Resenha: Max e os Felinos

Recentemente eu fiz a resenha de As aventuras de Pi e mencionei um post do blog Cia das Letras sobre a questão do plágio do livro Max e os felinos. Alguns comentários também começaram a alimentar a minha curiosidade em conhecer a origem da inspiração de Pi e as semelhanças entre as duas histórias. Eis que, na minha ansiedade (e por ter um motivo a mais para comprar livros – percebam o plural), não resisti e adquiri o livro Max e os felinos e agora quero resenhá-lo para vocês.

max e os felinosSinopse: O alemão Max, um garoto sensível, cresceu sob a severidade de seu pai que sempre lhe incutiu medos e inseguranças. Envolve-se, mais tarde com Frida, esposa de um militar Nazista, o que faz que tenha que abandonar o país. Em meio a viagem de barco, é obrigado, graças a um naufrágio, a dividir o pequeno espaço de um barco com um imenso Jaguar, um felino que sempre lhe aterrorizou. 
O livro tornou-se conhecido após o autor, Moacyr Scliar, comentar em um jornal que o Best Seller A vida de Pi seria parcialmente um plágio de seu livro Max e os Felinos. 
Moacyr Scliar conquistou, pela qualidade de seu trabalho, um lugar de destaque na moderna literatura brasileira. Ficcionista de amplos recursos, autor consagrado, seus livros têm sido traduzidos para vários idiomas. Fonte

Vamos primeiro ao livro: Max é um jovem alemão que passa sua infância e adolescência dominado pelo autoritarismo do pai, um peleteiro que tinha uma loja chamada “Ao Tigre de Bengala”, com um tigre empalhado que fora abatido por ele próprio. O único refúgio do garoto era o depósito da loja, em meio às peles de vários animais, incluindo os felinos – suas favoritas.

Aproximadamente aos 19 anos, Max se envolve com uma mulher chamada Frida, casada com um nazista e sua amizade com um jovem socialista o colocam na mira do regime nazista, sendo obrigado a fugir do país para o Brasil quando seu caso amoroso é descoberto.

Durante a viagem, o cargueiro em que viajava e que transportava animais de um zoológico/circo naufraga. Por sorte, ele consegue escapar em um escaler e, pensando em improvisar uma cabana para se proteger, ele encontra uma caixa dos destroços do navio, com um cadeado. Ao abrir, um enorme jaguar salta de dentro dessa caixa e vira a nova companhia de Max. Para não ser devorado pelo jaguar, Max é obrigado a pescar para ele.

Não vou dar detalhes dessa parte, mas não é tão longa quanto a trajetória de Pi – o livro em si não é longo. O fato é que foi a partir dessa parte – intitulada “O jaguar no escaler” – é que surgiu a ideia para as Aventuras de Pi. Como o próprio Moacyr comenta na introdução, os textos são diferentes, mas a ideia principal é a mesma. Falo da questão do plágio mais adiante.

Voltando a Max, ele é resgatado e desembarca em Porto Alegre. E o jaguar? Bem, ninguém da tripulação o viu e aqui deixo para vocês tirarem suas conclusões sobre o destino do animal.

Mas enfim, Max está em Porto Alegre e começa uma nova vida. Porém, ele é frequentemente perseguido por seus fantasmas do passado e seu pânico faz com que ele tente a sorte em Caxias do Sul. Lá, ele conseguiu um pedaço de terra, se casou e teve uma filha, mas continuava atormentado, ainda mais com a chegada da Segunda Guerra. Ao final da guerra, vai para a Alemanha saber de seus pais, mas encontra sua antiga casa destroçada e seu pai em um asilo.

Quando retorna ao Brasil, percebe que alguém está se mudando para sua vizinhança e descobre que é o marido de Frida, sua ex-amante. Dado como desaparecido na Alemanha, ele se refugiou no Brasil, mas Max não o deixaria impune: passa a perseguir o nazista e é praticamente declarada guerra entre eles. O ápice da situação é quando sua filha é atacada, aparentemente por uma onça, mas Max acredita piamente que foi um ataque do nazista e vai atrás dele para um combate final e a conclusão da estória.

Nesta edição mais recente do livro (porém antes da morte do autor), tive a sorte de encontrar uma introdução do próprio Moacyr Scliar sobre os acontecimentos da época em que ele ficou sabendo da semelhança entre As aventuras de Pi e Max e os felinos. Nele, o autor informa que se não fosse o prêmio dado a Martel, ele provavelmente nunca saberia da existência de The life of Pi. Cá entre nós, acho que não saberíamos de toda essa história se não fosse o lançamento do filme, que culminou na publicação do livro aqui no Brasil (não tenho informações se o livro foi lançado anteriormente e se pela mesma editora ou outra, se alguém souber, por favor, me avise para que eu possa corrigir).

“Usar a mesma ideia literária não chega a ser pirataria”.

Mas as semelhanças vão além da cena do jaguar no escaler. A frase usada antes da introdução do livro já nos dá uma pista da metáfora encontrada em As aventuras de Pi, essa foi a primeira evidência. A frase está abaixo, mas para quem não leu ou não assistiu As aventuras de Pi, acho melhor não ler, porque meio que mata a charada da trama – o que não acontece com Max, necessariamente.

“Meu, eu? O tigre não tem medo de ninguém… O tigre invisível. A minha alma.”
Francisco Macías Negueme (Ditador deposto da Guiné Equatorial)

Enquanto que o desenvolvimento das duas histórias é diferente – a primeira, Max e os felinos, é voltada para crítica política, especificamente o nazismo, ou o regime militar brasileiro; e a segunda é voltada para o lado da espiritualidade, as duas obras falam de amadurecimento e superação. Aí me pareceu coincidência demais.

Nessa introdução do autor a que me referi, ele menciona que seu maior desgosto foi Yann Martel não ter entrado em contado com Moacyr para pelo menos informar que gostou da ideia e a usaria em seu próprio livro. Em vez disso, Martel faz uma declaração infeliz que dizia que não leu a obra, apenas uma crítica negativa (que aparentemente nunca existiu) e que “Uma pena que uma ideia boa tivesse sido estragada por um escritor menor”. Fala sério, quem não se ofenderia com isso? Eu perderia a vontade de ler As aventuras de Pi com essa afirmativa, mas a história tem seus próprios méritos que valem a leitura, como o próprio Moacyr comentou e eu sou obrigada a concordar porque já li, embora fosse às custas de Max e os felinos.

A partir do escândalo (que foi mais divulgado no exterior do que no Brasil, aparentemente) é que temos a retratação e o simples “[agradeço a] Moacyr Scilar pela centelha de vida”, sem mencionar Max e os felinos. Moacyr, no entanto, não se sentia motivado em processar o autor de Pi, então se conformou com o agradecimento.

Abaixo, segue um vídeo gravado por Moacyr Scilar sobre a questão do plágio.

Ficha técnica:

Nome: Max e os felinos
Autor: Moacyr Scliar
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 122
Onde comprar: Livraria Cultura
Minha avaliação: 

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  • Resenha + Promoção: As aventuras de Pi « Por Essas Páginas disse:

    […] 2:  Para quem tiver curiosidade, aqui está a resenha de Max e os felinos! Leiam e façam uma blogueira feliz, comentem! […]

  • Isadora disse:

    Estou louca para ler esse livro. Eu assisti o filme e gostei muito. Mas, ai me disseram que era cópia de um autor brasileiro, fiquei completamente chocada!!! Mas, pretendo comprar Max e os felinos e ler A vida de Pi, para realmente tirar minhas próprias conclusões

  • Lucy disse:

    Oi, Isadora! Recomendo os dois livros, embora um seja baseado em outro, são boas histórias. 😉
    bjos!

  • Czar disse:

    Aparentemente a parte marítima é bem reduzida nesse, né? Mas parece bem legal, estou prestes a ler! E não, não li Pi ainda (só vi o filme), quero ler Max primeiro.

  • Lucy disse:

    Então, a parte marítima realmente é curta, o que me surpreendeu, porque Yann Martel se aproveitou basicamente dela para criar Pi – que boa parte é no mar. Eu gostei bastante do livro, depois conta o que achou! 😉
    bjos bjos

  • Vania disse:

    Interessante toda essa questão do plágio, e eu concordo com a frase sobre ideias literárias. No entanto, se eu fosse ler um ou outro, ficaria com Max e os Felinos porque bem, parece mais interessante. De qualquer forma, eu não sou muito fã de filmes/livros com animais tão em foco (não me pergunte como consegui ler Nárnia, eu culpo o Edmund) então é pouco provável que eu leia qualquer um dos dois. Mas curti as resenhas, Lu, e as informações sobre a questão do plágio.

  • Lucy disse:

    Geralmente eu gosto de livros com gatos animais. rsrs Acabei lendo As aventuras de Pi sem saber do plágio, mas aí li Max e os Felinos e acabei gostando também. Os dois tem sua importância e ouso dizer que As aventuras de Pi me conquistou pelo final, mas também fico com Max e os Felinos. 😉

  • Ana K ésia Marques Silva disse:

    Gente quero saber o que vcs entenderam desse livro de Max e os felinos

  • Top Ten Tuesday: Dez livros com cenários de guerra « Por Essas Páginas disse:

    […] 4. Max e os Felinos, Moacyr Scliar: Max é um jovem alemão que acaba se envolvendo com a esposa de um militar nazista, por isso precisa fugir de sua terra natal em um navio. O foco vai entre Max e sua vivência com os felinos (incluindo o jaguar na jangada, cena que inspirou o autor de As aventuras de Pi) e as críticas que Moacyr Scilar faz ao nazismo e mesmo à ditadura brasileira. Resenha […]

  • Max e os felinos – Moacyr Scliar | MF - Terminei de Ler disse:

    […] Clique aqui para ler um texto sobre o livro e a polêmica (não recomendado para quem pretende ler o livro de Scliar). […]

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