Resenha: Mr Mercedes

King é King, certo? Existem alguns escritores que são tiros certeiros, e o mestre do terror é um deles. Desde o começo do ano não tive nenhuma leitura que me despertasse aquele “Oh!”, aquele sentimento de uma leitura excelente e surpreendente; houve livros muito bons, mas nenhum brilhante. Bem, foi aí que a Suma lançou Mr Mercedes, que eu já estava esperando por aqui desde o lançamento nos EUA, e ofereceu para leitura na nossa parceria. E eis que chegou o livro brilhante, excelente e surpreendente nas minhas leituras do ano!

Mr. Mercedes“Nas frigidas madrugadas, em uma angustiante cidade do Centro-Oeste, centenas de pessoas desempregadas estão na fila para uma vaga numa feira de empregos. Sem qualquer aviso um motorista solitário irrompe no meio da multidão em um Mercedes roubado, atropelando os inocentes, dando ré e voltando a atropelá-los. Oito pessoas são mortas, quinze feridos.
Em outra parte da cidade, meses mais tarde, um policial aposentado chamado Bill Hodges é ainda assombrado por um crime sem solução. Quando ele recebe uma carta enlouquecida de alguém que se auto-identifica como privilegiado e ameaça um ataque ainda mais diabólico, Hodges acorda de sua deprimente e vaga aposentadoria, empenhado em evitar outra tragédia.
Brady Hartfield vive com sua mãe alcoólatra na casa onde ele nasceu. Ele adorou a sensação de morte sob as rodas da Mercedes, e ele quer aquela corrida de novo. Apenas Bill Hodges, com um par de aliados altamente improváveis, pode prender o assassino antes que ele ataque novamente. E eles não têm tempo a perder, porque na próxima missão de Brady, se for bem sucedido, vai matar ou mutilar milhares.
Mr. Mercedes é uma guerra entre o bem e o mau, do mestre do suspense, cuja visão sobre a mente deste obcecado assassino insano é arrepiante e inesquecível.” Fonte

Quando a gente pensa em Stephen King logo imagina um cenário de horror. Não que Mr Mercedes não tenha isso – tem, e na sua forma mais tenebrosa, o horror da perversidade e loucura humana -, mas eu diria que essa obra do mestre é mais puxada para o suspense, até mesmo para um romance policial. E o que vemos nessa obra é a competência do autor em escrever um romance policial. De fato, King pode escrever o gênero que quiser.

Logo de cara somos expostos a um cenário de puro choque e horror: uma Mercedes cinza investe contra um enorme grupo de desempregados que passaram a noite em claro, no frio, em uma fila de empregos. Mas, para sentirmos ainda mais o choque e a perda, King nos oferece uma ótima cena, apresentando-nos alguns desses desafortunados, vítimas do crime, inclusive uma mãe com seu bebê. O resultado é perturbador. E então o romance, de fato, se inicia.

“Toda religião mente. Todo preceito moral é uma ilusão. Até as estrelas são miragem. A verdade é a escuridão, e a única coisa que importa é fazer uma declaração antes de se entrar nela. Rasgar a pele do mundo e deixar uma cicatriz. É disto que se trata a história, afinal: cicatrizes.” Página 292

Conhecemos Bill Hodges, um detetive aposentado à beira da depressão e do suicídio. Após deixar a força, ele passar dias e tardes vazios, engordando, assistindo televisão e “brincando” com a antiga arma de seu pai. A vida segue nesse tom sinistro até o dia que Hodges recebe uma carta do Assassino da Mercedes, um dos casos de sua época que ficaram sem solução. A carta, exibida na íntegra, é pavorosa e revela coisas pessoais do detetive, coisas que só alguém que o observa poderia saber. Além disso, o assassino descreve seu ato, com detalhes que Hodges sabe muito bem serem verídicos e apenas conhecidos da polícia. Por fim, o assassino convida o detetive a conversar com ele em um site anônimo na internet. A carta sutilmente sugere suicídio. O tiro, porém, sai pela culatra, e faz com que Hodges embarque em uma investigação particular ousada e arriscada, que pode colocar em perigo não só sua própria vida, quanto de outras pessoas que o cercam.

Talvez o maior brilhantismo de Mr Mercedes seja o fato de que o “vilão”, o Mr Mercedes, é inserido na trama como mais um personagem, que divide o protagonismo com o próprio Bill Hodges. Nós temos a visão muito próxima do “demônio” do livro, um homem comum, sem poderes nem fatores sobrenaturais, um cara que à primeira vista é pacífico, mas que por dentro está embriagado em loucura e psicopatia. Os melhores livros, tanto de King, quanto de terror e policiais utilizam essa abordagem. Pegando o próprio King de exemplo, O Iluminado, uma de suas obras mais aclamadas, também “humaniza” e aproxima o vilão, um homem extremamente comum. Para mim, essa é a parte mais assustadora, mais do que os fantasmas e o próprio Hotel Overlook. Quando o perigo está encarnado em uma pessoa como outra qualquer, em um ser humano… isso é muito mais aterrorizante que qualquer monstro, palhaço ou fantasma.

mrmercedes_insta

E o Mr Mercedes – o vilão, não o livro – é brilhante. Ter acesso à sua mente é ao mesmo prazeroso e perturbador. Ácido, obcecado, completamente desequilibrado, às vezes desconcertantemente verdadeiro e até engraçado, ele dá o tom certo à obra. Ao mesmo tempo, Hodges não é nenhum “mocinho”, repleto de defeitos e particularidades que o tornam ainda mais humano aos olhos do leitor. O livro ainda é recheado de ótimos personagens coadjuvantes, cada um importante à sua maneira. Uma das personagens que me surpreendeu e se tornou uma favorita foi Holly, que começa com um papel pequeno, uma mulher depressiva e vampirizada pela própria mãe, mas que depois desponta como uma mulher forte, inteligente e extremamente corajosa e valorosa para a trama.

Apesar de amar Stephen King, sei que às vezes ele exagera na dose, com livros muito longos, cenas e descrições um tanto arrastadas, como em A Dança da Morte, por exemplo, um livro que ainda não consegui terminar de ler. Bem, fico feliz em dizer que em Mr Mercedes isso está longe de acontecer. Apesar de longo, o livro não possui nenhuma cena que poderia ser descartada ou que esteja fora de seu lugar. King amarra todas as pontas soltas e conquista com um suspense ágil e tenebroso. A leitura flui maravilhosamente e chega um momento que você não consegue mais parar. Para completar, a edição da Suma é fantástica, seguindo o padrão da capa original, com diagramação e papel confortáveis e, como não poderia deixar de ser, o cheiro delicioso de todas as edições do Grupo Companhia das Letras. Um livro para ler, reler e admirar na estante. Prato cheio para fãs do mestre do terror, que se deu muito bem em um romance policial. O livro faz parte de um trilogia, que estou louca para continuar a ler. King, afinal, é King.

Livro gentilmente cedido para resenha pela Suma de Letras, selo do Grupo Companhia das Letras.

Ficha Técnica

Título: Mr Mercedes
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Páginas: 400
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon / Saraiva / Livraria da Folha / Livraria da Travessa / Submarino / Shoptime
Avaliação: 

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