Em outras palavras: Capitães da Areia


Hoje na coluna Em outras palavras temos a resenha da querida Nivia, que já participou da nossa equipe, mas agora bloga lá no GeekVox (visitem!), mas de vez em quando volta para cá. Ela adora falar de clássicos e, falando neles, a resenha de hoje é de Capitães da Areia, de Jorge Amado! Já tivemos aqui no blog a resenha da Lucy para esse livro, mas uma segunda opinião sempre é bem-vinda!

Volto para o Por Essas Páginas com mais uma resenha apaixonada. Dessa vez, sobre um livro brasileiro de Jorge Amado, baiano sensível que nos deixou com um monte de obras vindas do coração… Ganhei esse livro de um dos meus melhores amigos, e foi um presente lindo que quero compartilhar com vocês.

“Publicado em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, este livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Em 1940, marcou época na vida literária brasileira, com nova edição, e a partir daí, sucederam-se as edições nacionais e em idiomas estrangeiros. A obra teve também adaptações para o rádio, teatro e cinema. Documento sobre a vida dos meninos abandonados nas ruas de Salvador, Jorge Amado a descreve em páginas carregadas de beleza, dramaticidade e lirismo.” Fonte

Amado publicou a obra pela primeira vez em 1937, refletindo as influências da década do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião; a epidemia da varíola no Brasil; o começo das greves dos trabalhadores por seus direitos e o conceito de comunismo sendo aplicado a todos que buscavam igualdade entre classes e direitos humanos. Não tinha Facebook naquela época, então quem era contra apanhava de verdade, não perdia tempo se ofendendo e falando protegido dentro de casa… Protestar era um risco sério de vida.

Nesse contexto, “Capitães da Areia” conta a história de crianças abandonadas que se juntaram para viver nas ruas como um grupo, uma família, em vez de irem para um orfanato. Órfãs de pai e mãe em sua maioria, elas buscavam alento na amizade e nas regras de proteção que seguiam para manter o grupo unido. Conseguiam comida e vestimenta através de furtos no centro de Salvador, sendo o mais velho deles um garoto de 15 anos.

Longe da escola e à margem da lei, se escondiam em uma casa de madeira abandonada na praia – que é chamada de trapiche. Apenas dois adultos frequentavam o trapiche e sabiam onde os meninos se abrigavam: o padre José Pedro e a mãe de santo Don’ Aninha. O padre era muito criticado por não ajudar o reformatório de Salvador a encontrá-los, e Don’ Aninha cuidava das crianças quando elas adoeciam, basicamente.

Ao começar a história, nos deparamos com as descrições dos furtos dos Capitães da Areia e o reformatório. O lugar tinha a proposta de disciplinar as crianças com castigos físicos e condições degradantes, como em uma prisão para menores. O diretor, com prestígio na sociedade, divulgava nos jornais que as crianças que continuavam revoltadas depois de estarem por lá eram violentas por natureza e não tinham conserto. Enquanto isso, algumas mães escreviam para o mesmo jornal relatando que os filhos estavam sendo maltratados e ficando mais inconformados. É a visão de que violência gera mais violência… E não vejo como isso possa ser apenas uma questão de opinião.

Tem muito Joãos e Josés nessa história, juro que guardei melhor os apelidos dos personagens. Os Capitães da Areia eram liderados por Pedro Bala, apesar de ser uma criança e tão novo quanto os demais. Gostei muito do Professor, que adorava ler à luz de velas e contar o que leu para os outros. Também admirava João Grande, que era generoso e foi um dos primeiros a proteger Dora, a única Capitã da Areia que aceitaram no grupo.

Tinham orgulho de darem conta, mais do que homens feitos, de qualquer situação que encomendavam a eles para “tratar” na rua. Porém, eram carentes de afeto, de cuidados, de conselhos. No fundo, cada um deles queria ser mais do que um sobrevivente e um ladrão em potencial. Estavam juntos no objetivo de sobreviverem e se ajudarem, e ao mesmo tempo sozinhos sem um porto seguro quando não viam meios de tornarem seus sonhos ou vocações uma realidade no futuro.

O governo os culpava pela sua condição e pelos delitos, e fica bem difícil saber se deveríamos torcer para que conseguissem executar todos os planos, ou se torcíamos para desistirem daquela vida. Mas se largassem o grupo, para onde iriam? Mulheres ricas não queriam adotá-los, e às vezes quando queriam os meninos ainda preferiam a liberdade deles.

Posso dizer com segurança que é impossível não se envolver com a história de cada um. A história tem trechos de muita ação, com cheiro de infância vivida em pequenos momentos de calmaria. Torna-se muito complicado imaginar como eles poderiam ter feito diferente, e no abandono que as pessoas demandam às crianças por preconceito ou falta de paciência em acolhê-las.

O final me deixou satisfeita tanto pelo destino dos personagens (salvo alguns, que eu queria saber mais), quanto pela sutileza psicológica envolvida nas oportunidades que aproveitaram – tanto para o bem, quanto para uma vida não tão regrada. Afinal, trata-se de uma história de anti-heróis.

É um livro antigo, pessoal, existem sim algumas palavras incomuns. Mas não precisam ficar com dicionário à mão durante a leitura, é uma coisa ou outra.

Deleitem-se! Aconselho e muito!

Ficha Técnica

Título: Capitães da Areia
Autor: Jorge Amado
Editora: Companhia das Letras (Companhia de Bolso)
Páginas: 256
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon
Avaliação: 

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  • Ana Paula Barreto disse:

    Com certeza as histórias de anti-heróis são interessantes. A sensibilidade do autor em escrever suas vidas e dificuldades, e também em retratar um pouco do psicológico, são pontos positivos.
    Infelizmente ainda não li esse clássico. Sempre tive preguiça, mas hoje confesso que fiquei animada e curiosa.
    bjs

  • Suelen Mendes disse:

    Eu recentemente tentei dar mais uma chance a esse livro.Mas pela segunda vez abandonei.Cheguei até a página 80 mas achei bem chato e não consegui me obrigara a continuar.

  • Tainara Alves disse:

    Olá! :D
    Nossa sou apaixonada por esse livro,tive que lê-lo pois meu prof de história mandou,mas por uma maravilhosa surpresa acabei me surpreendendo com essa história feita há mais de 70 anos atrás.Capitães me emocionou,me fez rir ,me fez morrer de raiva com as injustiças que as crianças sofreram e aindaa sofrem no Brasil! Super recomendo.
    Bjos *–*

  • Gustavo disse:

    Eu odeio, odeio mesmo, não sei porque, clássicos da literatura (acho que é a forma como foi escrita a obra, não gosto de umas obras com linguagem antiga). Mas esse livro é uma exceção. Nunca li, mas tenho muita vontade desde que uma amiga recomendou ele, dizendo maravilhas. Continua não sendo meu estilo, mas tenho muita curiosidade para ler essa obra.

  • Shadai disse:

    Nunca li esse clássico, mas vi duas versoes cinematográficas.
    A primeira antiga quando eu estava no ensino fundamental, entao eu cabeça “fraca” achei eles uns delinquentes e etc…
    Esse ano vi a versao mais recente e já tive opiniao totalmente contrária.
    A história é excelente, e atemporal, apesar de que os capitaes de areia hoje em dia assaltam a mao armada e matam quando tem perigo de morte.

  • Julielton Souza disse:

    Não acho um livro antigo, pode até ter sido escrito a muito tempo, mas traz temas muito atuais, eu li Capitães da Areia quando tinha doze anos e achei incrível o mundo daqueles garotos, queria ser Pedro Bala garoto solto, forte e destemido, talvez não seja tão atual assim, devido a diferença entre as instituições de correção atual, mas mesmo assim é evidente o paralelo entre o nosso mundo e mundo dos capitães.
    Belíssima resenha, parabéns, adorei lembrar de tudo isso.

    Julielton Souza – Dialética Proposital

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu ainda não tinha parado pra ver os comentarios e resenhas sobre esse livro, não tinha tido interesse, mas agora me bateu um interesse, eu geralmente procuro no google o significado de algumas palavras… hahahahaha dicionario é coisa do passado… hehehe

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