Resenha: Nada

Apesar da minha extensa experiência em leituras de terror, horror e suspense, inclusive escrevendo histórias do gênero, nada poderia ter me preparado para esse livro, de maneira que eu ainda estou um pouco atordoada após a leitura de Nada, da autora dinamarquesa Janne Teller. Deliciosamente macabro e perturbador, esse livro é ao mesmo tempo fácil de devorar e incrivelmente difícil de digerir. E é exatamente essa sensação que perdura após a leitura que o faz ainda mais magnífico.

““Nada importa.” “Você começa a morrer no instante em que nasce.” Pierre Anthon está no sétimo ano e tem certeza de que nada importa na vida. Por isso, passa os dias sobre os galhos de uma ameixeira, tentando convencer seus companheiros de classe a pensar do mesmo modo. No entanto, diante da recusa do menino de descer da árvore, seus colegas decidem fazer uma pilha de objetos dotados de significado, e com isso esperam persuadi-lo de que está errado. Mas aos poucos a pilha se torna um monumento mórbido, colocando em xeque a fé e a inocência da juventude.” Fonte

É com essa premissa que Nada começa. Insatisfeito, revoltado e cansado da vida, Pierre Anthon resolve se refugiar em uma ameixeira, filosofando sobre a efemeridade e a total falta de sentido da nossa passagem no mundo, atirando ameixas e caroços nos colegas de sala. Estes, por sua vez, sentem-se ultrajados pelas palavras duras de Pierre Anthon e tornam-se irritadiços e estressados ao serem obrigados ao lidar com essa situação insustentável na qual o colega vai tirando, aos poucos, o sentido de suas vidas com suas palavras cruéis. Eles resolvem, então, que devem retirar Pierre Anthon de cima da ameixeira de qualquer maneira; tentam de tudo, xingamentos, bater no garoto e até atirar-lhe pedras. (Repararam que eu insisti em usar o nome completo dele? Pois é assim que o livro faz também: cada um tem um nome ou título, como o piedoso Kaj, a bela Rosa e por aí vai.) Nada adianta: o garoto está totalmente convencido de que nada importa. E é aí que os seus colegas tem uma outra ideia para mostrar a Pierre Anthon que existe algo sim que importa e, de quebra, eles mesmos tentam encontrar esse tal significado para suas vidas. Eles decidem construir uma pilha de significados.

Vocês vão à escola para ter um emprego e trabalhar para ter tempo de não fazer nada. Por que, então, não fazer nada desde o início?

Seria tudo muito bonito e louvável se essa pilha não descambasse para algo mórbido e extremamente macabro.

A pilha começa com uma coleção de livros de Dungeons & Dragons (aliás, há algumas referências bem legais no livro, especialmente aos Beatles). Cada um cede algo seu de grande significado pessoal após o desafio de outro colega; em seguida, essa pessoa desafia outra pessoa a ceder algo significativo à pilha, de maneira que ela vai aumentando a cada dia. Depois dos livros são adicionadas uma vara de pescar, um par de tamancos verdes, um hamster de estimação… Eu achei que foi a partir do hamster que as coisas começaram a ir por água abaixo. Mas isso não é nada comparado ao primeiro grande item mórbido que é adicionado à pilha – e que já fez meu queixo cair, ah, eu fico doida aqui para soltar spoilers, mas não posso. Depois disso, a pilha se torna ainda mais sinistra e os desafios mais macabros.

O “monumento” – que um dia até poderia ter nascido com alguma boa intenção – torna-se um instrumento de maldade e vingança dos garotos. Muito mais do que provar a Pierre Anthon que a vida tem significado, eles tentam provar isso a si mesmos, porém de maneira intensamente cruel. Em vários momentos precisei parar, soltar um palavrão para o alto para extravasar o meu choque ou horror, e então seguir com a leitura, que corre frenética, apesar de embrulhar o estômago muitas e muitas vezes.

Esse negócio de embrulhar o estômago em uma leitura é uma coisa agradável para mim, mas como pode não ser para todo mundo, é bom avisar.

Sempre que eu sorria e ria, me perseguia a o pensamento de quantas vezes eu choraria com essa mesma boca e com esses mesmos olhos até que, um dia, eles não se abririam mais e, então, outros iriam e chorariam até serem também colocados sob a terra.

O livro é narrado em primeira pessoa por uma das colegas de sala, Agnes. Mas isso não quer dizer que por esse motivo nos envolvemos mais com ela do que com os outros; ela é apenas os nossos olhos naquele espetáculo sombrio da pilha de significados. Todos os personagens são importantes, todos eles tem algo a acrescentar e sua própria personalidade marcante e, apesar das poucas páginas do livro e do pouco tempo que a autora teve para descrever cada um deles, ela realmente não precisou de muitas palavras para aprofundá-los. Tudo nesse livro é muito intenso. É como se as pessoas fossem representadas pelas coisas – e com “coisas” eu não quero dizer apenas objetos materiais – que tem importância fundamental na sua vida. E, à medida que os desafios se tornam mais cruéis, tanto Agnes quanto o leitor percebem que cada pessoa tem várias faces, várias personalidades que se revelam em cada situação.

Apesar do tom macabro, o livro não é desnecessariamente mórbido. Não é daquele tipo de história que atira coisas horríveis na sua face sem nenhum motivo. Muito pelo contrário: tudo tem um motivo nesse livro. O tom dele, apesar de quase infantil às vezes, é muito profundo; as palavras ali escritas pesam no coração do leitor e, por isso, essa leitura é tão incrível e, na minha opinião, deveria ser realizada por todo mundo em algum momento da vida. O livro realmente traz em suas entranhas um significado, porém, como também é dito ali, às vezes é preciso perder algo para se ganhar, e a gente tem dificuldade para perceber o que foi afinal que ganhamos com tudo aquilo.

Choramos porque havíamos perdido algo e ganhado algo. E porque perder doía tanto quanto ganhar. E porque sabíamos o que havíamos perdido, mas ainda não conseguíamos pôr em palavras o que havíamos ganhado.

É como quando algo muito horrível acontece na nossa vida e ficamos pensando: por que isso aconteceu? Qual o motivo de tudo isso? Por quê? Por que comigo? Qual o significado? Só que muitas vezes – quase todas – é perdendo que aprendemos. É perdendo que ganhamos ou conquistamos algo importante dentro de nós.

Nada com certeza foi a minha melhor leitura desse ano e ouso dizer que uma das melhores leituras da minha vida. Como eu já afirmei, todo mundo deveria ler esse livro em algum momento da vida, mesmo que seja difícil de engolir. Somente lendo-o é possível entender porque ele foi temporariamente banido na Escandinávia e porque gerou tamanha controvérsia; assim como a pilha de significados, Nada é tanto uma obra de arte que exalta a vida e o que há de melhor no ser humano quanto um monumento sombrio à morte e à crueldade humana.

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Record!

Ficha Técnica

Título: Nada
Autor: Janne Teller
Editora: Record
Páginas: 128
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Lain Lang disse:

    UAAAAAU!! Super interessante! Estou interessada e com medo do livro agora… vou pensar se quero ler ou nao…. ai ai!! que aflicao!!!

  • Karen disse:

    Lain, esse livro é muito bom! Apesar de saber que tu tem aflição com livros desse tipo, ele não é um terror sem sentido, ele é a natureza cruel do ser humano e te faz refletir muito! Recomendadíssimo! Pense, pense aí se quer ler, mas vale a pena!

  • Nivia Fernandes disse:

    Vixe! Gritando originalidade! Preciso ler esse livro, você tinha razão!

    É daqueles livros que batem na gente. Bom, tudo bem, estou acostumada a isso também… Impressionante como uma ideia inocente pode se transformar numa coisa absurda depois e perder seu significado original. E como as pessoas conseguem distorcer tudo.
    Sim, é sempre perdendo que a gente acaba aprendendo algo… Não tem jeito.

    Parabéns pela resenha e por me deixar maluca por mais um livro! rs Beijos!

  • Karen disse:

    Viu viu? Eu sei do que você gosta. Tenho certeza absoluta que tu vai curtir esse livro. É a nossa cara um livro assim.
    E o livro nos faz refletir muito mesmo. Demais!
    Leia, leia, leia!
    Beijão, lindona!

  • Renata disse:

    Uau, que livro tenso e intenso!
    Com certeza vou ler algum dia sim, afinal eu adoro esses livros que nos fazem refletir.

    Beijos,
    Resenhando Books

  • Karen disse:

    Com certeza, Renata! Super intenso! Recomendo muito a leitura! 😉
    Beijão!

  • Juliana Souza disse:

    Eu vou ter que ler esse livro. Como disse a Nivia Fernandes, a estória é realmente original.

  • Tâmara Moya disse:

    Nossa!!!
    Choquei!
    Livro macabro, mas tbm parece ser brilhante!Fiquei aflita só de ler a sinopse e resenha. O livro parece ser uma espécie de filme de terror com thriller psicológico. Os personagens são bem delineados e cada um destaca-se por sua personalidade.
    A infância é representada por atitudes egoístas e perversas e definem o quanto a criação dos pais, a influência dos adultos pode colaborar para a degradação do perfil psicológico de cada um.
    Coloquei na minha lista!
    Bjus

  • Vania disse:

    Nhaaaa… eu adorei a resenha como sempre, mas… mas… não sei. Eu adoro livros que me chocam, que me fazem refletir, pensar na vida e no sentido que ela possa ter. Adoro embarcar nessas histórias em que todo mundo é capaz de qualquer coisa. Mas. Eu não acho que seja um livro pra mim, principalmente se é de embrulhar o estômago. Especialmente agora, depois de tomar um café e estar meio que passando mal. Um dia, quem sabe…

  • Mariana disse:

    Ka, amei, amei, amei a resenha. Consegui o livro em uma troca pelo PLUS, vou dar um gás nas leituras de parceria para poder ler ele logo, afinal, como você disse no twitter, é fininho. Espero que logo possa contar o que achei.

    Beijocas
    Mari

  • Karen disse:

    Nossa, Mari, tu vai amar! E tu vai ler rapidinho, acredite, eu comecei a ler e devorei, sabe aquele livro que você quer terminar logo, mas depois fica com um vazio por ter terminado? E o livro é super brutal, mas daquele jeito que a gente gosta de apanhar. É muito a tua cara, sério, porque tu é que nem eu e eu adoro essas coisas, então sei que vai amar. Boa leitura! 🙂

  • Top Ten Especial: Dez livros para o Halloween « Por Essas Páginas disse:

    […] Esse não é classificado como um livro de terror, mas bem que poderia. Nada é cruel, insano e, acima de tudo, perturbador. Até onde vão os limites da crueldade humana? Pior, da crueldade infantil? Aqui um grupo de crianças constrói uma pilha de significados que, gradualmente, torna-se algo macabro e pavoroso. Tenham medo. Resenha aqui. […]

  • Resenha: Boneco de Neve « Por Essas Páginas disse:

    […] nadinha. Se vocês querem algo realmente perturbador, por favor, voltem lá na resenha de Nada, que também é da Record, e aí sim se sintam incomodados pra valer. Aquilo sim foi um um […]

  • Lucy disse:

    Kakazinha, eu li o livro. Ainda me embrulha o estômago pensar em todos os significados que foram colocados na pilha. Me embrulha o estômago ver como foi a transformação dessa pilha como você falou muito bem: de algo bem intencionado a algo macabro. Eu fiquei muito triste com tudo o que aconteceu com as personagens e com o Pierre Anthon. Caramba, me deu até um pouco de ressaca literária. Complicado, viu…
    ótima resenha, eu não teria conseguido exprimir tudo o que senti com esse livro como você fez – e sei que vc se segurou em vários pontos ali.
    BJos

  • Shadai disse:

    Excelente resenha.
    O livro parece tão fácil por causa da sua escrita, mas tem muita coisa filosófica para refletirmos bastante, e o melhor: não conseguimos parar de pensar em toda sua história mesmo após termos acabado de lê-lo. E é assim que estou me sentindo pois resolvi lê-lo hoje terça de carnaval de uma só vez e agora passando a tarde toda lendo opiniões de quem o leu também.
    Certeza irei indicar e emprestar esse livro para mais pessoas lerem.
    E acho que seria muito interessante professores (de filosofia?!) indicarem para seus alunos (adolescentes) e ter uma aula debate a respeito desse livro, seria bem legal.

  • Top Ten Tuesday: Dez Citações Favoritas | Por Essas Páginas disse:

    […] Nada – “O significado. – Ela assentiu com a cabeça como que para si mesma. – Vocês não nos ensinaram nada. Assim, aprendemos sozinhos.”- pág. 91. […]

  • Top Ten Tuesday: Dez livros com títulos diferentes « Por Essas Páginas disse:

    […] Nada, Janne Teller (resenha) […]

  • Roberto A Alves disse:

    Já vou adquirir! Treinando para me responder ao tema de hoje de meu diário reflexivo: qual o sentido da vida?

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