Resenha: Boy Erased – Uma verdade anulada

Ficha técnica:

Nome: Boy Erased – Uma verdade anulada

Autor: Garrard Conley

Tradutora: Carolina Selvatici

Páginas: 320

Editora: Intrínseca

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Sinopse:

“Livro que deu origem a filme estrelado por Nicole Kidman, Russel Crowe e Lucas Hedges.

Em seu elogiado livro de estreia, Garrard Conley revisita as memórias do doloroso período em que participou de um programa de conversão que prometia “curá-lo” da sua homossexualidade. Garrard — filho de um pastor da igreja Batista, criado em uma cidadezinha conservadora no sul dos Estados Unidos — foi convencido pelos próprios pais a apagar uma parte de si. Em uma tentativa desesperada de agradá-los e de não ser expulso do convívio da família, ele quase se destruiu por completo, mas encontrou forças para buscar sua identidade e hoje é ativista contra as terapias de conversão.

Tocante e inspiradora, a história de Garrard é um acerto de contas com o passado, um panorama complexo das relações do autor com a família, com a fé e com a comunidade. O livro é o testemunho dos traumas e das consequências de se tentar aniquilar parte essencial de um ser humano.”

Boy Erased chegou ao Brasil em meio a uma polêmica: a Universal Pictures, distribuidora do filme inspirado na obra literária, desistiu de exibir o filme nos cinemas brasileiros. Em meio ao cenário político conservador que vivemos atualmente, a atitude foi considerada como censura nas redes sociais, mas a distribuidora alegou que foi uma decisão comercial, baseada em custos. De fato, o filme não decolou nos EUA, com uma bilheteria fraca e nenhuma indicação ao OSCAR. A obra cinematográfica será lançada em DVD, a partir do dia 17 de abril.

Se foi censura ou capitalismo (ou uma mistura dos dois), talvez nunca chegaremos a saber. Mas e o livro, lançado pela Intrínseca? Bem, é aí que fomos conferir. Gentilmente a editora nos enviou a obra através da nossa parceria de 2019. Será que vale mesmo a pena ou o hype foi maior?

Garrard Conley foi criado por uma família fundamentalista religiosa no Sul dos Estados Unidos. Seu pai, pastor, era um exemplo a ser seguido e admirado na comunidade, enquanto o garoto e sua mãe eram basicamente acessórios, ofuscados pela luz do pai. Porém, aos poucos, Garrard foi descobrindo sua sexualidade e que ele, na verdade, não gostava de meninas, mas sim de meninos. Porém, dentro da sua religião e da sua família, ser gay era um pecado comparável à pedofilia (e não, não estou exagerando, ele diz isso no livro).

Após sofrer um estupro de um colega da faculdade e ser denunciado pelo próprio como gay para a família, os pais de Garrard forçam o garoto de dezenove anos para uma terapia religiosa que promove a “cura gay”, prometendo transformá-lo em um homem heterossexual – e todo o estereótipo tóxico que a ideia ainda traz em nossa sociedade. É um pensamento horroroso e ultrajante, e quanto mais a gente lê o livro, mais revoltados e enojados ficamos.

Garrard descreve em detalhes a terapia pelo qual é obrigado a passar, intercalando os capítulos com cenas de sua infância e adolescência junto à família, à comunidade e à Igreja. Isso pode ser um pouco confuso pois, uma vez que não há uma grande diferença entre o “Garrard do passado” e o “Garrard do presente”, e a transição é um pouco brusca, o leitor pode se perder às vezes, mas acaba por se acostumar. Mas esse não é o maior problema do livro.

O que realmente complica é a escrita do autor, mal estruturada, confusa e muito descritiva, o que torna a leitura extremamente morosa. O texto não flui. Garrard se perde em reflexões repetitivas e um círculo vicioso de rancor, o que é até compreensível, tendo em vista a situação terrível à qual foi submetido, porém cansa durante a leitura de um livro. Além disso, percebe-se como, abstraindo-se o fato de ele ser gay, o autor era um garoto extremamente influenciado pelas ideias deturpadas e opressoras da sua religião e da sua família e não importava qual fosse sua orientação sexual, ele ainda assim sofria uma depressão profunda por encarar tudo – absolutamente tudo! – como pecado.

 

 

 

 

É assustador acompanhar esse processo, mas, ao mesmo tempo, a jornada de aceitação da sexualidade do autor se torna pequena perto da ênfase que ele dá à sua fé e à carga religiosa e quase doutrinária do livro em quase todos os momentos. Para quem não é religiosa, como eu, foi uma leitura bem difícil; esperava encontrar mais sobre homossexualidade e menos sobre religiosidade, mas não foi o que aconteceu. É uma obra muito mais sobre fundamentalismo religioso que sobre se descobrir gay.

O final é apressado, quase como se tivesse sido cortado. O livro termina com um gosto amargo. Não sabemos o que aconteceu com Garrard depois ou com sua família, tudo é pincelado muito por cima, deixando-nos sem respostas e sem algo positivo que venha após tamanho sofrimento. Terminei o livro sem esperança. Tudo bem, sei que o autor conseguiu seguir em frente e hoje é casado com um homem, vivendo sua sexualidade de maneira plena, porém sei disso porque li a biografia do autor na orelha, não porque está no livro. E pouco fiquei sabendo sobre o que restou do seu relacionamento com a família e a religião depois disso. Foi como se não houvesse uma conclusão.

A edição é confortável e caprichada, com uma ótima diagramação, uma boa tradução, revisão e preparação do texto. A capa do filme é apenas uma jacket, mas a capa é a original; pela primeira vez, gostei mais da capa do filme, mas apreciei o fato da editora respeitar a edição original e usar uma jacket, foi muito inteligente.

Vale a pena? Depende. Para mim, o livro não funcionou; já li muitos YAs de ficção que trouxeram mensagens muito mais profundas que esse livro. Mesmo assim, recomendo que leiam e tirem suas próprias conclusões.

 

 

 

 

 

 

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela editora Intrínseca

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  • Evandro disse:

    Tenho ouvido falar bastante sobre essa polêmica e, claro, a indústria do cinema vive de lucros e imagino que acharam um risco joga-lo em cartaz. Acho um assunto importante para se discutir, até pq , infelizmente sabemos que muitas famílias agem baseadas em princípios assim. Pena que o livro não tenha uma finalização adequada, ainda mais diante do que se sabe do autor nos dias atuais. Poderia trazer realmente uma mensagem, algo que justificasse o tema. Ótima resenha.

  • Carol Nery disse:

    Olha, mesmo sendo baseado em uma história real (ou talvez, seja mesmo por esse motivo), essas histórias não funcionam comigo. Eu sinceramente não gosto de ficar lendo esses sofrimentos, essas formas de criação que os jovens são obrigados a passar… nossa, me dá um sentimento horrível e prefiro optar por outros tipos de leitura.
    Tomara que funcione para outras pessoas. Mas, sua resenha foi bem esclarecedora.
    Um beijo.

  • Larissa Dutra disse:

    Olá, tudo bem? Não sabia da existência desse livro/filme ainda, mas pela premissa parece ser bem interessante; é uma pena que o final deixe a desejar. Adorei tua resenha sincera!

    Beijos,
    Duas Livreiras

  • Marijleite disse:

    Oi, eu estava bem curiosa para ver um opinião sobre o livro depois de toda a polêmica envolvendo a não exibição do filme. O extremismo religioso e como ele interfere na sexualidade é um tema interessante, pena que a escrito do autor e o desfecho da obra não lhe agradaram.

  • cila-leitora voraz disse:

    Olá, tudo bem?
    Esse é um assunto muito complicado. Quando a pessoa realmente acredita em uma fé, é difícil ela enxergar as questões sobre outro ponto de vista. Acaba sendo extremista mesmo. E esse “tratamento” infelizmente existiu, já li sobre ele, mas não sei realmente se ainda existe, mesmo que com outra roupagem, mas não duvido. Uma pena, esse assunto é importante ser discutido, mas pela narrativa do autor, confesso que não leria. Obrigada por sua resenha sincera.
    beijinhos.
    cila.

  • Alice Lacerda Montiel disse:

    Oiii

    Deve certamente ser um livro bem chocante por conta da dureza e polêmica toda que o assunto gera, certamente é daquelas histórias que nos faz refletir. No entanto, acho que não é um livro pra mim. Ando fugindo de livros mais densos, além disso esse final apressado me deixaria bem frustrada, não gosto de livros com finais assim.

    Beijos

    http://www.derepentenoultimolivro.com

  • Ana Caroline Santos disse:

    Olá, tudo bem? Que pena que o livro não funcionou para você. Vi bastante elogios por ai, porém achei alguns comentários seus pertinentes e que talvez me incomodaria, principalmente na escrita. Não sei se seria um livro que leria, não pela temática, mas o modo como trabalha. Ótima e sincera resenha!
    Beijos,
    http://diariasleituras.blogspot.com

  • Mayara Milesi disse:

    Ola!!

    Nossa, não estava sabendo dessa polêmica toda. Adorei a sua resenha, principalmente a sua sinceridade. Confesso que não sei se esse livro funcionaria para mim, é muito sofrimento e ainda mais com um final meio em aberto. Sem duvida, uma pena!

    beijos

  • Beatriz Andrade disse:

    Gostei da sua sinceridade, a premissa parece ser interessante, mas pelos pontos negativos que você ressaltou eu não sei se leria porque acredito que eles me incomodariam também.

  • Erika Monteiro disse:

    Oi, tudo bem? Que situação mais delicada. Mas entendo a produtora realmente apesar de ser entretenimento o principal objetivo é vender e faturar. Se isso não aconteceu nem nos EUA que foi o berço da obra quem dirá em outros países. Esse fato não é exclusivo desse filme vários que acompanhei no Festival Sundance ou em outras premiações jamais vieram para o Brasil. Então não acredito que foi censura apesar do tema estar tão em evidência. Beijos, Érika =^.^=

  • Tammy (Livreando) disse:

    Ouvi falar sobre esse livro e fiquei bem curiosa em assistir o filme, confesso, pois as opiniões que leio sobre o livro, não me anima tanto assim.
    Gostei de saber sua opinião sobre a obra e a sinceridade contida nela.
    Bjim!
    Tammy

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