Resenha: A Incendiária

Ficha técnica:

Nome: A Incendiária

Autor: Stephen King

Tradutora: Regiane Winarski

Páginas: 448

Editora: Suma

Compre aqui

Sinopse: Uma criança com o poder mais extraordinário e incontrolável de todos os tempos. Um poder capaz de destruir o mundo. Após anos esgotado no Brasil, A Incendiária volta às livrarias como parte da Biblioteca Stephen King, coleção de clássicos do mestre do terror em edição especial com capa dura e conteúdo extra. No livro, Andy e Vicky eram apenas universitários precisando de uma grana extra quando se voluntariaram para um experimento científico comandado por uma organização governamental clandestina conhecida como “a Oficina”. As consequências foram o surgimento de estranhos poderes psíquicos — que tomaram efeitos ainda mais perigosos quando os dois se apaixonaram e tiveram uma filha. Desde pequena, Charlie demonstra ter herdado um poder absoluto e incontrolável. Pirocinética, a garota é capaz de criar fogo com a mente. Agora o governo está à caça da garotinha, tentando capturála e utilizar seu poder como arma militar. Impotentes e cada vez mais acuados, pai e filha percorrem o país em uma fuga desesperada, e percebem que o poder de Charlie pode ser sua única chance de escapar.

A Incendiária é uma obra originalmente lançada em 1980 nos Estados Unidos do mestre Stephen King. Foi lançada aqui no Brasil anos depois, em uma edição que hoje se encontra esgotada; em 2018, porém, a Suma decidiu relançar o livro na Coleção Biblioteca Stephen King, com uma nova tradução, em uma edição capa dura lindíssima com detalhes em relevo e ilustrações nas primeiras páginas de cada capítulo, bem como um posfácio a mais no final da obra. É daquelas edições para se admirar e ter na estante, de verdade. E foi com esta nova edição que fiz minha primeira leitura desta obra clássica do mestre.

A primeira coisa a se dizer deste livro é que ele é daqueles que possui momentos de terror, mas que não é uma obra do gênero. A Incendiária, aliás, é uma das obras mais ficção científica que já li do King, uma vez que sua trama se baseia em experimentos feitos pelo governo dos Estados Unidos e da maligna Oficina, organização recorrente no Kingverso, mas abordada com profundidade aqui. Andy e Vicky, dois jovens ainda na faculdade, resolvem participar de um experimento, injetando uma substância chamada apenas de “Lote 6” em troca de duzentos dólares. A coisa toda não dá muito certo para os envolvidos – alguns inclusive chegando a arrancar os próprios olhos -, mas o casal se dá relativamente bem, ficando com poucos “efeitos colaterais”: enquanto Vicky desenvolve um poder leve de telecinese, Andy consegue controlar a mente das pessoas, dando impulsos nos outros para fazerem o que ele sugere. Eles acabam se apaixonando, casam-se anos depois e têm uma filha, a pequena Chalie McGee. Quando nós conhecemos os personagens, Charlie já é uma garotinha de seis anos, e ela e o pai estão fugindo desesperadamente do governo. Acontece que Charlie também tem um poder: ela é capaz de criar fogo com a mente.

Passamos uma boa parte do livro em uma fuga desesperada junto com Andy e Charlie. Na verdade, pensando bem, quase todo o livro é uma fuga, às vezes até de si mesmos e, principalmente, da Coisa Ruim – como os pais de Charlie nomearam seu poder de fogo. Mas às vezes o enorme poder de Charlie parece ser a única solução possível e, aos poucos, ela percebe que gosta daquele poder, que cada vez mais ela o alimenta e também se alimenta dele. Quando percebemos a metáfora, finalmente compreendemos Charlie e seu sofrimento.

Mas nós já retornaremos nesse ponto.

Clique na foto para assistir a um vídeo e conferir esta maravilhosa edição da Suma!

A Incendiária é um livro sobre pessoas, como são todas as histórias do King. Adoramos falar como ele é o Mestre do Terror, mas a verdade é que ele é um Mestre de Personagens. King é especialista em criar pessoas verdadeiras, personagens que saltam das páginas, com dramas reais os quais nos identificamos de maneira profunda. E este livro está recheado de pessoas assim, dos heróis aos vilões, e que vilões! O que mais se destaca é aquele que é um dos melhores vilões do autor, o obcecado Rainbird, um homem que serve a Oficina apenas para seus próprios propósitos sombrios, e sua maior motivação é compreender a morte, enxergá-la nos olhos dos outros. É bizarro e sinistro, e talvez uma das coisas que realmente metem medo nesse livro. A maneira como o personagem alimenta uma obsessão quase sexual pela garotinha é perturbadora (mas é outra coisa que você percebe o porquê mais tarde). As pessoas e suas estranhas motivações são, entre todo o resto, as coisas mais assustadoras que existem.

Aliás, outra coisa que achei bastante assustadora foi, ironicamente, os poderes do pai de Charlie, Andy. Mais que o fogo da menina, o controle exercido pela mente de Andy e os caminhos aterrorizantes que uma mente pode tomar, a maneira como pode se descontrolar, isso sim foi muito assombroso E muito bem descrito, diga-se de passagem.

Como todo clássico do King, A Incendiária peca pela morosidade característica do autor, especialmente lá pelos anos 1980. Atualmente, King é bem mais dinâmico (mas não menos prolixo), mas há uns vinte, trinta anos, sua escrita por vezes era excessivamente descritiva, arrastada e com um excesso irritante de personagens. Isso também ocorre aqui, o que torna às vezes a leitura um pouco cansativa, mas nada que um fã não esteja acostumado.

Mas então chegamos à metáfora que comentei lá em cima. E aí as coisas realmente se tornam interessantes! E se você não quiser saber do que estou falando, apenas pule o SPOILER, mas a verdade é que este livro me surpreendeu por falar especificamente sobre sexo. É o livro mais sexual do King. Quando você se dá conta, toda a obra fala do despertar sexual de Charlie, utilizando o fogo como metáfora. E é preciso e ao mesmo tempo revoltante como todo mundo – e especialmente os homens, incluindo aí o pai de Charlie – tentam reprimi-la ou abusar dela por isso, oprimindo-a, exatamente como acontece com todas as mulheres nesse mundo machista e retrógrado que vivemos. FIM DO SPOILER.

Incrível como um livro dos anos 1980 permanece tão atual, e por isso mesmo quis trazer essa resenha hoje aqui. Além do aniversário do Stephen King, que hoje completa 71 anos, a ameaça para as mulheres e a repressão que sofremos é um assunto de máxima importância, especialmente nestes dias tão sombrios.

Livro recomendadíssimo, para se ler e guardar com carinho na estante!

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Suma, selo da Companhia das Letras.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Compartilhe:
  • 3
  •  
  •  
  •  
  •  


  • Lilian de Souza Farias disse:

    Essa capa é perfeita, adoraria ter edição comigo. Li pouca coisa do King, mas o que li me apaixonei, simples assim ^^ ‘mas a verdade é que ele é um Mestre de Personagens’ onde eu assino? é exatamente assim que penso, o cara vai fundo na construção dos personagens, no pior e mais louco da psiquê humana. Olha, adorei sua resenha e concordo que mesmo tendo mais de três séculos, o obra é atual.

  • Debyh disse:

    Olá,
    Eu também sinto isso de sempre estar atual a escrita do King, nem sei como, mas realmente acontece. Eu tenho um pouquinho de pânico de fogo então não sei, talvez eu fique meio angustiada com a história hahaha. Mas eu gosto dos livros dele então me interessei pela leitura!

  • Andressa Ledesma disse:

    Quero muito ler A incendiária! Na verdade, quero começar a ler mais livros desse autor. Queria ler algo dele bem voltado para o terror, mas mesmo que essa obra não seja tanto assim, estou curiosa para conferir o enredo.
    beijos

  • Carolina Durães de Castro disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Concordo plenamente com você quando menciona que os livros do autor é sobre as pessoas. Por mais mirabolantes que suas histórias sejam, sempre é possível fazer uma análise mais profunda, como você realizou.
    Concordo também com a diferença dos textos dele mais antigos, que são bem mais descritivos mesmo.
    Bjkas

PREENCHA OS CAMPOS ABAIXO PARA DEIXAR SEU COMENTÁRIO




Mensagem