Resenha: As Brumas de Avalon

As Brumas de Avalon é um livro único dividido em quatro partes distintas. Aqui no Brasil eu não sei dizer se foi lançado como livro único, só sei que existe uma edição com 4 volumes, que foi a que li. Como originalmente é único, vou falar da obra como um todo.

A história tem várias referências históricas e bíblicas, até, como o fato de José de Arimateia ter levado o Santo Graal, o cálice de Cristo, para Glastonbury, o mosteiro próximo da ilha sagrada de Avalon para as seguidoras da Deusa. Tem também algumas atribuições bem interessantes, como o fato de São Patrício ter sido bispo da corte de Camelot (St. Patrick, o patrono da Irlanda, que expulsou as cobras da ilha).

brumas_avalonNeste enorme e emocionante romance, a lenda do rei Artur é contada pela primeira vez através das vidas, das visões e da percepção das mulheres que nela tiveram um papel central. Igraine, Viviane, Guinevere, Morgana. Elas revelam, com as suas vidas e sentimentos,a lenda de Artur, como se fosse nova de, ao mesmo tempo, levam o leitor a integrar-se na história, de maneira natural e profunda. Assim, esta obra proporciona uma narrativa soberba de uma lenda, e a recriação dessa lenda, bem como a brilhante contribuição para a literatura do ciclo arturiano. Fonte

Essa resenha pode conter SPOILERS, porém, se trata da lenda do Rei Arthur. Se você conhece algo dessa lenda, você tem mais ou menos ideia do que vai se tratar.

Essa é uma história que não se resume apenas a romance, mas também de toda a ascensão e queda de um reino, a disseminação do Cristianismo (e a alienação das pessoas) sobre a Religião Antiga – e tudo isso sob a ótica das mulheres da época, abordando muito o psicológico das personagens.

A_SENHORA_DA_MAGIANa primeira parte, A Senhora da Magia, temos como destaque Morgana e sua tia Viviane, a Senhora do Lago e Sacerdotisa de Avalon. Após fazer o casamento de sua irmã Igraine com Uther Pendragon, rei recém-coroado da Bretanha, e após o nascimento de Arthur, Viviane leva Morgana para Avalon para que ela se torne sacerdotisa.

A partir desse ponto, a história passa para o ponto de vista de Morgana, que vai crescendo de acordo com os ensinamentos de Viviane. Confesso que fiquei muito fascinada com alguns detalhes dos rituais antigos, a forma como o povo daquela época interagia e se comportava com respeito em relação às sacerdotisas de Avalon. É ainda nessa primeira parte que conhecemos Lancelote e Gwenhwyfar. E por último, e não menos importante, conhecemos Arthur, que é coroado rei da Bretanha (ou melhor, Gamo-rei) primeiramente nos ritos da Antiga Religião. O ápice dessa parte é justamente o Rito de Beltane e suas consequências no futuro.

A Grande RainhaA segunda parte, A Grande Rainha, é centrada em Gwenhwyfar, que teve seu casamento arranjado com Arthur por ser vantajoso para seu pai e para o recém-coroado rei. Infelizmente, Gwenhwyfar já estava apaixonada por Lancelote, que correspondia com igual fervor e adoração, mas nada poderiam fazer quanto a isso.

Claro que temos a participação de Morgana, que havia engravidado de Arthur nos ritos de Beltane e deu à luz nas terras de sua tia Morgause, mantendo a gravidez e a criança em segredo. Morgause, inclusive, é uma personagem que vai mostrando suas garras aos poucos e acaba influenciando muitas decisões na história, principalmente em relação ao filho de Morgana, Gwydion (futuramente também chamado Mordred). Morgana tenta voltar à Avalon, mas não consegue passar pelas brumas, sendo obrigada a voltar para o reino de Arthur, em Camelot. Lá, ela terá um papel fundamental para o desfecho dessa parte, uma das mais polêmicas da história.

Arthur começa a ver problemas quando seu casamento não dá frutos e sua esposa começa a culpá-lo por não conceber, dizendo que foi por algum pecado dele ou por ele continuar seguindo a Deusa. O pior é ver como Arthur cai nas chantagens emocionais da esposa por ter bom coração, e acaba sacrificando sua própria forma de pensar para satisfazê-la. Mesmo assim, Gwenhwyfar se torna amarga e rancorosa. Ora, ela se sente presa por um casamento que não queria e não pode usufruir da mesma liberdade que Morgana e o pior: não conseguia conceber.

E aí começam também alguns problemas políticos: Arthur foi coroado rei na Ilha do Dragão e tinha prometido lealdade à Avalon. Gwenhwyfar era absurdamente contra, achava que Avalon era coisa do demônio e queria que seu marido se tornasse um rei puramente cristão. Mas muitos aliados de Arthur acreditavam na Antiga Religião, e as novas atitudes de Arthur como cristão os desagradava. Secretamente, porém, Gwenhwyfar não recusaria um feitiço de Morgana que pudesse fazê-la conceber…

O Gamo ReiEm O Gamo-Rei, terceira parte da história, vemos em primeira mão como está Gwydion, o filho de Morgana e Arthur. Ele é descoberto por Viviane e é levado para ter ensinamentos druidas em Avalon. Inclusive, é nesse livro que Arthur toma conhecimento de que tem um filho, ato que gera um grande ódio de Gwenhwyfar pela cunhada. Morgana, por sua vez, é enganada por Gwenhwyfar e acaba se casando com Uriens, quando queria mesmo se casar com o filho dele, Acolon. Nas terras de seu marido, a Deusa volta a se manifestar nela, tornando-a novamente sacerdotisa, em um dos momentos mais marcantes da história.

Com a morte de Viviane, Avalon acaba com uma nova sacerdotisa, Niniane, filha do antigo Merlin, porém não tão forte quanto Morgana. Avalon começa a se perder cada vez mais entre as brumas, afastando-se da terra dos homens, tão distante quanto o reino das fadas. Kevin, o Merlin atual, já previa essa queda e acha que é o ciclo natural das coisas. Já Morgana não aceita essa condição. Uma vez que Arthur se recusa a continuar seguindo a Deusa, ela começa a planejar substitui-lo.

O Prisioneiro da ÁrvoreE, por fim, O prisioneiro da árvore: Vemos o desfecho trágico para Camelot e seus personagens. O Cristianismo começa a aumentar e as pessoas começam a ficar cada vez mais “bitoladas”. Morgana começa a planejar que seu amante, Acolon, reine em lugar de Arthur, para que ela se torne rainha e que Avalon e a Antiga Religião voltassem a predominar na Bretanha, sem a influência do Cristianismo. Com seu plano fracassado, ela é obrigada a voltar para Avalon como fugitiva. Lá, ela treina Nimue, filha de Lancelote, para ser sacerdotisa e elabora um plano para castigar Kevin, o Merlin, que traiu Avalon e agora está a serviço de Arthur e dos cristãos.

Além disso, Gwydion, agora chamado Mordred, se apresenta na corte de Arthur e passa a integrar a Távola Redonda. Ele tem planos para conseguir a coroa para si, a começar se livrando da rainha: faria um flagrante entre Gwenhwyfar e Lancelote e forçaria um julgamento, que culminaria na morte de ambos. Esse plano, porém, fracassa com a fuga dos amantes. Gwen acaba em um convento e Lancelote pede perdão a Arthur.

Há ainda o desfecho de Arthur e Mordred, visto por Morgana pela visão e, finalmente, o destino de Morgana em Avalon.

É uma leitura densa, que você tem que fazer se estiver realmente disposto e com mente aberta, porque questiona muitos conceitos de certo e errado e também é uma crítica muito grande ao Cristianismo, principalmente quando mostra a forma como as pessoas na época começavam a se alienar e oprimiam outras crenças ou rituais (não necessariamente com violência, mas alimentando a culpa e tecendo uma lista de pecados e subsequente condenação ao inferno se essa pessoa não se convertesse). Com tudo isso, é uma ótima leitura.

A passagem do tempo é gradativa e muitas vezes você mal percebe quantos anos se passaram. Eu fazia as contas aqui conforme a leitura avançava (isso em todos os volumes).

Como eu disse lá em cima, a história é ótima. Ela flui sem você perceber, porque por mais que tenhamos conhecimento no mínimo supérfluo da lenda do Rei Arthur (como era meu caso), sentimos que esses personagens são mais reais, mais “humanos”, com paixões, dúvidas, tristezas, inseguranças e também amargura. A história se desenvolve e ganha vida de tal forma que não tem como você não querer acompanhar até o final.

Eu acho que falei demais por aqui e mesmo assim não passei tudo o que eu queria em relação a essa história. Eu recomendo muito a leitura dessa obra, como um todo, e seria muito interessante ela ser relançada no Brasil como livro único (o que assustaria no tamanho, mas valeria a pena).

Ficha técnica:

Nome: As Brumas de Avalon
Autora: Marion Zimmer Bradley
Editora: Imago
Minha avaliação:

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