Em outras palavras: 1984

A coluna Em outras palavras de hoje volta com a resenha da Nivia Fernandes. Ela já foi parte da nossa equipe aqui no blog, porém precisou se afastar, mas hoje retorna com uma resenha especial para a nossa coluna de convidados. Aqui o espaço é aberto para quem quiser resenhar seus livros favoritos! Quem estiver interessado deve apenas mandar um e-mail para a gente via contato@poressaspaginas.com. Aproveitem a resenha da Nivia!

Olá, pessoal! Já estive no blog antes, mas devido a ler pouco na faculdade, acabei indo embora. Mas o carinho pelo PEP e as amigas maravilhosas que tenho aqui é eterno, então voltei aqui para fazer uma ronda especial! As resenhas daqui são referências de leitura para mim, sem dúvida alguma. Mas de qualquer forma, vim deleitá-los com um clássico, tratem de assoprar a estante aí que lá vem mofo! Um bem especial que vai deixá-los espirrando de nervoso.

“‘1984’ não é apenas mais um livro sobre política, mas uma metáfora do mundo que estamos inexoravelmente construindo. Invasão de privacidade, avanços tecnológicos que propiciam o controle total dos indivíduos, destruição ou manipulação da memória histórica dos povos e guerras para assegurar a paz já fazem parte da realidade. Se essa realidade caminhar para o cenário antevisto em 1984 , o indivíduo não terá qualquer defesa. Aí reside a importância de se ler Orwell, porque seus escritos são capazes de alertar as gerações presentes e futuras do perigo que correm e de mobilizá-las pela humanização do mundo.

Falo de praticamente da adenina do DNA de todo conteúdo distópico que existe… A obra “1984”, de George Orwell. Já fiz resenha sobre “Fahrenheit 451”, do falecido há pouco tempo Ray Bradbury, mas confesso que “1984” é mil vezes mais perturbador. E é fascinante. Se você parar e entender que Orwell (pseudônimo Eric Arthur Blair) escreveu esse livro em 1949… Vai ficar mais assustado ainda.

Neste mundo apocalíptico, lidamos com três conjuntos territoriais (países) no mundo inteiro: a Oceânia, Eurásia e Lestásia, que vivem se aliando e entrando em guerra uns com os outros. Conhecemos então, vivendo esse mundo novo no ano de 1984, Winston Smith, morador da Oceânia e funcionário sem muita motivação de vida, mas com pensamentos confusos sobre suas funções e a subserviência de todos ao Grande Irmão (Big Brother. Tá sacando a primeira coisa bisonha?), que segue a Ingsoc – abreviatura para socialismo inglês, onde se deve eliminar qualquer traço de individualidade dos cidadãos -, e tudo vigia através da teletelas, instaladas por todos os lugares, inclusive nas casas. E ela nunca desliga, está sempre fazendo barulho e se fazendo presente ruidosamente.

A estrutura de mundo se baseava na vitória do Grande Irmão, de quem todos apenas conheciam o rosto estampado em cartazes em todos os lugares. Ele ensina as regras do Ingsoc de como viver feliz e em harmonia na sociedade, em uma das citações mais emblemáticas para quem distorce o sentido das palavras – repetir a mesma mentira várias vezes a torna uma verdade para quem a escuta…

“Guerra é paz

Liberdade é escravidão

Ignorância é força”

Existe uma explicação lógica para essas afirmações, que são quase lemas. Em suma, enquanto se vive em guerra, as pessoas buscam a paz e somente pensam em viver. Ser livre implica em escolhas muitas vezes erradas e nos fazem sofrer, ser liderado é melhor e mais seguro. Ignorância é força, porque saber demais também gera revolta e sofrimento. Resumo do resumo, tá? No livro, encontramos grandes teias de argumentos para tudo isso. Faz todo o sentido. Hitler, Stalin e companhia ilimitada leram essas doutrinas, não é possível…

Enfim, temos os Ministérios, onde os funcionários públicos trabalham, e são muito interessantes as associações. No Ministério do Amor, lidam com a lei e a ordem. No da Fartura, com a economia do país, determinação do que cada cidadão pode comprar e ter até para comer. O Ministério da Paz trata das guerras. O da Verdade publica as notícias, diversões disponíveis – insira uma risadinha de escárnio aqui -, instrução e belas-artes.

Winston trabalhava no Ministério da Verdade, lendo as notícias antigas e modificando segundo o que o Partido determinava. Mudando o passado documentado, ele se tornaria a nova verdade. As novas notícias eram escritas em novilíngua, que é toda uma estrutura ortográfica programada para reduzir as palavras e expressões o máximo possível, até uma palavra só dispensar todos os sinônimos e variações. Cercear a imaginação e a reflexão, dentre outras coisas. Isso me parece muito familiar já.

Mas Winston começou a se questionar. Quis começar a escrever suas próprias impressões, tentando se esconder da teletela… Morrendo de medo de ser descoberto pela polícia do pensamento. Que ficava de olho em ideias revolucionárias e nos que contrariavam o duplipensar, que consistia em conviver com ideias contrárias e aceitar ambas como reais. Por que contestar ou escolher uma só e ficar agoniado? A polícia vaporizava os que pensavam diferente. E a gente sabe que morrer é o de menos quando cai nas mãos de pessoas controladoras…

Para reforçar os ideais do Partido, todos os dias na teletela havia os “Dois minutos de ódio”, um programa para desmoralizar os que eram a oposição – que ninguém sabia se ainda existia realmente.

Conhecemos personagens que representam o papel de cada peça na sociedade que é importante para movimentá-la. Winston se apaixona por Júlia, uma colega de trabalho, e eles têm um romance às escondidas bem peculiar. Com esse relacionamento, enxergamos como o amor é frágil perante à força das adversidades e do egoísmo que existe em nós nas piores horas. Júlia é uma mulher que se considera livre, mas é como o lema: é fácil se enganar a esse respeito. Winston ainda constrói uma amizade política e esperançosa para combater o sistema com O’Brien, um dos personagens mais fortes da história. Mentalmente intenso… E com um foco absurdo nos seus objetivos…

Quando Winston vai até os proles, os únicos excluídos de todo o sistema por estarem à margem da população “letrada”, vemos um mundo mais parecido com o nosso (ainda), com sentimentos e costumes arraigados na família, na convivência. E isso acaba despertando no protagonista suas lembranças mais cruéis sobre seus familiares. Winston não é um santo, tampouco generoso em suas atitudes, nem um Guevara da vida. Ele faz o que acha mais certo dentro dos seus limites emocionais, mas se sente muito só em suas novas convicções e tem pouco apoio.

O final é desesperador. Se você conseguir ler esse livro sem rever o que está fazendo da sua vida, como a sociedade está caminhando e a política sempre foi… Você tem sérios problemas de alienação!

Claro, o livro é antigo, mas foi feito um filme sobre ele, causou vários desdobramentos na literatura até hoje, músicas foram feitas em sua homenagem (tem um post muito legal aqui sobre isso)… É brilhante. E assustador…

É duro falar de uma obra que a gente adorou. Mas espero ter incutido em vocês a vontade de conhecer toda essa filosofia.

Ficha técnica

Título: 1984
Autor: George Orwell
Páginas: 416
Editora: Companhia das Letras
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Lucy disse:

    Eu acho que de todos, esse deve ser o livro mais assustador que lerei na vida. o.o’
    Adorei a resenha, Nik! Caramba, falar que o final é desesperador é demais, me mata de curiosidade pra ler e por spoilers! rsrs
    Mas vou colocar na lista de leitura, pelo menos do ano que vem, porque esse ano já acrescentei demais. rsrs
    bjos bjos

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  • Lany disse:

    Eu quero muito ler esse livro, sério! Ele está na minha lista de futuras leituras (mas sabe como é, a lista é muito grande). Muito boa a resenha Nik, deu para perceber que você gostou mesmo e também deu para sentir um pouco como que o livro deve ser desesperador!

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  • Karen disse:

    Há, eu li essa resenha antes de postar e ainda não comentei, que feio!
    Nikota, adoro ler suas resenhas, você tem que aparecer mais por aqui. =) Eu quero muito ler esse livro, ainda mais porque todo mundo diz que é assustador no nível real da coisa. Tá no meu Kindle aqui para ler. Mas só de ler a resenha a gente já arrepia toda. E pensar que ele continua sendo muito atual…

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  • Vania disse:

    Linda resenha Nik! Já tem um tempinho que li 1984, mas ele mexeu demais comigo. É a distopia das distopias. E aí a gente tem um caso desses como da NSA recentemente e nos perguntamos, será que estamos realmente muito longe da realidade de 1984? A manipulação de informação está aí, o esquecimento da população está aí, a vigilância governamental está aí…

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  • Lucas Grima disse:

    Aqui onde eu moro, participo do Clube do Livro da minha cidade. O livro para o próximo encontro é justamente este. Nunca tinha ouvido falar dele, quando soube que seria este livro fui correndo ler as resenhas. Simplesmente surpreendente, mal posso esperar para lê-lo.

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