Resenha: Deuses Caídos

Ficha técnica:

Nome: Deuses Caídos

Autor: Gabriel Tennyson

Páginas: 300

Editora: Suma

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Sinopse: Um serial killer com poderes paranormais está assassinando evangelistas famosos — e os vídeos de cada um deles sendo torturados ganham cada vez mais público na internet. O assassino se proclama o novo messias, e os pecadores devem temer sua justiça. O que a Sociedade de São Tomé teme, no entanto, é que ele acabe com o trabalho de séculos de manter o sobrenatural bem afastado da consciência da população, embora seres mágicos povoem o submundo da cidade.

Para garantir que o assassino seja capturado e o máximo de discrição mantida, a Sociedade convoca Judas Cipriano — um padre indisciplinado, descendente de são Cipriano e herdeiro de alguns poderes celestiais. Veterano nesse tipo de caso, o padre é enviado para trabalhar como consultor da Polícia Civil e fica responsável por apresentar à jovem inspetora Júlia Abdemi o lado místico da cidade.

Para resolver o caso — e sobreviver —, os dois precisarão de toda ajuda que puderem encontrar… O que inclui se unir a uma súcubo imortal, um dragão chinês traficante de armas mágicas e um gárgula que é a síntese da sociedade carioca.

Comecei a ler Deuses Caídos com muita expectativa. Publicado pela Suma, que tradicionalmente é uma das editoras mais dedicadas ao terror no Brasil, Gabriel Tennyson foi apresentado como “uma voz nova e original do terror nacional”, nas palavras de Raphael Montes (resenhas aqui). Além disso, eu já tinha lido alguns contos independentes do autor, quando ele ainda assinava como Gabriel Réquiem, dos quais gostei bastante. Em Deuses Caídos, o autor traz uma investigação criminal em um imaginário brasileiro, com todos os seres que você possa imaginar, e muito gore.

E quando digo todos as criaturas, falo sério. O livro tem um universo amplo, repleto de seres sobrenaturais: santos católicos, vampiros, demônios, anjos, sacis, súcubus, golens, orixás, dragões… a lista é extensa. E, enquanto isso é positivo, porque mostra o quanto o autor se dedicou à construção de seu mundo, também é negativo, pois são criaturas e personagens demais. Enquanto no início tudo é novidade e o leitor fica impressionado com as criaturas que são apresentadas, logo o encanto se perde. A sensação é que, alguns personagens só estão lá para mostrar que existe tal criatura no universo, mas não para verdadeiramente cumprir um propósito na trama. A coisa toda vira uma salada, e os seres que deveriam ser excepcionais tornam-se banalizados.

Essa é a minha maior crítica ao livro, e é impossível não começar a falar dele sem falar disso. Mas há claro lados muito positivos. Um serial killer começa a assassinar líderes religiosos corruptos no Rio de Janeiro; ele não tem preferência, mata – de formas cruéis e sanguinárias – evangélicos, católicos, espíritas, enfim. Dois protagonistas são colocados na investigação: Judas Cipriano, um padre revoltado pertencente à Sociedade de São Tomé, que cuida para que o sobrenatural se mantenha afastado da população, e Júlia Abdemi, uma inspetora da Polícia Civil com o poder de penetrar o mundo cibernético através de sua mente – mas que é uma pessoa completamente cética em relação ao mundo sobrenatural.

As mortes dos líderes religiosos são muito bem descritas e realmente chocam. Não falta brutalidade, sangue e tripas. Gore em sua versão mais crua e nua. Ao mesmo tempo, a crítica religiosa é dura e pertinente, e quando ela chega, você realmente enxerga o grande potencial da obra.

Mas aí você tem os protagonistas. Eles não convencem, não geram empatia. De um lado, Judas Cipriano é revoltado demais, descolado demais, poderoso demais. Tudo é em excesso com esse personagem, o que torna difícil acreditar que ele vá ter alguma dificuldade em resolver as crises com as quais se depara e vencer seus inimigos; com um herói (ou um anti-herói) tão forte, é claro que os antagonistas parecem fracos e até patéticos. Judas nunca tem uma dificuldade real. É difícil acreditar nele e comprar a aventura.

Por outro lado, temos Júlia Abdemi, que é uma personagem sem tempero, o tipo de mulher claramente escrita através da ótica masculina, do que um homem apenas imagina como uma mulher vê o mundo e sente, mas sem profundidade. Ela age e pensa muitas vezes muito distante do que uma mulher realmente faria, e há cenas desnecessárias como uma na qual Júlia aparece tomando banho (na verdade, é a cena em que a personagem é apresentada, o que torna tudo ainda mais WTF?) e permanecendo nua dentro de casa, sendo que ela divide a casa com a filha e a babá da menina. Além disso, apresentada como cética, senti que Júlia muito rapidamente começa a rever seus conceitos e se abrir para o sobrenatural, para o que Judas dizia – isso sem falar que também muito depressa os dois estabelecem uma relação estreita, o que me fez descrer ainda mais do livro, já que o protagonista é um cara bem difícil de se afeiçoar.

Em contraponto ao herói genial, o bonzão, temos um vilão que, ao contrário do que se apresentava no início da obra, revela-se um personagem fraco e medíocre. Colocava fé nele, mas fiquei decepcionada. A batalha final ficou bem aquém do esperado; aliás, uma sequência anterior (talvez o segundo clímax do livro – considero que ele possui três) foi muito mais emocionante que o clímax final. Talvez penetrar tanto na psique do vilão tenha sido um erro; se ele continuasse um mistério, poderia ter funcionado melhor.

Mas o que realmente foi cansativo neste livro foi o excesso: de referências à cultura pop (nem todas encaixavam de verdade na obra, o que novamente gerou à banalização de algo positivo), de personagens, de criaturas, de descrições, de explicações. O autor estava muito preocupado em explicar seu mundo, mas desenvolveu pouco os personagens e seus relacionamentos, o que realmente gera empatia em um leitor. Se você não se importa com um personagem, é difícil se importar com todo o resto. E o excesso de explicações deixou pouca margem para o leitor imaginar, e a leitura se torna engessada, dependente dos comandos do autor.

Mesmo assim, acredito que a obra vai agradar a alguns públicos, especialmente para jogadores de RPG. Há quem aprecie um livro nesse sentido, talvez eu apenas não seja o público alvo. Esperava um livro de terror, perturbador, mas encontrei uma fantasia urbana nos moldes de um RPG elaborado, com muito gore. Para mim, nem todo gore é terror, e por isso, talvez, tenha me decepcionado. Aliado à uma edição caprichada da Suma, com uma capa atraente, espero de verdade que este livro encontre seu público, uma vez que o horror nacional está carente de escritores e escritoras.

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Suma, selo da Companhia das Letras.

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  • Pamela Carolina disse:

    Que livro interessante, gostei dessa diversidade de criaturas que o autor colocou no livro, o que acaba tornando a história ainda mais interessante e também acaba chamando um pouco a atenção do leitor.
    Gostei também da história ter uma investigação para prender o serial killer, histórias que tem investigação, acabam me dispertando curiosidade para lê-las, adorei sua resenha!

  • Carolina Durães de Castro disse:

    Oi Karen, tudo bem com você?
    Eu acho que a criatividade do autor é imensa, mas quando começa a misturar inúmeras situações e criaturas, torna a leitura um pouco dispersa.
    Bjkas

  • No Conforto Dos Livros disse:

    Olá!! :)

    Eu confesso que não conhecia este livro ainda, mas acho ótimo que tenhas trazido e que tenhas gostado!

    Enfim, e uma pequena que as personagens não tenham sido bem desenvolvidas, porque realmente são elas que geram empatia por nos!

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

  • Clayci Oliveira disse:

    Eu amo fantasia, mas assim como vc tbm tenho receio de encontra um universo cheio de personagens e ficar confusa com a história. Acho que tudo em excesso estraga… alguns autores se preocupam tanto em explicar o PQ de ter criado aquilo, que esquece que os leitores tem que ter a própria experiência e viver a história… Não conhecia esse livro, mas por ter indicação do Raphael, já considero uma possibilidade de ler. Sua resenha despertou meu interesse pela leitura, mesmo com as ressalvas. E AGORA SERA QUE DEVO, ARNALDO? ahuahuahuahauh

    Beijos

  • Ana Luiza disse:

    Oie, tudo bem?
    Nossa, que resenha sincera, parabéns! Eu não leio livros de terror/horror, e confesso que sou bem seletiva a fantasia, então acredito que eu não leria esse livro. Pelo que eu entendi autor tinha uma ideia boa e podia ter desenvolvido-a melhor, mas se perdeu em suas próprias explicações… é uma pena né? Mas tomara mesmo que o livro encontre seu público!

    Beijos,
    http://www.entrepaginas.com.br

  • Vanessa disse:

    Olá!
    Assim que comecei a ler a sinopse, achei que era um livro que seria totalmente o gosto do meu namorado, mas quando terminei a resenha fiquei na dúvida (pior que eu já tinha enviado o link para ele ver Hahaha), mas quando cheguei no final, eu acho que é o estilo dele sim. Vamos ver. Hahaha
    Acho que alguns autores acabam tendo tantas ideias de uma vez e esquecem de respirar e pensar em uma forma de harmonizar tudo. A menos que ele tenha a intenção de fazer do livro uma série para justificar a aparição de todos os personagens que não tiveram muito desenvolvimento, acaba sendo meio sem nexo mesmo. Muita informação para pouca ação.
    Sobre a superficialidade dos personagens, é uma pena.. A história tinha tudo para ser espetacular, mas sendo sincera… É bem no estilo de muitas histórias que eu vejo amigos homens lendo. Ele adoram um personagem que seja super foda (desculpa a palavra), mesmo que isso acabe tornando tudo meio que sem graça por ser fácil demais. Vai entender. :s
    Acho que ele tinha cartas na mão para desenvolver personagens intrigantes/complexos.
    Enfim, gostei da forma que você expôs seu ponto de vista, parabéns pela resenha! Sinto muito o livro não ter sido algo surpreendentemente agradável.

    http://www.garotasdevorandolivros.com/

  • Dayhara disse:

    Realmente, a Suma só publica coisa incrível quando o assunto é terror. Eu havia visto apenas fotos dessa obra, e não fazia ideia do que ela falava, achei bacana a proposta de misturar tantos seres assim, mas definitivamente, seria melhor focar em alguns poucos e se aprofundar neles, não? Sou um pouco medrosa e essas descrições acabam comigo haha, por isso, passo a dica.

  • Karini disse:

    Eu estou bem curiosa com esse livro, ainda que sua resenha tenha suas ressalvas e a leitura não tenha saído como esperava.
    Eu acompanho alguns textos do autor nas redes e gosto da sua escrita. Já li bons comentários sobre esse livro.
    Esse é o primeiro, se não me engano que põe críticas negativas, com isso fiquei ainda mais curiosa..

    Escrever uma fantasia que fique redonda e fascine não é para todos.
    Eu amo fantasia.
    Já vou com bem menos expectativas para essa leitura depois da sua resenha, assim não quero a cara rsrs Mas pretendo ler sim.

    Beijos..

    http://www.alempaginas.com

  • Fabrica Dos Convites disse:

    Uma pena que por estes pecados o livro ficou aquém do esperado. As vezes o pouco acaba se ressaltando mais.
    Bjs, Rose

  • Marijleite disse:

    Olá, eu via esse livro muito mais como uma fantasia do que como terror. Expectativas altas podem atrapalhar mesmo uma leitura, e com tantos elogios que já vi a esse livro, imagino como esse excesso em vários aspectos possa ter sido desanimador. Eu achei interessante essa junção de tantos seres sobrenaturais numa mesma trama. Ficou bem compreensível a sua avaliação do livro.

  • Ana Claudia Machado disse:

    Olá,

    Tô com esse livro aqui, e deve ser minha próxima leitura, concordo com vc que livros que tentam falar de tudo no fim não falam de nada. Mas uma coisa eu penso diferente de você, amo referências a cultura pop. Quando eu tiver lido passo aqui novamente e deixo minha opinião…

    Beijos e parabéns pela resenha…
    Blog Âncora Literária

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