uma escrita muito boa.
    Só achei que há 2 tipos bem diferentes de Harold, não consegui vê-los como a mesma pessoa em nenhum momento.
    SPOILER:
    só não gostei tanto da parte final já que não sou muito chegado em muita fantasia, então a aparição dos deuses foi um tanto estranha para mim e também personagens que se transformam.

    Ainda bem que não li a orelha do livro antes de terminá-lo, pois há um spoiler gigantesco.

    Não sei quando irei ler o segundo volume, mas certamente o farei!

  • Cristiano Konno disse:

    Eu li o Andarilho das Sombras e já comentei com o Eduardo, gostei muito. O final explode a cabeça e os tempos narrados nele são bem interessantes e instigadores. Ainda não pude comprar as demais obras, mas o farei assim que possível. Recomendo.

  • Maristela G Rezende disse:

    Não conhecia a série e nem o autor. Amei cada pedacinho da resenha e curti muito os comentários. Amo livros de fantasia e tenho certeza que esse será um dos que vou adorar ler.

  • Amanda Karolina disse:

    perfeito me apaixonei estou louca para ler

  • Geane disse:

    Adorei a resenha , fiquei curiosa pra ler

  • Resultado: Promoção Especial de Aniversário – 5 Anos de Por Essas Páginas « Por Essas Páginas disse:

    […] (O Andarilho das Sombras + Deuses Esquecidos + Guerras Eternas + O Despertar da Fúria – todos os livros autografados) […]

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