Resenha: Menino de Ouro

Recebi Menino de Ouro da Globo Livros no mês passado; por causa de outras leituras, ele foi ficando pra trás, mas durante a Maratona Literária decidi que precisava lê-lo. E devo confessar que me arrependi… de não lê-lo ANTES! Sério, gente, subam esse livro na pilha de leitura de vocês, corram para adquiri-lo, porque é aquele tipo de livro que a gente quer que todo mundo leia porque é muito, muito bom! Devorei em três dias, mas só foi isso porque precisei fazer mais coisas, senão teria lido em um. É o tipo de livro que você não quer largar. Preparem-se para uma resenha muito empolgada.

“A família de Max não permitiria nenhum desvio na imagem perfeita que havia construído. Karen, a mãe, é uma advogada renomada, determinada a manter a fachada de boa mãe, esposa e profissional. Steve, o pai, é o exemplo do chefe de família presente em sua comunidade, favorito a um importante cargo público. O ponto fora da curva é Daniel, o caçula, que, para os padrões da família Walker, é “estranho”: não é carinhoso, inteligente ou perfeito como Max. Melhor aluno da escola, capitão do time de futebol, atlético, simpático, sucesso entre as garotas: Max, o primogênito, é o menino de ouro. Ninguém poderia dizer que sua vida não é perfeitamente normal. Ninguém poderia dizer que Max esconde um segredo.” Fonte

Menino de Ouro fala sobre Max, um garoto aparentemente perfeito, com a vida perfeita: sua família é perfeita, ele é ótimo na escola, bonito, atraente, esforçado, faz sucesso entre as garotas, atlético, admirado. A mãe é uma advogada de sucesso, o pai concorre a um cargo público, admirado na comunidade. Tudo parece perfeito. Perfeito demais: como são as coisas e as vidas perfeitas. Max e sua família escondem um segredo: ele é intersexual.

Intersexualidade, em seres humanos, é qualquer variação de caracteres sexuais incluindo cromossomos, gônadas e / ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino. Essa variação pode envolver ambiguidade genital, combinações de fatores genéticos e aparência e variações cromossômicas sexuais diferentes de XX para mulher e XY para homem. Pode incluir outras características de dimorfismo sexual como aspecto da face, voz, membros, pelos e formato de partes do corpo. Fonte

Bem, essa é a definição da Wikipedia e também do livro. Na própria obra se explica que esse é um assunto ainda não muito estudado na medicina – às vezes abordado de maneira equivocada – e, portanto, há pouco material até mesmo em livros. A palavra que talvez as pessoas mais conheçam sobre o assunto é: hermafrodita. O fato é que Max não é nem um menino, nem uma menina: ele está entre os dois sexos. Vocês já pararam para pensar como o sexo define a vida de uma pessoa? Como agir, como se comportar, como viver, o que vestir, o sexo está até mesmo nos documentos. A gente preenche um mero formulário na internet e muitas vezes há apenas duas opções: masculino e feminino. Mas e se houver uma terceira opção? Um homossexual ainda é do sexo masculino ou feminino, mas um intersexual… é os dois e nenhum deles.

“Enquanto a gente cresce, acredita que os amigos que tem são pessoas boas, acredita que os pais estão sempre certos, acredita que a gente vai saber o que fazer quando chegarem os tempos difíceis, vai conseguir enfrentar tudo, vai ser o herói.” Página 341

É exatamente assim que Max se sente, mas ele nunca levou isso tão a sério até que algo horrível acontece em sua vida, algo que muda tudo e faz o garoto repensar quem – ou o que – ele é. Seus pais – na verdade, seu pai, que é o mais sensato, embora um tanto distante, na família – optaram por não fazer uma cirurgia em Max quando ele era criança; deixá-lo crescer e escolher o que gostaria de ser. Pessoalmente achei que foi a melhor opção, mas é difícil julgar quando não se está na situação; apesar disso, essa decisão também afeta Max e traz enormes dúvidas a ele. Os pais deram a ele a opção, mas também a responsabilidade de decidir algo que afeta intensamente sua vida. O que decidir, no final? Fazer a cirurgia e se tornar um homem artificial? Continuar do jeito que está e não ser nada e as duas coisas? Max é um intersexual que, além de ter os dois órgãos genitais: uma vagina e um pênis, mas sem os testículos, ele também tem os dois cromossomos: XX e XY. Ou seja, ele é, de fato, até mesmo geneticamente, um menino e uma menina. Se isso dá um nó na sua cabeça, imagine na de um adolescente.

O livro é narrado por várias pessoas: o próprio Max, a sua namorada, sua mãe, seu pai, sua médica e até mesmo seu irmãozinho, Daniel, de dez anos. A narração de Daniel é uma das que eu mais gostei em todo o livro; ele é de uma simplicidade e sabedoria infantis incríveis. Daniel é o único que destoa da imagem perfeita da família e, por isso, talvez um dos mais interessantes e o que realmente completa esse núcleo: ele é agressivo e tem dificuldade em controlar suas emoções; é completamente fiel a Max, admirando-o mais do que a um irmão, mas como um bom amigo e, por isso mesmo, muitas vezes discutindo feio com ele. É um menininho viciado em games e que prefere os robôs às pessoas. É incrível, até mesmo palpável, a personalidade que a autora criou para Daniel – e também para os outros personagens, mas Daniel se destaca.

“- Mas um homem e um homem não podem ser uma mamãe e um papai.
– Os dois podem ser pais.
– Podem mesmo?
– Sim – Max fala, como se estivesse distraído e cansado. – É normal. É só que você vê… com menos frequência, acho.
– Mas isso não significa que não é normal.
– Bom, nem sempre é importante ser normal.” Página 101

É também apaixonante e admirável como a autora muda da água para o vinho durante as narrações. Se, enquanto com Daniel, temos uma criança, com suas peculiaridades, seu jeito infantil, por outro lado temos por exemplo a narração da médica de Max, que não é desprovida de sensibilidade, mas é muito mais madura, chegando a ser mais séria e incluir termos e linguagens técnicas. É brilhante.

A mãe de Max, Karen (encontrei uma personagem com meu nome! YAY!), é uma personagem incrivelmente bem escrita e complexa. Ela faz o livro funcionar em muitos momentos, nem sempre da melhor maneira. Mas não dá pra ter raiva dela, nem quando ela erra, pois se percebe o quanto ela tenta apenas fazer o que acha certo, talvez o que pense que vá doer menos, como ela tenta proteger a família, os filhos. Ela é uma personagem muito confusa, que erra muito, apenas tentando acertar. Senti pena dela.

“Não é culpa dela. Ela não teve uma boa figura materna enquanto crescia. Ela não esperava ter um filho intersexual. Todos lidam com as coisas do modo como foram ensinados.” Página 306

Já o pai, Steve, também parece perdido, mas no final é um dos poucos que se encontra. No início do livro ele é distante, talvez até frio, porém vamos conhecendo-o, percebendo o porquê de tudo isso e ele vai, gradualmente, transformando-se em um personagem melhor, uma pessoa melhor.

A namorada de Max, Sylvie, também é cheia de personalidade. As narrações dela são incríveis e contrastam com a narração muitas vezes depressiva e perturbada de Max. A relação deles pode acontecer de maneira rápida, mas enquanto ocorre, ela constrói bases firmes gradualmente, conquistando o leitor. Eu me pegava torcendo por eles, torcendo especialmente por Max, que era realmente um cara muito legal, especial, e que merecia um final feliz, algo que nem sempre vem, pelo menos nem sempre do jeito que esperamos.

Falei tanto dos personagens porque, no final, esse não é livro sobre intersexualidade, mas sim um livro sobre pessoas, sobre um adolescente especial, sobre uma família que ainda está tentando descobrir a melhor maneira de lidar com isso, sobre relacionamentos e sentimentos como amor, amizade, paternidade, maternidade. É um livro sobre pais e filhos. A autora é brilhante ao descrever e se aprofundar nos pontos mais íntimos desses personagens, tão reais que poderiam estar muito próximos da gente. Que poderiam ser nós mesmos.

“Sou um observador passivo da dor à minha volta. Sou o fusível da bomba. Nem sequer me acendo. Tampouco escolho quando apagar. Eu não explodo. Eu apenas sou.” Página 317

Quando à edição, ela está impecável. A capa parece não chamar muita atenção, porém quando você lê o livro percebe que ela condiz perfeitamente com conteúdo. Toda essa mistura de cores alude à intersexualidade e até mesmo se parece com a bandeira do movimento de orgulho dos intersexuais. A revisão também está perfeita, não encontrei nenhum erro. Uma edição perfeita para um livro perfeito.

Menino de Ouro é aquele tipo de livro que faz o leitor refletir, de um jeito doloroso, mas também incrível. Repleto que questionamentos sérios, é também uma leitura ágil que exige que o leitor vire mais e mais páginas até alcançar o final. Não é um livro que você vá esquecer, mesmo após fechá-lo. Abigail Tarttelin dá uma aula de como escrever um livro e conquistar um leitor da primeira à última página, lidando com um tema polêmico e controverso de maneira sensível, emocionante e responsável. Indicadíssimo.

Livro gentilmente cedido para resenha pela Globo Livros.

Ficha Técnica

Título: Menino de Ouro
Autor: Abigail Tarttelin
Editora: Globo Livros
Páginas: 384
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book)/ Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Ycaro Santana disse:

    Depois de tantos elogios sobre o livro nesta resenha preciso comprá-lo urgente. Estou morrendo de curiosidade para saber o que acontece!

  • Dâmaris Carvalho Lima disse:

    Não nem palavras para falar a respeito do livro, fiquei muito curiosa em ler ele, a história parece ser muito tensa e as personagens muito bem construídas. Legal um livro retratar esse defeito genético!

  • Maratona Literária 2.0 – Dias 06 e 07 « Por Essas Páginas disse:

    […] com isso ela nessa semana leu os dois livros da meta (O outro foi Menina de Ouro, e já tem até resenha!). Vocês podem saber detalhes no Eu, papel e […]

  • Edna Dias disse:

    Este livro esta na minha lista de desejados…
    Louca para desvendar os segredos do Max…
    O tema é super polêmico e gosto de livros que fazem refletir!
    Adorei a resenha, parabéns 😉

  • Mayara Mendonça disse:

    Esse livro parece ser bem intenso. Realmente a leitura deve ser daquelas que deixam você pensando na história por dias. Eu gostei da capa! =p

  • Rita Cruz disse:

    Caramba. Quando a abri a resenha pra ler jamais suspeitaria que o livro abordaria um tema tão delicado. Geralmente vários narradores em uma única estória me fazer torcer o nariz para o livro. É algo que nem sempre dá certo. Mas fiquei mega curiosa a respeito da obra, de como a autora a abordou e mescleu com a confusão tão comum entre os adolescentes. Não é uma escolha fácil a que Max terá que fazer, principalmente porque isso afetará diretamente o seu relacionamente com a namorada.
    Intenso deve ser a palavra que melhor defina o livro, e eu gosto de livros assim. Fiquei super curiosa e vou procurar saber mais a respeito da obra com certeza.

  • Julliany disse:

    Caracaaam quero muito ler esse livro, me chamou muito a atenção, embora seja um clichezinho, familia perfeita e um super segredo, mas fiquei super curiosaaaa

  • Nivia Fernandes disse:

    Esse é um tema bem complicado mesmo, mas narrado de uma maneira cuidadosa dá uma baita de uma história! Já ouvi falar em intersexualidade, mas não sabia que já haviam escrito sobre ela.
    Fiquei com muita vontade de ler, porque parece mesmo um livro denso e delicado para tratar de um assunto tão complexo.

    Quanto à capa, somente reforça meu apreço por títulos que chamem a atenção e capas que apenas sejam um pequeno reflexo do segredo que o livro traz, não o destaque de tudo, =)

  • Melissa de Sá disse:

    Poxa, que interessante. Gostei do livro. Vou ler assim que puder. Eu gosto bastante dessas discussões a respeito de sexo e gênero, mas confesso que até hoje não li nenhum livro de ficção sobre isso.

    Realmente, sexo e papéis de gênero são coisas que influenciam muito as nossas vidas. Muita gente pensa que apenas gênero é algo performativo (quer dizer, que não é “natural” pois se aprende ao longo da vida), mas sexo (no sentido biológico de homem e mulher) também é. Não é a toa que transsexuais costumam ser vistos como aberrações (corpos abjetos), justamente porque não se enquadram no padrão de sexo.

    Ter que marcar um X na caixinha de masculino e feminino é algo muito doloroso para várias pessoas, principalmente as transsexuais (e as intersexuais também). Significa que o próprio estado au a instituição em questão não respeita o que você é como indivíduo.

    No Brasil, agora é possível tirar passaporte como sendo parte do “terceiro sexo”, o que é um grande avanço para as políticas de alteridade por aqui.

    Eu fiz parte de um grupo de dança de salão que subvertia essas noções de gênero e sexo. Nesse grupo, podíamos dançar nas duas posições (de condutXr e conduzidX), independente do sexo. Fez cair por terra várias noções que eu tinha sobre o que a tal “feminilidade” e “masculinade” na dança de salão. No fim, são apenas construções sociais/culturais. Descobri que em algumas danças eu gosto mais de conduzir (forró, samba) e em outras de ser conduzida (lindy hop, soltinho, bolero). E que as duas posições não dependem do meu sexo,mas sim da maneira que me encontro com a expressão daquela dança.

    Enfim, saí meio do livro, mas é que esse assunto é muito interessante e super importante para discussão. Se queremos viver num mundo mais justo, acho que é crucial pensarmos nisso. A gente tem que pensar que quando somos pessoas sis (ou seja, em que corpo e identidade de gênero são iguais), temos vários privilégios.

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    […] Esse livro brilhante fala sobre um tema muito pouco conhecido e menos ainda abordado: a intersexualidade. O protagonista aqui é um garoto, uma garota, os dois e nenhum deles. Complicado, não? Mas a autora consegue abordar um tema extremamente delicado com sensibilidade e ternura, além de total domínio tanto do tema quanto de seus personagens. Uma das coisas mais interessantes é que o livro não se atém apenas ao protagonista, mas sim a toda sua família e círculo de convivência. Todo mundo deveria ler. Resenha. […]

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