Resenha: A Zona Morta

“Após passar cinco anos em coma profundo, Johnny Smith, um simples professor, acorda de seu estado inconsciente não reconhecendo certos objetos. Segundo os médicos, Johnny está com uma área de seu cérebro danificada, a qual eles chamam de Zona Morta. Entretanto, este será o menor dos problemas na vida de Johnny daqui para frente. Ele agora é capaz de, com um simples aperto de mão, saber fatos do passado das pessoas e prever seu futuro. Para aqueles que estão a sua volta, esta é uma dádiva. Para Johnny, não passa de uma maldição. Com isso, o professor torna-se popular, atraindo um número crescente de pessoas em busca de previsões. Mas, ao apertar a mão de Greg Stillson, um inescrupuloso político norte-americano, Johnny será atormentado por uma visão apocalíptica.” Fonte

Pelo menos uma vez por ano eu tenho essa vontade de ler Stephen King. Então eu vou lá na minha estante e dou uma olhada no que eu ainda não li – ou no que quero reler. Um dos meus projetos esse ano é começar a releitura de toda a série A Torre Negra, mas isso é história para outro post. O que importa mesmo é que eu tive essa vontade, vi A Zona Morta dando sopa na estante e resolvi ler.

A Zona Morta é um livro enorme – um padrão “kingeresco”, eu diria – com suas mais de 600 páginas. Mas até que foi uma leitura bastante confortável nessa edição pocket da Suma das Letras. Como diz a sinopse, Johnny Smith sai de um coma de quase cinco anos com um dom paranormal: prever o futuro. Ele é atormentado por visões em geral catastróficas do que vai acontecer com as pessoas que ele toca e várias inconvenientes acompanham esse dom, sendo um dos menores a atenção da imprensa, mas Johnny também tem  que lidar com terríveis dores de cabeça, a incredulidade das pessoas, a sua própria e toda a responsabilidade de conhecer o futuro – nem sempre agradável – dos outros. Além de acompanharmos a jornada de Johnny, seguimos paralelamente Greg Stillson, um homem sem escrúpulos e completamente desorientado que, aos poucos, consegue constituir uma carreira política no país, de maneira meteórica e assustadora.

E por quê nós acompanhamos esses dois personagens se é somente lá quase no final do livro -umas cem páginas antes do fim – que eles de fato se encontram? Johnny tem uma visão horrível sobre Stillson: se ele chegar à presidente algo horrível acontecerá. Uma guerra se iniciará e os mortos serão inúmeros.

Até chegarmos nesse ponto da história muita coisa acontece. Nós começamos o livro com Johnny ainda antes do acidente que o leva ao coma e já aí ele demonstra algumas aptidões paranormais. Depois disso, ele sofre o acidente e fica em coma por quase cinco anos. Em toda essa parte do livro temos muito as visões do pai de Johnny, Herb, da sua mãe Vera e de Sarah, sua namorada. King é um mestre em compor personagens e todos eles são marcantes. Vera é a personagem aqui que mais me chamou a atenção: a mãe de Johnny é uma devota religiosa fervorosa e cega, que acredita loucamente em qualquer coisa. Ela é fantasticamente descrita e sua devoção religiosa divide o leitor entre frustração, raiva e pena.

Quando Johnny finalmente acorda milagrosamente, ele percebe que perdeu anos de sua vida: Sarah está casada, os pais estão mais velhos, a mãe está mais desorientada do que nunca… Como se não fosse o suficiente, ele agora tem um dom que também será sua maldição. A “Zona Morta” do título é na realidade uma parte do cérebro que Johnny não consegue acessar. É interessante aqui ver como o “dom” de Johnny alimenta a obsessão de sua mãe. King coloca tudo isso de maneira coerente e significativa, porém, às vezes exagerada. Vera é tão maluca que parece uma caricatura às vezes. E King insiste bastante em sua personagem, o que pode ser um pouco cansativo, mas como quase tudo que King escreve, nós acabamos entendendo seus motivos para esse tipo de fixação.

A Zona Morta é um dos poucos livros de Stephen King que eu li que começam em um ritmo rápido para só depois desacelerar. Geralmente é o contrário, os inícios são sempre mais lentos. Esse livro começa nos deixando sem fôlego e, lá pelas 200 páginas, vai ficando mais devagar. Muita, muita coisa acontece entre Johnny sair do coma e finalmente acontecer o que está na sinopse do livro e o que realmente se trata a trama: o encontro com Greg Stillson e a visão apocalíptica. É como se estivéssemos em uma montanha russa em que o começo é uma descida vertiginosa, o meio uma reta lenta e com poucas surpresas e o final uma série de oscilações.

Com isso não estou dizendo que é um livro ruim; apenas é um livro diferente do que King costuma fazer. Adoro o King, mas às vezes fica aquela sensação de que ele poderia muito bem ter economizado algumas páginas.

De qualquer maneira, há passagens realmente impressionantes e, à medida que os poderes de Johnny vão revelando coisas mais perigosas, você começa a se perguntar se aquilo só acontece na cabeça dele ou acontece de fato. É interessante como King coloca um pouco em dúvida isso – pelo menos eu me senti assim. Principalmente quando Johnny tem a visão de Stillson e começa a colecioná-lo quase tão obsessivamente quanto sua mãe faria. Nós começamos a pensar nas vezes que vimos figuras importantes da cultura ou da política serem mortos por supostos “malucos” e fica a dúvida: será que eles tinham um propósito? Será que realmente acreditavam no que estavam fazendo? Ou eles eram apenas malucos? Maníacos? Desequilibrados? Porque é exatamente o que acontece com Johnny. Ele é muito são, porém, por causa da visão, parece estar sempre prestes a cometer insanidades. A pergunta que Johnny faz para todos é: “se você pudesse voltar no tempo, mataria Hitler antes que ele se tornasse o que se tornou?”.

Como sempre faz, King nos leva a pensar, a refletir sobre essa e outras perguntas. E termina o livro resolvendo todas as questões que criou de maneira genial e muito tocante. Apesar de ser conhecido como um mestre na ficção e no terror, King é na verdade um mestre em palavras e sabe criar emoções e relacionamentos sensíveis e verdadeiros como poucos.

Porém, apesar de ser um King, eu não dei 5 estrelas. Se houvesse um 4,5 eu daria, porém acabei ficando no 4 mesmo. Por quê? Primeiro por causa das partes lentas e enroladas que existem no meio do livro. E o segundo motivo talvez seja um pouco injusto, mas  é o que eu senti. Por causa da trama do livro há muitas e muitas partes que falam sobre a política dos Estados Unidos que simplesmente eu não entendo/ não me interesso. Posso parecer alienada? Posso. Mas não é o meu país e eu simplesmente não me identifico com tudo aquilo. É claro, o público de King é americano e para eles tudo aquilo faz o maior sentido do mundo. Não é uma crítica, é apenas uma falta de identificação com essa parte da história. É o tipo de coisa tão regional que só quem vive ou já viveu no lugar entende e se relaciona. É como tentar fazer um americano assistir ao filme Romeu e Julieta (aquele do cara corinthiano e da moça palmeirense): é algo completamente regional… faz muito mais sentido para nós, brasileiros. E por causa disso, porque não fez tanto sentido para mim e eu não me identifiquei, achei toda essa parte do livro muito chata, confesso. 

No entanto, vale a pena. É King, afinal: uma ideia maluca, uma trama consistente, personagens cativantes e situações aterrorizantes. Um King é sempre recomendado. Ao menos uma vez por ano.

Ficha Técnica

Título: A Zona Morta
Autor: Stephen King
Editora: Suma das Letras
Páginas: 610
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Carolina disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Amo os livros do Mr. King, são absolutamente fantásticos. Lembro de quando eu estava no ensino médio, ia até a biblioteca da praia pegar emprestado livros dele e do Robin Cook rs.
    Parabéns pela resenha.
    Beijos

  • Karen disse:

    Obrigada, Carol!
    King é ótimo mesmo, né. Também adoro esse cara.
    Beijão

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