Resenha: Encontre-me

Recebemos Encontre-me como uma gentil cortesia surpresa da Globo Livros. Aliás, a campanha de marketing desse livro foi bem bacana; antes de enviarem o exemplar a editora enviou um envelope negro com um post-it colado, onde estava escrito “Encontre-me”. Quando o livro chegou, fiquei bem curiosa para lê-lo, mas por culpa da minha imensa pilha de leituras só pude lê-lo recentemente. Foi um livro que me empolgou desde a primeira linha, mas que do meio para o final deixou muito a desejar. Com uma escrita ágil e uma trama tensa, Encontre-me seria um livro incrível se apenas insistisse no ótimo suspense ao invés de se deixar levar por clichês exaustivos.

“Um clima de suspense crescente, narrado sob o ponto de vista de uma heroína com a cara do século 21: a descolada adolescente Wick Tate. Órfã de mãe, e filha de um violento criminoso, a garota só confia em seu aguçado instinto de sobrevivência quando se trata de cuidar de si mesma e da irmãzinha, Lilly. Não confia em ninguém – nem mesmo nos pais adotivos com quem ela e Lilly temporariamente vivem num confortável lar de classe média alta próximo à cidade de Atlanta. Por isso mesmo, tenta se garantir mantendo uma secreta e rentável “atividade extracurricular”. Faz investigações on-line sob encomenda para mulheres que suspeitam da fidelidade dos parceiros. Wick é uma hacker de mão cheia.

O peculiar estilo de vida de Wick sofre uma reviravolta quando Tessa Waye, uma antiga amiga de escola, é encontrada morta e o diário dela acaba nas mãos de Wick. Em meio às páginas, uma enigmática mensagem: “Encontre-me”. Aos poucos, Wick involuntariamente é enredada numa rede de mistério que se transforma num desafio pessoal, quando se descobre que Tessa foi assassinada – e que Lilly pode ser a próxima vítima. Para chegar à identidade do assassino, Wick terá de contar com todo seu talento em programação de computadores, além da ajuda constante do vizinho, com quem tem uma certa tensão sexual, Griff.

Com um enredo que mantém o leitor agarrado ao livro da primeira à última página, Encontre-me é o livro de estreia de Romily Bernard e o primeiro da trilogia homônima, “Encontre-Me”.” Fonte

Encontre-me é um daqueles poucos livros que a gente pode afirmar com satisfação que conquistam o leitor logo nas primeiras páginas. Ele tem um ritmo ágil e alucinante, uma trama tensa e cheia de suspense, uma personagem complexa e interessante. Os relacionamentos são bem construídos, exceto por um deles, e é aí que o livro começa a pecar.

Como vocês já leram na sinopse, Wick é uma garota que não confia em ninguém. Ela faz o que pode para cuidar e proteger sua irmãzinha Lily, e não se sente segura mesmo quando ambas são adotadas por um bom casal. Elas tiveram essa infância horrível com um pai abusivo e violento (que cozinhava metanfetamina – #BreakingBadfeelings, yo!). Nesse meio tempo, ela aprendeu a hackear computadores com um amigo comparsa do pai, e agora ela usa esse conhecimento para ganhar dinheiro servindo mulheres que acreditam estar sendo traídas. Quando o livro começa, a primeira cena já é bastante tensa; há um policial rondando a casa onde Wick mora, que pode tanto estar atrás do pai das garotas, quanto da própria Wick.

“Sou uma espécie de Robin Hood de cabelos vermelhos – uma heroína, apesar de Lily olhar para mim como se eu fosse um tipo de vilã, como se eu pudesse ajeitar meu bigode enquanto amarro lindas donzelas a trilhos de trem, como se eu pudesse desapontá-la.” Página 17

Tudo está indo “bem” até que aparece um diário na porta da casa de Wick, com um post-it que diz “Encontre-me”. O diário pertencia a Tessa Waye, uma antiga amiga da garota, que se suicidou recentemente, assim como a mãe de Wick há quatro anos. A partir daí, a garota começa a usar seus talentos de hacker para tentar descobrir o mistério da morte da amiga – e também proteger sua irmã, que aparentemente é o próximo alvo do agressor de Tessa.

Como já mencionei, o livro é muito rápido e a leitura flui super bem. O relacionamento de Wick com os pais adotivos, a irmã e a amiga Lauren são bem montados, mas há, além disso, Griff. Ele é um cara da escola que Wick sempre sentiu uma quedinha praticamente um tombo. O primeiro problema do livro começa aqui: o romance entre os dois é totalmente forçado. Não consegui acreditar nele. Primeiro que é aquela coisa do tipo eles nunca tiveram nada, mas então, inesperadamente, o cara está incrivelmente atraído pela garota. Tudo entre os dois acontece muito rápido e suas interações não são convincentes. Além disso, o que mais me irritou é como a personagem muda quando está em cenas com Griff. Quando ele não está presente, Wick é uma garota forte, de opiniões próprias, independente e muito esperta; quando está com Griff, Wick vira uma irritante manteiga derretida. Ela diz coisas como “se sente menor perto dele”, “que ele a ilumina como o sol” ou ainda “que seu corpo se estilhaça em mil pedacinhos quando ele a toca”. Sério?! Gente, eu achei que estava lendo um thriller de suspense, não Estilhaça-me.

“Tudo que ele toca e tudo que ele tocou se acende. Sinto como se tivesse engolido o sol. A ponta dos seus dedos deixa um rastro de luz e calor na minha pele.” Página 140

Vejam bem: eu sei que sou chata com romance, mas não vejo problema algum em um pouco de romance num livro. O problema real aqui é que esse romance foi forçado e desnecessário em meio à ótima trama construída. É como se a autora perdesse o tom nesses momentos e tentasse vender um amor que não existe, empurrar uma tensão sexual goela abaixo. Romily Bernard tem um talento nato para o suspense e a ação, mas definitivamente não conseguiu acertar a mão no romance. A sensação que me deu é que originalmente ele sequer deveria estar ali; fiquei sentindo como se ele tivesse sido inserido no livro após a primeira escrita, como uma exigência da editora original, algo assim. Por que é muito forçado, mesmo. A personagem simplesmente não parece a mesma em cenas com Griff e cenas sem ele (e para meu alívio, não são muitas cenas com ele, há vários capítulos que ele simplesmente não aparece, o que reforça minha teoria de que o romance foi inserido após o primeiro rascunho).

Eu não entendo isso, gente, sério. Sei que é um Young Adult, mas isso não quer dizer que seja imprescindível uma relação romântica ali, uma tensão sexual. Parece que agora há essa obrigatoriedade na literatura – não importa o gênero – de um romance; e com essa moda New Adult e erótica, tudo tem que ter tensão sexual. Juro que não sou um coração gelado – as pessoas têm sim em sua vida romance e sexo, mas isso não é a razão de seu viver. Pelo menos não em um romance saudável, onde as pessoas são elas mesmas. Já me apaixonei e nem por isso me senti a lua sendo iluminada pelo sol ou qualquer coisa do gênero, ou sei lá, quis desfalecer nos braços de alguém. Isso é tão… século passado. Século retrasado, aliás. Orgulho e Preconceito, que é um romance de fato, por exemplo, não tem esse tipo de coisa, o que me deixa ainda mais pasma ao encontrar algo assim em um livro que é de suspense. Parece um retrocesso ao meu ver. Mas ok, eu divaguei.

“Quando Griff me toca, sinto como se alguma coisa dentro de mim se estilhaçasse.” Página 166

Se você esquecer os capítulos e as interações melosas com Griff, o livro caminha muito bem. O suspense é de tirar o fôlego e você vira as páginas ávido por saber mais, tentando adivinhar quem é afinal o homem que abusou de Tessa e agora está atrás de Lily. Cada capítulo se inicia com um trecho do diário de Tessa e as frases são terríveis, obcecadas e assustadoras. Algumas dão mesmo calafrios. Ao mesmo tempo, Wick é uma personagem incrível, inteligente e forte sem parecer pretensiosa. É interessante como a autora descreve as atividades dela como hacker, ficou bem crível – falando como uma profissional de informática que entende um pouquinho do assunto. Na verdade, um dos poucos equívocos que achei foi quando Wick acessou sua conta de e-mail do Google: um hacker não tem uma conta do Gmail, foi mal, mas isso não existe.

Há algumas tramas paralelas interessantes, como a história de Wick com seu pai, mas no final do livro a autora larga mão dessas tramas e elas ficam perdidas no livro; a sensação que dá é que elas eram boas, mas estavam lá apenas para encher páginas, não para acrescentar à história. Elas foram descartadas sem muito cuidado, explicação ou emoção. E então chegamos ao final, à conclusão da história principal, e a revelação…

E aí o livro desandou por completo.

Foi decepcionante. Estava muito óbvio quem era o abusador. Muito, muito claro. E o confronto foi simplesmente frustrante. Toda uma trama brilhante, bem conduzida, para terminar assim. É desolador. Mas ainda mais frustrante foi a última frase. Eu não tinha lido essa sinopse que está aqui no post e ela não existe nem na contracapa nem na orelha do livro; não há nenhuma informação (correção: há a informação na orelha onde está a biografia da autora, mas por algum motivo eu acabei não lendo isso até agora) e… bem, é uma série. Uma trilogia. Outra. E o gancho forçadíssimo indica a sequência. Meu único alívio foi perceber que, apesar disso, a história se fechou e não é necessário ler os próximos livros. Ficou como uma série policial, onde os volumes têm ligações, mas não são obrigatoriamente continuações diretas uns dos outros, o que é positivo de certa forma.

“Mas não importam quantas vezes as pessoas dizem que entendem… elas não entendem. Ninguém saca o que é ficar entre o que você tem e o que você não tem. Sua nova realidade se instala sobre a vida antiga, mas você não consegue, não consegue, não consegue esquecer o fato de que você já não tem mais mãe… ou filha.” Página 113

A edição ficou interessante, com uma capa instigante e poucos erros de revisão – mas há várias letras apagadas no meu exemplar, como se a tinta tivesse falhado. Uma coisa pequena que me incomodou foram as páginas; o papel é amarelo e confortável para os olhos, mas é muito grosso, então é trabalhoso virá-las. Elas ficam muito juntas e quando você tenta pegá-las, acaba virando várias páginas ao mesmo tempo. Tem que haver um meio termo: acredito que as páginas nem devem ser muito finas, nem muito grossas, como acontece aqui.

Apesar do romance fraco, Encontre-me ainda é um suspense que vale a pena ler, pois cativa e envolve. É o tipo de leitura que avança com rapidez: interessante, tenso e maduro, um Young Adult diferente no sentido de ser mais sério e sombrio, mas ainda assim peca no pouco cuidado com a personagem e no final pouco elaborado. Tinha potencial para ser muito, muito melhor.

Livro gentilmente cedido para resenha pela Globo Livros.

Ficha Técnica

Título: Encontre-me
Autor: Romily Bernard
Editora: Globo Livros
Páginas: 304
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Samuel Cardeal disse:

    Karen, quanto mais leio suas resenhas, mais quero ler seu livro! 😮
    Achei muito interessante seu comentário sobre o romance deslocado, imposto ao livro. Realmente isso incomoda. Minha esposa diz que o que eu escrevo falta romance, mas nem sempre um romance se encaixa na história e ver você, uma escritora, mulher, dizendo que não precisava do romance, me deixa muito contente, afinal, eu não sou tão errado assim.

    A trama do livro parece mesmo bem interessante, e pela sua análise, é muito provável que o tal romance adolescente tenha sido forçado goela abaixo da autora. Seria bom se pudessemos ter uma espécie de “Writer’s Cut” do livro.

    Ainda que a protagonista seja uma mulher forte com momentos de Bella Swan, vou pensar em ler esse livro.

    Abraço

  • Nayara disse:

    Fiquei super animada com a história lendo a resenha, até chegar na parte do romance! E romance forçado não rola! É horrível e todos percebem isso. A graça do romance é você ler e ver que os casais se combinam e ver que há de fato amor entre eles… não esse clichê de “precisa ter um casal apaixonado” .
    E outro ponto… se o livro é de suspense… o final não pode ser óbvio! Tem que ter aquela dúvida… não que eu seja escritora, mas falo como leitora mesmo. Prefiro a dúvida e errar o final do livro a acertar no meio, o que vai acontecer no final.
    E como você disse sobre quando a Wick está com o Griff eu lembrei na hora da Bella (como o Samuel) hahaha. Irritante!
    Ótima resenha!
    Beeijos

  • Jaynne Souza disse:

    Quando comecei a ler o post,achei que o livro não teria defeitos relevantes :s
    Gosto de ler Young Adult que tenham clichês,sem exageros claro,apesar da sua resenha esse livro não conseguiu chamar minha atenção.

  • Dâmaris Carvalho Lima disse:

    Apesar do livro ter um romance mal construído, interessei-me por ele, a trama de mistério me chamou muito atenção!

  • Shadai disse:

    Gostei da parte do suspense, mas assim que nem você, não iria gostar do romance e de toda a meloção que o envolve. Acho totalmente irreal a pessoa estar numa situação tensa de perigo em sua vida, e ao mesmo tempo ficar se preocupando com a vida amorosa, para mim isso não existe, só em livros e filmes mesmo.

  • Giovanna Territsen disse:

    Puxa que pena, eu estava esperando muito desse livro. Mas mesmo assim irei lê-lo.

  • camila rosa disse:

    kkkkkkkkkkkkkkk Nossa, ri demais, aquela parte em que você diz, prensei que estava sendo um thriller de suspense e não estilhaça-me foi muito boa.o livro parece ser bem interessante, e eu achei a garota muito duas caras, ah da licença quando não esta perto do amado é forte e tal, e quando esta perto dele fica falando essas bobagem, não dá, amei a resenha viu.
    Beijos!!!

  • Caroline Evans disse:

    Eu simplesmente comecei a rir aqui com essa parte: “Gente, eu achei que estava lendo um thriller de suspense, não Estilhaça-me.”
    Mesmo com os pontos negativos eu fiquei com vontade de ler o livro.

  • Top Comentarista – Julho « Por Essas Páginas disse:

    […] Antes de mais nada, o livro do Top Comentarista desse mês será Encontre-me. A resenha vocês podem conferir aqui. […]

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