Resenha: A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso Em Um Armário Ikea

Bem que a Lany me avisou que livros franceses são… alternativos.

Mesmo assim, eu quis experimentar. Recebemos A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso Em Um Armário Ikea como uma surpresa de cortesia da Editora Record, junto a conjunto inusitado de pregos como brinde (muito divertido o marketing!). Resolvi ler e logo percebi: esse é um livro que tenta ser engraçado – até mesmo no título – mas falha miseravelmente. Ou talvez seja só eu e meu humor brasileiro que não casou com o humor extremamente francês do livro. Ou indiano?

“A figura de um faquir está associada à meditação, ao treinamento e à magia. Mas, no caso de Ajatashatru Ahvaka Singh, é mais provável que o público se depare com truques e trapaças. A última de suas artimanhas foi convencer sua aldeia a pagar por uma viagem a França para adquirir a Camadepregösa, um modelo de cama de pregos vendida pela Ikea. Só que ele não contava em ficar preso dentro de um dos armários da loja. Nem que o móvel seria despachado para outro país. Assim, o faquir e seu turbante partem para uma aventura, ainda que involuntária, pelo mundo, fazendo uma horda de inimigos, alguns amigos e aprontando muitas confusões pelo caminho.” Fonte

A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso Em Um Armário Ikea é uma viagem – literalmente e metaforicamente. Ajatashatru Ahvaka (pronuncia-se acha já tua vaca), é um indiano de “meia-idade, alto, magro e nodoso como uma árvore, o rosto moreno atravessado por um enorme bigode”. Essa é a descrição do nosso protagonista e ela é repetida exaustivamente até o final do livro. Confesso que nas primeiras vezes que vi as “explicações de pronúncias” – que existem não só para esse, como para outros nome – achei divertido e sorri; porém, o autor utiliza esse recurso tantas, mas tantas vezes, que acaba sendo cansativo.

“Eu quero que você seja um homem livre, não um homem perseguido, vivendo no medo. Um homem jogado de um país para outro. Volte a ser um pai. Seus filhos o esperam.” Página 226

E não é o único recurso repetitivo no livro. Há várias piadas repetidas em excesso, até, claro, perderem a graça. A história é extremamente caricata e forçada. Ajatashatru, um faquir – ou, melhor, um trapaceiro – viaja até a França para comprar uma cama de pregos Ikea, com uma nota de 100 euros falsa, impressa de um lado só. Ele resolve passar a noite na loja, pois seu voo só parte no dia seguinte e, para fugir de vigilantes, esconde-se em um armário que acaba sendo despachado para a Inglaterra. É aí que começa sua aventura; ele pula de país em país, metendo-se em confusões inacreditáveis, fazendo amigos e inimigos. O livro também aproveita para fazer uma crítica social bem-humorada sobre a situação da imigração ilegal na Europa e o descaso dos países, que apenas se preocupam em passar “a batata quente estragada” para a próxima fronteira.

Eu entendi a ideia do livro e entendi que ele deveria ser engraçado… só que não é. Ele não fez rir, não me divertiu. As situações, como eu disse acima, não me pareceram uma comédia, mas sim extremamente caricatas e forçadas, o tipo de humor artificial que não arranca risos naturais. O protagonista é raso e pouco desenvolvido, as cenas parecem irreais, os relacionamentos são superficiais. Entendo que o livro é uma ficção, que por ser uma comédia, não necessariamente ele será parecido com a realidade mas, ao menos, a história tem que fazer algum sentido, e ela não faz. Tudo parece forçadamente cômico, como se alguém estivesse explicando uma piada e perguntando “não é engraçado? Ria comigo!” e rindo em seguida, loucamente. Não, não é engraçado. Não, não deu vontade alguma de rir.

ikea

Em certo momento, o livro caminha para uma jornada de crescimento do personagem, e aí quase – quase – que o livro deu uma melhorada… mas ainda assim não funcionou. Também esse “crescimento” foi superficial e forçado, pouco crível e, por isso, não me convenceu.

Se você quer rir e se divertir, não recomendo A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso Em Um Armário Ikea. Ao menos se você tiver a mesma visão de humor que eu: que o riso deve sair de um jeito natural, sem pressão, sem piadas prontas. Talvez a culpa nem seja do livro, afinal; talvez seja minha, que tenho uma visão específica de como o humor deve ser e nem tudo me arranca risadas com facilidade. Se tem algo que acho incrivelmente difícil é transferir o humor de outra cultura para uma nova; talvez essa obra apenas seja francesa demais para toda minha brasilidade. Mas, que todo o livro parece quase surreal, parece. É como mergulhar em um sonho maluco. Um sonho do qual eu queria muito acordar – e depressa.

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pelo Grupo Editorial Record.

Ficha Técnica

Título: A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso Em Um Armário Ikea
Autor: Romain Puértolas
Editora: Record
Páginas: 256
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

 

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  • Fabiana Strehlow disse:

    É lamentável quando um livro tenta nos agradar de forma tão forçada, que acaba sendo enfadonho…
    O próprio título já me pareceu apelativo.
    Este talvez não seja o “nosso” tipo de humor, e aí, acaba acontecendo justamente o contrário, ficando repetitivamente sem graça.
    Eu, particularmente, já teria abandonado a leitura. Então, parabéns pela sua persistência, Karen!

  • Nayara disse:

    Oi Karen!
    Olha, pelo título eu não iria me interessar pelo livro. Não me chamou a atenção em nada… e nem fiquei curiosa para ler.
    E pela sua resenha, posso ver que realmente o livro é forçado e, infelizmente, não irá me agradar.
    Também prefiro o humor mais natural… às vezes dou risada de coisas que não são engraçadas em si, mas são espontâneas!
    Beijos

  • Érika Rufo disse:

    A capa desse livro não me agradou, muito menos o nome. E agora lendo a resenha a história dele não me agradou também. Não gosto de humor forçado, acho irritante. E concordo que você foi muito persistente, eu também teria abandonado a leitura. Com tantos livros bons esperando para serem lidos, com certeza não lerei esse.

    Beijos!!

  • Raquel Pereira disse:

    Confesso que essa capa não me chamou nem um pouco a atenção, mas pela sinopse pensei realmente que era um livro engraçado.Pena que o humor parece ser bem forçado né? Com certeza, não é um livro que vai entrar pra minha listinha de desejados. Pelo menos o marketing dele parece ter sido legal né?

    Bjok

  • Ana disse:

    São poucos livros que conseguem ser engraçados pra mim, na maior parte acho forçado, e isso é muito chato. Acho que o livro tinha potencial pra ser bom, a história não é ruim, mas devia ser explorada de outra forma. Talvez você esteja certa e seja o tipo de humor, traduções tiram um pouco da essência do livro 🙁 ultimamente venho lendo muitos livros brasileiros por isso

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu adoro livros que façam a gente rir, mas tem que ser de maneira descontraida, li um livro brasileiro Rico e Joana em o pirulito assassino, adorei o livro, ri demais, achei ótimo, mas forçado não tem jeito mesmo, fica chato. =/

  • Gustavo disse:

    Eu gosto de alguns filmes franceses, acho a maioria bem divertido, mas esse é um livro que não leria. Odeio piada forçada e, sou do pensamento, se você tiver que explicar a piada ela não tem graça realmente, e esse é um livro que aparentemente se tem que explicar o porque é engraçado a cada parágrafo. Vou passar longe desse ai.

  • Shadai disse:

    Tem países que tem um tipo de humor bem peculiar que para nós brasileiros fica complicado de entendermos e nos divertimos. Basta ver o clássico inglês Monty Python, lá eles são os mais engraçados de todos os tempos, mas enquanto aqui são poucos que conseguem gostar das tiradas bizarras.
    Deve ser o mesmo caso desse livro, do qual não me interessei, sou bem chato para comédias.

  • Lauren Alice disse:

    Esse é um dos livros que a capa nem o nome me chamariam a atenção, e sendo francês… bom, eu não leria ele nunca! Minha experiência com filmes franceses já me deixou com uma impressão ruim demais para ter coragem de ler um livro francês hehehehe

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