Resenha: Falsa Submissão

“Chicotes, roupas justas de vinil negro, um cachorro dinamarquês. O prazer bizarro do sadomasoquismo não fazia muito sentido para Nora Tibbs, jornalista de uma cidadezinha da Califórnia. Isto até o brutal assassinato da irmã. Obcecada pela ideia de encontrar o criminoso, Nora se deixa conduzir pelo misterioso M. por um mundo de jogos perversos, sem regras ou limites, descobrindo os desejos mais primitivos e sensações antes inimagináveis. Atraída pelo magnetismo excêntrico de M., ela só não desconfia que a morte acompanha seus passos e pode até estar ao seu lado, na cama.
Suspense com altas doses do mais inusitado tipo de erotismo estão em Falsa Submissão, uma história perturbadora que marca a estreia literária da americana Laura Reese.” Fonte

A primeira coisa a se destacar sobre esse livro é que, apesar de ele ter sido relançado pela Editora Record após essa modinha de eróticos ele, de longe, não é mais um dos livros pertencentes a essa modinha. Não leia  esperando aquele romance sensual e ligeiramente sadomasoquista, mas no fundo, romântico, estilo “Cinquenta Tons de Cinza”. Na verdade não espere nada parecido com algum livro assim, porque Falsa Submissão, além de ser diferente dese livro citado em vários sentidos, ele também tem uma escrita fluida e competente, o que não se pode dizer desses livros “em tons”. Aliás, esse livro e muitos outros da modinha podem ser considerados ingênuos, até mesmo infantis, se comparados ao thriller de Laura Reese. Falsa Submissão não é um livro para estômagos fracos e está muito longe de ser um romance “romântico”. Esse livro é um suspense brutal, cruel, aterrorizante, perturbador e magnífico.

O livro é dividido em partes. Ele começa com a confissão de Nora a respeito da morte de sua irmã, a tímida e gordinha Franny, e em como ela promete não descansar enquanto não descobrir (e punir) o assassino da irmã. Nora desconfia de um único homem, o mesmo que Franny divulga detalhes em seu diário. Nora chama esse homem de M. e Franny de Michael. É então que começa a parte de Franny, o seu diário. Ela descreve desde o momento que conheceu M., o relacionamento dos dois, todas as experiências – às vezes sensuais, às vezes ultrajantes e humilhantes – que M. a fez passar. E em todos os momentos, percebemos como Franny é uma pessoa frágil, cheia de mágoas e muito carente.

Depois disso, voltamos a acompanhar a história de Nora. Ela decide procurar M. e tentar seduzi-lo. Porém, seu plano dá errado e ela é quem é seduzida. A partir daí, os dois iniciam um jogo de prazer, dor, dominação e um amor doentio. Nora continua obcecada com o assassinato da irmã e, ao mesmo tempo, descobre novos prazeres no sexo. A cada passo além que ela dá nesse campo, M. divide alguma informação do passado de Franny, algo que Nora não sabia. E ela não sabia de muitas coisas da irmã. M. descreve as experiências em que coloca Nora como “uma leitura tátil do diário de Franny”. As informações são sempre assustadoras. Enquanto Nora sente prazer e excitação com as experiências sexuais as quais M. a submete, para Franny as mesmas experiências resultaram em dor, sofrimento e extrema humilhação.

Essa é uma das partes mais brutais e verdadeiras do livro. Nada é romantizado. A autora mostra o quão tênue é a linha entre o prazer e a humilhação. M. é um homem racional e frio, que só consegue se satisfazer dominando, subjugando outra mulher e, muitas vezes, humilhando-a e causando-lhe dor. É um personagem duvidoso, que nunca se revela por completo, e por vezes o leitor também desconfia se estaria ou não falando a verdade. Começamos como Nora, com uma certeza absoluta que ele é o assassino de Franny para, aos poucos, essa imagem ser desconstruída quando as suspeitas (de Nora e do leitor) recaem sobre outra pessoa. No entanto, mesmo assim, continua a certeza que M. é um homem perturbado, inteligente e cruel.

Há cenas excitantes, porém há muito mais cenas nojentas. Algumas partes são difíceis de ler. Mais difícil ainda é pensar que realmente existem pessoas que fazem isso e sentem prazer. Excrementos e sexo com animais são as mais ultrajantes, ao menos na minha opinião. E novamente temos, nessas experiências, o contraponto entre Franny – que odiava tudo isso – e Nora, que chega a sentir prazer muitas vezes, para depois se sentir triste e ultrajada ao receber, como prêmio, as mesmas experiências sob a visão da irmã.

Também há cenas aterrorizantes. Uma delas é profundamente sufocante. Levei um choque quando li, porém a escrita de Reese é tão hipnotizante que é impossível parar a leitura, mesmo que incomode. Em dado momento, o leitor começa a devorar as páginas – sempre sentindo um certo desconforto no estômago – até chegar ao final, que consegue ser irônico, aterrorizante e libertador.

Gostei bastante da capa nova, mas ainda prefiro a capa antiga, que também está aqui no post. A edição está bem feita e atenciosa, e tiro meu chapéu para a Editora Record por editar um livro de alta qualidade e muito antes dessa modinha de eróticos.

Novamente insisto para que não leia Falsa Submissão esperando um romance. Leia sim esperando um suspense e até mesmo um livro de terror. E esteja preparado para as cenas fortes, muito fortes, que lerá.

Ficha Técnica

Título: Falsa Submissão

Autor: Laura Reese

Editora: Record

Páginas: 400

Onde comprar: Livraria Cultura

Avaliação: 

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  • Juliana Pires disse:

    Eu entendo pessoas que sentem prazer com a dor, mas não entra na minha cabeça como zoofilia e excrementos podem ser sexuais. Acho muito nojento e doentio, e apesar de sentir vontade de conhecer a historia do livro, fiquei com o pé atras com relação a esses temas.

    bjk

  • Karen disse:

    Pois é, Juliana, eu dei 4 estrelas por causa disso mesmo. Essas coisas doentes e nojentas são difíceis de ler, mas no contexto, elas fazem sentido, porque o livro muitas vezes mostra a parte doentia disso tudo, além da parte prazerosa. Não é um livro fácil de ler, algumas vezes é completamente aterrorizante, mas é muito bom. Não tem exageros, sabe? Tudo realmente faz sentido no contexto do livro. A autora tenta mostrar como a situação pode passar de prazer ao horror, ao doentio, ao humilhante, essa linha tênue entre essas coisas.

  • Carolina disse:

    Bom dia Karen, tudo bem?
    Esse tipo de livro não é a minha praia.. só de ler a sua resenha, já ficou bem claro que vou passar longe dele.
    Beijos

  • Vania disse:

    Ai Parceira… terror, mesmo? Eu tava empolgada pra ler porque parece ser o tipo de livro que faz com que eu saia da minha casinha, mas terror? Não gosto de sair pra tão longe da minha casinha hahahaha

  • Karen disse:

    O livro não é de terror. É um suspense erótico. Mas há momentos MUITO aterrorizantes. A vida real nua e crua às vezes é bem aterrorizante.

  • Bruna Souza disse:

    Choquei com esse “Não leia esperando aquele romance sensual e ligeiramente sadomasoquista, mas no fundo, romântico, estilo “Cinquenta Tons de Cinza”.” Já havia visto esse livro em alguns sites, mas achei que seria apenas mais um romance erótico imitação de cinquenta tons, assim como alguns outros. Mas agora vejo que estava errada, e estou realmente curiosa para ler falsa submissão.

  • Top Ten Especial: Dez livros para o Halloween « Por Essas Páginas disse:

    […] Um erótico de dar medo – e, curiosamente, é medo mesmo, gente, não é medo de tão ruim que é, o que geralmente acontece nos eróticos… Não, Falsa Submissão é ótimo e está mais para um thriller brilhante do que livro erótico, apesar de cheio de sexo, mas também é repleto de cenas que vão arrepiar até os ossos, se é que isso é possível. Resenha aqui. […]

  • Ana Paula Candido da Silva disse:

    Eu li esse livro e realmente no incio tava me agrandando, mais quando falou nas partes de animais não curti em nada.

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