Resenha: A História de O

“A História de O, da autora francesa Pauline Réage, é uma novela sadomasoquista que veio a público poucos anos antes da morte da autora. Publicada em 1954, em francês, é uma fantasia de submissão feminina de uma fotógrafa parisiense de moda que é vendada, acorrentada, chicoteada, marcada, feita para usar máscara, e ensinada a estar sempre disponível para o sexo oral, vaginal e/ou anal. Trata-se de um clássico do gênero erótico na linha de Venus in furs, pois o sadomasoquismo é seu ponto forte. É sobre uma jovem que no início joga como dominada, mas quanto mais resiste à tortura, mais gosta de ser escrava. Anos antes do movimento feminino, essa história ensina as mulheres a assumir o controle de seus desejos sexuais e não permitir que ninguém faça escolhas por elas. Em fevereiro de 1955, o livro ganhou o prêmio francês de literatura Prix des Deux Magots, embora isso não tenha evitado que as autoridades francesas acusassem o editor de obcenidade. As acusações foram rejeitadas pelos tribunais, mas um boicote publicitário ocorreu durante longos anos. Isso porque a sociedade não teve cabeça aberta o suficiente para entender o caminho que a sexualidade pode tomar em seus momentos mais escuros.” Fonte

A História de O não é um livro para ser lido duas vezes. Mas é uma história que deve ser lida.

Esse foi o segundo livro que li esse ano, já há quase dois meses, e esse foi o longo tempo que levei para digeri-lo e finalmente expor minhas impressões em uma resenha. Não foi nada fácil processar esse livro e não porque ele seja difícil ou entendiante, mas sim porque é um livro forte demais, impressionante demais. Não é para qualquer pessoa, não é uma leitura casual ou divertida. Não adianta pegar esse livro achando que ele vai ser um “cinquenta tons de qualquer coisa” porque não é. Vai muito além. Meu interesse por ele começou quando J.K. Rowling deu uma certa risadinha ao falar dele em uma entrevista. E quando você lê esse livro entende o porquê dessa risadinha.

Esqueça qualquer livro erótico que você tenha lido antes. A História de O não tem nada de bonitinha ou de romântica. É uma história que não consigo qualificar como outra coisa além de brutal. Não é fácil ler esse livro, apesar de ele ser maravilhosamente bem escrito. O problema é que é horrível ler as coisas a que O se submete e engolir isso sem um bolo amargo na garganta. E, no entanto, a gente tem que engolir porque tudo ali é escolha dela. Ela não é forçada a nada, ela faz tudo porque quer – e porque gosta. Lendo esse livro você se dá conta de que a sexualidade de cada um é algo realmente peculiar. O que uma pessoa acha horrível, até mesmo humilhante, pode ser extremamente prazeroso para outra.

O, que nunca revela seu nome, passa por todo tipo de experiência. Ela é acorrentada, chicoteada, humilhada, usa máscaras, é possuída por vários homens ao mesmo tempo e até chega a ser marcada a ferro. Algumas cenas são simplesmente horríveis de serem lidas. Ela faz tudo isso supostamente por amor, porém, o que eu enxerguei no final do livro foi que ela fazia isso porque gostava mesmo. Ela não amava ninguém, apenas a si mesma, um tipo exótico e muito estranho de amor. O perde sua identidade, perde a si mesma e se transforma apenas em um objeto, um utensílio para o uso e o desejo dos outros. À medida que se submete a todo tipo de situação, ela percebe que gosta de ser escrava, gosta de pertencer a outra pessoa: ela gosta da sensação de pertencer mais do que da pessoa a quem pertence. Ela poderia dizer não a qualquer momento, mas ela sempre diz sim. Porque aquilo é exatamente o que deseja.

Apesar de parecer contraditório, esse livro é o retrato ousado da liberdade da mulher – algo chocante para a época em que esse livro escrito. Mas é sim um livro feminista, pois aqui toda a vida sexual de O é retratada – sob a ótica de uma mulher e escrito por uma mulher, o que foi uma revolução. É muito diferente de hoje que vemos vários livros eróticos escritos por mulheres e para mulheres. O mundo evoluiu (um pouco) mas ainda temos muito o que evoluir, isso é óbvio. Ainda há sim gêneros em que escritoras recebem olhares enviesados e desconfiados. Mas para que essas barreiras sejam transpostas é sim necessário que existam várias Paulines Réage, várias Janes Austen e tantas outras que tiveram a coragem de escrever o que quisessem, quando quisessem e enfrentaram a situação. Mesmo que fossem confundidas com homens, mesmo que não pudessem escrever seu próprio nome em seus livros, mesmo que fossem proibidas, mesmo que o preconceito fosse maior que tudo. E essa é a minha maior admiração por esse livro: ele é corajoso.

Mas jamais o leria novamente.

Ficha Técnica

Título: A História de O
Autor: Pauline Réage
Editora: Ediouro
Páginas: 243
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Juliana Pires disse:

    Desde que ouvir falar desse livro pela primeira vez eu fiquei mega curiosa para ler. Agora, um pouco em choque com todas as coisas pelas quais ela se submete por vontade propria, fiquei ainda mais.

  • Karen disse:

    Eu também fiquei com esse mesmo sentimento, Juliana. Queria muito ler esse livro, fiquei bastante curiosa. Como eu disse, é um livro que deve ser lido, mas que não conseguimos ler duas vezes. Tem muitas coisas que você fica horrorizada, apesar de não conseguir parar de ler.
    Obrigada pelo comentário!

  • Rita Neves disse:

    Eu adoro livros fortes e chocantes. Nunca tinha ouvido falar desse, mas fiquei com muita vontade de ler!

  • Karen disse:

    Esse livro é bem forte mesmo, Rita! Mas é uma ótima leitura. Recomendo!
    Obrigada pelo comentário!

  • Aline disse:

    Pelos trechos que li deste livro, da para notar o quão chocante é, principalmente pela aceitação da O a tudo aquilo e prla satisfação dela ao receber todo tipo de “prazer”. Já li um livro não tão chocante, mas parecido, Um Romance Sentimental. Este tipo de livro faz você entender s diferença entre alguns livros eróticos atuais e alguns antigos e que por suas épocas de publicação, revolucionários. P

  • Karen disse:

    Exato, Aline, acho que o mais chocante mesmo é aceitação de O, mais do que as coisas a que ela se submete, o mais difícil é ler o quanto ela aceita aquilo e necessita disso. É muito diferente ler um livro desses e um livro erótico atual.
    Vou anotar sua dica! Obrigada por passar aqui!

  • Nivia Fernandes disse:

    Sempre acreditei que as práticas sexuais mais bisonhas não surgiram para “fustigar”, apenas: alguém deve gostar de cada uma delas, mesmo que seja crime, desumano ou doa como a morte…
    O prazer é individual e intransferível (e em alguns casos, ainda bem).

    Eu sinto que o povo antigamente era mais louco entre quatro paredes, pois em tese ninguém ia contar o que estavam fazendo!

    Continuo com vontade de ler! E se chocou justo você, fico mais curiosa ainda… Pelo menos pra tentar, mesmo que leia uma vez só e deixe muito quieto depois.

  • Karen disse:

    Olha, a gente nem sabe o quanto tem de coisa bizarra por aí. Em quatro paredes… tudo pode acontecer.
    Nik, o livro é forte, mas tu deve ler. É um livro que deve ser lido e depois deixado de lado. Eu, pelo menos, não consigo voltar nele.

  • Lany disse:

    Desde a famosa “risadinha” da J.K.Rowling, eu fiquei curiosa para ler esse livro. Mas depois da sua resenha… Bem, continuo curiosa, mas agora eu sei que devo escolher o momento certo para o ler…
    Uma curiosidade: na França, muitos críticos achavam que “50 Tons de Cinza” não iria fazer sucesso, porque “A História de O” é um livro muito forte. Assim, “50 Tons” perderia um pouco da sua “novidade”… Mas que nada, foi só sair a tradução que fez o maior sucesso!XD

  • Karen disse:

    Ah, mas eu acho que 50 tons e A História de O não tem nada a ver… só o fato de que falam de sexo, mas A História de O primeiro é um livro DE VERDADE, segundo é muito bem escrito, terceiro é brutal. Não é um romancezinho… tem que ter estômago.
    Mas tu deve ler. 😉

  • TTT: Top 10 Livros Mais Intimidantes « Por Essas Páginas disse:

    […] História de O, Pauline Réage [x] […]

  • Melissa de Sá disse:

    Eu tenho uma leitura diferente desse livro. Acho que é mais uma questão de ser uma mulher que entra no papel submisso que os homens conferem a ela até as últimas consequências. O, no fim das contas, se torna o símbolo de alguém sob a influência de um machismo absurdo: ela começa a acreditar que realmente quer aquilo quando na verdade foi totalmente manipulada e moldada a pensar que quer aquilo.

    Esse livro, claro, é bastante ambíguo e sofre acusações de ambos os lados: é feminista demais, é machista demais. Eu confesso que fico na leitura do machismo pois não acho que um livro na qual uma mulher é tão abusada poderia de alguma forma ser lido como feminista. A não ser fazendo essa leitura de que na verdade ele é uma crítica desse sistema. Enfim, polêmico. Também não leria mais de uma vez. Dá pra passar mal com ele.

  • Karen disse:

    É, Mel, é outra leitura que você tem. Pensando dessa forma, o livro pode ser machista – e realmente tem coisas horríveis, que a gente não entende como a O se submete. Ela pode sim ter sido manipulada, mas não sei, no meu íntimo ainda acredito que ela queria aquelas coisas. Ela poderia dizer não a qualquer momento, mas nunca disse.
    Eu também acho que é contraditório ela ser abusada e isso ser feminista, porém, se a gente pensar pelo lado da liberdade e especialmente da liberdade sexual, isso é um ponto de vista para cada pessoa. O que é liberdade para mim e para você pode ser diferente na visão de outro. O que é bom e prazeroso pra gente pode ser completamente avesso para outra pessoa. Não é algo simples, preto no branco.

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