Em outras palavras: Manual Prático do Ódio

Na coluna Em outras palavras, temos novamente uma resenha do Felipe, dessa vez de um livro nacional da Editora Planeta. Vamos saber o que ele achou da leitura de Manual Prático do Ódio?

Manual Prático do Ódio, apesar do título, é um livro apático, que não desperta emoções e apenas recicla idéias, sem nem ao menos vomitá-las em uma roupagem diferente. Explico.

“Escrito com uma narrativa lancinante e ritmo veloz, Manual Prático do Ódio é uma história abertamente inspirada em vidas reais e também inventada pelo talento de ficcionista de Ferréz.
Régis, um dos protagonistas desta engenhosa trama, tem vontade de ter um sítio para curtir com a família o que há de melhor na vida. Mas ele investe tudo o que ganha em armas, tem sonhos mais complexos, e não imagina uma rotina sem muita grana na poupança e sem pelo menos ser dono de um mercado ou de um posto de gasolina. A união com Lúcio Fé, Celso Capeta, Aninha, Mágico e Neguinho da Mancha na Mão lhe dá grandes esperanças de fazerem um bom dinheiro. Juntos eles se organizam para a “correria” certa, o golpe perfeito, aliando-se numa conspiração sem ponto de retorno ou juízo de valor.
Manual prático do ódio conta a história de um grupo que planeja um assalto, mas também fala de outros medos e mistérios universais, de personagens que cultivam razões odiosamente humanas para matar, amar ou morrer. As diferentes facetas do ódio que, numa engrenagem cruel, afeta também gente como o metalúrgico Paulo, amante de livros e inconformado com o estado de degradação da comunidade onde vive; e ainda como o garoto Dinoitinha, um vendedor de flores, que está a um passo de se iniciar nas artimanhas das  ‘quebradas’.” Fonte

O livro é centrado na história de Lúcio Fé, Aninha, Régis, Celso Capeta, Neguinho da Mancha e Mágico, personagens cercados pela violência da periferia, que têm seus caminhos cruzados de acordo com Régis “se não colasse com eles, bateriam de frente e em vez de dividir era melhor somar”. Todos os personagens têm uma parte em cada capítulo destinada a eles, assim como cruzam entre si e também temos outros personagens secundários que ganham seus cinco (ou mais) minutos de fama.

Nos primeiros capítulos somos introduzidos aos personagens principais, mas honestamente o único com o qual realmente me importei foi Régis; um personagem que começou sem brilho, bem quietinho, bem igual aos demais, porém que termina a obra de uma forma bastante dramática. A ascensão do personagem foi inesperada e muito bem vinda num livro que, de resto, foi só pasmaceira.

O grande problema de Manual Prático do Ódio é ele não ter nenhum elemento original. Se você já assistiu Cidade de Deus, Salve Geral, Subúrbia, Tropa de Elite e filmes do gênero, você já leu esse livro, já se deparou com seu conteúdo e, provavelmente, já sabe do que se trata. Resumidamente é a história de seis malandros tentando sobreviver com dinheiro fácil e risco alto, de quaiquer formas que o crime possibilitar. Mesmo assim, poderia ter sido escrita de forma original ou cativante, o que não acontece. Em vários momentos temos apenas com o cotidiano violento dos personagens, e isso ocorre tão repetidamente que desensibiliza o leitor; você anseia por mudança, por algo diferente de tiros, drogas e sexo, mas a trama não avança de forma alguma. Entendo que talvez essa tenha sido uma forma de o autor demonstrar justamente o quanto estamos desensibilizados em relação a esses temas, mas ele não fez corretamente. Poderia ter sido melhor, poderia ter envolvido melhor o leitor, desenvolvido mais seus personagens.

As vozes dos personagens foi algo que me confundiu inicialmente por serem todas iguais, principalmente pela excessiva falta de pontuação. Outra falha do livro são personagens secundários que poderiam ter sido melhor aproveitados, como Valdinei, o matador e vingador da favela, que merecia ganhar mais algumas partes em diferentes capítulos no lugar até de alguns personagens principais, como Lúcio Fé e outros menores, como Nego Duda (bucha de canhão).

Ao invés de mostrar uma ótica diferente daquela excessivamente exposta na mídia, impactando e educando seu leitor para a verdadeira realidade desse tipo de vida, o autor apenas criou nada mais do que um zoológico de violência, no qual somos meros espectadores e não podemos deixá-lo até acabar o livro. Faltou humanização nessa obra. E também faltou uma revisão mais crítica, que cortasse cenas que não acrescentarem em nada à obra.

Felizmente existem algumas redenções, especialmente quando a trama da história efetivamente anda no livro e as consequências colhidas pelos protagonistas são devastadoras. É nesse momento que é possível perceber a teia de acontecimentos que o autor traçou e como, realmente, violência gera mais violência. O desfecho da história culmina também com a evolução do Régis e Modelo, o primeiro passa a ser efetivamente O personagem do livro, e o segundo torna-se uma ameaça considerável, assim como os demais personagens tornam-se um pouco mais humanos, principalmente pelo fato de estarem fazendo alguma coisa concreta, mesmo que seja ilegal. Destaque também para José Antônio, um dos poucos personagens corretos do livro e que possui um final emocionante. Posso dizer que enquanto Régis me impressionou pela evolução, José foi o único do qual eu pude tirar uma lição.

Talvez o livro agrade a outros leitores. Talvez fosse melhor se passasse pelas mãos de outro revisor. Mas livro bom não fica só no talvez.

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Planeta.

Ficha técnica

Nome: Manual Prático do Ódio
Autor: Férrez
Páginas: 268
Editora: Planeta
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Douglas Fernandes disse:

    Não me interessei pelo livro, levo muito em consideração tudo que os blogueiros dizem, quando existre uma resenha que aponta varios pontos negativos eu procuro dar uma olhada em outros blogs, pra saber outras opinioes e as vezes mesmo com algumas opinioes negativas de alguns livros como por exempli Bruxos e bruxas, vi varios blogs falando que esperam mais do livro e da serie, mas mesmo assim eu tenho vontade de ler , esse infelizmente nao tenho vontade de ler.

  • Karolyne K. disse:

    Olha… li um livro que tratava de um assunto complicado, mas era tudo muito trágico e não tinha nenhuma esperança na obra, sabe? Então estou fugindo de coisas assim, e esse livro me lembrou um pouco o que eu li e o assunto também não é algo que eu queira ler. Se fosse abordado de maneiras diferentes, quem sabe. Mas não tenho interesse =/

  • Fabiana Strehlow disse:

    Vivemos tempos em que o mundo precisa de mais amor, então sinceramente, o “Manual Prático do Ódio”, para mim, tem passagem livre!

  • Gustavo disse:

    Detesto filmes, livros, jogos, tudo com essa temática mais “violência sem sentido”. Esse livro não é algo que eu leria. Mesmo se a resenha falasse que foi a nona maravilha do universo, coisa que aparentemente passa longe de ser, eu evitaria essa leitura, que, na minha opinião, não soma em absolutamente nada, nem em passatempo.
    A resenha foi super esclarecedora, direta e honesta. Nada que me interesse nessa leitura.

  • Débora Mille disse:

    Nunca tinha ouvido falar deste livro…
    Já vi boa parte destes filmes que vc citou. e acho que mais uma história no mesmo estilo não me interessa. Não é que eu esteja fechando os olhos para o problema, mas é que já saturou. Existem outras coisas pra se olhar no Brasil, temas tão difíceis quanto este. E ninguem fala nada.
    E concordo com você, livro bom não fica só no talvez.

  • Ana disse:

    Estou me tornando fã das resenhas do Felipe, ele tem opiniões bem parecidas com a minha. Não gosto desse estilo de livro, violência é um assunto “forte” e tem que ser tratado como tal, gosto de algumas histórias que sabem abordar de forma correta o tem

  • Felipe disse:

    Fabiana: Realmente, “all you need is love” como diriam os sábios Beatles.
    Débora: “não é fechar os olhos para o problema, mas é que já saturou” é um resumo perfeito deste livro.
    Ana: obrigado, fico feliz que tenha gostado da minha resenha 🙂

  • Resenha: A Redoma « Por Essas Páginas disse:

    […] nas resenhas de Rurouni Kenshin, Prism, Morgan, o único, À procura da felicidade, 47 Ronins, Manual Prático do Ódio e Paperboy. Espero poder passar para vocês tanto um ponto de vista único, quanto livros […]

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