Resenha: A dança da água

Ficha técnica:

Nome: A dança da água

Autor: Ta-Nehisi Coates

Tradutor: José Rubens Siqueira

Páginas: 400

Editora: Intrínseca

 

Por toda a América as plantações de tabaco floresceram e trouxeram riqueza aos senhores de terra durante o século XIX. Quando a bonança começa seu declínio, Howell Walker já vislumbra o próprio fim e sabe que precisará de um substituto para administrar os últimos dias de Lockless, sua propriedade no coração da Virgínia, Estados Unidos. Logo fica claro que seu único herdeiro, Maynard, não tem a menor aptidão para a missão. E mesmo o jovem Hiram, com sua resiliência e memória infalíveis, não poderia fazê-lo ― além de filho ilegítimo de Walker, ele é um escravo.

No entanto, quando os meios-irmãos se afogam nas águas do rio Goose, a vida de Hiram é poupada por um poder misterioso e até então oculto dentro dele, uma herança materna que se perdera junto com as lembranças da mãe, vendida e levada para nunca mais voltar. Desse breve encontro com a morte brota uma grande urgência: Hiram precisa escapar do lugar que foi seu lar e prisão desde o dia em que nasceu.

A dança da água narra toda a atrocidade infligida a homens, mulheres e crianças negros ao longo de gerações ― os grilhões da escravidão e o desmembramento cruel de inúmeras famílias ―, compondo um relato comovente e místico sobre destino e propósito, perda e separação. (fonte)

A dança da água traz a triste história de Hiram, filho ilegítimo do dono de uma fazenda de tabaco, perdeu a mãe aos 9 anos e passou a vida tentando recuperar a memória da mãe.
A história tem como base as fazendas de tabaco da Virgínia, seu declínio e a escravidão.

Hiram cresce sempre pensando em sair dali, em escapar, em ir para a Clandestinidade. E quando conhece Sophia e um contato que ele acredita que vai tirá-lo da escravidão, ele e Sophia fogem, mas as coisas não ocorrem como ele imaginava. Ele é levado para a Filadélfia, conhece a Clandestinidade como nunca tinha imaginado e se torna um agente para ajudar na libertação de escravos por todo o país.

O autor é muito conhecido por suas obras de não ficção e claramente fez um bom trabalho de pesquisa em relação ao declínio das fazendas na Virgínia e à vida dos escravos libertos na Filadélfia e alguns outros pontos dos EUA. Mas este foi seu primeiro romance e me pareceu engatinhar um pouco.

Eu o recebi na caixa do Intrínsecos de Julho/2020 com um bloquinho de post-its muito fofo. A capa aí acima é a capa original do livro. Coloquei pra ficar mais atrativo. Hehe

No começo grudei no livro e não queria parar, mas então ele fica um pouco repetitivo, vai ficando mais superficial. Ele apresenta elementos de realismo fantástico quando trata da Condução (o poder de se mover no espaço através da água, como se a água abrisse o caminho para um outro lugar distante) e são momentos de uma prosa literária poderosa e quase poética. Mas o livro se torna lento e introspectivo. Há partes que são escritas de uma forma tão linda que tocam a alma e nos fazem pensar, mas eles estão perdidos em meio a tantas palavras que parecem apenas encher as páginas.

A impressão é que há material ali para uma história e personagens tão mais profundos que não foram explorados que eu fiquei buscando mais… mais sentido, mais “coração”, mais “alma”.

Quando comecei achei que fosse um livro que me levaria às lágrimas e mexeria muito mais comigo. E, por favor, não estou falando de tema, estou falando do conjunto da escrita. Quando me deparei com o trecho abaixo, tive que relê-lo e marcá-lo, e se o livro seguisse nessa linha, acho que seria algo extraordinário.

“…A Qualidade, por exemplo, não perguntava sobre o funcionamento interno do seu “povo”. Eles sabiam nossos nomes e conheciam nossos pais. Mas não conheciam a gente, porque não conhecer era essencial para manter o poder deles. Para vender uma criança tirada da mãe, você só pode conhecer essa mãe da maneira mais superficial possível. Para despir um homem e condená-lo a ser espancado, esfolado vivo, depois ungido com água salgada, você não pode senti-lo como sente a si mesmo. Você não pode se ver nele, para que sua mão não se detenha, e sua mão não deve se deter, porque na hora em que isso acontecer, o Tarefeiro verá o que você vê, e assim está vendo a si mesmo… Você não pode mais garantir que os canteiros de tabaco sejam erguidos conforme o esperado; …Cada passo é essencial e deve ser seguido com o maior cuidado, e só há um jeito de garantir que um homem tome esse cuidado com um processo que não lhe recompensa com nada, e esse jeito é torturar, matar e mutilar, é roubar crianças, é causar terror.”

O autor utiliza Qualidade para falar dos donos das fazendas e Tarefeiros para os escravos.

Ele demonstra grande habilidade com as palavras, mas está apenas iniciando sua dança com elas em obras de ficção.

É uma boa leitura, mas não será das mais memoráveis.

Este livro foi gentilmente cedido pela editora para resenha.

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  • Luna disse:

    Esse é um livro que ao mesmo tempo que desejei ler quando ouvi falar dele pela primeira vez, também tive receio, pelo tema extremamente doloroso.

    Lamento que o livro não tenha se tornado um daqueles inesquecíveis, que a história tenha parecido arrastada e superficial em alguns momentos. É horrível quando um autor tem enorme potencial, mas acaba se perdendo na escrita.

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  • PS Amo Leitura disse:

    Gostei de saber sua opinião sobre a obra. Eu tenho ela aqui desde quando foi lançada pelo clube intrínsecos, mas ainda não li. Estava com receio de que não fosse gostar, mas algumas resenhas que li falavam a mesma coisa: que a leitura ficava um pouco mais repetitiva. De qualquer forma, gostei de saber sua experiência e entra para a meta de 2021.

    [Reply]

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