Resenha: Corações Feridos


Quando vi a lista de livros de setembro da Novo Conceito, assim que bati os olhos em Corações Feridos, sabia que precisava lê-lo. É uma das melhores capas da editora: com detalhes em relevo, bem caprichada, soturna, melancólica e sombria. Além disso, a sinopse é bastante instigante. Talvez eu esperasse muito desse livro. O fato é que, apesar de ter gostado dele e tê-lo devorado em dois dias, ele ainda poderia ser melhor. Ficou faltando alguma coisa.

“Hephzibah e Rebecca são irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Enquanto Hephzi é linda e voluntariosa, Reb sofre da Síndrome de Treacher Collins — que deformou enormemente seu rosto — e é mais cuidadosa. Apesar de suas diferenças, as garotas são como quaisquer irmãs: implicam uma com a outra, mas se amam e se defendem. E também guardam um segredo terrível como só irmãos conseguem guardar. Um segredo que esconde o que acontece quando seu pai, um religioso fanático, tranca a porta de casa. No entanto, quando a ousada Hephzibah começa a vislumbrar a possibilidade de escapar da opressão em que vive, os segredos que rondam sua família cobram-lhe um preço alto: seu trágico fim. E só Rebecca, que esteve o tempo todo ao lado da irmã, sabe a verdadeira causa de sua morte… Hephzi sonhara escapar, mas falhara. Será que Rebecca poderia encontrar, finalmente, a liberdade?” Fonte

O livro é dividido em duas partes: na parte 1, temos a narração de Rebecca e Hephzi, ambas em primeira pessoa. A narração de Hephzi é marcada como antes, enquanto a narração de Rebecca é marcada como depois. Já na segunda parte do livro a narração é apenas de Rebecca.

Gostei bastante desse antes depois. Não é spoiler o que vou contar, pois está até na sinopse: o fato que mudou a vida dessas duas irmãs e criou esse marco em suas vidas foi a trágica morte de Hephzi. Apenas Rebecca sabe exatamente o que aconteceu e, bem, isso só é revelado ao leitor bem no final do livro. Enquanto isso não acontece, acompanhamos as irmãs narrando sua terrível e triste história, antes e depois da tragédia.

Elas são irmãs gêmeas, mas bastante diferentes. Enquanto Hephzi chama a atenção das pessoas por sua beleza, Rebecca tem Síndrome de Treacher Collins, um problema genético de mau formação ainda no ventre materno, que causa uma série de deformações faciais. Devido a esse problema, Rebecca passa por várias de rejeições em sua vida, mas a pior está dentro de casa. As duas irmãs guardam um terrível segredo: quando seu pai, um fanático religioso, fecha as portas de casa, o lugar é dominado pelo horror. Desde violência física e verbal até uma série de humilhações, Rebecca e Hephzi viveram uma infância de sofrimento. A mãe das meninas nada faz para ajudá-la. Seus tios se afastaram, os vizinhos engolem o teatro dos Pais e a única que as ajudava, sua avó, faleceu em circunstâncias suspeitas.

Nós começamos a história em dois pontos diferentes: na narração de Rebecca, encontramos a garota fragilizada por dentro e com uma carapuça de dor ao seu redor logo após a morte da irmã. Do lado de Hephzi, encontramos as meninas começando a ir para a escola, que elas jamais frequentaram antes. Enquanto Rebecca sofre para acompanhar as matérias que o pai escolheu e ela não tem afinidade, além de conviver com o preconceito dos colegas, Hephzi tenta desesperadamente ser uma garota normal, criar amizades, conquistar um namorado e até ser popular.

“A única coisa que ela não sabia a meu respeito era que minha vida era uma droga, assim como a dela. Que eu achava tudo tão difícil quanto ela. (…) Eu via as pessoas rindo dela (de Rebecca) o tempo todo; eu tive de ver isso a minha vida toda e por muito tempo achei que isso fazia mais mal a mim do que a ela.” Página 65.

O que me incomodou no livro foi mais o começo dele. A autora parece que demorou para encontrar seu ritmo e sua voz. As primeiras páginas têm uma narração um pouco superficial e é difícil sentir empatia pelas irmãs, especialmente por Hephzi, que no início é extremamente fútil. Acho que a ideia que a autora queria passar era que a garota estava desesperada para ser normal, mas no começo ela só passou uma impressão de ser arrogante e superficial. É só ao decorrer do livro que entendemos um pouco melhor as atitudes de Hephzi e até começamos a simpatizar com ela; a garota, afinal, apenas estava confusa e desesperada, mas tem um bom coração e, principalmente, ama a irmã.

Do lado de Rebecca, temos sua tentativa desesperada de sobreviver. Depois que a irmã se foi, as atenções do pai abusivo e controlador focaram nela. Hephzi era a favorita do pai, por ser bela e decidida, enquanto que Rebecca sofria mais os abusos e a violência por ser deformada. No começo temos a falsa impressão de que Rebecca é frágil e tentava se esconder atrás de Hephzi, mas aos poucos percebemos que é exatamente o contrário. Rebecca  se mostra uma personagem ferida em vários níveis, mas com uma força reprimida que vai surgindo à medida que as páginas avançam. É ela que mais se destaca na história e são suas narrações as mais interessantes e profundas. É Rebecca a responsável por nos fazer devorar páginas e querer descobrir o que realmente acontece do lado de dentro das paredes da casa paroquial.

Por todo o livro senti falta de conhecer mais os Pais, suas motivações, suas justificativas. Eles eram descritos muitas vezes com uma certa distância, ironia e reverência pelas garotas, e nós não tínhamos muitos diálogos entre a família. Na realidade, senti um pouco a falta de diálogos no livro: as partes com maiores diálogos foram as de Hephzi, e nem sempre eles acrescentavam, pois muitos se tratavam da sua vida na escola, com o namorado etc. Do lado de Rebecca, era tudo muito silencioso, principalmente por ela ser tímida e retraída. As maiores interações foram mesmo entre as duas irmãs. Mas acho que eu gostaria de mais cenas sobre a história da família que realmente acontecessem e não fossem apenas narradas por Rebecca e Hephzi. Senti falta de acompanhar em tempo real esses acontecimentos. Na maioria do tempo, nós apenas descobrimos o que aconteceu como se Rebecca estivesse contando uma história, não narrando acontecimentos. Não sei se essa era a ideia mesmo da autora, mas eu prefiro a segunda maneira, que causa no leitor um maior impacto emocional e nos coloca no centro dos acontecimentos.

“Ainda assim, ele me amaria daquele modo – apaixonadamente, como se pudesse morrer por mim se preciso fosse. Talvez fôssemos mais como Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy. Ele tinha de me ajudar a fugir, e foi isso que Darcy fez, ele resgatou Elizabeth de sua terrível família, e Craig poderia fazer o mesmo (…)” Página 112.

Há algumas citações a vários livros clássicos, pois Rebecca é uma ávida leitora (escondida do Pai que a proibia, claro) e contava as histórias para sua irmã. Fiquei dividida entre gostar ou não dessas citações. Há uma ótima referência a Frankenstein, de Mary Shelley, mas a autora pecou na citação a Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; achei que foi uma interpretação bastante rasa do livro. É aquele negócio, interpretação é algo bem pessoal, mas… não acho mesmo que Lizzie tinha uma “terrível família” e que Darcy a resgatou. Ela era muito independente para isso. E eles não morreriam um pelo outro, certamente. Orgulho e Preconceito está muito longe de ser esse tipo de romance.

A edição da Novo Conceito está bastante caprichada. Ultimamente todos os seus livros estão vindo com detalhes nas páginas e dessa vez é a imagem sombria e silenciosa de galhos de uma árvore no início dos capítulos. No entanto, encontrei alguns erros desagradáveis de revisão, especialmente um erro imperdoável na página 225:

“Entretanto, sentar com ele e comer juntos, à vontade um com o outro, me deixou-me feliz demais para perceber isso.”

O final foi um pouco apressado, na minha opinião. Não digo a parte de Rebecca, que foi ótima, mas sim quando descobrimos o que realmente aconteceu com Hephzi e a história e o desfecho dos Pais. Por todo o livro quis entendê-los, mas no final a explicação foi muito rápida, apesar de satisfatória, e eu não consegui me conectar emocionalmente. Em um livro tão profundo, complexo e chocante, a autora não conseguiu me emocionar. Não derramei sequer uma lágrima e senti falta disso. Talvez seja isso que falte nesse livro: uma conexão, um sentimento, uma empatia. Falta o leitor sentir a história e emocionar-se com ela. Mesmo assim, ainda é uma leitura válida e uma boa história.

Livro gentilmente cedido em parceria para resenha pela Editora Novo Conceito.

Ficha Técnica

Título: Corações Feridos
Autor: Louisa Reid
Editora: Novo Conceito
Páginas: 256
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura(e-book) / Amazon(e-book)
Avaliação: 

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  • Mariana disse:

    Ka, você disse as palavras certas: NÃO CONSEGUI ME CONECTAR EMOCIONALMENTE.

    Também não consegui. Faltou algo na história. Explicação, emoção, desespero ao narrar. Os fatos pareciam ser jogados para o leitor, não desenvolvidos para criar uma essência.

    Em relação a Hepzi, tive o mesmo sentimento que você, mas uma vez que peguei birra, não consegui me desfazer do sentimento. E como você disse, os diálogos que envolveram a personagem poderiam ser facilmente descartados, uma vez que não somam nada ao enredo.

    Sobre o Português, isso foi o que mais critiquei na minha resenha. Foi um Deus nos acuda. Sou implicante e não deixo passar. Fiquei irritadíssima por não terem adequado a linguagem à realidade das personagens.

    Não digo que foi uma pura decepção, mas esperava mais. Com uma ideia dessa dava para desenvolver bem mais e fazer o coração do leitor despedaçar.

  • Karen disse:

    Ah, eu também sou implicante, Mari. Fico de olho nessas coisas e falo mesmo. Como você disse, a linguagem tava adequada para duas garotas jovens e tão simples como eram. Mas o que foi pior pra mim foi mesmo essa falta de sentimento… Eu queria muito me emocionar e não consegui em momento algum, nem mesmo no final, porque ele foi rápido e eu já estava tão dura, que não conseguia mais sentir as coisas.
    Dava para fazer uma coisa muito melhor. A ideia era ótima.

  • Caroline Centeno disse:

    O livro estava no meu carrinho na última semana só que como não tinha lançado e era previsto para dia 8/10 resolvi comprar outro para esperar por esse,mas adorei o tema e na próxima vez vou comprar com certeza *-*
    Ótima resenha e me colocou os pés no chão porque minha expectativa estava bem alta devido ter adorado o tema e a capa do livro.
    http://romances-para-te-fazer-feliz.blogspot.com.br/

  • Carol Della Torre disse:

    Fiquei muito interessada no livro quando li a sinopse porque eu gosto bastante de drama e livros que me emocionam e, por isso, fiquei bastante decepcionada quando você disse que não conseguiu se conectar com a estória. Ainda pretendo ler, mas com expectativas mais baixas agora. Adorei a resenha! Beijos, http://rehabliteraria.blogspot.com.br/

  • Jullyane Prado disse:

    Quando esse livro foi lançado eu fiquei louca por ele, a capa é simplesmente linda e a sinopse é um tanto chamativa, esse livro me pareceu uma história bem emocionante, creio que muitas vezes essa religiosidade extrema prejudica a família e quantas famílias demonstram uma coisa em lugares público, enquanto que em casa é um verdadeiro inferno!! Quero muito conhecer a história dessas irmãs que tiveram os corações feridos!! Ótima resenha!!
    P.S: Bem que vocês podiam fazer uma promo ou colocar ele no próximo top!! ahhahahahaa Beijos!!

  • Manu Hitz disse:

    Adorei a sinopse! Nem de longe pensei que a história fosse de uma carga dramática tão intensa, adoro isso num livro!
    FIquei insegura quanto à lentidão do começo e da necessidade que vc cita em aprofundar mais alguns pontos, como as justificativas dos pais.
    Gosto de personagens bem construídos e achei que o livro tem isso, além do mistério, da abordagem psicológica, drama e conflitos familiares, além da difícil situação de Reb. Lembrei logo de August, de Extraordinário… quero ler, já para os desejados!

  • Ana Paula Ramos disse:

    Oie

    Ainda não estou motivada pela leitura, achei a capa bonita, mas mesmo na sinopse já não me chamou muito atenção.
    me parece ser um drama familiar…. com irmãs gemeas que tem personalidades diferentes, mas logico depois que uma morre a outra fica com todo o drama…. mas depois que vc ja falou que o inicio é enrolado, e o final é corrido…. (pq né???) mas o enredo mesmo não me chamou atenção, não tem jeito sabe!

    bjos

  • Rossana Batista disse:

    Poxa, é uma pena ter recebido apenas três estrelas. Já eu diferente de você, não fiquei com vontade de ler o livro logo quando vi o lançamento, mas depois de algumas resenhas super positivas ai sim deu vontade. Espero conhecer logo a vida conturbada dessas gêmeas.

  • Roberta Moraes disse:

    Pela resenha deu pra perceber que a história é bem emocionante e tocante. Vai ser bom conhecer a história contada o antes e o depois de tudo por cada uma delas. A capa é linda !

  • Jessica Lisboa disse:

    Esse livro me pareceu da quele tipo: é bom mas nao é bom. O enredo te uma pegada legal, mas parece que a autora deixa a desejar em algum pontos da historia, bem quem sabe futuramente eu nao o leia.

    xx

  • Dâmaris Carvalho Lima disse:

    O livro parece ser um pouco chato, não me animei muito com a resenha!

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