Resenha: Belas Adormecidas

Uma parceria inédita entre pai e filho: dois Kings escrevendo um único livro. Apesar de isso ser bem interessante, não foi por isso que escolhi ler Belas Adormecidas (mas claro que foi um item que contribuiu); mas foi a premissa interessante da obra que me atraiu. Como seria um mundo completamente masculino, no qual todas as mulheres adormeceram? Seria tão diferente assim (afinal, nós ainda vivemos em um mundo masculino, no qual as mulheres precisam lutar dia após dia para conquistarem seu espaço)? King e King imaginaram um cenário apocalíptico e perturbador, em uma leitura que angustia e nos faz refletir.

“Pelo mundo todo, algo de estranho começa a acontecer quando as mulheres adormecem: elas são imediatamente envoltas em casulos. Se despertadas, se o casulo é rasgado e os corpos expostos, as mulheres se tornam bestiais, reagindo com fúria cega antes de voltar a dormir. Em poucos dias, quase cem por cento da população mundial feminina pegou no sono. Sozinhos e desesperados, os homens se dividem entre os que fariam de tudo para proteger as mulheres adormecidas e aqueles que querem aproveitar a crise para instaurar o caos. Grupos de homens formam as “Brigadas do Maçarico”,incendeiam em massa casulos, e em diversas partes do mundo guerras parecem prestes a eclodir. Mas na pequena cidade de Dooling as autoridades locais precisam lidar com o único caso de imunidade à doença do sono: Evie Black, uma mulher misteriosa com poderes inexplicáveis. Escrito por Stephen King e Owen King, Belas Adormecidas é um livro provocativo, dramático e corajoso, que aborda temas cada vez mais urgentes e relevantes.” Fonte

O livro se passa na pequena cidade de Dooling, e nós começamos a história dentro da penitenciária feminina que fica nos arredores da cidade, o que foi uma inserção brilhante e muito bem-vinda. A maioria dos personagens que acompanhamos está neste núcleo, e alguns dos melhores também. Somos apresentados a todos eles – e também aos principais habitantes da cidade – de maneira orgânica e gradual, o que é um alívio em se tratando de uma obra escrita, em parte, por Stephen King. Mas, assim como o vinho, ele também um autor que, mesmo já sendo brilhante, conseguiu se tornar ainda melhor com o passar dos anos, e em seus livros mais recentes temos esses inícios das suas obras e a apresentação dos personagens feita de maneira muito mais natural do que era realizada em livros como A Dança da Morte, por exemplo, que por mais que eu seja fã do cara, é um livro maçante em seu começo.

O que aconteceria se todas as mulheres do mundo dormissem? Quando o livro começa, na primeira manhã da Aurora – como fica conhecida a “doença” -, o mundo já está começando a sentir os efeitos e as primeiras mulheres do outro lado do planeta já adormeceram. Algumas sequer acordaram. A coisa toda está chegando aos Estados Unidos e o senso de confusão e pânico já começa a se instalar. Tudo fica ainda mais aterrorizante quando são transmitidas imagens de um homem que tentou remover o estranho casulo que cresceu em torno de sua esposa e aí… ela ataca. Quando os casulos são removidos, as mulheres se tornam seres bestiais e matam tudo o que encontram pela frente, especialmente homens.

Quando comecei a ler Belas Adormecidas, tive um pouco de receio do livro. Meu medo era que ele focasse demais nos personagens masculinos, já que toda a população feminina do livro estaria adormecida. Mas Stephen Owen foram extremamente criativos e manobraram com habilidade este fato, e as personagens femininas são excepcionais e têm uma participação muito mais ativa e importante que as dos homens. Há aquelas que lutam contra o sono, procurando maneiras absurdas de se manterem acordadas; há as que adormecem e despertam em um local novo e misterioso e lá formam uma nova sociedade; e, claro, por último e não menos importante, há Evie Black.

Evie é uma mulher estranha, que é presa pela xerife de Dooling, Lila Norcross, logo após matar violentamente dois traficantes de metanfetamina, enfiando a cabeça de um deles na parede um trailer. Ela é levada à penitenciária feminina, para ficar em custódia do psiquiatra do local – e também marido de Lila -, Clint Norcross. Mas aos poucos o que ele percebe – assim como todos que entram em contato com Evie – é que ela está longe de ser uma mulher comum: seus ferimentos se curam em questão de horas, ela consegue dominar ratos, flutua e, o mais chocante: ela dorme e acorda como se nada tivesse acontecido, diferente de todas as mulheres do planeta.

É incrível como Stephen Owen conseguiram criar tanta história – olha só o tamanho do livro, mais de 700 páginas! – em tão pouco tempo. A chave, talvez, seja acompanharmos vários personagens e suas diversas reações ao que está acontecendo, com seus pequenos e grandes conflitos, mas sem jamais perder o foco na história principal. Tudo se passa em questão de dias e, quando cheguei à metade do livro, ainda havia várias mulheres acordadas e eu não sabia muito bem para onde as coisas estavam caminhando, mas mesmo assim não conseguia parar de ler. Há algo de fascinante, apesar de horrendo, em como a sociedade humana é frágil e pode ruir ao menor sinal de mudança. Assustadoramente rápido, os homens se mostram incapazes de manter a ordem e a destruição toma conta. O absurdo se torna aceitável, a violência é a nova lei. Homens começam a atear fogo em mulheres encapsuladas, conflitos armados se iniciam. A questão que paira no ar é quanto tempo os homens conseguirão sobreviver sem se exterminar. Enquanto isso, as mulheres despertam em um novo mundo, sem homens, e lá começam a criar sua própria sociedade, que está longe de ser uma utopia, mas é muito mais gentil e organizada. É fascinante o contraste, e você fica realmente pensando: e se isso acontecesse, e se o mundo fosse reiniciado e as mulheres fossem responsáveis por construí-lo, como seria?

“Aquele era um mundo em que uma garotinha podia voltar andando para casa sozinha, mesmo depois de escurecer, e se sentir segura. Um mundo em que o talento de uma garotinha podia crescer junto com os quadris e os seios.” Página 558

E não é apenas este questionamento que o livro traz à tona: este foi um dos livros do King – e talvez aí esteja a influência de Owen, que claramente traz um frescor à obra – em que a diversidade está presente em todas as páginas, de todas as maneiras, novamente de maneira brilhantemente orgânica, como é o mundo, afinal: diverso. Há, obviamente, várias mulheres importantes no livro, e elas são negras, brancas, jovens, idosas, crianças, homossexuais, heterossexuais, mães, solteiras, casadas, viúvas, sem filhos, agentes da lei, presidiárias. E há também uma incrível quantidade de homens diversos. Portanto, o questionamento sobre minorias e igualdade está sempre presente. Um dos que mais me tocou foi sobre a violência policial contra os negros, somente um exemplo de uma questão levantada na obra. Há várias outras, tornando impossível fechar o livro e não se perguntar: o que estamos fazendo com nosso mundo e como estamos tratando as outras pessoas? O livro esfrega na nossa cara algo essencial: somos todos iguais.

Belas Adormecidas não é apenas um livro para fãs de Stephen King e de obras de terror, mas uma obra importantíssima, uma leitura reflexiva e perturbadora em vários níveis. É muito bom ver que um escritor consagrado não parou no tempo e também é capaz de evoluir. E também foi ótimo ler esta parceria e encontrar a mão de Owen King na obra. Não se assuste com as mais de 700 páginas do livro: elas passam num instante, é quase impossível largar o livro (apesar dos braços cansarem!). Assustador mesmo é conhecer a natureza violenta humana. Não há nada sobrenatural que seja mais aterrorizante que nós mesmos.

Livro gentilmente cedido para resenha pela Suma de Letras, selo do Grupo Companhia das Letras.

Ficha Técnica

Título: Belas Adormecidas
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 728
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon / Saraiva / Livraria da Folha / Livraria da Travessa / Submarino / Shoptime / Americanas / Fnac / Walmart
Avaliação: 

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  • rudynalva disse:

    Karen!
    Na verdade nem todos os livros do King (e de sua prole) são de terror, alguns são mesmo de ficção com um jeito de thriller psicológico e acredito que é o caso aqui do livro, onde há uma série de novas doenças, o conflito entre os sexos, os mistérios em relação aos assassinatos e por aí vai.
    Gostei de ver que há uma introdução falando sobre as diversas personagens, o que deve facilitar o entendimento.
    Bom final de semana e Novo Ano repleto de realizações!!
    “Que a paz, a saúde e o amor estejam presentes em todos os dias deste novo ano que se inicia. Feliz Ano Novo!” (Desconhecido)
    cheirinhos
    Rudy
    1º TOP COMENTARISTA do ano 3 livros + Kit de papelaria, 3 ganhadores, participem!

  • Camila Soares Carter disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Eu ainda não li nada do King, e confesso que nem sou tão fã assim do gênero que ele escreve, mas depois de assistir à adaptação de It A Coisa eu fiquei bastante interessada nas obras dele, tanto que quero ler o livro antes da parte 2 chegar aos cinemas. Belas Adormecidas é um dos meus desejadíssimos de 2018, a premissa do livro me chamou muito a atenção e saber que é um livro dele com o filho, fiquei mais animada ainda. Espero gostar tanto quanto você!

    Bjs
    Blog Tell Me a Book

  • Fabrica Dos Convites disse:

    King é daqueles autores que realmente o tempo só acrescenta em seu talento. Este lance da diversidade que encontramos no enredo é ótimo, acho que deixa a história assustadoramente mais perto do leitor.
    Esta obra eu não li ainda, e apesar do meu interesse, não estou programando para já a leitura.
    Bjs, Rose

  • Bia (Paixões Literárias) disse:

    Oiie
    Eu adoro a escrita do Stephen King e adoro o mistério que os livros dele tem também. Não sabia que ele tinha escrito um livro com o filho, adorei a premissa, vou procurar para eu poder ler depois. Adorei a resenha.
    Bjos, Bya! 💋

  • Juliana disse:

    Oieee
    Tô muito ansiosa por essa leitura. Adoro o King e já li algumas obras e até hoje gostei de todas, essa com o filho estou colocando mais expectativas do que costumo colocar. Gostei muito da sua resenha e da forma como abordou a obra, agora estou mais curiosa.

  • Douglas Fernandes disse:

    Eu sou um fã muito grande do mestre King, e qualquer livro que vejo resenha dele já quero ler pra saver o que as pessoas estão achando e sempre me deixa louco pra ler um novo livro dele… hahaha
    Realmente ele tem uma imaginação de outro mundo, já li várias historias do autor, historias de vida dele, de seus vicios, de como nao lembra de ter escrito algum de seus livros(loucura né), achei o enredo dessa historia bem interessante e com certeza já entrou pra minha lista.

  • Josy Souza disse:

    Eu me tornei fã da escrita do King recentemente e já me acostumei com o começo maçante da narrativa kkk Esse eu ainda não li, mas certamente já está na minha lista!
    Beijos

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