Resenha: A Nuvem

Ficha técnica:

Nome: A Nuvem

Autor: Neal Shusterman

Tradutora: Guilherme Miranda

Páginas: 496

Editora: Seguinte

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Sinopse: No segundo volume da série Scythe, a Ceifa está mais corrompida do que nunca, e cabe a Citra e Rowan descobrir como impedir que os ceifadores que não seguem os mandamentos da instituição acabem com o futuro da humanidade.

Em um mundo perfeito em que a humanidade venceu a morte, tudo é regulado pela incorruptível Nimbo Cúmulo, uma evolução da nuvem de dados. Mas a perfeição não se aplica aos ceifadores, os humanos responsáveis por controlar o crescimento populacional. Quem é morto por eles não pode ser revivido, e seus critérios para matar parecem cada vez mais imorais. Até a chegada do ceifador Lúcifer, que promete eliminar todos os que não seguem os mandamentos da Ceifa. E como a Nimbo Cúmulo não pode interferir nas questões dos ceifadores, resta a ela observar.

Enquanto isso, Citra e Rowan também estão preocupados com o destino da Ceifa. Um ano depois de terem sido escolhidos como aprendizes, os dois acreditam que podem melhorar a instituição de maneiras diferentes. Citra pretende inspirar jovens ceifadores ao matar com compaixão e piedade, enquanto Rowan assume uma nova identidade e passa a investigar ceifadores corruptos. Mas talvez as mudanças da Ceifa dependam mais da Nimbo Cúmulo do que deles. Será que a nuvem irá quebrar suas regras e intervir, ou apenas verá seu mundo perfeito desmoronar?

A Nuvem é o segundo livro da série Scythe, do ótimo O Ceifador (resenha aqui). Portanto, se você não leu o primeiro livro (que fortemente recomendo que leia!), saiba que esta resenha possui spoilers dele. Contrariando aquela velha máxima que segundos livros de séries não são lá essas coisas, A Nuvem traz uma trama eletrizante, com fortes críticas políticas, mas com um final que pode dividir leitores e fãs.

No último livro, assistimos perplexos ao Conclave no qual Citra se tornou a Ceifadora AnastássiaRowan fugiu, resgatado pelo antigo mestre dos dois que se acreditava morto, o Ceifador Faraday. Agora, reencontramos os dois um ano depois; enquanto a Ceifadora Anastássia se tornou conhecida (e temida) por seus métodos pouco ortodoxos e humanitários de ceifa, Rowan assumiu a identidade do Ceifador Lúcifer, tirando a vida de ceifadores corruptos. Obviamente, isso não é visto com bons olhos pela Ceifa, que está à sua caça; curiosamente, a Nimbo-Cúmulo, que tudo vê, fecha os olhos para os atos de Rowan – em teoria, um cidadão comum, não um ceifador – e permite que a situação corra livremente.

Nimbo-Cúmulo, aliás, tem participação essencial neste livro, tanto que leva seu nome ao título. Durante toda a obra, ela dá depoimentos contundentes, mostrando que, apesar de não se envolver (ou pelo menos assim ela diz, porque ela acaba encontrando seus meios), está observando tudo, inclusive os movimentos dos ceifadores, e que ela tem opiniões muito fortes sobre os rumos que o mundo está se dirigindo.

Nova Ordem dos ceifadores não morreu junto com o Ceifador Goddard no último livro; pelo contrário, suas crenças começaram a se propagar com mais força: a proposta de remover o limite de mortes para cada ceifador, o extermínio das questões defendidas pela chamada “Velha Ordem“, a ideia de “apreciar” seu trabalho como ceifador, ou seja, gostar de tirar vidas. Conforme o livro avança e a sensação de medo, preconceito e violência cresce, percebemos claramente que a Nova Ordem é uma alegoria ao fascismo e à onda conservadora que está se espalhando pelo planeta. A coisa fica bem clara neste discurso que, acredito, resume bem a trama deste livro e contra quem os heróis estão lutando:

Nesses tempos turbulentos, nossa região pede um líder que não apenas conheça a morte, mas a acolha de braços abertos. Que se alegre com ela. Que prepare o mundo para um novo dia em que nós, ceifadores, os mais sábios e esclarecidos seres humanos nesta Terra, possamos alcançar todo o nosso potencial. Sob minha liderança, vamos eliminar as teias de aranha do pensamento arcaico e dar um novo brilho à nossa grande instituição, que provocará a inveja de todas as outras regiões. Para tanto, pretendo acabar com o sistema de cotas, abrindo o caminho para que todos os ceifadores midmericanos possam coletar quantas vidas quiserem. Vou criar um comitê para reavaliar as interpretações de nossos queridos mandamentos, com a intenção de ampliar os parâmetros e remover as restrições que sempre nos detiveram. Buscarei aperfeiçoar a vida de cada ceifador e de todos os midmericanos dignos. E, assim, vamos tornar a Ceifa grande novamente.

É interessante ver como uma grande trama elaborada permeia a história, como uma grande teia que vai envolvendo nossos protagonistas e a sociedade como um todo. Faz com que a gente reflita em como essas grandes tramas parecem apenas coisa de ficção, quando na verdade podem muito bem acontecer – e acontecem! – na vida real. Como é dito no livro várias vezes, especialmente pela Nimbo-Cúmulo, é algo humano e natural que o ser humano sabote até mesmo a vida perfeita em busca do poder. O poder pode ser amplo ou pode ser pequeno, no ato de oprimir quem está ao nosso lado, dentro da nossa própria casa.

A construção da narrativa e das delicadas tramas que interligam os personagens é feita de maneira brilhante pelo autor Neal Shusterman. Capítulo a capítulo, o autor instiga o leitor a virar as páginas de maneira sôfrega, ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos. A edição e a diagramação confortável da Editora Seguinte contribuem nesse processo, tornando a leitura fácil e dinâmica. A única coisa que me desagradou foi o final: nele, o autor inseriu elementos complexos de universo e precisou de um espaço precioso para explicá-los, o que de certa maneira diminuiu o ritmo da trama e atravancou a leitura (e a emoção) em alguns momentos importantes do final. A conclusão, para mim, foi rápida demais e um tanto fantasiosa, uma solução simples para um conflito complexo. Mesmo assim, fiquei curiosa para saber o que vai acontecer no desfecho da trilogia. Especialmente pelo teor crítico, A Nuvem é uma obra que vale a pena ler.

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras.

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  • Karini Couto disse:

    Esse eu já li e amei! Adoro a escrita do autor.
    Nesse livro, temos partes que nos mostra mais intimamente como funciona “a mente” da Nimbo… O final de A Nuvem conseguiu me surpreender ainda mais que o final do primeiro volume! Para mim a escrita foi frenética e os diversos acontecimentos me deixaram com os nervos em frangalhos.. E mais uma vez me fez aplaudir de pé esse autor incrível! Além dos personagens, já velhos conhecidos, temos Greyson, que é um show a parte! Eu fiquei fascinada por ele.

    Eu preciso dizer que eu amooooo Rowan, tenho fascinação pelo Ceifador Faraday e que Citra e Greyson são incríveis de várias formas!

    Que pena que tenha achado a conclusão rápida e fantasiosa.. Mas no geral, todo o enredo é bem fantasioso, então pra mim, é necessário entrar no clima, coisa que eu fiz, para “surfar na onda”.

    Beijos.

    Karini Couto
    Além das Páginas.

  • Camila de Moraes disse:

    Olá!
    Eu li O fundo é apenas o começo e adorei a escrita do Neal. Tenho visto tantas resenhas sobre essa série que resolvi comprar o ebook do primeiro livro.
    Fiquei voando um pouco por se tratar do segundo, mas curiosa para saber mais do desenrolar da trama e conhecer mais de toda cadeia de personagens.
    Espero conseguir me conectar com o enredo, já que o gênero não é o meu preferido na hora de realizar a leitura.
    Beijos!

  • Beatriz Andrade disse:

    Olá, tudo bem?
    Eu ainda não li o primeiro volume, mas adorei poder conferir a sua resenha sobre esse segundo livro, mesmo tendo um pouquinho de spoiler do primeiro eu adorei e não achei lá tanto spoiler assim. Eu acho que vou gostar muito da leitura, parece ser uma experiência muito boa e espero poder ler em breve. Acho que o final poderia me incomodar um pouco, mas preciso ler para poder ver como o autor desenvolve isso.

  • Camila - Leitora Compulsiva disse:

    Menina… Eu li esse livro recentemente e fiquei maluca por ele!
    Amei cada uma das decisões do autor!
    Entendo sua opinião sobre o final, mas eu pirei!! Rs…
    Beijos
    Camis – blog Leitora Compulsiva

  • Dayhara disse:

    Pulei grande parte da resenha para evitar spoilers, essa é uma obra que quero muito ler, desde o lançamento do primeiro livro. Fico feliz em saber que o segundo segue sendo tao eletrizante assim.

  • cila-leitora voraz disse:

    Olá, tudo bem?
    A parte política que está por trás dessa história é que me fascina, gosto de enredos que levantam questionamentos. E esse que fala sobre os ceifadores parece ser incrível, estou muito curiosa sobre o que está pro trás deles. Você falou sobre essa questão de jogo de poder e que infelizmente acontece na vida real, concordo com você, é muito triste e cruel. Pena que o final não foi tão bom quanto do primeiro, mas ainda assim quero muito ler essa trilogia. Sua resenha ficou ótima!!!
    beijinhos.
    cila.

  • Priscilla Fazolli disse:

    Olá,
    não sabia que o livro trazia uma história tão intensa e crítica como essa, pensei que era mais fantasia. Essa luta pelo poder é tão velha e decepcionante, as pessoas obcecadas por ele podem cometer atrocidades. Já queria ler a série e agora sua resenha me deixou mais animada apesar desse final. Parabéns pela resenha,
    bjs.
    Pri.
    https://nastuaspaginas.blogspot.com/

  • Marijleite disse:

    Olá, amei conferir suas considerações sobre esse segundo livro, a editora me enviou um exemplar dele mas ainda não tenho O ceifador, então ainda não pude ler. A história parece trazer reflexões bem interessantes sobre aspectos como essa onda conservadora que também faz parte da nossa realidade, como você bem pontuou. Estou super animada para ler A Nuvem, mesmo com sua ressalva sobre o final.

  • Bruna Costabeber disse:

    Oi, tudo bem?
    Eu tive a oportunidade de ler os dois livros dessa série. O primeiro me conquistou completamente e em todos os sentidos. O que mais me agradou nesse segundo volume foi a participação da Nimbo Cumulo.
    Achei muito legal sua resenha e fiquei contente por o livro ter te agradado, mesmo apresentando ressalvas.
    Beijos

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