Resenha: Enterre seus mortos

Ficha técnica:

Título: Enterre seus mortos

Autor: Ana Paula Maia

Páginas: 136

Editora: Companhia das Letras

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Sinopse: “Edgar Wilson é “um homem simples que executa tarefas”. Trabalha no órgão responsável por recolher animais mortos em estradas e levá-los para um depósito onde são triturados num grande moedor. Seu colega de profissão, Tomás, é um ex-padre excomungado pela Igreja Católica que distribui extrema unção aos moribundos vítimas de acidentes fatais que cruzam seu caminho. A rotina de Edgar Wilson, absurda em sua pacatez, é alterada quando ele se depara com o corpo de uma mulher enforcada dentro da mata. Quando descobre que a polícia não possui recursos para recolhê-lo – o rabecão está quebrado –, o funcionário é incapaz de deixá-lo à mercê dos abutres e decide rebocar o cadáver clandestinamente até o depósito, onde o guarda num velho freezer, à espera de um policial que, quando chega, não pode resolver a situação. Nos próximos dias, o improvisado esquife receberá ainda outro achado de Wilson, o lacônico herói deste desolador romance kafkiano: desta vez o corpo de um homem. Habituados a conviver com a brutalidade, Edgar e Tomás não se abalam diante da morte, mas conhecem a fronteira, pela qual transitam diariamente, entre o bem e o mal, o homem e o animal. Enquanto Tomás se empenha em salvar a alma, Edgar se preocupa com a carcaça daqueles que cruzam seu caminho. Por isso, os dois decidem dar um fim digno àqueles infelizes cadáveres. Em sua tentativa de devolvê-los ao curso da normalidade, palavra fugidia no universo que Ana Paula Maia constrói magistralmente, os dois removedores de animais mortos conhecerão o insalubre destino de seus semelhantes. Com uma linguagem seca, que mimetiza as estradas pelas quais o romance se desenrola, a autora faz brotar questões existenciais de difícil resolução. O resultado é uma inusitada mescla de romance filosófico e faroeste que revela o poderoso projeto literário de Maia.”

Antes de pegar esse livro, já tinha ouvido bastante sobre sua autora, a Ana Paula Maia, lá pelas bandas do Twitter. Ouvido coisas muito boas, vale frisar, e pude confirmar que era tudo verdade lendo Enterre seus mortosseu lançamento mais recente pela nossa parceira, a Companhia das Letras.

Edgar Wilson é descrito como “um homem simples, que executa tarefas” e isso realmente diz exatamente quem é esse personagem. Seu trabalho é dirigir uma caminhonete velha através de estradas poeirentas, recolhendo animais mortos que atrapalhem o trânsito, e depois dar a eles um fim, triturando seus corpos no depósito. Parece cruel, mas logo você percebe que não; cruel mesmo é negar dignidade até na morte, largando o corpo na estrada ao bel prazer de corvos e de intempéries. E é em um dia de serviço que ele encontra, em vez do corpo de um animal, o de uma mulher e, além disso, ele também esbarra na burocracia e no descaso.

Enterre seus mortos é a mistura insólita de uma narrativa dura e árida como o lugar “esquecido por Deus”, onde a história se passa, com uma trama intensa e triste, protagonizada por personagens simples, mas que sensibilizam profundamente o leitor. A morte permeia toda a trama, em suas diversas facetas, e a autora escancara a desigualdade social e o desprezo reservado para as pessoas em estado de vulnerabilidade – seja por sua condição social, raça, profissão ou orientação sexual -, tanto que é chocante como, algumas vezes, os animais são tratados com mais humanidade e dignidade que os próprios seres humanos, especialmente no momento derradeiro da morte. Essa, aliás, é a maior preocupação (e medo) de Edgar Wilson.

Por ser um livro com um tão sombrio e sério, no começo tive o receio de que fosse ser arrastado, mas longe disso. A narrativa flui maravilhosamente e o livro é uma delícia de ler. Vou ficar de olho na autora (e sugiro que fiquem também), porque certamente é daquelas para se acompanhar tudo.

Esta é uma daquelas obras difíceis de falar, é só ler e sentir mesmo. Recomendadíssimo.

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Suma, selo da editora Companhia das Letras

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  • Gisele disse:

    Olá, tudo bem ?
    Acho que é tão intenso e tão poderoso estes livros que de forma dura e simples nos trazem uma temática que nos fazem refletir e sentir, porque pelo enredo como você disse, a gente pensa que será arrastado, mas a leitura nos envolve e nos leva a toda a complexidade do sentir.
    Golstei bastante e anotei a dica.
    Beijos
    http://www.estilo-gisele.blogspot.com.br

  • Aninha Goulart disse:

    Oiiii,

    Nossa parece ser realmente um livro bem sombrio, eu não sei se leria por causa dessa pegada, mas parece ser uma história bem forte, porque lida com questões de morte, alma e tudo o mais, mas também fiquei curiosa para saber o porque das mortes e se tem alguma justificativa para os corpos serem largados assim. Eu realmente não sei se leria, mas parece uma ótima alternativa para quando se quer sair da zona de conforto, e ainda mais uma excelente dica para quem curte este tipo de história.

    Beijinhos…
    http://www.equipenerd.com.br/

  • Carolina Trigo disse:

    Oi, Karen!
    Eu não conhecia o livro nem a autora, mas fiquei curiosa com a trama. Gosto de histórias sombrias e me pareceu ser bem diferente do que já li no gênero. Também tive a impressão de ser uma leitura um pouco mais complicada ou até mesmo lenta, como você mesma esperava.
    Obrigada pela sugestão. Dica anotada!
    Bjss

  • Tamires Marins disse:

    Olá, Karen

    Não conhecia o livro e achei a proposta bem interessante. Conforme você foi discorrendo sobre a história eu estava tendo um pouco de dificuldade de visualizar a intenção, até o momento em que você falou sobre a desigualdade social. Imagino que de para dar uma bela refletida!

    Beijos
    – Tami
    https://www.meuepilogo.com

  • Luna disse:

    Diante dessa pandemia que o mundo está enfrentando, o título deste livro me provocou arrepios. E essa coisa dos corpos terem sido largados e ninguém parecer interessado em enterrá-los provoca grande tristeza. É um livro que eu evitaria em dias normais, mesmo que seja uma trama que venha a falar de desigualdades sociais e as diferenças gritantes nós tratamentos dados em vida (e até mesmo na morte) às pessoas conforme sua classe social. Ainda assim, seria um livro que eu já evitaria em dias normais. Diante dessa pandemia, prefiro me afastar ainda mais de histórias que me deixem ainda mais desesperançada.

  • Rayanni Kellsin disse:

    Olá, tudo bem? Não conhecia a obra mas adorei as suas impressões sobre a mesma, já irei providenciar para ler o quanto antes! Resenha está maravilhosa.

  • Antonia Isadora de Araújo Rodrigues disse:

    Olá!!!
    Não conhecia a autora e nem o livro, no entanto achei muito interessante ela abordar um tema tão sombrio para nós seres humanos. Achei intrigante que você falou que os animais são tratados com mais humanidade que os próprios humanos.
    Adorei a resenha.

    lereliterario.blogspot.com

  • Renata Cezimbra (Lady Trotsky) disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Eu conheço essa autora porque ela faz parte da ABERST e inclusive eu tava super interessada em ler esse livro, mas com tanta coisa que eu andei fazendo ultimamente, acabei meio que deixando a feitura dessa leitura de lado e fui para outros. Penso seriamente em alugar no Unlimited, se tiver disponível, e realizar a leitura.
    Um beijo de fogo e gelo da Lady Trotsky…
    http://www.osvampirosportenhos.com.br

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