Resenha: A Teoria de Tudo

Antes mesmo de assistir ao filme “A Teoria de Tudo”, eu já estava ansiosa para ler o livro escrito por Jane Hawking. Acabei assistindo o filme primeiro (ferindo meus princípios de somente assistir a uma adaptação após ler o livro), e adorei. O filme foi sensível, tocante e pareceu passar em segundos, e talvez por isso minhas expectativas para o livro tenham sido ainda maiores. É claro que um livro sempre tem muito mais histórias, e eu estava ansiosa por lê-las, mas se há uma palavra para A Teoria de Tudo é prolixo. Excessivamente descritivo, mas ainda emocionante, esse livro nos traz uma versão menos romantizada e mais palpável da vida de Jane e Stephen Hawking.

A_TEORIA_DE_TUDO“A história de Stephen Hawking é contada pela luz da genialidade e do amor que não vê obstáculos. Quando Jane conhece Stephen, percebe que está entrando para uma família que é pelo menos diferente. Com grande sede de conhecimento, os Hawking possuíam o hábito de levar material de leitura para o jantar, ir a óperas e concertos e estimular o brilhantismo em seus filhos entre eles aquele que seria conhecido como um dos maiores gênios da humanidade, Stephen.

Descubra a história por trás de Stephen Hawking, cientista e autor de sucessos como Uma breve história do tempo, que já vendeu mais de 25 milhões de exemplares. Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos, enquanto conhecia a jovem tímida Jane, Hawking superou todas as expectativas dos médicos sobre suas chances de sobrevivência a partir da perseverança de sua mulher. Mesmo ao descobrir que a condição de Stephen apenas pioraria, Jane seguiu firme na decisão de compartilhar a vida com aquele que havia lhe encantado. Ao contar uma trajetória de 25 anos de casamento e três filhos, ela mostra uma história universal e tocante, narrada sob um ponto de vista único.

Stephen Hawking chega o mais próximo que alguém já conseguiu de explicar o sentido da vida, enquanto Jane nos mostra que já o conhecia desde sempre: ele está na nossa capacidade de amar e de superar limites em nome daqueles que escolhemos para compartilhar a vida. O livro que inspirou o emocionante filme A Teoria de Tudo.” Fonte

Esse é um dos poucos casos em que, senão melhor, a adaptação cinematográfica é mais agradável que o romance. Em A Teoria de Tudo – o filme – temos uma versão talvez um tanto romantizada, mas sensível, da vida em comum do casal Hawking e dos avanços científicos do brilhante físico. Além disso, Eddie Redmayne é extremamente carismático, talvez muito mais que Stephen o é de fato (e isso fica evidente durante a leitura). A química entre ele e Felicity Jones, que interpreta Jane, é imediata na tela, enquanto no livro o romance deles, especialmente no início, é mais comum, às vezes até um pouco semelhante ao frio clima e humor ingleses.

Mas não viemos aqui para falar do filme. O que é agradável nele também é um defeito: nenhuma vida é tão romântica como nos filmes, muito menos a vida difícil da família Hawking, e o livro mostra isso de maneira exemplar. Jane, como ela própria diz, “conta todas as suas bênçãos”, mas jamais priva o leitor de revelar todas as angústias e dificuldades da vida em comum com um portador de uma doença tão triste e difícil como a esclerose lateral amiotrófica, a ELA. Mas não é só a doença que dificulta a vida e compete com Jane pela atenção de Stephen: a maior e mais difícil rival é a Física e, posteriormente, a fama que irremediavelmente afeta Stephen e acaba levando o casal a um triste e traumático divórcio.

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Mas antes disso temos muitas e muitas páginas desde o momento em que Jane e Stephen se conheceram, passando por seu namoro, casamento, o nascimento e criação de seus filhos, as inúmeras viagens e, claro, os magníficos avanços científicos. Mas, certamente, a coisa mais bela em toda essa história – para mim – foi o grande amor e a intensa dedicação que Jane teve por seu companheiro de vida. A genialidade de Stephen é inegável, mas ao ler essa obra a minha admiração por Jane ultrapassou a admiração pelo cientista. Não fosse por ela, por sua dedicação e carinho, por todos os seus sacrifícios, dificilmente Stephen teria chegado tão longe. É triste ver como tanto família, conhecidos, quanto a comunidade científica, a sociedade e até mesmo o próprio Stephen não valorizam Jane como ela realmente merecem. Muito por ser mulher, ela é relegada à segundo plano e constantemente julgada por tentar manter a própria individualidade (e sanidade), concluindo sua tese e aplicando-se a outras atividades intelectuais e artísticas, não se dobrando à pressão de tornar-se enfermeira por causa da doença do marido, e muitas vezes colocando os filhos em primeiro plano, como toda mãe. Jane, afinal, é uma mulher, era a esposa de Stephen, não sua mãe, empregada ou enfermeira (ou os três). Há alguns momentos realmente melancólicos nos quais senti verdadeira raiva de Stephen por sua insensibilidade e egoísmo, tanto na sua falta de respeito com a fé de Jane, mas especialmente com a falta de consideração com sua intelectualidade, tratando-a como inferior.

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Mas o que me incomodou na leitura do livro foi que Jane é por demais extensa em sua narrativa e talvez isso tenha comprometido a leitura; ela se apega à detalhes não tão relevantes, sabiamente cortados na adaptação cinematográfica, mas que também poderiam ter sido sumariamente removidos do livro. Há, é claro, histórias e fatos muitíssimo interessantes que ficaram de fora do filme e enriquecem nosso conhecimento durante a leitura, mas por outro lado há muita descrição e histórias que pouco acrescentam. Isso tornou a leitura muitas vezes cansativa, densa e problemática; especialmente nas primeiras 200 páginas, parece que o livro não engrena, não tem fôlego, há passagens excessivamente comuns descritas em longos parágrafos exaustivos. É só da metade para o final que o livro realmente encontra sua voz e há bem menos passagens descartáveis (mas elas ainda existem). Nesse sentido, lendo os agradecimentos no final, descobri que, afinal, A Teoria de Tudo é a versão resumida (sim!) da primeira versão do livro de memórias escrito por Jane, Music to Move the Stars. Se essa foi a versão resumida, confesso que tenho muito medo da versão estendida.

“Naquele dia, Robert sobreviveu, mas um pouco de mim morreu. Algum, mas não todo, daquele otimismo juvenil extravagante que eu levava comigo e que me incendiava com tanto entusiasmo agora estava enterrado debaixo de um pesado fardo de ansiedade, aquela atenção surda que, uma vez que infecta a mente, nunca mais é banida.” Página 142

A edição brasileira da Editora Única está simples, porém muito confortável (apesar do tamanho do livro, que pesa bastante em leituras fora de casa), com uma boa diagramação e um papel de qualidade. Encontrei poucos erros de revisão que em nada atrapalharam a leitura. Mas se você for do tipo de leitor que adora ler fora de casa, recomendo o e-book por conta do tamanho e peso.

Não fosse pelo caráter prolixo da narrativa de Jane, essa seria uma biografia ainda mais extraordinária; porém, é impossível ignorar a exaustão que as descrições da autora causam ao leitor. Recomendo que leiam, sim, para conhecer a verdadeira história de Jane e Stephen Hawking – o filme é um ótimo ponto de partida, mas é romântico demais para seu próprio bem -, já que a biografia é honesta e contém todos as adversidades, tristezas e a personalidade dura e muitas vezes enervante de Stephen, coisa que o filme oculta em grande parte. Não é um livro para ser lido rapidamente, mas aos poucos, para evitar a sobrecarga. Quem gosta de profundidade, leia o livro, quem prefere a superfície, fique com o filme.

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Única.

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Ficha técnica:

Título: A Teoria de Tudo
Autor: Jane Hawking
Editora: Única
Páginas: 448
Onde comprar: Saraiva / Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Fnac / Amazon / Livraria da Folha / Livraria da Travessa / Submarino
Avaliação: 

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  • Larissa Oliveira disse:

    Olá! Ainda não tive a oportunidade de ler e assistir ao filme, mas quero muito. Lendo sua resenha, foi inevitável surgir em mim esse sentimento de admiração pela pessoa de Jane Hawking. Uma mulher forte, guerreira e que se dedicou inteiramente a Stephen. O fato de a obra conter muitos detalhes, alguns até desnecessários, como você mencionou, me incomoda bastante. A leitura se torna cansativa e arrastada. Mesmo assim, é uma leitura que quero muito fazer. Parabéns pela resenha!

  • Milena Soares disse:

    Amei o filme, achei super merecido o autor que interpretou o Stephen Hawking ter ganho o Oscar, ganhei esse livro e não vejo a hora dele chega pra ler, essa resenha me deixou ainda mais curiosa em conferi essa história no papel.

  • Marília Sena disse:

    Ainda não li e nem assisti. O bom é que sua resenha foi bem honesta em relação à comparativa livro x filme, o que ajuda para me direcionar ao que escolher primeiro hahaha.

  • Drielle Giovana disse:

    Não e nem assisti, mas estou ansiosa pra ler, porém fico com receio de ser daqueles livros/filmes que me façam chorar muito e estou esperando um feriado pra curtir e refletir os dois.
    Mas vou tentar ler o livro primeiro e depois ver o filme para complementar e deixar menos cansativo.
    Beijos.

  • Gustavo disse:

    Que pena que o livro é tão excessivamente descritivo, isso realmente irrita inúmeras vezes e acaba deixando a concentração mais deficiente. Odeio isso, mas ainda sim quero muito ler esse livro. Estou evitando assistir ao filme exatamente para ler o livro antes, o que espero fazer em breve (mesmo ainda não tendo o livro). Ontem ganhei o livro “Minha Breve História” escrito pelo próprio Hawking, e já já vou começar a le-lo, mas agora, ate com um pouco mais de cuidado por causa dessa “arrogância” que você diz que ele demonstra as vezes com a Jane

  • Julia Mattos disse:

    Já li e é uma otima obra, achei um tanto cansativa também, graças ao excesso de descrição, principalmente sobre pontos não tão importantes, ou nada importantes, mas tirando isso foi um livro bom!

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu vi o filme, achei muito interessante, adorei…
    e fiquei interessado em ler o livro tbm… como vc disse, nos filmes muita coisa é oculta…
    Pena ter esse excesso de descrição, realmente fica cansativo, mas mesmo assim ainda quero ter a oportunidade de ler esse livro.

  • Melissa de Sá disse:

    O Eddie Redmayne me lembra muito o Felipe, sabia? Acho que eles têm um tipo de rosto parecido.

    Então, euv i o filme e gostei bastante. Minha mãe está lendo o livro e me disse também que o Stephen é uma pessoa bem pior e mais egoísta nele. Olha, eu acho que o que essa mulher viveu não é nada fácil. Se dedicar a alguém assim durante toda a vida enquanto tenta se dedicar a seus próprios sonhos é tenso.

    Eu gostei do filme, mas achei que o marketing vendeu que era a história de Stephen Hawking quando na verdade era a história de Jane. Um foco maior nela teria me agradado mais. Hawking já é endeusado o suficiente.

  • Sexta do Sebo #186 « Por Essas Páginas disse:

    […] vez em quando, e é só. Comecei a ler um livro do Neil deGrasse Tyson, mas parei. Terminei de ler A Teoria de Tudo, no entanto, mas acho que um pouco foi pelo apelo do filme. Gostei muito de 3096 dias (mas nunca […]

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