A Cuca Recomenda: O Silêncio do Mundo

“Num continente oprimido por um governo autoritário, a adolescente Lícia tenta entender o mundo à sua volta ouvindo CDs antigos e procurando músicas e fotos nos restos da banida Internet.” Fonte

Gostei tanto desse conto que é até difícil procurar por onde começar a falar dele. Ele é belo e melancólico sem ser piegas; é complexo e profundo sem ser pretensioso. Acho que ele sintetiza bastante como é a escrita da autora Melissa de Sá (você pode encontrar resenhas de outros contos e livros dela aqui). Extremamente sensível, esse conto capta com perfeição o que é a beleza, a solidão e o conflito de ser adolescente, especialmente em um mundo degradado e cinza.

O Silêncio do Mundo conta, em primeira pessoa, a história de Lícia, uma garota que nasceu após todos os países do mundo fecharem suas fronteiras. Ela vive na América do Sul e, além dela, todo o restante do mundo é um amontoado cinza e desconhecido de terras que ela só pode imaginar (mas nem se importa muito). Seus pais, no entanto, viveram “o antes”, quando era possível andar com liberdade, pegar um avião e voar para outros países, ouvir música e navegar na internet; a extinta internet, que o governo da América do Sul não vigia muito bem e, por isso, Lícia vez ou outra arrisca navegar, captando faíscas proibidas de um mundo que já não existe mais.

O conto é uma distopia adolescente, mas é muito, muito mais que isso. Fala principalmente sobre sentimentos, sobre a relação de pais e filhos, sobre jovens descobrindo a si mesmos, sozinhos em um mundo dilacerado. Lícia é uma personagem que cativa imediatamente, apesar de narrar o mundo com uma visão quase fria; porém, ela gradualmente evolui para alguém que sente de maneira profunda e que descobre a beleza na complexidade das pequenas coisas. A ideia que o conto deixa é que não se precisa de muita coisa para sentir e viver. À medida que Lícia descobre fragmentos de um mundo que se foi, ela também descobre coisas que ainda pode ter, como amizade e compreensão.

“Às vezes eu tenho a impressão de que ela está sempre chorando, mesmo que nenhuma lágrima escorra.”

Foi brilhante como Melissa de Sá conseguiu criar personagens tão reais e distintos em um conto de poucas páginas. Todos tocam de alguma maneira, apesar do texto ser curto. A relação de Lícia com a mãe, revoltada por ter perdido a vida que tinha no mundo de “antes”, a amizade pura de Lícia e Yuri, o pai conciliador de Lícia e Aldara, a amiga triste que Yuri apresenta a Lícia. Todos têm uma história para contar, um universo atrás do pouco que nos é apresentado, e você sente que está tudo lá, que todos eles têm um sólido pano de fundo que contribui para que estes sejam personagens tão reais, personagens que permanecem com o leitor mesmo após a última palavra da história.

Quando você termina esse conto, resta um silêncio aqui dentro; você quer mais, mas sabe que não precisa, afinal está tudo ali. É sublime e sensível além das palavras. Apesar de gostar muito dos outros contos da Melissa de Sá, acredito que este é um ótimo ponto de partida para quem nunca leu nada dela. É uma das histórias mais bonitas e mais tristes que já li. Gostei muito da capa também; é um dos meus estilos de capa prediletos, simples, mas que vai direto ao ponto. O conto, realmente, fala bastante sobre música, música para sentir, para preencher o silêncio dentro da gente, para preencher O Silêncio do Mundo, e de fato, é isso mesmo que a música sempre fez e sempre fará: preenche vazios. O conto faz parte da coleção Contos do Dragão, da Editora Draco, um acervo incrível de contos digitais a preços super pequenininhos. Vale a pena conferir (você pode ler outras resenhas dos Contos do Dragão aqui). A Cuca Recomenda e muito!

Ficha técnica:

Nome: O Silêncio do Mundo
Autor: Melissa de Sá
Páginas: 21
Editora: Draco
Onde adquirir: Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Minha avaliação: 

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  • Patrini Viero disse:

    Adoro distopias, mesmo quando elas aparecem em forma de contos. Na verdade, admiro muito um autor que consegue nos prender com um conto, por ele ser uma narrativa tão pequena, acho que as personagens devem ser muito profundas e bem criadas para que nos apeguemos tanto a elas em pouco tempo de leitura. Fiquei doida de vontade de ler o conto que tu indicou e de conhecer um pouco melhor a autora, principalmente porque adorei a ideia central do conto e a proposta de escrita.

  • Suelen Mendes disse:

    Não sou mto fã de contos,li poucos,mas adoro distopias!
    Ninca imaginei um junção dos dois,pois destopias são mais descritivas e longas,fiquei curiosa pra saber como a autora conseguiu adaptar uma pra um conto!
    Bjus

  • Marília Sena disse:

    Eu raramente leio contos, mas o jeito que você falou desse fez a minha curiosidade ligar seu radar. Parece extremamente interessante, pena que eu não tenho um e-reader. :(

  • Michele Lopez disse:

    Oie…
    Também não sou muito fã de contos, mas achei interessante a proposta de uma mistura em conto e distopia. Pela resenha, fiquei interessada. Ela despertou em mim grande curiosidade! rsrsrs

  • Nathalia Simião disse:

    Eu já não gostei muito dessa capa, prefiro as mais elaboradas. eu nunca li nada da autora mas esse conto parece ser realmente muito bom. Eu não me imagino Lícia, pensa só ficar sem internet, sem saber sobre o resto do mundo, sem liberdade, eu ia ficar louca! beijos

  • Solange Cristina disse:

    Contos são muuito fofos!
    Distopias estão entre as minhas favoritas, então …
    Gostei da história, só falta o e-reader !!
    Querendo *-*

  • Michely Reis disse:

    Oi , não gostei muito da capa não .achei sem estilo..
    não sou muitooo de ler contos nãoo…mais foi bacana a união de contos com distopias

  • Melissa de Sá disse:

    Nossa, só agora percebi que nunca agradeci pela resenha aqui nos comentários. Nem sei o que dizer, obrigada mesmo, ainda mais vindo de você, uma leitora tão exigente e uma ótima resenhista! Foi um lindo presente de aniversário, com certeza. :)

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