Resenha: A Metade Sombria

Ficha técnica:

Título: A Metade Sombria

Autor: Stephen King

Tradutora: Regiane Winarski

Páginas: 464

Editora: Suma

Compre aqui

Sinopse:

“Criar George Stark foi fácil. Se livrar dele, nem tanto.
Há anos, Thad Beaumont vem escrevendo, sob o pseudônimo George Stark, thrillers violentos que pagam as contas da família, mas não são considerados “livros sérios” pelo escritor. Quando um jornalista ameaça expor o segredo, Thad decide abrir o jogo primeiro, e dá um fim público ao pseudônimo.
Beaumont volta a escrever sob o próprio nome, e seu alter ego ameaçador está definitivamente enterrado. Tudo vai bem. Até que uma série de assassinatos tem início, e todas as pistas apontam para Thad. Ele gostaria de poder dizer que é inocente, que não participou dos atos monstruosos acontecendo ao seu redor. Mas a verdade é que George Stark não ficou feliz de ser dispensado tão facilmente, e está de volta para perseguir os responsáveis por sua morte.”

Mais um relançamento de um clássico do mestre Stephen King na coleção capa dura da Biblioteca Stephen King da Suma. Essa coleção é tão linda e caprichada que dá vontade de abraçar os livros, e essa foi minha edição preferida: a capa roxa, os pássaros voando nas páginas, enfim, todo o projeto gráfico ficou incrível. E, além disso, o original ganhou nova tradução da competentíssima Regiane Winarski.

Mas e a história? Vale a pena?

Prolixo como ele só, King nos traz nesse livro um começo moroso, com muita introdução de personagens (alguns inúteis, que jamais retornarão à história e servem apenas ao propósito de desenvolver um pedacinho da trama). É King em seu modus operandi clássico, descrevendo pequenos pormenores da vida mundana de seus personagens. Em parte, isso ajuda a criar a atmosfera, especialmente da cidade de Castle Rock, Maine, onde grande parte da trama se passa (a famosa Castle Rock!). Porém, ao mesmo tempo, é um entrave na leitura e faz o leitor pensar “por que afinal estou lendo os pensamentos escrotos de um policial de beira de estrada que só está no livro para encontrar um carro roubado?”. King às vezes exagera.

No entanto, passando-se esse começo, o livro começa a engrenar lá pela página 80, quando começamos de fato a acompanhar o protagonista, Thad Beaumont, um escritor que publicou uma série de thrillers violentos sob o pseudônimo George Stark. Porém, quando um jornalista ameaça revelar seu segredo, Thad “mata” George de maneira teatral e decide se dedicar aos livros assinados com seu nome. Mas George não quer morrer. E quando ele começa a agir, é quando o livro realmente se encontra.

Verdade seja dita: o protagonista Thad Beaumont não é lá muito interessante, o que realmente atrapalha o livro, e as personagens que orbitam ao seu redor também não se destacam; a esposa dele, Liz, basicamente está no livro para ser isso mesmo: a esposa (e ainda por cima é a única mulher relevante na obra, tirando as que estão lá apenas para serem mortas). Lendo isso até desanima, mas espere! Tudo vale a pena pelo antagonista: o próprio pseudônimo do protagonista, que criou vida, George Stark.

Com toda a certeza, ele é o personagem que conduz toda a trama e o que mais me atraiu durante a leitura. Claro que não de um jeito agradável, afinal, ele é o vilão – e um vilão extremamente cruel e sanguinário. Ele, inclusive, é o responsável pelas impactantes cenas de horror gráfico, puro gore, como poucas vezes vi Stephen King escrever – mas, hey, estamos falando aqui de um King que, assim como Beaumont tinha acabado de “matar” seu pseudônimo, Richard Bachman, e aparentemente precisava liberar sua frustração. Inclusive há alguns extras no final dessa nova edição de A Metade Sombriae um deles é um texto do próprio King falando sobre seu antigo pseudônimo e como a revelação dele para o mundo o impulsionou a escrever o livro.

Aliás, cabe aqui um parêntesis: para quem não sabe (como assim?!), Stephen King escreveu outros sete livros sob o pseudônimo Richard Bachman, conhecido hoje por ser muito mais cínico, sombrio e brutal que sua contraparte mais famosa. Inclusive é da autoria de Bachman o famigerado Fúria, de 1977, cujo narrador é um adolescente que entrou armado em sua escola e rendeu professores e colegas. O livro foi encontrado anos depois nos pertences dos atiradores responsáveis pelo massacre de Columbine, o que fez com que o próprio King exigisse que se removesse o livro de circulação. Por algum tempo, ele ainda era incluído na edição de Os Livros de Bachman, juntamente com outros três livros do pseudônimo (que, diferente de Fúria, continuavam sendo vendidos em edições separadas). Porém, eventualmente, esse livro também saiu de circulação e Fúria sumiu junto. No Brasil, encontrar uma edição dessas é raro, um verdadeiro item de colecionador, chegando a custar mais de R$ 1000.

Mas, voltando a George Stark, as cenas mais emocionantes, que dão aquele frio na barriga e obrigam o leitor a virar páginas e mais páginas, são dele. É ele que realmente conduz a trama. Os outros personagens, no fundo, apenas orbitam ao seu redor. Talvez apenas mais um tenha momentos interessantes, o xerife Alan, mas certamente todas as cenas dele que se destacam têm algo a ver com Stark. Em contrapartida, quando Beaumont aparecia em cena, eu às vezes tinha vontade de estapeá-lo por ser tão pateta. E sua esposa decorativa é ainda pior; fico feliz que King não trate mais suas personagens femininas com tamanha condescendência.

De uma maneira ou de outra, a narrativa ainda é competente e conduz o leitor de maneira vertiginosa até o final. Você fica curioso para saber o que vai acontecer, por mais que não se importe tanto assim com o destino dos personagens. E ainda há todo o enigma dos pardais e como raios um pseudônimo criou vida própria; são esses mistérios, somados à ótima narrativa de um autor hábil, que impulsionam a leitura. O final, no entanto, é apenas satisfatório, com alguma dose de Deus Ex Machina; cumpre o que promete, resolvendo algumas questões no processo, mas não encanta, nem é marcante.

Vale a pena ter um desses na estante? Bem, se você é fã de Stephen King como eu, vale sim. A edição é linda, caprichada em todos os sentidos, com uma tradução e revisão impecáveis. A história entretém e é competente, como as obras clássicas do autor são. Porém, assim como vinho, King também melhorou com o tempo, e se você ainda não o leu, comece por alguma obra mais recente dele e, só depois de alguma experiência com seus livros, aventure-se a ler A Metade Sombria.

 

 

 

 

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Suma, selo da editora Companhia das Letras

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Compartilhe:
  •  
  •  
  •  
  •  


  • Greice Negrini disse:

    Não vou negar, acho os livros do King parados demais e por isso não os leio, mas tu sabe que gostei desta coisa do pseudônimo escrever e tal e ter esta coisa de terror, mas sei que como falou, seria meio parado e isso me faria dormir.

  • Blog Faces em Livros disse:

    Olá
    King é sempre surpreendente. Acho interessante o trabalho que ele faz em seus livros. Já levei um texto dele para meus

  • Blog Faces em Livros disse:

    Olá
    King é sempre surpreendente. Já levei um de seus textos para meus alunos e eles amaram. Fiquei muito curiosa para ler obra aqui resenhada.

  • Pollyanna Assis Campos disse:

    Olá, tudo bom?
    Estou com este livro em minha estante e ainda não iniciei a leitura justamente por saber que o autor tende a se estender demais em descrições no início de seu livro. Saber que a história é morosa até a página oitenta me desanima um pouco, mas fiquei bem curiosa para ver as cenas que envolvem esse pseudônimo, que por acaso foi o que fez com que me interessasse pela história. Adorei a resenha e a sinceridade ♥
    Beijos!

  • Valéria disse:

    bem, como fã eu tbm queria, apesar do final não ter sido tãaao surpreendente ou empolgante… esse lance do livro dele ter sido encontrado com os garotos de Columbine eu lembro na época que ocorreu… =T
    quem dera eu achasse essa edição.. hahaha

    e voltando a esse lançamento da Suma, acho que até o momento, foi a edição mais caprichada da coleção.,.. o enredo me instigou e quero comprar e ler assim que possível…

    bjs 😀

  • Aline Martins de Oliveira disse:

    Olá! Conheço bem esses começos lentos e cheios de descrições e personagens sem sentido do King. Mas passando essa parte, como você mesmo disse, geralmente a gente consegue encontrar uma história super incrível, com situações e reviravoltas de deixar o cabelo em pé. Quero muito ler, e ter também, essa biblioteca sombria, que está linda de morrer!

    Bjoxx ~ Aline ~ http://www.stalker-literaria.com

  • Ivi Campos disse:

    Eu adoro o Stephen King, mas este livro aqui ainda não tive vontade de ler e nem sei explicar os motivos. Acho que pela edição linda, vale a pena ter na estante, mas a história em sim não me chama muito a atenção não.
    beijos

PREENCHA OS CAMPOS ABAIXO PARA DEIXAR SEU COMENTÁRIO




Mensagem