Adaptações: Orgulho e Preconceito

Olá pessoal! Dando continuidade à nossa semana comemorativa de Orgulho e Preconceito, a Lucy e eu estamos aqui hoje para falar sobre as duas adaptações mais famosas da obra de Miss Austen: a série de 1995 da BBC e o filme de 2005.

colin_firth_jennifer_ehle P&B

Orgulho e Preconceito – talvez juntamente com Emma – é o livro de Jane Austen que foi mais adaptado para TV, Cinema e Teatro. A primeira vez que a história foi vista na TV foi em 1938 com um filme que durou apenas 55 minutos. Dois anos depois, Greer Garson e Laurence Olivier deram vida à Lizzy e Mr. Darcy em uma adaptação que ainda é extremamente criticada por não ser fiel ao livro. Outros atores deram vida ao nosso casal preferido em 1952, 1958, 1967 e 1980 antes de finalmente chegarmos às duas mídias relativas a esse post.

primeiro_filme Pride-and-Prejudice-BBC-1980

Meus comentários estarão em verde e os da Lucy em azul. Vale lembrar que esse post contém spoilers.

A série da BBC foi estrelada por Colin Firth e Jennifer Ehle, e é considerada por nós duas a adaptação mais fiel de Orgulho e Preconceito, desde o cenário, as falas e, mais do que isso, a postura dos personagens em relação ao comportamento daquela época. Tudo bem, é hollywoodiano, então tudo é mais caprichado desde a maquiagem até os figurinos das festas, mas a atmosfera era bem diferente, o que fez parecer que a série fosse mais próxima ao que descrevia o livro.

A Lucy tocou em um ponto que me incomodou muito ao assistir o filme ainda essa manhã (sim, somente um post pro PEP foi capaz de me convencer a ver a adaptação de 2005): a atmosfera. Eu tive o prazer de ler o livro antes de ver qualquer interpretação da história, e por isso minhas impressões da sociedade da época vêm diretamente das páginas e não da série (que só assisti uns bons anos após a leitura do livro). Os Bennets não eram ricos como os Bingleys ou os Darcys (nem mesmo como os Gardiners) mas eles eram membros da aristocracia britânica e possuíam os mesmos valores, embora não fossem nobres; a impressão que o filme me passou no entanto – através do cenário de Longbourn, do figurino, da total e completa falta de propriedade da família inteira (e aqui eu excluo apenas Jane, porque nem mesmo Elizabeth se comporta com decoro em algumas partes) – é que os Bennets eram extremamente pobres, ignorantes e desprovidos de qualquer gentileza em suas maneiras.

the_bennets_1995
the_bennets_2005

Curiosamente, eu conheci Orgulho e Preconceito pelo filme, lendo o livro algum tempo depois. Na época, eu não assimilei o livro ao filme, apenas depois que revi, eu pude ver as diferenças e criticar um pouco – isso se deve ao trauma de adaptações de Harry Potter. Só muito tempo depois, graças ao orkut, eu fiquei sabendo da série da BBC e quando eu assisti, pude sentir como se estivesse fazendo uma releitura do livro. Não foi 100%, nem poderia, não é? Mas chegou muito próximo ao que eu esperava da história.

Apesar do filme já começar cortando uma das minhas cenas favoritas (quem leu minha resenha do livro talvez se lembre que eu a menciono), e de logo no primeiro encontro de Mr. Darcy (Matthew Macfadyen) e Elizabeth (Keira Knightley) o Mr. Darcy definitivamente ter notado Lizzy, o que mais me incomodou de fato durante o filme foi a maneira como os personagens secundários foram tratados. “Mas Vania,” vocês devem estar dizendo, “é um filme com apenas duas horas de duração!” e eu entendo e levo isso em consideração. 

Mr-Darcy-and-Liz-pride-and-prejudice-793000_999_662

De qualquer forma, não consigo deixar de lado a maneira como Mr. Bennet é apresentado primeiramente como um “pau mandado” da Mrs. Bennet, tendo toda sua deliciosa ironia deixada completamente de lado até o pedido de casamento do Mr. Collins; Bingley é retratado como um tolo incapaz de fazer um discurso coerente; e embora eu entenda o motivo pelo qual Maria Lucas foi cortada e sua personalidade misturada com a de sua irmã, é impossível aceitar o fato de que Charlotte – nossa querida, prática e realista Charlotte! – incorporaria Mr. Collins e diria para Lizzy apenas vestir “o que você trouxe de melhor” ao visitar Lady Catherine. 

Depois que reli o livro (primeiro foi em inglês, depois em português) e depois de adquirir a série em DVD, eu assisti novamente o filme e confesso que entortei o nariz para muitas peculiaridades. Acho que a primeira coisa que me incomodou foi a atuação da Keira mais no início, quando ela parecia mais uma moleca recém-saída do colégio do que uma jovem cujo comportamento esperado seria mais contido, ainda mais para a época do filme. Sim, Elizabeth era recém-saída da adolescência (menos de 21 anos), talvez isso explicasse alguns rompantes. Sim, ela era enérgica – mas acho que enérgica demais. Não mostrou uma graciosidade que eu esperava da personagem, mesmo ela tendo uma mente geniosa. Ou, melhor dizendo, não demonstrou recato.

keira_lizzy

Mr. Darcy… O que dizer dele? Bem, Matthew Macfadyen interpretou bem o seu papel, mas (talvez isso seja estilo do ator) faltou aquela altivez presente do Mr. Darcy. Ele parecia mais tímido do que orgulhoso, quase melancólico. Tinha uma postura austera, mas… Faltou alguma coisa ali. O olhar dele também era mais romântico, não achei indiferente nem esnobe em quase nenhum momento.

Já os personagens secundários… Eu culpo a duração do filme. Enquanto que na série temos como explorar melhor a família Bennet, no filme é tudo bem corrido. Claro, o foco está em Darcy e Lizzie e também em Jane e Bingley, mas mesmo assim sem muito destaque para os dois. A fuga de Lydia e Wickham também foi estranha, porque o comportamento leviano de Lydia só foi mostrado mesmo no baile de Mr. Bingley. Mr. Collins rouba a cena dos personagens secundários, mas Mr. Bingley realmente pareceu um pateta (e não, eu não acho que ele seja um pateta).

Apesar de tudo isso, não achei uma adaptação ruim; a meu ver, ela apenas não foi boa o suficiente. Essa semana eu li diversos comentários de fãs que foram introduzidos à Orgulho e Preconceito através dessa adaptação, e se o filme conseguiu trazer uma nova geração de admiradores às obras de Miss Austen, então ele fez o seu trabalho. Porém como uma fã intensa (e purista com relação à obras e personagens pelas quais sou apaixonada), eu só consigo ver o filme como uma pobre introdução à relação amorosa entre Elizabeth e Mr. Darcy. As diferenças sociais, a rotina familiar, o comportamento da sociedade da época, o tratamento reservado às mulheres e a ironia, beleza e requinte pertinentes à história só podem ser apreciados em sua totalidade ao se deliciar com as páginas escritas por Jane Austen. Ou, caso você não seja uma pessoa tão exigente, ao assistir a série de 1995 que ao contrário do filme, consegue captar a essência da história – não somente de Lizzy e Darcy, mas como um todo. 

Concordo com a Vânia, foi um bom romance, mas uma adaptação não tão boa. Outra coisa que eu não gostei muito foi o cenário. Uma hora era a casa palpérrima dos Bennet (sim, me pareceu palpérrima), em outro, o luxo de Pemberley. Sinceramente, não creio que a situação dos Bennet estivesse tão ruim. Eles faziam parte da aristocracia, em um grau mais inferior, mas tinham boas relações, pelo menos – mas não creio que, mesmo naquela época, a situação deles fosse aquela.

Mudando da água para o vinho, vem a série de 1995. Como eu disse antes, eu fiz tudo ao contrário: vi primeiro o filme, li o livro em inglês, revi o filme, li em português e cheguei à série (ufa!). Eu já tinha ouvido falar da série, na verdade, por causa de Colin Firth e sua atuação em Bridget Jones, uma das releituras de Orgulho e Preconceito.

O cenário já era diferente. Desde Longbourn até Pemberley, me pareceu mais “clean”, mais límpido. Havia sim a parte urbana (e mais sujinha) da cidade, mas nunca em tons muito escuros, o que já é um contraste do filme. Mas acho que o que me conquistou de cara foi a feição de Jennifer Ehle. Não vou dizer que foi realista, mas me convenceu. Não era uma atriz muito magra, nem gorda para o papel. Ela simplesmente tinha as feições que eu acho que uma jovem da época, bem alimentada, bem vestida, teria – destaque para as maçãs do rosto. Além disso, em sua primeira cena ela demonstra a graciosidade que faltou em Keira, mesmo correndo pelo campo, ela demonstrou a doçura presente em Elizabeth, além de seu espírito livre, vivo.

lizzy_1995

Apesar de concordar com a Lucy sobre a agradabilidade do cenário – especialmente em contraste com o do filme – não posso dizer que Jennifer Ehle me convenceu como Elizabeth logo de cara. Embora eu não tenha nada específico para comentar sobre sua atuação (fantástica, por sinal) me lembro perfeitamente bem de não admiti-la como minha Miss Bennet durante o primeiro episódio. Mas assim como aconteceu com Mr. Darcy e Lizzy, Jennifer Ehle tornou-se bonita e especial a meus olhos à medida que a conheci melhor, e logo tornou-se o rosto, a voz, o ar, a graça de Elizabeth Bennet não só durante a série, mas também durante minhas frequentes releituras de Orgulho e Preconceito. 

E enfim chegamos ao Mr. Darcy preferido de 8 entre 10 fãs de Jane Austen! Logo nas primeiras cenas da série é possível discernir a altivez ausente na interpretação de Matthew Macfadyen, aquele senso de prepotência que é parte da essência do personagem. Através de seus olhares, expressões faciais e até mesmo da maneira com que se porta, que anda, Colin Firth demonstra que a arrogância exibida pelo seu personagem provém realmente de uma crença em sua superioridade, de um orgulho em sua educação e discernimento, e não de timidez. 

mrdarcy_1995

O relacionamento entre Lizzy e Mr. Darcy é baseado nas mudanças pelas quais eles passam durante a narrativa e como a série tem 6 episódios, as nuances da relação entre os dois são amplamente demonstradas. Nós temos tempo de ver todo o caminho percorrido pelos personagens principais até à fatídica declaração durante a estadia de Lizzy em Hunsford; após esse confronto nós entramos na segunda parte, onde ambos são obrigados a rever conceitos, olhar para dentro de si mesmos e ver onde erraram. No caso de Mr. Darcy, essa reflexão resulta em um aperfeiçoamento de suas maneiras com relação à estranhos (a maneira que ele trata Mr. e Mrs. Gardiner em Pemberley é o extremo oposto do comportamento dele em Meryton), e o resultado para Lizzy é que pouco a pouco ela se apaixona por Mr. Darcy; tanto que quando diz à Jane que se apaixonou por ele ao ver Pemberley, o espectador sabe que se trata de uma brincadeira, pois conhece bem Lizzy e sabe que ela está realmente apaixonada por Mr, Darcy independente de sua riqueza. 

darcy_lizzy_wedding

Colin Firfh como Mr. Darcy conquista qualquer um. Ele sabe ser altivo, orgulhoso, esnobe. Realmente O Mr. Darcy. Ignora quem ele não gosta, se aproveita da vantagem de ser quem ele é. Sabe disfarçar seus sentimentos, pelo menos em alguns momentos, porque em outros conseguimos distinguir um olhar de adoração à Elizabeth, embora ele continue com seu nariz arrebitado e ar superior diante de todos. É bem como a Vânia falou, Mr Darcy acredita piamente em sua superioridade, tanto que extrapola, ao fazer o pedido de casamento à Elizabeth – e como Elizabeth não é uma florzinha doce como Jane, mete bronca e o coloca em seu devido lugar (menos na questão de Wickham, claro). A partir daí, Darcy desce do pedestal, como todos sabemos, e passa a tentar mudar suas atitudes, mesmo correndo o risco de que Elizabeth não o aceitasse futuramente.

Na série também temos um gostinho a mais dos personagens secundários. Destaque para Lydia, que irrita tanto que você às vezes quer estrangulá-la. Mr. Collins é outra figura, a forma como ele se comporta com Lady Catherine é impagável, todo cheio de pompa, sem tato nenhum ao falar que todos são inferiores se comparados à Lady Catherine. Jane e Mr. Bingley parecem mais “reais” também. Bingley, embora manipulável pelo amigo e família, ainda mostra resquícios de atitude, que ele devia ter tido no início da história (mas se não tivesse, não teríamos a história toda, não é?).

Embora a história tenha sido muito bem trabalhada – raramente vemos um diálogo que não esteja nas páginas do livro – a série não é perfeita ou 100% fiel à obra. Aliás, ela já começa com uma cena inexistente: Mr. Bingley e Mr. Darcy admirando Netherfield. Ainda assim, ela condiz com os eventos narrados por Miss Austen e o diálogo original faz jus aos personagens. E como poderíamos deixar de lado a icônica cena do lago em Pemberley? É uma cena clássica, mas que não existe no livro; no entanto é muito interessante ver Mr. Darcy de uma forma mais íntima sem sair da barreira do personagem. Além do mais, Colin Firth com uma camisa branca molhada, teria como dar errado? 

Por último, o elenco da série é de primeira classe, sem ser composto por rostos extremamente conhecidos (a fama internacional de Colin Firth chegou após Orgulho e Preconceito). Aliás, a princípio Colin Firth recusou o papel de mocinho mais adorado de Jane Austen diversas vezes por causa de algo que seu irmão disse: “mas o Mr. Darcy não tem que ser sexy?” Ah, certamente jovem Firth, certamente! Felizmente para nós, a equipe da série o convenceu, e aqui estamos hoje! Outro fato interessante é que Anna Chancellor – Miss Caroline Bingley – é descendente da própria Jane Austen! Não é de se admirar que fiquemos terrivelmente irritados com sua magnífica interpretação da irmã de Mr. Bingley.

Eu gostei muito da série, realmente não é 100% o livro, mas será que é possível que uma adaptação chegue a 100%? Em todo o caso, no mínimo 95% do livro está inserido na série. A atuação dos atores foi impecável. Nem sabia que Colin Firfh pensou em recusar o papel, ainda bem que não o fez. Recomendo para todos que gostem de Orgulho e Preconceito.

Para encerrar, deixamos vocês com a clássica cena do lago! Pobre Lizzy!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...


  • Karen Alvares disse:

    Meninas, que post sensacional. Depois dessa semana certamente farei tudo como manda o figurino: vou ler o livro, assistir à série e por último o filme. Apesar dos comentários que fizeram dele, no trailer, acabei por ter uma sensação boa com o filme, acho que foi a música e o fato de ele ser dos mesmos produtores (?) de Bridget Jones e Love Actually (que eu amo amo amo).
    Mas mesmo não tendo lido o livro, se me perguntarem como imagino Mr. Darcy, eu direi Colin Firth. =)
    Post sensacional e muito gostoso de ler.

  • Vania disse:

    Ah Parceira, Love Actually é um dos meus filmes favoritos EVER e eu não me canso de ver!!! Também adoro Bridget Jones (ah Colin Firth!) e embora não ache que ele faça jus ao livro, é uma adaptação muito gostosa de se ver! Com Orgulho e Preconceito… talvez se eu não conhecesse a série, ou visse o filme depois de anos sem ler o livro eu conseguisse gostar. Estando no meio de uma releitura no entanto, me fez perceber as coisas com muito mais atenção… o que me incomodou realmente – mas que eu entendo – foi o foco no romance Lizzy/Darcy, que SIM, é o motivo pelo qual lemos o livro; mas não é a única coisa ali. Tipo, no livro o relacionamento entre Lizzy e Jane é um dos mais importantes: elas são irmãs, confidentes, melhores amigas. Na série nós temos tempo de ver isso; o filme, embora eles tenham adicionado algumas cenas das duas dormindo juntas e cochichando embaixo das cobertas, não me passou a ideia do relacionamento delas ser algo forte. Sem contar que várias cenas diferentes foram acrescentadas e eu não entendo o motivo de fazer isso quando se tem um material-fonte tão rico. É como em Harry Potter: por que diabos inserir os passarinhos sendo atingidos pelo Salgueiro Lutador e o Lupin contando pro Harry como a Lily era a melhor amiga dele, sendo que no livro a história é explicada e completamente diferente? Isso nunca vai fazer muito sentido pra mim, e é um dos motivos pelos quais o filme realmente não me agradou.

  • Melissa de Sá disse:

    Que ótimo esse post!

    Eu não assisti à série de 95, acreditam? Shame on me. Mas eu confesso que gosto demais do filme de 2005. Eu acho que a Keira capta um lado mais rebelde da Lizzy, mas é ótimo. Sem contar que a trilha sonora é linda! Acho que o filme é mais uma releitura do livro e talz, sei que tem defeitos, como os Bennets numa espécie de família Weasley de tão pobre, mas eu acho um xodó.

    Mas o post de vocês me fez pensar em algumas coisas que não tinha pensado antes como o fato do Darcy ser bem melancólico nesse filme, quase tímido. Realmente.

    Enfim, parabéns pelo post!

  • Vania disse:

    Ah Mel, eu realmente não curti o filme, talvez pelos mesmos motivos que não gostei de Becoming Jane (apesar que aqui lidaram com a vida de Jane Austen e não com um livro). Embora eu ache que a Lizzy seja um tanto quanto rebelde, acho que a Keira levou esse lado um pouco longe e isso me incomodou. Mr. Darcy não me convenceu, como a Lucy falou, ele não me passou essa sensação de orgulho que a gente tem durante o livro todo; parecia mais um cachorrinho carente.

    Mas também, eu sou suspeita pra falar. Colin Firth É meu Mr. Darcy, sempre foi e sempre será. Eu sou muito parcial à série, e embora isso não exija que eu deteste o filme, realmente não consegui apreciá-lo como teria caso não conhecesse a série.

  • Kate disse:

    Olá, belo post. Eu, como a Vânia comentou, conheci Orgulho e Preconceito através do filme, depois li o livro, e acabei de assistir a série. Porém, a Elizabeth Bennet que mais me encantou foi a interpretada por Keira, e não a interpretada por Jennifer.
    À principio, não tinha percebido tanta diferença entre o filme e o livro, mas depois de ver a série, não tem como não notar a diferença.
    Mas, de qualquer forma, amei o livro, a série, o filme, e o post. I love Jane Austen!

PREENCHA OS CAMPOS ABAIXO PARA DEIXAR SEU COMENTÁRIO




Mensagem