Resenha: As Fúrias Invisíveis do Coração

John Boyne é aquele tipo de autor brilhante, do qual eu leria até sua lista de compras, mas que infelizmente às vezes passa batido da maioria dos leitores. Seu mais prestigiado romance, que inclusive foi adaptado para o cinema, foi O menino do pijama listrado, porém – ao menos na minha opinião – não é, nem de longe, o melhor livro dele, apesar de ser muito bom. É em livros como As Fúrias Invisíveis do Coração que realmente o leitor se depara com o ápice do talento do escritor, em uma obra madura, sincera e visceral.

“Cyril Avery não é um Avery de verdade ou, pelo menos, é o que seus pais adotivos lhe dizem. E ele nunca será. Mas se não é um Avery, então quem é ele? Nascido nos anos 1940, filho de uma jovem solteira expulsa de sua comunidade e criado por uma família rica irlandesa, Cyril passará a vida inteira à mercê da sorte e da coincidência, tentando descobrir de onde veio — e, ao longo de muitos anos, lutará para encontrar uma identidade, uma casa, um país e muito mais. Além das incertezas de sua origem, ele tem de enfrentar outro dilema: é gay numa sociedade que não admite sua orientação sexual. Autor do best-seller O menino do pijama listrado, John Boyne nos apresenta à sua maior empreitada literária até então, construindo uma saga arrebatadora sobre aceitar-se e ser aceito num mundo que pode ser cruelmente hostil. Uma leitura necessária para os dias de hoje, que reitera o poder do amor, da esperança e da tolerância.” Fonte

Se você acha que o Brasil é conservador (e realmente é, tenham medo), não conhece a Irlanda dos anos 40. Lá, a Igreja Católica tinha controle completo sobre o Estado e a sociedade, e os padres mandavam e desmandavam na vida das pessoas, inclusive na sua vida íntima. De fato, era um dos piores lugares para um homossexual viver, e foi justamente lá que Cyril Avery nasceu. Sua história – e o livro – começa com a de sua mãe, Catherine Goggin, uma jovem de dezesseis anos que foi expulsa do pequeno vilarejo de Cork por ter engravidado precocemente e partiu, sozinha, para Dublin, onde entregou o filho para a adoção. Cyril foi adotado pelo casal Avery, Maude e Charles, mas apesar de ter recebido conforto, nunca teve carinho e sequer era considerado “um Avery de verdade”. A vida pacata de Cyril, entretanto, toma um novo rumo quando ele conhece Julian Woodbead e, aos poucos, ao desenvolver um sentimento diferente pelo rapaz, descobre que não se interessa por garotas: em um país intolerante comandado pela Igreja, Cyril é homossexual.

Algo bem interessante é que a história da mãe de Cyril não termina aí, no momento em que ela entrega o filho para adoção; os caminhos de Cyril e Catherine se cruzam por toda a obra. Catherine é uma personagem importante e que influencia o livro de diversas maneiras. As Fúrias Invisíveis do Coração, aliás, é um livro com diversas personagens femininas fascinantes, mesmo sendo uma obra que acompanha a vida de um personagem homossexual. Não poderia deixar de ser, sendo John Boyne o autor, um escritor que cria personagens de maneira brilhante, mas é sim um pouco a se ressaltar. Muitas vezes, na ânsia de retratar um bom romance gay, alguns autores esquecem de retratar os outros personagens ao redor, especialmente as mulheres.

É angustiante acompanhar a vida de Cyril. Você se afeiçoa rapidamente por ele, mas logo percebemos o quanto sua vida será difícil, afinal, ele precisa esconder quem realmente é, e ninguém consegue ser plenamente feliz se não for verdadeiro consigo mesmo e com as outras pessoas em sua vida. Além de esconder sua orientação sexual – e as consequências disso, como, por exemplo, precisar arranjar namoradas e fingir que gosta delas -, Cyril ainda precisa conviver com seu amor não correspondido, o melhor amigo Julian, durante anos. Gradualmente, vemos como a soma de todas estas dores corroem Cyril, como a depressão se infiltra pelas frestas de sua mentira e como isso o leva a considerar o suicídio várias vezes.

Mas nem tudo é tristeza, e temos momentos de felicidade também, e John Boyne os retrata naturalmente. Afinal, o que é a vida de todos nós senão uma colcha de retalhos de pessoas, momentos, tristezas e alegrias? É incrível como o autor constrói uma teia eficiente de acontecimentos e personagens que se interligam, acrescentando cada mais doses de complexidade a eles, mas jamais se perdendo, tudo se encaixando perfeitamente no final. Outro ponto maravilhoso é como todos os personagens, especialmente Cyril, são reais; nós nunca deixamos de amar Cyril, porém algumas vezes ficamos surpresos com os erros intensos e gigantescos que ele comete, na maioria das vezes, por medo. E no fim, nós compreendemos, porque é assim que nos sentimos quando cometemos os maiores erros de nossas vidas: com medo.

Largue, disse a mim mesmo.
Largue.
Simplesmente caia…
” Página 286.

O livro também retrata um dos romances homossexuais mais bonitos e verdadeiros que já li – aliás, este é um dos melhores romances em livros que já li. John Boyne consegue retratar, de maneira belíssima e simples, um relacionamento com seus altos e baixos, as diferenças entre os parceiros, e principalmente o amor – carnal e terno – entre os dois personagens.

As Fúrias Invisíveis do Coração é um livro doce e amargo, mas principalmente, verdadeiro. Há momentos em que você ri, há momentos em que você chora, há momentos em que você sente medo. Se os livros aumentam a empatia de quem os lê, este é um dos melhores livros para tanto; lê-lo é como viver uma vida inteira nas páginas de um livro. John Boyne tem o dom de retratar pessoas, e aqui ele o faz brilhantemente, com uma escrita firme, madura e sem rodeios, uma história emocionante que o fará refletir, sentir e lembrar para sempre.

Livro gentilmente cedido para resenha pela Companhia das Letras.

Ficha Técnica:

Título: As Fúrias Invisíveis do Coração
Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 536
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon / Saraiva / Livraria da Folha / Livraria da Travessa / Submarino / Shoptime / Americanas
Avaliação: 

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  • jis rocha disse:

    Ola
    Realmente li poucos livros dele e pra mim a leitura funciona nos momentos certos, as vezes abandono a leitura, mas num outro momento pego e leio tudo, estranho não?
    Adorei a sua resenha e imagino como o personagem deve ter sofrido e que bom que no final tudo se encaixa. Dica anotada para uma leitura no futuro.
    Bom Ano Novvo
    Jis Rocha
    Blog Cá Entre Nós

  • Andre Santos disse:

    Uma indicação incrível, já coloquei esse livro no meus livros pra ler. Com certeza trata-se de um romance ótimo pelo que disse. Você disse duas vezes que ele é gay, ficou meio repetitivo, pode ser só impressão minha. Mas sim adorei a resenha, obrigado.

  • Haise disse:

    Olá! Tinha visto bastante a divulgação desse livro, mas não fazia ideia de que ele tinha temas e personagens tão interessantes. Ele deu luz a personagens marginalizados e excluídos dentro de uma sociedade conservadora e fiquei bem curiosa pra saber como a história de todos irá se desenrolar. Adoro personagens femininas fortes, acho que foi esse o ponto que me chamou atenção. Além disso, nunca li nada do John, então acho que já é hora. <3 Ótima resenha.

  • Marijleite disse:

    Que resenha maravilhosa a sua! Acho que é a primeira que leio desse livro. Ainda não li nada do autor, mas depois da sua resenha já estou considerando começar por esse livro, parece ótimo e muito bem escrito.

  • rudynalva disse:

    Karen!
    Já gostei porque mostra a ambientação na Irlanda, poucos livros são ambientados por lá.
    Ver que Cyrilatravessou parte do século passado e chegou até a atualidade e que o enredo poderia ser real, de alguém que conhecemos, acredita que nos aproxima da leitura.
    Nunca li nada do autor e bem queria ler esse livro.
    Desejo uma semana abençoada e Um Novo Ano repleto de realizações!!
    “O objetivo de um ano novo não é que nós deveríamos ter um ano novo. É que nós deveríamos ter uma alma nova.”(G. K. Chesterton)
    cheirinhos
    Rudy
    1º TOP COMENTARISTA do ano 3 livros + Kit de papelaria, 3 ganhadores, participem!

  • Lilian de Souza Farias disse:

    Eu me acabei de chorar e sofrer com O menino do pijama listrado, é forte o livro e o filme, também gosto da adaptação. Não conhecia esse outro livro do autor e estou bem animada com As Fúrias Invisíveis do Coração e acho que preciso preparar meu coração para esta leitura.

  • Marcia Lopes disse:

    Olá!
    Que bacana adorei o tema abordar a homo de forma sensível e verdadeira! Quero ler com certeza! Eu li o OMDPL.
    Feliz 2018!

  • Beatriz Andrade disse:

    Bom, não acho o Brasil conservador (preconceituoso, com certeza), mas na mesma época em que se passa o livro o país era sim. Eu ainda não conhecia o livro, mas fiquei bem curiosa com a premissa dele, parece ser uma ótima leitura.

  • Maria Luíza Lelis disse:

    Olá, tudo bem?
    Eu ainda não li nada do autor, mas tenho muita curiosidade. O menino do pijama listrado, mesmo sendo o mais famoso dele, é o único que não pretendo ler porque chorei tanto com o filme que acabei criando um bloqueio.
    No entanto, fiquei interessadíssima em ler este livro, tanto pela temática quanto pela construção dos personagens. Aliás, adorei saber que o autor não deixo de trabalhar as personagens femininas e que soube dar profundidade a elas.
    Adorei sua resenha e já anotei a dica. Espero poder ler em breve.
    Beijos!

  • Jéssica Melo disse:

    Olá, infelizmente ainda não tive a chance de ler nenhum livro do autor, mas esse parece ser incrível, adoro quando os autores consegue construir uma historia que mistura altos e baixos tornando-a mais real junto com seus personagens *-*

  • Camila de Moraes disse:

    Olá!
    Eu não conhecia o autor e a história parece bem intensa e bem verdadeira. Gosto de leituras que me levam a reflexão de algumas condutas do ser humano. Acho que aproveitaria bem essa leitura.
    Vou colocar na listinha de leituras indicadas.
    Beijos!

  • Leituras Diárias disse:

    Olá, tudo bem? Sempre ouvi falar bem das histórias do autor, porém não tive a oportunidade de ler. Pude ver sua paixão pela história pela resenha. Adorei e com certeza dica anotada <3
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

  • Jessica Santos disse:

    Oie!
    Cara, que livro incrível! Esse autor merece todos os aplausos.
    Nunca li “O menino do pijama listrado”, mas quero muito.
    Só não o fiz ainda pois tenho medo de me envolver demais, e acabar ficando chorosa por mais tempo do que o necessário. Obrigada pelo post, ficou lindo!

  • Alvaro Hendrick disse:

    Achei interessante a proposta do livro pois já me indicaram outro livro do Boyne e me disseram que é incrível. Parece ser uma leitura bem legal. Adorei o post! Boa sorte com o blog :)

    Portal GATILHO
    https://portalgatilho.wordpress.com

  • Fabiana Scola disse:

    Tudo bem que a historia tem um dramalhão escondido que se for bem escrito tem tudo para ser um baita livro, mas algo me diz que é um livro chato. Vi que tu a nota foi 5/5 o que dá mais curiosidade em ler.

  • Thalita disse:

    Olá!
    Belíssima resenha, parabéns. Li todos os livros do Boyne lançados no Brasil e esse é com certeza um dos melhores.
    Bjs
    Thalita

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