Resenha: Boneco de Neve

Depois de toda a campanha de marketing em cima desse lançamento da Record, eu fiquei ainda mais ansiosa para lê-lo, e olha que eu já queria assim que vi a lista de lançamentos. Afinal, é policial e tem na capa a frase “macabro e perturbador”, o que para mim é como um letreiro em neon dizendo “LEIA AGORA!”. Sou a leitor mais psicótica aqui do blog e, por isso, livros de terror – ou com algo disso – são comigo mesmo. Mas vou ser petulante e dizer que o The Guardian, que classificou o livro desse jeito, precisa ler mais livros macabros, porque Boneco de Neve não perturbou nadinha. Se vocês querem algo realmente perturbador, por favor, voltem lá na resenha de Nada, que também é da Record, e aí sim se sintam incomodados pra valer. Aquilo sim foi um um #epicwin. Agora, Bonece de Neve é assim, assim, nada demais, sabe? Leiam a resenha e entendam porque esse livro não fez nem cosquinha.

“Considerado seu livro mais ambicioso pelo jornal inglês The Guardian e comparado a Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, pelo The Times, Boneco de neve é o seu livro mais arrepiante. No dia da primeira neve do ano, na fria cidade de Oslo, o inspetor Harry Hole se depara com um psicopata cruel, que cria suas próprias regras; O terror se espalha pela cidade, pois um boneco de neve no jardim pode ser um aviso de que haverá uma próxima vítima. No caso mais desafiador da sua carreira, Hole se envolve em uma trama complexa e mortal, com final surpreendente.” Fonte

Espera um pouco, eu preciso de novo dizer: “comparado a Silêncio dos Inocentes”? Tá de brincadeira comigo, né? The Sunday Times, vocês aí precisam voltar e ler/assistir novamente O Silêncio dos Inocentes. Porque o tal do Boneco de Neve não chega nem ao dedo mindinho do pé de incrível e sádico Hannibal Lecter.

Ok, vamos passar por cima disso. Não acreditem no que dizem as palavras na capa e na contracapa do livro. Esse jornais precisam ler mais coisas macabras. Eles parecem que estão se assustando fácil demais.

Voltando ao livro, Boneco de Neve é o sétimo livro da série do inspetor Harry Hole. Aqui no Brasil, segundo minhas pesquisas, a Record lançou desde o volume 3 da série do inspetor. Vocês podem ver aqui nesse link os livros do autor pela Record (um deles não é da série do Hole). O primeiro e o segundo livros da série eu não encontrei no Brasil, nem pela Record, nem por outra editora. No site do autor vocês encontram a lista completa da série. Dá para ler tranquilamente sem ler o resto? Dá sim. Eu nunca tinha lido nada da série ou do Nesbo, e não me senti perdida nem tive a sensação de estar descobrindo coisas demais sobre outros livros. É sim um livro único, que você pode ler sem medo.

(…) enquanto ouvia suas mentiras cansativas e tentava encontrar sentido no que fazia: aprisionar pessoas que já estavam aprisionadas em si mesmas. (Página 12)

Agora, sobre a trama… Harry Hole, um detetive alcóolatra e obcecado por serial-killers (ele foi o único a pegar um na Noruega) recebe uma carta muito estranha de um maluco que se intitula “Boneco de Neve”. Além disso, estranhos desaparecimentos voltam a ocorrer: todas as vítimas são mulheres casadas e com filhos, e sempre há um boneco de neve na cena. Esses desaparecimentos também ocorreram anos antes, em outro distrito que não o de Oslo, que é onde o policial trabalha. A investigação começa e logo Harry percebe que não se trata apenas de um simples desaparecimento, mas de um caso de assassinato. Junto com a sua equipe e a novata Katrine Bratt, ele inicia a investigação. Além da perseguição, nós acompanhamos também o relacionamento fracassado de Harry com a ex-namorada Rakel, que tem um filho, Oleg, muito apegado a Harry. Ela agora tem um novo namorado, mas não consegue esquecê-lo. E nem Harry a ela.

O livro é narrado por vários pontos de vista. Vários mesmo. Há muita narração do Harry, mas nós passeamos pela cabeça de vários personagens: os policiais – e a única que é realmente interessante é a Katrine; as vítimas (aí sim é bacana, mas algumas parece só enrolação) e das pessoas que Harry conhece, como Rakel e seu filho Oleg. São tantos que tem momentos que eu me confundi e precisei voltar para descobrir quem era, e para mim isso só pode significar uma coisa: tem personagens que não são tão bem desenvolvidos assim.

Além disso, há muitas tramas paralelas acontecendo, seja com Harry, seja com os demais personagens. Pense em “muitas” e multiplique isso por vinte. Tudo bem que o livro é sim inteligente, que quase tudo se interliga com o mistério principal – quase, porque tiveram sim muitas cenas e tramas desnecessárias -, mas isso foi muito cansativo. Às vezes eu não tinha mais a impressão que estava lendo sobre os assassinatos do Boneco de Neve e a investigação do caso, mas sim sobre algo completamente diferente. É como uma novela em que você tem a trama principal, mas o autor se desvia disso e começa a focar nos personagens secundários que não são tão interessantes assim. E a trama principal fica lá, em segundo plano, morna e esquecida. Isso me cansou muito e me fez largar o livro diversas vezes. Não dava vontade de continuar, eu perdia a curiosidade, não tinha aquela avidez de virar as páginas. Passei mais de duas semanas lendo esse livro, o que pra mim é uma eternidade. Na verdade, essa tensão, essa necessidade de virar páginas eu só tive lá no final, umas cem páginas antes do fim, e depois de ler 300 páginas entediantes e mornas eu confesso que já estava mesmo era de saco cheio do livro.

– Sabe de uma coisa, Sr. Hole? Para alguém que tem como profissão desencavar verdades incômodas, você certamente gosta de viver uma mentira. (Página 241)

Contribuiu também para esse cansaço o fato do livro ser muito descritivo, com parágrafos e parágrafos de descrição sobre lugares, pessoas e objetos. Eu entendo descrever lugares e objetos: mas é preciso usar de de bom senso, porque tem coisas que não são necessárias. É preciso construir uma ambientação, mas o leitor não precisa saber exatamente como é o lugar: ele pode ter uma base e depois imaginar o resto. A menos que seja algo muito, muito importante para a cena ou para o livro. E quanto às pessoas, prefiro muito mais quando conhecemo-las pelas suas atitudes, não pela descrição. E por colocar tantas pessoas em um livro e querer torná-las importantes, acredito que Nesbo pecou pelo excesso e abusou das descrições novamente.

Não vou negar: é um livro muito bem escrito. Nesbo tem domínio das palavras e escolhe-as com cuidado. É um policial muito, muito inteligente, brilhante, mas é cansativo. É uma escrita densa, pesada, que esgota o leitor mentalmente, tornando a leitura bem mais lenta.

Tirando Katrine Bratt, a investigadora novata que entrou na equipe de Hole, acho que não gostei e não me apeguei a mais nenhum outro personagem. Há muitos homens machistas nesse livro – não que Nesbo conduza isso como algo bom, mas o machismo está lá, presente e latente no livro – e há muitas personagens femininas fracas. Exceto Katrine. Ela chuta bundas, ela é inteligente, durona, independente, decidida e sensual – algo que tira proveito; ela é alvo de pensamentos e falas indecentes e grosseiras, inclusive do próprio Hole (já vou falar dele e de porque não gostei do cara), mas ela se defende muito bem sozinha. Uma das melhores cenas do livro para mim foi uma em que um dos policiais da Corporação é extremamente grosseiro, babaca e machista com ela, e Katrine o arrasa por completo. Ela vai parar na lona e, claro, fica com argumentos vazios como “ela é uma vadia”, que, enfim, são simplesmente coisa de gente idiota.

– Ok, Katrine. Sou um homem simples com necessidades simples.
Ela havia inclinado a cabeça para trás, como algumas espécies de animais fazem para mostrar subordinação. (Página 194)

Agora Harry Hole. Bem, ele me passou a impressão de um homem e policial patéticos. Não é apenas o leitor que é enganado no livro: Harry também é, e vezes demais. Há um limite para isso. Ele ficou desacreditado para mim. No final fiquei com a impressão que ele desvendou o caso por sorte e puro acaso, não por ser inteligente ou perspicaz, que é o que se tenta descrever no livro, mas não se sente o embasamento de atitudes. Entendem agora o que eu quis dizer lá em cima com as descrições? Não adianta você dizer que um cara é inteligente se ele não prova isso. E Harry não pareceu esperto. Tava mais para desesperado e sortudo. E contou com muita ajuda também. Além disso, ele é um homem e um personagem fraco. Não dá vontade de acompanhá-lo. Teve momentos que confesso, eu torci para o Boneco de Neve.

Agora, o assassino. O Boneco de Neve. Claro que não vou falar quem ele é, mas gostei do personagem – quando ele era uma incógnita e quando se revelou. Gostei da conexão inteligente que a história fez. Mas não gostei que ele não foi macabro. Tá certo, teve uma… UMA cena bem sinistra e assustadora. Mas foi uma só. Só ela me empolgou. Todas as outras foram descritas, não narradas, e não teve aquele sentimento de medo, de algo terrível acontecendo. De novo: o livro se perde em histórias paralelas e o foco se desvia do verdadeiro problema, do caso do Boneco de Neve, e aí você não sente o medo, o terror que deveria sentir dele. Ele fez coisas horríveis? Fez. Mas elas foram atenuadas pelo restante das tramas e pelo espaçamento enorme que tinha entre um acontecimento e outro, entre o autor narrar coisas menos importantes e só depois voltar a mexer na ferida. Havia muita banalidade nesse meio. E, bem, principalmente no final, o autor abusou de clichês. Eles são bons até certo ponto, mas é preciso novamente bom senso para não cair no ridículo. E pra mim foi o que aconteceu. Um exagero.

Usando caneta, não dava para apagar, não dava para mudar nada; o que desenhava teria de ficar assim para sempre. (Página 105)

A edição é caprichada e confortável para leitura. A capa é simples, mas transmite a mensagem que se deseja com o livro. Também não acho que policiais devam ter capas muito elaboradas, eles geralmente são livros práticos e direto ao ponto, e a capa deve refletir isso.

Se eu gostei do Boneco de Neve? Não. Se eu leria outro livro do Nesbo? Talvez. Acredito em segundas chances e quero dar mais uma a ele. O cara escreve bem e é muito inteligente, além de ter uma mente mirabolante. Mas precisa urgentemente economizar nas descrições. Às vezes menos é mais.

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Record!

Ficha Técnica

Título: Boneco de Neve
Autor: Jo Nesbo
Editora: Record
Páginas: 420
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Melissa de Sá disse:

    Ai, fiquei entediada só de ler sua resenha. Livros policiais têm que ser MUITO bons pra me fisgar porque esse não é nem de longe meu gênero favorito.

  • Lucy disse:

    Cara, se o autor tem essa necessidade de criar história paralelas para mais de 50% das personagens de um livro, acho que é o caso de ele tirar algumas (quase todas) dessas histórias e fazer um novo livro, senão fica uma grande novela. Realmente deve ter cansado, só de você falar me deu arrepios (vejo semelhanças com o Sete dias em River Falls nesse sentido, mas ainda não achei tão exagerado). E ainda fazer o mistério ser descoberto meio que por sorte… quebra o clima, faz desacreditar no protagonista mesmo. u__u
    Uma pena, esperava mais.
    Bjos bjos

  • Jullyane Prado disse:

    Não curto o gênero Terror, sou medrosa de mais da conta, então não tenho muito a falar, porque só de saber que tem mulheres sendo assassinada e um boneco de neve na cena, já fiquei deprê e com medo!!! hehehehe!!!

  • Jessica Lisboa disse:

    Ah o livro apesar de aparentar sem bom, nao prendeu muita minha atenção no desenvolvimento. Entao por enquanto eu passo esse.

    xx

  • Isa Aragão disse:

    Apesar da resenhas serem <3 Não gostei muito do livro. Não me deixou com vontade para ler. Sei lá. Talvez eu dê um chance para ele. Mas, não me deixou com vontade ler.

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