Resenha: Boneca de Ossos

Boneca de Ossos é o primeiro livro do selo #Irado da Novo Conceito. Ele chegou em um envelope super caprichado, trazendo uma proposta mais irreverente, divertida e leve da editora. De cara já gostei do capricho da edição, que ainda é em brochura (os livros que vieram depois desse são em capa dura já), mas que traz ilustrações e um formato que chama a atenção do público infantil/adolescente, que é a faixa etária do selo. Confesso que não estava esperando muito desse livro e me surpreendi. Delicioso, divertido, com um toque sombrio, Boneca de Ossos me fez virar criança de novo. Esse livro é uma deliciosa brincadeira, mas que vem acompanhada com o gostinho doce e amargo do crescimento.

“Poppy, Zach e Alice sempre foram amigos. E desde que se conhecem por gente eles brincam de faz de conta – uma fantasia que se passa num mundo onde existem piratas e ladrões, sereias e guerreiros. Reinando soberana sobre todos esses personagens malucos está a Grande Rainha, uma boneca chinesa feita de ossos que mora em uma cristaleira. Ela costuma jogar uma terrível maldição sobre as pessoas que a contrariam. Só que os três amigos já estão grandinhos, e agora o pai de Zach quer que ele largue o faz de conta e se interesse mais pelo basquete. Como o seu pai o deixa sem escolha, Zach abandona de vez a brincadeira, mas não conta o verdadeiro motivo para as meninas. Parece que a amizade deles acabou mesmo…” Fonte

Primeiro: esse não é um livro YA, apesar de ser classificado assim. Acho que a melhor descrição que se pode fazer dele é daqueles livros que a gente (ou melhor, eu e alguns leitores que foram crianças/adolescentes lá nos anos 80/90) pegava na biblioteca para ler. Do tipo da coleção “Para gostar de ler” ou ainda da “Coleção Vagalume”. Sabem o sentimento? Bem, para que não sabe – ou não é dessa época ou não leu nada dessas coleções – Boneca de Ossos me trouxe aquele sentimento leve e ingênuo dos livros infanto-juvenis, aqueles que a gente lê quando está saindo da infância e passando pela entrada conturbada e confusa da adolescência. A autora soube descrever perfeitamente esse sentimento; seus protagonistas estão passando exatamente por essa confusão de sentimentos.

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Ao mesmo tempo que ainda gosta de brincar e inventar histórias com suas amigas, Zack, que é o excelente narrador do livro, também já se incomoda com a zoação dos outros garotos e com a implicância do pai que acha que está na hora do filho crescer. Enquanto isso, Alice já está começando a agir daquele jeito estranho que as meninas fazem, com risadinhas misteriosas e sentimentos incompreensíveis; por último, Poppy não quer crescer e está zangada porque seus amigos aparentemente a estão abandonando sozinhas na brincadeira – e na infância que gradualmente fica para trás.

Os três, desde pequenos, inventavam histórias fantásticas com seus bonecos. Histórias tão incríveis que, às vezes, só às vezes, pareciam reais. Lentamente a autora introduz essas dúvidas quando Zack acha que as palavras que diz são ditas, na realidade, por seu personagem na história (que é um pirata! YAY!) ou quando Alice parece estranhamente encarnar sua personagem, uma ladra esperta e imprudente (e Alice geralmente é tão prudente). Mas quando Zack desiste de brincar e não conta o verdadeiro motivo para suas amigas, Poppy resolve tirar da prateleira a Rainha, ou melhor, a grande boneca de porcelana que ficava guardada dentro da cristaleira e era a personagem mais sombria e forte de suas histórias. É então que eles descobrem que a boneca pode ser um pouco mais sinistra do que as histórias que inventavam, que ela na verdade não é exatamente feita de porcelana e que há uma história real e macabra atrás da boneca. E agora eles precisam ajudá-la.

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É então que os três embarcam numa incrível aventura, como nas histórias que inventavam. E essa jornada é deliciosa e envolvente. A narração de Holly Black é cativante e realmente coloca o leitor dentro da história; parece que você está ali, vivendo aquela aventura com aqueles três personagens tão distintos e verdadeiros. E eles são muito, muito reais. É como se você os sentisse. Zack, no papel de narrador, é brilhante por trazer ao mesmo tempo sua visão das meninas, da jornada e revelar todas suas dúvidas e sentimentos para o leitor. Achei impressionante como a autora conseguiu encarnar um menino tão bem em sua história. Em frases simples, mas carregadas de sentimento, a autora conseguiu entender perfeitamente o que se passa na cabeça de um menino dessa idade; a maneira como ele não compreendia as meninas, como se sentia estranho em seu próprio (e novo) corpo, a maneira como ficava dividido entre a infância segura e adolescência misteriosa.

“Achei que poderíamos fazer isto e, quando acabasse, teríamos algo que ninguém tinha: uma experiência que nos mantivesse juntos.” Página 178

A aventura é empolgante e você tem vontade de devorar o livro. Ele tem um toque gostoso de terror, com um clima sombrio que permeia todo a trama, mas ao mesmo tempo leve, e mescla esses elementos com ação, aventura e até mesmo um toquinho de romance, mas um romance muito bonitinho, ingênuo e delicado, como deve ser nessa época de descobertas. Nada arrebatado, nada exagerado. Simplesmente o primeiro amor, real e doce, como acontece na vida. Mas, mesmo assim, isso não supera a mensagem maior do livro, que é a de amizade. A jornada que os personagens passam não apenas os faz crescer e evoluir, como também amadurece sua amizade e a fortalece. O livro termina com o gostinho do fim de uma aventura e, apesar de parecer a última deles como crianças, é também o começo de novas aventuras. Porque a vida é cheia delas, não é mesmo?

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Apesar do livro se centrar nos personagens de PoppyZack e Alice, é através das suas vozes que conhecemos os outros personagens, e há uma parte importante e emocionante dos familiares das crianças, especialmente na relação conturbada entre Zack e seu pai. No final, isso rende algumas cenas que quase me arrancaram lágrimas e que teriam me arrancado se eu tivesse a idade certa para o livro. Caprichado, cheio de ilustrações, divertido e delicioso, esse é um livro que com certeza vou guardar para meus filhos. Mas vale a pena também ser lido pelos adultos que nunca vão largar totalmente seu pedacinho de crianças.

Livro gentilmente cedido em parceria para resenha pela Editora Novo Conceito.

Ficha Técnica

Título: Boneca de Ossos
Autor: Holly Black
Editora: Novo Conceito
Páginas: 224
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Douglas Fernandes disse:

    Acho a capa desse livro bem legal e sou doido pra ler, apesar de ja ser um pouco crescidinho… hahahaha
    Esse livro tem tudo que eu gosto, aventura, terror (mesmo sendo leve) e com essa resenha minha vontade só aumentou *-*

  • Nayara disse:

    Oi Karen!!!
    Aah, fiquei encantada pela resenha! *-*
    Não conhecia esse livro e agora quero ler o mais rápido possível!
    Mescla várias sensações e eu adorei! :DD
    Parabéns.
    Beijos

  • Fabiana Strehlow disse:

    Olá, Karen!
    Como eu nunca vou abandonar a criança que habita em mim, esse é um livro que está em minha lista desde o seu lançamento.
    Até porque, concordo com você, a vida é cheia de aventuras, e também, de confusão de sentimentos.

    Boa semana!

  • Shadai disse:

    Parece ótimo, mas mais para o público alvo, do qual não faço parte.
    Boa trama com bons personagens, só que eles passando por uma fase que já passei faz tempo e não tenho vontade de reviver, nem ler a respeito, não há identificação, é isso que prefiro quando estou lendo algo, experienciar algo que eu me identifique.
    Mas fica esse livro como dica para um público novo mesmo.

  • Michele Lopez disse:

    Estou encantada com o livro! Primeiro essa capa incrível que adorei!!! Sou roqueira e por isso gostei tanto rsrsrs
    Gosto bastante do gênero infanto-juvenil e confesso que estou muito interessada em ler o livro. O enredo também parece ser ótimo, com personagens bem elaborados e que nos faz reviver uma fase ótima da qual vivemos. Pretendo ler!

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