Em outras palavras: Memórias das minhas putas tristes

Hoje, aqui na coluna Em outras palavras, temos a resenha da querida Nivia Fernandes! Sem mais delongas, nas palavras da Nivia a resenha de Memórias das minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez.

Olá, pessoal! Retornei para fazer resenha de um livro que ganhei na Sexta do Sebo! Não é o máximo isso? A prova de que a promoção realmente cumpre uma de suas missões: disseminar a leitura por aí através de repasse de livros. Este veio em ótimo estado, aliás, e pretendo conservá-lo assim.

É mais uma pérola do autor colombiano Gabriel García Márquez. Seus romances com toques de fantasia nos acontecimentos, realidade nos diálogos e comportamentos dos personagens são encantadores!

“No ano que completei noventa anos, quis presentear-me com uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. E é assim, sem rodeios, que Gabriel García Márquez nos apresenta a história deste velho jornalista que escolhe a luxúria para provar a si mesmo, e ao mundo, que está vivo. Primeira obra de ficção do autor colombiano em dez anos, “Memória de Minhas Putas Tristes” desfia as lembranças de vida desse inesquecível e solitário personagem em mais um vigoroso livro de Gabriel García Márquez. O leitor irá acompanhar as aventuras sexuais deste senhor, narrador dessas memórias, que vai viver cerca de “cem anos de solidão” embotado e embrutecido, escrevendo crônicas e resenhas maçantes para um jornal provinciano, dando aulas de gramática para alunos tão sem horizontes quanto ele, e, acima de tudo, perambulando de bordel em bordel, dormindo com mulheres descartáveis, até chegar, enfim, a esta inesperada e surpreendente história de amor. Escolhido o presente, ele segue para o prostíbulo de uma pitoresca cidade e ao ver a jovem de costas, completamente nua, sua vida muda imediatamente. Quando acorda ao lado da ainda pura ninfeta Delgadina, o personagem ganha a humanidade que lhe faltou enquanto fugia do amor como se tivesse atrás de si um dos generais que se revezaram no poder da mítica Colômbia de Gabriel García Márquez. Agora que a conheceu, ele se vê à beira da morte. Mas não pela idade, e sim por amor. Para uns, “Memória de Minhas Putas Tristes” trata-se de uma reflexão romanceada sobre o amor na terceira idade. Para outros, é um hino de louvor à vida e, por extensão, ao amor, já que um não existe sem o outro no imaginário do Prêmio Nobel de Literatura de 1982. Sempre sublime, Gabriel García Márquez presenteia-nos com esta jóia narrativa repleta de sabedoria, memória e bom humor, que confere ainda mais brilho à sua genialidade literária.” Fonte

Por incrível que pareça, o detalhe com menos importância no livro são os nomes. Ele é narrado em primeira pessoa por um jornalista e crítico de música que passou a vida admirando noites agitadas com prostitutas. E para quem vê de fora, ele é só isso mesmo: um senhor que se divertiu muito e é muito culto. Mas ele ainda se sente tão vigoroso como era enquanto jovem. E tinha uma sensibilidade que até ele mesmo desconhecia. Por isso sentia o tempo passar com a idade e não se conformava em espírito, procurando manter os hábitos de antes.

Aos noventa anos, se desesperou com o número tão alto e resolveu se permitir a uma regalia inédita para ele: pediu a sua amiga cafetina, Rosa Cabarcas, que arrumasse uma menina virgem para aquele dia mesmo. Presente de aniversário. Considerando que ele a ligou 20 anos depois da última solicitação de seus serviços, imaginem o trabalho que teve!

Uma moça de 14 anos, cujo ofício era ser pregadora de botões e cuidar dos irmãos mais novos, estava totalmente disponível em um quartinho arejado que Rosa separava para os melhores clientes. Nervosa, ela precisou de um pouco de chá de brometo e valeriana – a plantinha realmente acalma, mas o problema era o cansaço dela de tanto trabalhar -, e acabou dormindo profundamente antes dele chegar. O jornalista, ansioso, porém cuidadoso com a moça tão frágil, novinha e maltratada (ele chega a descrever como sua pele era seca), deita-se ao lado dela e percebe sua natural resistência a aproximação dele. Tentando acalmá-la, canta em seu ouvido uma canção antiga. Vendo o quanto se acalmou, passou a chamá-la de Delgadina, como sua canção dizia… E deixou-a dormir em paz, adormecendo ao lado dela, como nunca havia feito com mulher alguma em toda a sua existência.

Vamos levar em conta que ele sempre pagou todas as mulheres com quem dormiu, e as que recusaram, ele deu dinheiro mesmo que elas o jogassem no lixo depois. Era um enorme progresso já. De certa forma, aquele comportamento o encantou e quis vê-la mais vezes. Alternava entre cantar para ela, contar de sua vida, beijá-la pelo corpo todo ou às vezes apenas admirá-la. Passou a enfeitar o quarto onde passavam as noites, sempre tentando agregar algo para que ela conhecesse de arte, por exemplo.

Porém, quando se viu sem notícias dela, se deu conta do quanto estava mudando. Além disso, a idade lhe trouxe reflexões sobre o quanto somos dependentes de nossas memórias, das pessoas queridas, daquilo que fazemos de melhor. No caso dele, sua melhor forma de expressão de seus pensamentos para o mundo era através de suas crônicas dominicais. Percebeu, ao escrever uma glorificação da velhice, que estava satisfeito com o que conquistou à sua maneira, mesmo com poucas posses ou viagens para contar. Mas os livros lhe trouxeram a sensibilidade necessária para estocar durante aqueles noventa anos todo o conhecimento sobre sentimentos, adormecidos até conhecer Delgadina. Então, com ela, ele entendeu que sem o amor, não temos aquela deliciosa sensação ilusória de que estamos completos.

Apaixonado, começou a escrever cartas românticas no jornal e foi aclamado por isso tanto quanto em suas habituais crônicas racionais. As vezes em que achou que perdeu a moça revelaram mais sobre ele mesmo do que qualquer outra passagem ou memória.

Sobre ela, pouco sabemos – ou podemos dizer que só sabemos o que ele vê. Senti falta disso durante o livro, confesso. Queria descobrir se suas feições e a leitura de seu destino através do desenho das linhas de suas mãos realmente condiziam com sua personalidade. Mas o fato é que ela se encantou por aquela paixão terna e silenciosa do jornalista.

É um livro pequeno, romântico, sem frescura ou doçura nas palavras. Por mais irreal que seja, gostei das reflexões e do romance em si. Como disse, só faltava mesmo saber mais da moça.

Os diálogos indiretos também são ótimos, fazem você prestar mais atenção. De maneira alguma, tenta ser desrespeitoso com as mulheres, ou pelo menos eu não interpretei dessa maneira. Muito pelo contrário, o homem foi capaz de tratar melhor suas aventuras do que uma noiva! Tudo depende das circunstâncias e do ponto de vista. Acho muito bom também a amizade entre ele e Rosa Cabarcas, a prova de que não importa quantos anos passem ou a frequência dos encontros, amigos de verdade são para sempre.

Uma passagem associada a Júlio César (será mesmo?), causou um impacto em mim:

“É impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é.”

Pode ser apenas uma frase pessimista, mas quem nunca sucumbiu a isso em um momento de raiva, por exemplo? Inclusive, a melhor demonstração de passionalidade do personagem quanto à velhice e à paixão acho que está nessa citação, que resume belamente minhas impressões gerais sobre o livro:

“Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinquenta havia sido mais decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço que eu. A dos sessenta foi mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a ideia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais.”

Quem mais conseguiria filosofar e ser romântico colocando Heráclito e churrasco no meio da frase? Por isso é quase impossível não se apaixonar!

Recomendo para quem gosta de romance, mas não seja muito apegado a palavras bonitas, pois o título já diz a que vem. Aliás, acho que não eram as mulheres as tristes, e sim ele, no final das contas. Por não ter se interessado em extrair delas o que ambos tinham de bom.

Márquez também foi explícito no começo do livro ao citar o autor Yasunari Kawabata, com o livro “A casa das belas adormecidas”:

“Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Eguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido.”

Observem de onde sai tanta criatividade. Os japoneses são pacientes mesmo, até quando são passionais. E essa ideia com um toque latino acabou se transformando nesse livro peculiar e lindo!

Obrigada pela resenha maravilhosa, Nivia! Vocês podem encontrar a Nivia no twitter @nivia_fernandes. E fica aqui o nosso convite para que outros ganhadores da Sexta do Sebo resenhem os livros que ganharam na promoção aqui na coluna Em outras palavras! Até a próxima!

Ficha Técnica:

Título: Memórias de minhas putas tristes
Autor: Gabriel García Márquez
Páginas: 127
Editora: Record
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação da Nivia: 

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  • Melissa de Sá disse:

    Engraçado, eu tinha uma ideia completamente errada do que era esse livro…

    Eu gosto muito do Garcia Marquez. Li “Amor nos tempos do cólera” e “Cem anos de solidão” e os dois são mesmo excelentes.

  • Caroline Centeno disse:

    Que vergonha, nunca li nada do autor e a sinopse chama atenção. Mas sua resenha que foi muito mais a fundo que dá a vontade de conhecer a história porque parece simplesmente fascinante *-*

  • Rossana Batista disse:

    Quando li o título desses livro eu pensei que ele fosse um livro erótico kkkkkkk
    Que bom saber que tem mais do que isso e tem sentimento nele. Fiquei curiosa!

  • Roberta Moraes disse:

    Que legal que os ganhadores da sexta do sebo voltem para fazer resenha dos livros ganhados, é ótimo isso!
    Fiquei pensando, como assim um homem de 9 anos com uma garotinha de 14 anos que deveria estar brincando de bonecas e é pregadora de botões nunca casa daquelas o.O

  • Shadai disse:

    ótima resenha!
    e a história parece ser muito boa.
    o problema é que li “100 anos de solidão”, do mesmo autor, e mesmo sendo um clássico, não gostei. achei extremamente longo e chato, foi uma leitura difícil, então medo de ler algo dele novamente.

  • Jullyane Prado disse:

    Nossa se fosse pra mim comprar esse livro, eu não compraria eu esperava uma historia totalmente diferente, achei bem interessante a narrativa, ainda não li nada do Gabriel e sendo sincera achei esse livro mediano, quem sabe eu venha ler e me surpreender?!! Ótima resenha! Beijos!

  • Jessica Lisboa disse:

    Achei um pouco diferente a historia, mas sinceramente eu nao o leria. Acho que ele nao me chamou tanta atenção como esperava.

    xx

  • Recomendações de obras de Gabriel García Márquez | Geek Vox disse:

    […] livro eu ganhei em um sorteio, e em seguida fiz uma resenha sobre ele no blog em que fui sorteada. Achei interessante as analogias e o tema, tratado de uma maneira que somente Márquez sabia fazer: […]

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