Resenha: Love, a história de Lisey

“Lisey Landon compartilhava uma intimidade profunda e às vezes assustadora com seu marido, Scott, um escritor célebre e cheio de segredos. Um desses segredos era a fonte de sua imaginação, um lugar com a capacidade de curá-lo ou destruí-lo. Agora, dois anos depois da morte de Scott, chega a vez de Lisey enfrentar os demônios de seu marido, embarcando em uma perigosa viagem na escuridão que ele habitava. Love é uma parábola sobre a imaginação e o amor, e sobre o poder do amor de transformar e de salvar.” Fonte

Um livro, apesar de ser algo, à primeira vista, imutável, com todas suas palavras impressas, mudando de vez em quando apenas o tipo de fonte, o papel, o tamanho ou a capa, na realidade é algo extremamente mutável, algo com uma forma, significado e olhos – principalmente os olhos – sempre diferentes para cada pessoa que o lê. Isso acontece porque cada pessoa é diferente da outra, em vários tons, e de uma maneira especial. Um livro – uma história, na verdade, pois esta não é uma exclusividade dos livros, apesar de ser brilhantemente contada neles – também é diferente para a mesma pessoa que o lê, em diversas leituras, pelo exato detalhe que uma pessoa é diferente em cada instante da sua vida, seja este há dez anos ou dez minutos. Nós somos seres em constante mutação, especialmente de pensamentos e sentimentos, e isso se transfere para as histórias que lemos, as quais adquirem significados completamente diferentes à luz dos momentos que vivemos em nossas próprias vidinhas – às vezes tão comuns, mas mesmo assim, extraordinárias a seu próprio modo.

É por isso que eu acho que cada livro tem seu momento de ser lido. Um momento especial, que não se repetirá jamais. Às vezes lemos um livro cedo demais. Às vezes, tarde demais. E algumas abençoadas vezes, algo, talvez a providência ou algo maior, coloque em nossas mãos uma história perfeita para aquela época em que vivemos. Posso dizer que li Love no momento exato que deveria lê-lo.

Eu já disse algo parecido na resenha de Para Sempre. Àquela época, esse foi um livro perfeito para meu momento de vida. Era um livro cheio de esperança, ainda que fossem notas frágeis dela, mas estavam lá e transportaram-se além das páginas para esse mundo. Devo dizer que algumas vezes a esperança cai por terra com um leve farfalhar, assim como “os argumentos contra a loucura caem por terra com um leve farfalhar” – foi o que disse Stephen King em Love, utilizando a voz de um de seus melhores personagens que eu já li, Scott Landon, um escritor atormentado (e na verdade, todos os escritores o são), que pescava suas palavras em um lago muito mais profundo do que o lago de ideias a que estamos acostumados.

Love foi um livro adequado para o momento presente e duvido que fosse mais perfeito em outro momento. Esse é um livro de esperanças perdidas, de uma vida que jamais será a mesma, de superar (ou pelo menos, abafar) aquele vazio inevitável que fica pela ausência de quem amamos muito um dia. É um livro essencialmente sobre morte, sobre luto e sobre a ligação íntima entre algumas pessoas – e acredito que todos tenhamos alguma pessoa com a qual temos essa ligação -, um elo tão forte e até mesmo assustador, que nem a morte pode quebrar. Quem já não sentiu isso, com pelo menos uma pessoa? Aquela que completa seus pensamentos, suas palavras… Mas mesmo que não se sinta essa ligação – ainda – com alguém, temos todo o tipo de ligação com as várias pessoas que passam pela nossa vida. E o mestre King, nesse livro, descreve com perfeição o que acontece dentro de nós quando essas pessoas vão embora. Apesar de ser um vazio doloroso, que nada nem ninguém jamais vai preencher, ficamos felizes por isso. Se pensássemos nesse vazio que ficaria no fim, talvez jamais nos uniríamos a essas pessoas, para início de conversa. Mas novamente, nesse livro, King nos ensina que o que importa de verdade é a jornada e não o final dela. Isso nós levamos para sempre conosco.

Como todo livro do King, esse é um livro que demora a engatilhar – utilizando a mesma palavra que ele usa e muito nesse livro. Nas primeiras muitas e muitas páginas do livro, você fica com aquela sensação um tanto irritante e irritada de que, sr. King, o senhor bem que poderia ter encurtado isso aqui em umas 200 páginas, pelo menos! Mas quando o livro finalmente engatilha (Engatilhe, babyluv), você compreende que não são as histórias do King que demoram a entram nos trilhos, não senhor. São na verdade as personagens, que são como as pessoas, pois não é isso que personagens fazem? Imitam as pessoas? Assim como as histórias imitam a vida – e às vezes assustadoramente as contam. Nós também, nas nossas “vidinhas” – que parecem tão comuns, mas não são, também dariam um livro – demoramos a engatilhar. Demoramos a tomar noção do rumo que devemos tomar. Ficamos perdidos até que algo extraordinário aconteça e nos faça acordar e é aí, exatamente aí, que a nossa aventura começa. Apesar de ainda achar que alguns dos seus livros, querido King, poderiam ter algumas páginas a menos, eu entendo porque eles são tão compridos. É porque eles falam de vidas, e na vida, bem, a gente demora um bocado para engatilhar.

O título desse livro é realmente adequado. Realmente, essa é a história de Lisey – Lisey’s story – e ela é outra personagem extraordinariamente real. Dependendo do seu momento de vida, o leitor se identifica – e muito – com ela. De um jeito assustador (afinal, é um livro do King) e de um jeito doloroso e cruel, mas também doce. Ela perdeu o marido há dois anos, mas parece que são apenas dois minutos. Eles tinham uma ligação maior que o amor, uma ligação muitas vezes aterrorizante. E é bem aos poucos que essa ligação vai se descortinando e fazendo sentido, porque é bem aos poucos que Lisey afasta a cortina e deixa exposta toda a rouxidão de sua história. Há momentos no livro que você morre de medo – como eu adoro esses momentos nos livros do King! -; são aqueles momentos que você começa a temer olhar por cima do ombro e se encarar no espelho. Mas há também os momentos doces, aqueles que você quer guardar consigo, como boas lembranças, e que você simplesmente encara a página longamente, tentando guardar aquelas pequenas palavras – como quando olhei longamente a despedida de Scott, um simples Te amo, que parece clichê, batido, mas no final não é. A verdade é que todos queremos uma despedida e um ponto final nesses momentos. O problema é que eles demoram a aparecer, ou demoramos a notá-los, mesmo meses e anos após a dolorosa partida.

A tradução desse livro é notável. É aquela que se deve fazer. Em Love há vários termos impossíveis de se traduzir, e o tradutor Fabiano Morais teve a sensibilidade de perceber isso. Há o Bool, termo inventado por King, que é algo como uma piada ou uma pegadinha, mas jamais deve ser traduzido, pois há vários jogos de palavras que King faz com esse termo. Por esse motivo, há várias notas de rodapé no livro, que em nada atrapalham, pelo contrário, enriquecem a leitura e deixam-na mais próxima da leitura na língua original.

A edição que li foi a de bolso, da coleção Ponto de Leitura da Suma, que é muito confortável (adoro livros nesse formato!). As páginas são amareladas e com letras pequenas, porém boas para a leitura. Às vezes a fonte muda de acordo com o momento do livro, outra coisa que apenas enriquece a leitura.

Para quem leu a Torre Negra, as referências estão lá. O 19 – sempre ele – e também os outros mundos além deste. São referências constantes nos livros do King que inevitavelmente procuramos em todas as suas obras após ler a Torre Negra. Afinal, todos os livros do mestre são outros mundos além da Torre.

Há algumas coisas nesse livro que eu desejava de coração não entender, mas infelizmente, eu entendo. E por isso, foi o momento perfeito para lê-lo. Percebe-se claramente que é um livro que King jamais conseguiria escrever caso não tivesse passado por situações em sua vida. Fica bem perceptível que um escritor só consegue ser completo – e brilhante – após encarar a dor e a morte bem dentro dos seus olhos fundos e escuros. Afinal, esse é um livro também sobre um escritor e suas histórias.

Love é um livro para ser sentido. Fechar suas últimas páginas, lidas avidamente, é um momento de nostalgia e de saudade. É difícil fechá-las, pois é exatamente como se despedir desse alguém querido, como Lisey faz em toda sua jornada na história. No final, fica aquele vazio inevitável. Mas fica também o fecho do luto, o término de uma história e a vontade de seguir adiante. É um livro que verdadeiramente termina com uma “joça” de um ponto final.

Ficha Técnica

Título: Love, a história de Lisey
Autor: Stephen King
Editora: Suma das Letras
Páginas: 676
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Carolina disse:

    Oi Karen, tudo bem?
    Ainda não li esse livro do Sr. King, mas certeza de que vou amá-lo rsrs… Aí vim até aqui fuçar a sua resenha e cheguei a seguinte conclusão: eu preciso ler esse livro urgentemente rsrsrs..
    Parabéns pela resenha!
    Beijos

  • Nivia Fernandes disse:

    Já cheguei a observar esse livro na estante da biblioteca, mas não consegui ficar curiosa o suficiente. Claro, a meta é ler todos os livros do King um dia, mas ir devagar é bom – pra não acabar tão cedo! xD

    Você tem razão, existem livros perfeitos para cada momento…
    O King exagera sim na introdução à história e aos personagens, mas também vejo isso como uma maneira de conhecê-los e mostrar como as pessoas são lerdas para tomar um rumo diferente na vida. Mas você consegue colocar todos esses pensamentos belamente em uma resenha.
    Morte, perdas e afins: não passei por isso de uma forma que me matasse junto por dentro, ler me deixa agoniada em pensar, mas… Livros também servem para isso: nos transportar para nossos maiores receios. Não só para os anseios bons.

    Livro do King eu leio de madrugada, mas com a luz bem acesa! Lanterna ou penumbra não rolam! rs

    Ótima resenha! Vou incluir na minha lista.

    Beijos

  • Vania disse:

    Parceirinha, só você pra me fazer querer ler um livro de Stephen King. Você fala que minhas resenhas são apaixonadas, mas essa sua… ela transborda paixão e me faz querer pegar o livro e abraça-lo e ver você e te abraçar também! Eu não acho que esse seja o momento certo para que eu o leia – aliás, o que você falou sobre isso é a mais pura e linda verdade – mas ele certamente foi adicionado à minha lista de livros para serem lidos num futuro próximo e somente durante o dia.

  • Ana Paula Candido da Silva disse:

    gosteii, livro cheio de mistérios

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