Resenha: Longe de casa – Minha jornada e histórias de refugiadas pelo mundo

Ficha técnica:

Título: Longe de casa – Minha jornada e histórias de refugiadas pelo mundo

Autora: Malala Yousafzai

Tradutora: Lígia Azevedo

Páginas: 232

Editora: Seguinte

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Sinopse:

“Neste livro, a mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da paz conta sua história de migração e dá voz a garotas que estão entre os milhões de refugiados pelo mundo.

Ao longo de sua jornada, a paquistanesa Malala Yousafzai visitou uma série de campos de refugiados, o que a levou a pensar sobre sua própria condição de migrante — primeiro dentro de seu país, ainda quando criança, e depois como ativista internacional, livre para viajar para qualquer canto do mundo, exceto sua terra natal.
Em Longe de casa, que é ao mesmo tempo um livro de memórias e uma narrativa coletiva, Malala explora sua própria trajetória de vida e apresenta as histórias de nove garotas de várias partes do mundo, do Oriente Médio à América Latina, que tiveram que deixar para trás sua comunidade, seus parentes e o único lar que conheciam.
Numa época de crises migratórias, guerras e disputas por fronteiras, Malala nos lembra que os 68,5 milhões de deslocados no mundo são mais do que uma estatística — cada um deles é uma pessoa com suas próprias vivências, sonhos e esperanças.”

Quando vi o lançamento de Longe de Casa, nas redes da Seguinte, minha vontade era pegar o livro naquele instante e começar a ler. Há algum tempo li o maravilhoso Eu sou Malala (resenha aqui) e fiquei encantada. A história da Malala Yousafzai é inspiradora e vai muito além do conhecido atentado no qual ela levou um tiro na cabeça ao retornar da escola. Mas, enquanto neste livro Malala contava a própria história, em Longe de Casa a ativista abre espaço para outras meninas e mulheres contarem suas histórias de refugiadas. E uma é mais emocionante que a outra.

Na primeira parte do livro, Malala conta, de maneira resumida, sua história de refugiada. Mas essa todos nós já conhecemos; por isso, a autora é breve, mas não menos emocionante, e relata apenas o necessário, sem jamais se tornar repetitiva. Ao final de sua história, começa a segunda parte do livro, na qual a autora abre espaço para as histórias de meninas e mulheres que encontrou através de seu ativismo pela educação no mundo, contadas por elas mesmas.

Desde o relato de Zaynab, que conseguiu fugir do Iêmen para o Egito e então para os EUA, mas não conseguiu levar a irmã, até o relato também da própria irmã, Sabreen, que desistiu de esperar e fez uma perigosa trajetória através do Mediterrâneo em direção à Itália. Interessante ressaltar aqui que, enquanto Zaynab construiu um futuro brilhante na escola e como jogadora de futebol, Sabreen escolheu se casar com um refugiado, e como julgá-la diante de sua situação extrema?

Ou talvez você se emocione mais com a história de Muzoon, que inspirou várias meninas a frequentarem a escola e foi chamada de “Malala da Síria”, mas que de forma bela Malala a chama de “Muzoon da Síria”. E o que dizer de Najla, que aos catorze anos fugiu (literalmente) para as montanhas, sozinha, e passou cinco dias em um monastério para mostrar ao pai que que queria continuar a frequentar a escola.

Já María, a luchadora, fugiu do conflito armado na Colômbia, que luta por uma vida melhor e educação e escreveu uma peça de teatro junto a outras crianças para cada uma contar sua jornada. E Analisa, que deixou a Guatamala e fez a perigosa travessia do México para os EUA, deixando para trás seu país e sua história, fugindo de um meio-irmão abusivo e um futuro sem esperança.

Ou talvez você chore, como eu, ao ler a história de Marie Claire, que saiu do Congo, passou pela Zâmbia e chegou finalmente à Pensilvânia. Ela viu a mãe morrer na sua frente, arrastada da própria casa na Zâmbia – onde eles não foram bem recebidos, vindos do Congo -, onde teve suas roupas arrancadas e recebeu, nua, inúmeras facadas, gritando para que não levassem seus filhos. A dor nunca foi embora depois disso, mas Marie Claire fez o que sua mãe deu a vida para que ela conseguisse: correu atrás da própria educação e foi a primeira em sua família a se formar.

E há ainda a história de Jennifer, o “anjo” e a “mãe americana” de Marie Claire, que recebeu a família refugiada do Zâmbia e se doou para que eles se estabelecessem no país. Uma das partes mais emocionantes do livro é quando ela relata ter dado um presente à garota e sua irmã, e elas contaram que sua mãe, Furaha, tinha se sacrificado para que elas pudessem ter aquela vida. O espírito daquela mãe permanecia em suas filhas, especialmente em Marie Claire. Nas palavras de Jennifer, “ninguém pode pará-la“.

Por fim, há a história de Ajida, que saiu de Mianmar em direção a Bangladesh, onde vive com a família de maneira precária, em um acampamento, mas encontrou forças para criar com as próprias mãos um forno de argila para cozinhar e depois forjou outros dois mil fornos para a comunidade de refugiados. Já Farah saiu de Uganda para o Canadá e não conhecia sua história de refugiada, a da sua família e o motivo pelo qual abandonaram o país até se tornar uma mulher adulta e investigar suas origens.

Ler Longe de Casa é um exercício de empatia e amplia nossos horizontes. Histórias como a de Malala e de todas essas refugiadas mostram que o mundo é muito mais que o pouco que conhecemos. Que os países são muito mais que terras divididas por fronteiras, mas sim conjuntos de pessoas, de culturas, de costumes, e o sofrimento de deixar tudo isso para trás é algo que sequer conseguimos começar a imaginar. É a dor de deixar sua história, sua família, sua casa e tudo o que você conhece para trás, e nunca sentir que realmente pertence ao lugar que o abrigou e muitas vezes nem ser bem recebido lá. Ler este livro também nos faz sentir vergonha – o Brasil está tendo a oportunidade de abrigar refugiados da Venezuela, mas não os recebe bem, não os abriga com amor e respeito.

Todos os dias, vemos as pessoas cada vez mais egoístas, fechando os olhos para a dor do outro. É difícil encontrar quem tenha empatia. Se as pessoas não conseguem compreender sequer os mais carentes dentro de seu próprio país, fica ainda mais difícil mensurar o sofrimento de pessoas de lugares tão distantes. Mas precisamos. Esse livro é uma joia preciosa, uma obra que resgata nossa humanidade, e todos precisamos lê-la.

 

 

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Seguinte, selo da editora Companhia das Letras

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  • Karini disse:

    Tudo bem? Estou muito curiosa para ler esse livro. Eu ainda não comprei. Como estou doente, não tenho saído de casa, a não ser para as visitas ao hospital mesmo, mas assim que der espero poder passar em uma livraria e comprar.
    Realmente o mundo está de um jeito que as vezes eu penso: “o que aconteceu meu Deus?” “Quem são essas pessoas” … O mundo está egoísta, maldoso, entre outros.

    Fechar os olhos para a dor do outro ou os problemas que se vê por aí é o que mais se tem. Uma vizinha, que todos os dias falava comigo, me pedia ajuda para aplicar injeções trimestrais (sou enfermeira), simplesmente passou a subir as escadas do prédio de volta quando o meu avô ou o uber está me buscando para me levar ao hospital. As mães que mandavam as filhas brincarem na minha casa com as filhas e convidavam a minha, já não o fazem mais, pois dá trabalho sabe, saber, perguntar e quem sabe oferecer ajuda para ficar com a minha filha em um dia ruim de tratamento…

    Como você disse, se não há empatia, compreensão dentro do seu meio, do seu povo, como medir o sofrimento ou entender o de pessoas que sequer estão próximos?

    Vejo muito as pessoas falarem sobre tragédias na tv e dizerem.”ah, coitado, mas depois desligam a mesma e vivem suas vidas como sempre, nada muda”

    Sem dúvida, eu, e todos nós, precisamos de livros assim para resgatar nossa humanidade, nos dar lições de vida. Choque de realidade.

    Beijos de luz!

  • Ivi Campos disse:

    Quero muito ler este livro e incentivar o meu filho a ler, acho que é o tipo de conteúdo que adolescentes precisam conhecer para entender seus privilégios e como você disse, exercitar a empatia para com pessoas que vivem de maneira muito diferente de nós. Adorei a resenha.
    beijos

  • Vitoria Doretto disse:

    Oi, Karen!
    Ai esse livro <3 Suas histórias são realmente grandes lições de empatia. Fiquei extremamente tocada com cada uma das histórias. A leitura desse livro é ainda mais do que um exercício de entender e se colocar no lugar do outro, é entender a dor da partida e da perda, é um exercício de olhar para nós mesmos e percebermos não somos tão bons quanto queremos acreditar. Este livro é uma grande lição e realmente merece/deve ser lido por todos.
    Beijos!

  • Aline Martins de Oliveira disse:

    Oi! Eu tenho muita vontade ler o livro sobre ela, e agora conhecendo mais esse, a vontade aumentou. É mesmo muito triste que para sobreviver, e ter poder usufruir de direito básicos e humanos, as pessoas tenham que sair de sua terra natal, fugindo de guerras e pior, como no caso dela e da família, que fugiram para sobreviver pois ela queria estudar, veja bem, o que lá é proibido para mulheres. E depois o medo e a incerteza de ir pra lugares completamente estranhos, ficar ‘preso’ em acampamentos e serem alvos de preconceito apenas por lutarem para sobreviver em meio a tanto caos. Espero ler em breve!

    Bjoxx ~ Aline ~ http://www.stalker-literaria.com

  • Marijleite disse:

    Olá, só de ler seus comentários sobre as refugiadas que tem suas histórias contadas no livro já fiquei sensibilizada. É uma leitura que quero muito fazer, é importante dar voz a essas pessoas que precisam deixar seus países por diversos motivos, e que nem sempre recebem o acolhimento que merecem.

  • Gabriela Erler disse:

    Eu já estava com muita vontade de ler esse livro, mas depois dessa resenha eu simplesmente preciso ler! Conheço pouco a história da Malala, apesar de saber da sua força e importância. A temática do livro é bem forte e parece ser aquele tipo de leitura que todo mundo deveria ler.

    Beijos, Gabi
    http://www.reinodaloucura.com

  • Mirelly disse:

    Oii, tudo bem?

    Fiquei sabendo sobre esse livro na semana passada, mas já comprei meu exemplar. Admiro muito a Malala e toda a sua força e luta, esse com certeza é um livro de empatia e que amplia nossos horizontes.
    Adorei sua resenha!!

    Beijinhos!!

  • Leitura Enigmática disse:

    Já tinha visto esse livro e estou bem curioso para saber da história na íntegra, pois ele está bem falado na rede ultimamente. Anotada a dica.

  • Jéssica Melo disse:

    Olá Karen, ainda não li o livro Eu sou Malala, mas tenho muita curiosidade de conhecer mais afunda a trajetora da autora e agora com esse novo livro fiquei ainda mais curiosa para conhecer a historia dele e desses outros refugiados que conseguiram vencer tantas dificuldades em busca de uma vida melhor *-* Adorei sua resenha.

  • Antonia Isadora de Araújo Rodrigues disse:

    Olá Karla!!!
    A história de Malala repercutiu muito pelo mundo todo e apesar de não ter lido nada dela ainda assim acho a história dela pelo que acompanhei necessária para o mundo todo, mas imaginar histórias mais inspiradoras é melhor ainda é esse livro parece trazer tudo isso.
    Eu sinceramente adorei a premissa e fiquei com muita vontade de saber mais de cada história, pois cada mulher necessita ver algo tão real e ver que existe muita história que é esquecida por conta da nossa sociedade.
    Parabéns pela resenha!!!

    lereliterario.blogspot.com

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