Resenha: Frantumaglia

Apesar de nunca ter falado de Elena Ferrante aqui no blog, eu já tinha lido 5 livros dela antes de Frantumaglia. Li toda a Tetralogia Napolitanade A Amiga Genial – uma série maravilhosa, que devorei sem parar para respirar, um atrás do outro, como se fosse um grande livro único. Mas, antes da série, li também A Filha Perdida. Mas não fiz resenha de nenhum deles porque… vocês já sentiram que um autor é tão bom, tão genial, que somos pequenos para falar dele? É como se resenhar um autor desse calibre fosse algum tipo de pecado. Eu me sentia assim com Carlos Ruiz Zafón – e ainda me sinto, toda vez que preciso fazer uma resenha dele. Pois bem, Elena Ferrante é outra autora que me faz sentir assim, que é tão incrível e brilhante que me intimida, não como leitora, como resenhista.

“Cartas, entrevistas e trechos inéditos oferecem visão única de uma das maiores escritoras da atualidade.

Elena Ferrante, voz extraordinária que provocou grande comoção na literatura contemporânea, tornou-se um fenômeno mundial. O sucesso de crítica e de público se reflete em artigos publicados em importantes jornais e revistas, como The New York Times, The New Yorker e The Paris Review. Ao longo das últimas duas décadas, o “mistério Ferrante” habita a imprensa e a mente dos leitores, mas, afinal, quem é essa escritora?
Nas páginas de Frantumaglia, a própria Elena Ferrante explica sua escolha de permanecer afastada da mídia, permitindo que seus livros tenham vidas autônomas. Defende que é preciso se proteger não só da lógica do mercado, mas também da espetacularização do autor em prol da literatura, e assim partilha pensamentos e preocupações à medida que suas obras são adaptadas para o cinema e para a TV.
Diante das alegrias e dificuldades da escrita, conta a origem e a importância da frantumaglia para seu processo criativo, termo do dialeto napolitano que sempre ouvira da mãe e, dentre os muitos sentidos, seria uma instável paisagem mental, destroços infinitos que se revelam como a verdadeira e única interioridade do eu; partilha ainda a angústia de criar uma história e descobrir que não é boa o suficiente, e destaca a importância do universo pessoal para o processo criativo. Nas trocas de correspondência, nos bilhetes e nas entrevistas, a autora contempla a relação com a psicanálise, as cidades onde morou, a maternidade, o feminismo e a infância, aspectos fundamentais à produção de suas obras.
Frantumaglia é um autorretrato vibrante e íntimo de uma escritora que incorpora a paixão pela literatura. Em páginas reveladoras, traça, de maneira inédita, os vívidos caminhos percorridos por Elena Ferrante na construção de sua força narrativa.” Fonte

Alguns a chamam de “O mistério Ferrante”. O fato é que Elena Ferrante, este um pseudônimo de uma escritora italiana, decidiu não revelar sua identidade. Segundo ela, os “livros deveriam ser suficientes” para o leitor. E, apesar da ironia de eu ter lido um livro que fala dela, escritora, com suas cartas, e-mails, mensagens, anotações, fechei a obra com a certeza que Ferrante está certa: os livros são suficientes. Nós que queremos, desnecessariamente, escavar a vida de um escritor quando, na verdade, está tudo ali, em suas obras.

Frantumaglia, que dá título à obra, é uma expressão em dialeto, uma maneira que a mãe da escritora costumava descrever o sentimento de ser puxada para todos os lados por forças conflitantes que a dilaceravam. No livro, nós temos justamente isto, e acredito que esta expressão descreve perfeitamente o que uma mulher sente por toda a sua vida e que, somente escrevendo, algumas conseguem se aliviar. E, por escrever, nem digo apenas ser escritora, mas como a própria Ferrante diz, as mulheres escrevem para se acalmarem, em diários, em cadernos, em e-mails. É muito difícil ser uma mulher e, diferentemente do que pensam alguns – especialmente homens -, é difícil ser mulher não por sua biologia, mas por conta da sociedade patriarcal e machista em que vivemos.

Em suas várias trocas de cartas com seus editores, produtores e diretores de seus filmes, entrevistadores e leitores, Elena Ferrante despeja, principalmente, o ser mulher. Ela fala de feminismo, maternidade, a relação sempre complicada, dolorida e repleta de culpas entre filhas e mães… fala de costuras, sentimentos, raiva e ternura. E fala também de conflitos, carreira, escrita, o próprio ato de escrever. Acima de tudo, Frantumaglia é um livro reflexivo, um livro para as mulheres se reencontrarem e também para os homens encontrarem as mulheres de verdade, não com o filtro masculino e cheio de preconceitos, mas como as mulheres realmente são e sentem.

Na primeira parte da obra, Elena Ferrante fala especialmente de seus dois primeiros livros, Um amor incômodo Dias de Abandono. Foi, para mim, a parte mais morosa da obra, por dois motivos: o primeiro, por minha culpa, afinal ainda não li estes dois livros; o segundo, por conta de, mais uma vez, ironicamente, apesar de não querer revelar a si mesma e dizer que os livros são suficientes, Ferrante é extremamente prolixa e descritiva a respeito de suas próprias obras. Outra coisa que me pareceu foi que, no início, ela não estava mesmo acostumada a isso, a falar das obras e de si mesma, então dava voltas confusas, repetia-se. Porém, à medida que os anos passam, ela se torna mais confiante no que escreve e, a partir de A Filha Perdida e então a Tetralogia Napolitanaela passa a falar com mais propriedade e dinamismo de seus textos. E, para mim, esta é a melhor parte de Frantumaglia: o acesso a fatos, dados e cenas extras destes livros, que me são extremamente caros.

Donadio Qual é a coisa mais importante que a senhora gostaria que ficasse em seus leitores após terem lido suas obras?

Ferrante Que, mesmo sob a tentação contínua de baixar a guarda – por amor, por cansaço, por simpatia ou gentileza -, nós, mulheres, não devemos fazê-lo. Podemos perder em um instante tudo o que conquistamos.

Página 276

Agora, quanto ao que disse sobre as obras serem suficientes; há perguntas extremamente enfadonhas, algumas vezes dos leitores, mas, na maior parte do tempo, dos jornalistas. Em alguns momentos percebe-se como a própria escritora já não aguentava mais responder as mesmas coisas, especialmente sobre sua decisão de não revelar sua identidade. Dava vontade de gritar: “Parem, simplesmente parem, de falar sobre isso!”. E então, lendo, você percebe que o que de fato interessa é quando Ferrante fala sobre as obras, sobre as personagens, sobre sua escrita, basicamente, sobre o texto, e não sobre si mesma. Ela, Elena Ferrante, está toda ali, em sua obra. Basta lê-la.

Este livro foi gentilmente cedido pela editora Intrínseca para resenha.

 

Ficha técnica:

Título: Frantumaglia
Autor: Elena Ferrante
Páginas: 416
Editora: Intrínseca
Onde comprar: Livraria Cultura / SaraivaAmazon / Submarino / Shoptime / Livraria da Folha / Livraria da TravessaAmericanas
Avaliação: 

 

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  • rudynalva disse:

    Karen!
    Já ouvi falar sobre a escritora que usa esse pseudônimo e o que importa o nome, não é mesmo?
    O que mais importa é o conteúdo do que escreve e pelo que vejo ela é fenomenal.
    Não li nada ainda dela, mas pretendo.
    “A arte de ser sábio é a arte de saber o que ignorar.” (William James)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA novembro 3 livros, 3 ganhadores, participem!

  • Carla disse:

    Oie!
    Ainda não li nenhum livro da autora, não conheço a narrativa. Preciso pegar os títulos indicados para saber mais da história.
    Gostei do que passou sobre a história, achei bem interessante e fiquei curiosa para conferir.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

  • Milena Soares disse:

    Olá! Ainda não li nenhum livro dessa autora, mas já tenho alguns na lista de leitura, sua escrita parece ser interessante, cada resenha que vejo dos seus livros me deixa ainda mais curiosa em conferi isso tudo que dizem.

  • Ivi Campos disse:

    Tenho ouvido muito o nome desta autora nos últimos meses e é impossível não ficar curiosa com seu trabalho, porque a maioria dos comentários são positivos. Achei a capa do livro simples, mas linda, porque amo azul.
    Beijos

  • Cabine de Leitura disse:

    Concordo com você quando falou sobre a obra bastar, ficou perfeita a definição.
    Não conheço as obras da autora, mas pelo visto ela tem o dom da escrita, transformou sua experiência em um livro, admirável.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

  • Greice Negrini disse:

    Eu imaginava algo diferente neste livro e agora que fiquei sabendo não tenho muito interesse, uma por não saber nada da autora e outra por não ter lido outros livros, achei que era algo bem diferente. Que pena, mas é bom saber disso.

  • Anelise Besson disse:

    Oi.
    Eu ainda não li nada dela, mas eu nunca tinha ouvido falar desse livro. Não é uma autora que me cativa, as histórias não me passam a curiosidade e esse livro também não me passou, ainda mais com as perguntas enfadonhas, haha. Mas parabéns pela resenha :)

    beijos!

  • Amanda M. disse:

    Oi, tudo bem?

    Nunca li nenhuma obra de Elena Ferrante e também não fazia ideia que este era um pseudônimo 😯

    Frantumaglia está dando o que falar e aguçou minha curiosidade pelas suas obras! Achei muito interessante seu comentário final de que ela está ali em toda obra e que basta tê-la!

    Pode ter certeza que entrou pra os desejados! Obrigada pela dica 🙆🏻

  • Jessica Christina disse:

    Oie, tudo bem?
    Ahh, que idéia interessante!
    Já ouvi falar de pseudônimos por outros motivos, mas não revelar o nome e mostrar a vida toda no livro é bem bacana, fiquei curiosa para acompanhar a trajetória dessa escritora!

  • Leandro Brito disse:

    Oi. Tudo bem?
    Eu adoro ler resenha de livro que ainda não conheço. Esse é um dos motivos que me vez gostar tanto da sua publicação. Apesar disso, achei o livro bem interessante. Fiquei intrigado com algumas coisas e, ao mesmo tempo, curioso com outras. Tudo indica que é um livro incrível. Teve ter ficado muito feliz de ter conseguido o livro para resenhar. Adorei acompanhar sua análise do livro. Está de parabéns.
    Abraço 😀

  • Driely Meira Almeida disse:

    Oiee ^^
    Eu ainda não li nada da autora, e confesso que ainda não a conhecia. Fiquei curiosa para ler esse livro, apesar de não ser bem o tipo de obra que eu normalmente procuro. Às vezes é bom dar uma mudada, né? Ver que o livro traz reflexões acerca de temas que me interessam bastante, como feminismo, e gostei quando você disse “um livro para as mulheres se reencontrarem”. Quero para ontem!
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

  • Fernanda F. Goulart disse:

    Uau! Parece ser uma experiência de leitura bem intensa. Não conhecia a autora e nem suas obras, mas achei muito interessante a forma como ela apresenta sua escrita nas criações, de não se preocupar em dizer quem é, mas relatar isso através de suas letras. Não sou fã de biografias, mas se um dia ler os outros livros dela, vou procurar saber mais sobre esse!

    Beijo, beijo.

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