Em outras palavras: 47 Ronins

Na coluna Em outras palavras temos a presença de convidados – ou de você, aí, leitor do blog – para falar de livros, quadrinhos ou mangás. Na edição de hoje, o Felipe, que já fez algumas resenhas por aqui, retorna com a resenha de 47 Roninsque saiu aqui no Brasil pela Editora Novo Século e foi adaptado para o filme homônimo. ‘Bora lá saber o que ele achou do livro e, de quebra, do filme?

Uma história de contrastes, uma crítica social atemporal; em 47 Ronins, somos apresentados a um Japão socialmente decadente. Os samurais e seu código de honra estão sendo trocados pela corte e toda sua ostentação e pompa. A morte do Lorde Asano pelo corrupto Kira, servirá de estopim para uma vingança que será tanto um grito dos ronins, quanto de uma sociedade assolada.

“Em 1701, no Japão medieval, um heroico grupo de guerreiros samurais parte em uma jornada a fim de vingar a morte de seu mestre, ainda que para isso seja necessário desafiar ordens do poderoso xógum. A incrível saga destes 47 homens, rebaixados à condição de ronins (samurais sem mestre), se tornará uma das mais belas e famosas lendas da história japonesa. Em um complexo jogo de lealdade e honra, o código samurai é levado a seu limite, mostrando que existem missões maiores que a própria vida. 47 Ronins – Conheça A Lenda, Busque A Eternidade – John Allyn” Fonte

Lorde Asano, senhor das terras de Ako, assim como demais lordes, são requisitados a comparecer na corte perante o xogum. Isso implica em Asano, um homem bruto e desacostumado com serenidades, a ter de controlar seu temperamento e submeter-se a uma série de ensinamentos sobre modos e gestos na corte, todos ministrados pelo ambicioso Kira, que não somente quer humilhar os lordes, mas também obter vantagem sobre eles. Somos apresentados ao personagem principal da história Oishi – fiel comandante das tropas de Lorde Asano. É um homem antiquado, firme nos caminhos dos samurai e que não se conforma com o estado atual de seu país. É ele quem terá a visão e determinação para levar a vingança de seu mestre à cabo.

 

 

Vingança!

“Nenhum homem deve viver sob o mesmo céu que o assassino de seu mestre.”

 

Asano e seus homens são um constraste a este Japão afetado e corrupto, ao mesmo tempo também representa aqueles que são incapazes de se adaptar aos tempos modernos e aceitar o progresso. Estes são homens determinados a seguir seus ideais até as últimas consequências, mesmos que esses ideais estejam ultrapassados.

Alguns dos pontos fortes do livro infelizmente também são algumas de suas falhas. É notável e perceptível o conhecimento/pesquisa do autor sobre o tema, porém a quantidade de detalhes é extensa e pode ser cansativa para alguns leitores. Creio que várias cenas menores poderiam sim ter sido resumidas e ou cortadas, porém, para mim, elas tiveram gosto de cenas extras em um filme muito bom. Nunca é demais.

É sempre um sentimento muito bom, quando terminamos uma leitura e saímos melhores dela, sentimos que o livro nos passou um ensinamento, não necessariamente a moral da história, mas uma lição nas entrelinhas. Pude dizer com felicidade que este livro proporciona esse sentimento. Oishi é o grande professor da história, ensinando seus primos de forma indireta a comprometer-se totalmente a uma causa sabendo das consequências, lembrando as pessoas do que realmente importa (tanto à sociedade quanto aos próprios ronins), a corrigir seus erros, a manter a calma em situações desesperadoras, entre outras pequenas gemas de sabedoria. Para aqueles que tiverem paciência – e esse é um dos maiores ensinamentos desse livro – a vingança dos 47 inicia no capítulo dezesseis e termina somente no dezenove – penúltimo capítulo do livro. Sim, grande parte do livro é dedicada ao fato de os ronins estarem de mãos atadas, e vão pacientemente avançando seu objetivo em pequenos passos. E esses pequenos passos são todos dados por nosso protagonista.

Claro que nem todos os personagens obedecem a essas regras, muito menos ao seu líder Oishi, o que dinamiza e não torna o livro monótono. Recomendo para fãs do gênero e para amantes da cultura oriental (principalmente se você é fã de ‘Vagabond’ como eu).

Mas aí você me pergunta: E o filme é bom? É fiel ao livro? Resposta curta: Não. Bem pouco. Resposta longa: Vale notar que no prefácio do livro, o próprio autor explica que a história contida ali é uma interpretação de um fato muito antigo, que por sua vez tem inúmeras representações no teatro Kabuki, literatura e filmes antigos. Logo, o filme não deixa de ser uma interpretação também. Acredito que esta seja a melhor forma de encarar o filme, não como uma representação fiel, ou quase fiel de seu livro, mas como uma interpretação de uma história contada ali. No entanto, o filme troca uma história de crítica social e rica em ensinamentos por uma história fantasiosa e cheia de ação. Achei interessante a adição desses elementos fantasiosos, a personagem da Feiticeira e os monges Tengu, no entanto outros elementos são completamente esdrúxulos como o personagem do Keanu Reeves, a cena da caçada, os samurais gigantes do Kira e principalmente o Oishi e os ronins sendo renegados a coadjuvantes da história. Compreendo que uma tradução direta do livro seria longa e até entediante para alguns, porém faltou ponderação. Desnecessário dizer que este filme já foi feito de forma superior por atores japoneses. Mesmo assim, apesar dos elementos únicos do filme, ele apenas entretém. Keanu Reeves sendo Neo mais uma vez, personagens rasos, CGI e muita ação. Apenas mais um na lista de entretenimento rápido e descerebrado. Pelo lado positivo, se não tivéssemos o filme, muito provavelmente não teríamos acesso ao livro aqui no Brasil. Mas a capa meu Deus, a capa…

 

 

Conhecemos o caminho da obrigação e o seguimos, sem questionar.

Conhecemos o caminho da obrigação e o seguimos, sem questionar.

 

Deixo abaixo alguns links para aqueles que se interessaram pela história dos Ronins:

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Novo Século!

Ficha Técnica

Título: 47 Ronins
Autor: John Allyn
Editora: Novo Século
Páginas: 216
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação:  

 

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  • Fabiana Strehlow disse:

    Eu gosto bastante HQ. Mas, ainda não conhecia 47 Ronins, que deve ser bem interessante.
    Já, com relação ao filme, acho que quase sempre é assim: o filme não é fiel ao livro.

    Bom final de semana!

  • Shadai disse:

    Não sabia que esse grande fracasso de bilheteria dos cinemas era uma adaptação de um livro.
    Não vi o filme, mas só pelo trailer já achei muito ruim.
    Mas, bom saber que o livro é bem melhor, mas ainda assim é mais para o público familiarizado com cultura oriental.

  • Ana disse:

    Não conhecia a história, gostei do fato de trazer um ensinamento, isso é sempre importante, mas estilo da história em si não me agrada, e saber que é bem detalhada então em desanima mais ainda

  • Felipe disse:

    Com certeza o livro não serve como introdução para alguém que não curte o gênero. Como eu comentei na resenha, demora muito pra acontecer alguma coisa, então isso pode desmotivar o leitor. O filme bem… eu deixei os links de quem realmente tem propriedade pra fazer esse filme neh 😛
    E sim temos HQ dos Ronins tb!
    http://goo.gl/bwjWsH

  • Melissa de Sá disse:

    Eu fiquei com preguiça do filme assim que vi que o Keanu Reeves estava sendo o Neo… DE NOVO! Affe. Mas confesso que o livro me atraiu mais. Eu gosto de coisas históricas e normalmente não tenho problemas em ler coisas mais paradas.

    A resenha foi ótima! Parabéns! 🙂

  • Nivia Fernandes disse:

    Ah, história “parada” não me desanima desde que me faça refletir e eu me interesse pelo destino dos personagens. Histórias orientais são diferentes em sua composição e gosto do estilo. =)
    Vi o trailer e pensei: poderia ser uma boa história, mas tá parecendo fraquinha. Não sabia que vinha de um livro, mas me interessei em ler, especialmente após a resenha!
    Capítulos de revolta são bons. em vez de acontecer tudo de uma vez no desfecho. Sem problemas mesmo!

    Parabéns pela resenha! \o/

  • Marília Sena disse:

    As adaptações cinematográficas podem ser o terror para os leitores, e mesmo sem nunca ter lido ou assistido ao filme, pude constatar isso através da resenha. Fico muito decepcionada quando coisas do tipo acontecem.
    Bem, esse não é meu estilo de leitura ou filme, então ficarei com esse breve comentário hahaha.
    Beijos!

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu vi esse filme, gostei muito e quero ter a oprotunidade de ler o livro, fico com um pouco de medo de me decepcionar e ver que muita coisa foi mudada do livro para o filme.

  • Débora Mille disse:

    Mais uma vez o cinema americano destruindo boas histórias asiáticas. 🙁
    Infelizmente.
    Mas se for como vc disse, se não fosse o filme, provavelmente nunca teríamos ouvido falar do livro. A não ser que vc seja um otaku. Mas como e nem estou mais ligada ao mundo japonês como era quando adolescente, acho que deixei este passar…
    Acho que super vale dar uma pesquisada. Procurar mangás e animes também sobre a história. 😀

  • Gustavo disse:

    Não acredito *—-* não fazia a minima ideia de que o filme era baseado em um livro *-* estou louco por esse filme e agora pelo livro.
    Mesmo sendo “estranho” eu gosto dessas partes mais “lentas” de um livro, a maioria das vezes, embora lentas, são muito esclarecedoras e extremamente interessante. Super afim desse livro.
    Adorei a resenha, e estou quase decidido a ver o filme antes de ler o livro, porque SEMPRE que um filme não é fiel ao livro eu fico ferrado e xingo o filme até não querer mais, e estou com muito interesse nesse filme pra ficar xingando ele por infidelidade kkk

  • Karolyne K. disse:

    Gente… assisti no cinema o filme quando lançou (em partes por ser fã do keanu), mas quando me deparei com este filmaço, nossaaaaaaaaaaaa, preciso ler o livro. Claro que algumas coisas eu não consigo aceitar (por mais que façam parte dessa cultura né), mas mesmo assim, é bem triste… aquele final, por favor, é MUITO TRISTE.
    E agora preciso comprar o livro (e ainda bem que a capa do livro é a do filme, hehe)

  • Top Ten Tuesday: Dez Citações Favoritas | Por Essas Páginas disse:

    […]  47 Ronins : “Conhecemos o caminho da obrigação e o seguimos, sem questionar.” […]

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