A Cuca Recomenda: O Eterno Barnes

“Doutor Barnes, um famoso neurocirurgião, começa a desenvolver na Universidade onde trabalha uma pesquisa científica tentando transformar os dados do cérebro em arquivos de dados, codificando-os de modo que possam ser copiados. Com o avanço da pesquisa, acaba conseguindo copiar para o computador todos os dados de memória que formam o ser humano, como suas experiências, suas emoções, suas recordações, enfim, sua vida. Deslumbrado com a descoberta, começa a perceber que estes arquivos possuem uma estrutura totalmente diferente e uma sinfonia divina, e começa a ficar obcecado pela ideia de que seja possível copiar cérebros de um paciente para outro. Ao contrário do que deveria ocorrer, Barnes, cada vez mais, esconde suas pesquisas, pois seu objetivo passa a ser implantar seu próprio cérebro em outro paciente, mais jovem e sadio, pois está acometido de uma séria doença. Busca, desta forma, alcançar a tão almejada eternidade. Para isto, não mede as consequências de seus atos, que passam a ser justificados pela ambição que lhe domina. Conseguirá Barnes o seu intento?” Fonte

O Eterno Barnes, da Editora Novos Talentos da Literatura Brasileira – selo da Novo Século, chegou às minhas mãos cedido gentilmente pelo autor Salustiano Luiz de Souza para leitura e resenha. Quando li a sinopse e as informações na internet, resolvi que precisava ler esse livro: um cirurgião obcecado pela ideia da imortalidade e arrasado por um câncer devastador descobre como transferir os dados do seu cérebro para outro corpo. Mas estará ele disposto a fazer qualquer coisa por sua descoberta? Bem, é isso que vemos nesse livro. Ou, infelizmente, não.

Comecei a ler cheia de expectativa. O primeiro capítulo parecia promissor. Porém, a cada página e a cada capítulo eu me pegava pensando: o que está acontecendo com essa história?

Explico: a ideia do livro é genial, porém não tão bem executada. O primeiro problema que encontrei foi que quase nenhum personagem é aprofundado o suficiente para que nos afeiçoemos a ele. Digo quase porque ainda tive alguma simpatia pela personagem de Lourdes, que foi bem descrita em alguns capítulos: com essa personagem o autor descreveu seus sonhos, aspirações, sentimentos, pensamentos – pensamentos dela, eu quero dizer, e não pensamentos genéricos.

Mas como assim “pensamentos genéricos”?, vocês me perguntam. Bem, o que acontece em O Eterno Barnes é que todos os personagens parecem pensar da mesma maneira. Há milhares de divagações infinitas sobre o tempo, a vida, a morte, religião e outros assuntos que seriam interessantes se não fossem tão excessivos, repetitivos e longos. E, principalmente, se fossem realizados com os personagens certos. Eu até entendo que Barnes tivesse essa característica meio filosófica… mas não, não entendo que por exemplo a enfermeira Rosemary, que o autor descreve como uma pessoa humilde e simples, fosse filosófica. Também não entendo que a personagem de Tatiana, descrita como uma mulher oportunista, fosse assim. E tampouco entendo que o personagem de James fosse um divagador, afinal, ele é descrito como um jovem extremamente técnico. Todos esses pensamentos profundos na mente de tantos personagens me deu a desagradável impressão de que não eram eles afinal que pensavam aquilo e sim o autor. É claro que um livro tem e muito o pensamento, as crenças e os sentimentos do autor; porém, personagens necessitam de características próprias que os distingam e os tornem reais. Além disso, essas divagações eram longas, cansativas e algumas vezes não acrescentavam nada à história. Eu lia e queria ver alguma coisa acontecendo, porém nada acontecia.

Há um excesso de preocupação do autor em descrever em detalhes objetos e cenários que não acrescentam em nada à história, como o exemplo abaixo, da toalha de mesa, na página 179. Tudo isso poderia ser reduzido, senão pelo autor, certamente pelo revisão da editora, que algumas vezes pareceu fazer vista grossa a vários trechos que pediam para serem revisados, reescritos ou eliminados.

“(…) sentando-se à mesa da cozinha, na qual uma toalha de plástico repousava, com pinturas de morangos e mangas e kiwis cortados ao meio e outra infinidade de frutas tropicais, algumas cortadas e outras inteiras, mas todas brilhantes e todas parecendo convidar a visita a saborear seus sabores.”

E, apesar dessas descrições, a escrita é fria e até mesmo técnica em alguns momentos. Eu não conseguia me ligar aos personagens, sentir com eles, porque na maioria do tempo eles não pareciam sentir. Sobre a parte técnica, há muitas coisas que somente um especialista – médico, profissional de T.I. ou engenheiro – poderia entender. Precisei recorrer tanto ao Google que em dado momento desisti e simplesmente ignorava os termos técnicos. O livro deveria ser de ficção, mas algumas vezes se parecia muito mais com um artigo científico.

No começo, eu ficava feliz quando via uma citação a algum livro ou autor. Depois, isso se tornou estafante. As citações chegavam a aparecer duas ou três vezes por página, um excesso que era agravado pelo fato de elas não se encaixarem ao contexto da história. Quando uma citação é colocada em um livro, ela pode ser inserida de diversas maneiras: colocá-la no pensamento de um personagem é uma delas, porém, utilizar-se dessa tática todo o tempo remove qualquer efeito que você tente passar com aquela citação. Posso estar equivocada, porém, aprecio muito mais as citações sutis, principalmente quando inseridas em diálogos ou despretensiosamente em alguma descrição. Citações utilizando aspas somente lá no começo do livro, próximas à dedicatória e ao índice.

Porém, mesmo com tudo isso, prossegui com a leitura, querendo entender até onde a obsessão de Barnes o conduziria. Queria saber o que aconteceria com ele quando transplantasse seus dados para o cérebro de outra pessoa. E realmente soube, porém, quando chegamos a esse ponto da história, há um capítulo descrevendo o que acontece com Barnes e depois… nada mais. O enredo se perde em tramas conspiratórias e investigações policiais envolvendo outros personagens, enquanto a história de Barnes que, afinal, era o protagonista, é relegada a segundo plano e retomada apenas nos parágrafos finais, com um desfecho que deixou a desejar. Na realidade, de tudo, foi isso o que mais me decepcionou.

Não encontrei muitos erros gramaticais – aliás, o personagem de Barnes chegou a corrigir a gramática de outro personagem em certo momento – porém encontrei sim muitos erros estilísticos que eram obrigação da editora revisar: pouco uso de pontuação, excesso de vírgulas e repetição excessiva de palavras. Encontrei a palavra “estranhos” cinco vezes no mesmo parágrafo, o que é inaceitável em um livro que passou pelas mãos de uma editora, ainda mais por uma editora grande e conceituada como a Novo Século. Quem se envolve no mundo literário e na blogosfera sabe muito bem que o autor investe na edição de um livro por esse selo e, por isso e pelo descaso com os leitores, fiquei decepcionada por esses lapsos da editora. A revisão em alguns pontos foi tão descuidada que encontrei o seguinte trecho na página 212:

“”Hoje em dia, cada um só pensa em si e é difícil encontrar um bom samaritano para pensar em (no caso “pensar” aqui significa curar, então não tem o “em”) nossas feridas (…)”

Posso estar muito enganada, mas o que está entre parêntesis me parece uma observação de revisão. E isso não poderia estar no livro em hipótese alguma.

Foi por todos esses fatores que, apesar de uma premissa interessante e uma história promissora, não consegui gostar de O Eterno Barnes. E não consigo deixar de ser sincera ou atenuar o que senti ao ler o livro: agir de outra maneira seria um desrespeito principalmente ao autor e também a vocês, leitores. Porém, se você gostar de um livro técnico e bastante filosófico, talvez aprecie muito mais a leitura do que eu.

O autor está com uma campanha muito bacana de incentivo a leitura na qual, para cada 100 pessoas que curtirem a página ou compartilharem o booktrailer, um livro será doado para a biblioteca de uma escola. Vamos contribuir e estimular a leitura em nosso país.

Ficha Técnica

Título: O Eterno Barnes
Autor: Salustiano Luiz de Souza
Editora: Novos Talentos da Literatura / Novo Século
Páginas: 248
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Kelry Caroline disse:

    Olá, eu já conhecia o autor a algum tempo e gostei muito do seu livro, apesar do assunto não ser bem um dos meus preferidos. Mas pra quem é fã é um ótimo livro.

  • Karen disse:

    Oi Kelry! Infelizmente, eu não gostei muito do livro. A ideia é genial, porém não gostei da maneira como foi conduzida. Mas o que mais me decepcionou foi mesmo o pouco caso da editora com a revisão.
    Bem, mas quem é fã de divagações filosóficas e artigos científicos pode gostar.

  • Melissa de Sá disse:

    Eu acho um absurdo grotesco uma editora deixar passar um erro de revisão como esse. Principalmente porque os autores desse selo pagam para publicar e não é pouco. Estou chocada com tamanho descaso.

  • Karen disse:

    Olha, Mel, eu fiquei em choque. Fiquei relendo o trecho, pensando se estava mesmo vendo direito, mas não é possível, não é? É um erro de revisão. Na verdade é um comentário de revisão que não foi removido do texto. Absurdo completo. Paga-se e paga-se muito bem para publicar pela Novos Talentos da Novo Século. Chega a ser uma falta de respeito com o autor um erro desse. Sem contar a falta de cuidado com o leitor também.

  • Liége disse:

    Pai do céu, fiquei pasma com a observação da revisão presente no livro!! É simplesmente vergonhoso que a editora tenha deixado passar algo assim. A publicação por esse selo é super cara, acho uma falta de honestidade completa da editora fazer um trabalho tão descuidado…

  • Karen disse:

    Pois é, Liége. Quando eu vi isso no livro, desacreditei: como pode uma coisa dessas passar na revisão da editora? É o completo descaso com o leitor, mas mais ainda com o autor, que paga e paga muito bem por essa publicação. E esse foi só o erro mais grotesco, mas tem muitos outros, principalmente erros estilísticos, o que é normal em autores iniciantes, mas que a editora não pode deixar passar de jeito nenhum!

  • Vania disse:

    Gente, que absurdo!!!! Isso é completamente inaceitável, um pouco caso da editora tanto com o autor quanto com o leitor! Eu sei que você citou os pontos fortes e pontos fracos do livro, do conteúdo, mas se fosse comigo e eu tivesse comprado o livro com meu dinheiro e estivesse lendo totalmente por prazer (sem parcerias) eu acharia muito difícil passar por cima de erros como esse e focar na história. A impressão que eu tenho – e não digo que é certo, mas é o que acontece comigo – é que se a editora não foi capaz de fazer um trabalho no mínimo decente, o livro não é digno do meu tempo. Uma pena que esse tipo de desrespeito com autores e leitores ainda aconteça!

  • Karen disse:

    Parceira, eu achei um enorme desrespeito. Com o leitor, claro, mas principalmente com o autor. Paga-se e paga-se muito bem por uma edição da Novos Talentos. O mínimo que eles poderiam fazer é uma revisão decente. É completamente inaceitável. Eu mantive o foco na história, mas certamente que nesses momentos eu me distraí, e uma revisão ruim faz exatamente isso: distrai o leitor da história com os erros.

  • Top Ten Tuesday: As dez tendências de capas que eu gosto (ou não) « Por Essas Páginas disse:

    […] Há uma diferença muito grande entre capas minimalistas e capas simplesmente preguiçosas. A capa de Bruxas e Bruxos é preguiçosa. Da série toda é; falta criatividade, inovação. Essas letras do título com coisinhas diferentes não passa pela minha garganta. Outros exemplos de preguiça total são a capa antiga de Liberta-me (ela nada mais é do que a capa de Estilhaça-me com um zoom e vidro voando) e a de Eterno Barnes. […]

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