Resenha: Não brinque com fogo

Não brinque com fogo foi o nosso primeiro livro de parceria com a Editora Arqueiro. Também foi minha primeira leitura de John Verdon e da sua série do detetive Dave Gurney. Apesar de ser o terceiro livro do autor – e da série – não senti incômodo algum por ler uma série já iniciada. Como a maioria dos livros policiais, a série é uma sequencia, mas um livro não é conectado intrinsecamente ao outro, de maneira que qualquer leitor pode iniciar a série não pelo primeiro, mas pelo segundo ou ainda pelo terceiro livro tranquilamente. Mas sim, fiquei com vontade de ler mais livros dessa série. Vamos lá descobrir mais sobre Não brinque com fogo?

“No ano 2000, um criminoso que ficou conhecido como Bom Pastor matou seis pessoas em estradas, dentro de seus carros em movimento. Na época, ele enviou um manifesto à polícia no qual deixava claras suas motivações: uma cruzada solitária contra a ganância. Após o sexto assassinato, no entanto, encerrou a matança e nunca foi descoberto. Dez anos depois, uma jovem estudante de jornalismo está fazendo um documentário sobre os familiares das vítimas quando coisas estranhas começam a acontecer em sua casa. Objetos são trocados de lugar, maçanetas são afrouxadas, luzes se apagam sozinhas. Assustada, ela contrata Dave Gurney como consultor. Depois de ler o material sobre o caso – incluindo o perfil psicológico do assassino elaborado pelo FBI –, o detetive coloca em dúvida toda a lógica da investigação. Ao confrontar os agentes responsáveis, porém, Dave percebe que está mexendo em um ninho de vespas, o que fica evidente quando até pessoas que o apoiaram no passado se voltam contra ele. Agora seu único aliado é o antigo parceiro Jack Hardwick, um policial grosseirão e debochado que não esconde seu desprezo pelas autoridades. Com sua ajuda, Dave tem acesso aos relatórios confidenciais do caso e começa a própria investigação. Mais uma vez, ele se colocará em risco enquanto tenta provar seu ponto de vista e capturar o criminoso. Além de reunir todas as qualidades da série Dave Gurney – personagens bem construídos e uma admirável engenhosidade narrativa –, “Não Brinque Com Fogo” vai além: é um lembrete do poder da fé em si mesmo num mundo onde isso é cada vez mais raro.” Fonte

Como eu disse anteriormente, não tive nenhum problema de entendimento ou para me situar na história, mesmo se tratando de uma série. Policiais são geralmente dessa maneira, algo que gosto muito. Porém, o problema real que senti no início desse livro foi uma introdução lenta, arrastada, descritiva e quase monótona. Demorei mais de uma semana para lê-lo e culpo por isso a lentidão desse início. O livro é dividido em três partes e, ao menos para mim, as coisas começaram a se tornar realmente interessantes somente a partir do final da primeira parte, o que acontece lá pela página 115.

(…) a raiva é como um iceberg. O que você acha que é sua causa em geral é apenas a ponta da massa de gelo. Só seguindo a corrente até lá embaixo para descobrir a que ela está ligada, o que a sustenta. Página 77.

A partir daí a leitura se torna realmente ágil e viciante. Demorei tanto para ler 115 páginas e depois devorei as quase 300 páginas seguintes em dois ou três dias. Sendo um thriller policial, toda a história é cheia de surpresas, reviravoltas no caso e muita ação. Ah, e claro, acompanhamos os pensamentos de Gurney, um detetive aposentado ainda brilhante, em uma narrativa em terceira pessoa, porém centrada na visão de apenas um personagem (com exceção das pequenas entradas do assassino, o Bom Pastor). Toda a trama é bem amarrada e as respostas satisfazem e são coerentes com o mistério criado pelo autor.

Sobre Dave Gurney… ainda não me decidi se gosto do personagem ou não. Acho que preciso ler mais alguns livros dele para ter certeza. Por muito tempo me irritei com ele, principalmente no início, quando ele passava por um momento de extrema rabugice e depressão, devido a um acontecimento do livro anterior. A sua carga emocional era sufocante e essa é grande parte da causa da lentidão no início da obra. Claro que há uma explicação lógica para essa situação e ela deve ficar ainda mais evidente se você ler os outros volumes antes desse. Mas não deixa de ser irritante em grande parte do tempo esse estado do personagem, principalmente porque você o acompanha o tempo inteiro. Porém, depois de algumas reviravoltas, ele se torna mais interessante, confiante, centrado e mais ele mesmo, apesar de ainda possuir alguns conflitos internos, mas nesse momento eles acrescentam, ao invés de tomarem todas as atenções para si. Gurney deixa seu estado de inércia e começa efetivamente a agir, o que torna a história muito mais dinâmica, cheia de tensão, deixando o leitor angustiado para alcançar o final do livro.

– Você está querendo saber que decisão eu tomaria se não fosse eu, com meu passado, meus sentimentos, meus pensamentos, minha família, minhas prioridades, minha vida. Será que você não vê? Minha vida não poderia me colocar na sua posição. Não faz o menor sentido.
Ela piscou, perplexa.
– Por que você está com tanta raiva? Página 77.

Não entendi porque tamanho medo e ressentimento de Gurney na relação com o filho. É assim que somos introduzidos aos dois na história, porém não foi assim que ela se desenrolou. Na verdade havia sim algo não resolvido entre os dois, mas percebe-se também muito carinho e respeito da parte de Kyle, um personagem não tão importante, mas atraente. Talvez isso seja melhor explicado em outros livros. Ao mesmo tempo, gostei bastante da personagem Madeleine, esposa de Gurney; ela trazia coerência, tranquilidade e insights enriquecedores ao livro. Quanto a Kim, que parecia tão promissora no início da história, acabou se tornando uma personagem histérica e inútil ao longo do livro. Detestei a garota.

Gostei muito, muito mesmo, do ácido Jack Hardwick, antigo parceiro de Gurney e atual aliado dele. Ficou muito claro que o personagem era a fonte de respostas e dados para o livro, porém isso foi proposto de maneira natural e cada interação entre os dois personagens foi capaz de me deliciar e, muitas vezes, diminuir um pouco a pressão do livro. Hardwick é tão grosseiro e debochado que chega a ser engraçado. E isso fez uma grande diferença – para melhor – durante todo o livro. Espero que ele apareça também em outros livros do autor.

Todo o caso do livro – dos assassinatos do Bom Pastor – é intrigante e inteligente, assim com o personagem, que passa todo o livro em uma névoa de mistério, mas intensamente presente na história. Devo dizer que John Verdon me enganou bem durante o livro, tanto que, quando descobri a verdade, fiquei pasma, mas as explicações foram coerentes e brilhantes. Todo o livro é muito inteligente, porém o autor – pelo menos a partir da segunda parte – conduz o leitor de maneira natural e envolvente, fazendo com que viremos as páginas avidamente em busca da conclusão.

– E qual é o final feliz? Uma fração de segundo antes da sua cabeça ser estourada eu pulo do céu para salvar você, tipo a porra do Batman? Página 342.

A edição da Arqueiro é cuidadosa, com um papel de qualidade e uma capa bem feita. No começo achei as letras um pouco miúdas, mas depois me acostumei e entendi o porquê disso, afinal, mesmo com letras pequenas o livro tem boas 400 páginas. Às vezes é melhor uma letra um pouco menor para que o livro continue sendo confortável para ler – não um calhamaço que dá dor nas costas. Mas o que eu realmente não entendi foi a escolha do título brasileiro. “Não brinque com fogo” até faz sentido, mas não é o título ideal, nem a tradução óbvia do original em inglês – Let the Devil Sleep. Entendo que muitas vezes não se pode utilizar a tradução mais óbvia, porém a frase foi traduzida ao longo do livro como “Não acorde o diabo”, o que, na minha opinião, seria um bom título e mais adequado ao conteúdo do livro. Mas isso não é nada que realmente prejudique a leitura, apenas uma observação de uma pessoa meio obcecada assim como o próprio detetive Gurney.

Vale a pena? Muito, principalmente para quem curte o gênero policial. É um livro bem escrito, inteligente e, na maior parte dele, viciante. Até a página 115 eu daria 3 estrelas, porém depois disso o autor me envolveu de tal maneira e trouxe um final tão bom que sou obrigada a ceder de bom grado 4 belas estrelinhas para o terceiro volume da série de John Verdon. E que venham os próximos (mas vou tentar ler os dois primeiros antes, porque fiquei curiosa!).

Esse livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Arqueiro!

Arqueiro_parceria

Ficha Técnica

Título: Não brinque com fogo
Autor: John Verdon
Editora: Arqueiro
Páginas: 400
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Lucas Grima disse:

    Achei interessante o assassino ficar conhecido como “Bom Pastor”. Bem, um livro policial que eu gostei muito foi Ecos da Morte. Ele também é narrado em terceira pessoa e foi super agradável. No início tive um pouco receio em lê-lo porque um gênero policial (na minha opinião) ele possibilita ao leitor uma visualização mais real das cenas das cenas, é como se o ouvíssemos o protagonista sussurrando em nosso ouvido, contando a história. Quando é narrado em terceira pessoa é diferente, é outra pessoa contando a história do protagonista. Para minha surpresa, Ecos da Morte se superou. Ele é mais policial do que um romance teen.

    Voltando a resenha, eu acho que o autor leu Alfredo Bosi, gostei da referência que ele faz sobre a inveja ser como um iceberg.

    Achei interessante, li poucos livros policiais e acabei descobrindo que eu até curto esse gênero.

    Os livros da Arqueiro sempre são ótimos para ler. Fonte no tamanho ideal, a cor das páginas… Tenho A Maldição do Tigre, e a capa está em perfeito estado embora ela tenha alto relevo.

  • Karen disse:

    É muito interessante mesmo. Bem, eu posso te contar isso porque não é spoiler, a escolha do nome do assassino foi inteligente pois a “missão” dele era separar o joio do trigo, acabar com a ganância no mundo assassinando as pessoas que eram gananciosas e perdulárias. Achei bem interessante mesmo.
    Opa, já anotei sua indicação. Já tinha ouvido falar desse livro, mas agora me interessei depois do que disse.
    Eu gosto bastante de policiais, acho que é a minha raiz de Agatha Christie mesmo. =)

  • Lucas Grima disse:

    Oh, que motivo mais nobre para se matar as pessoas. HAUAHSUAS Fiquei ainda mais curioso.

    Ecos da Morte foi feito para o público teen. O interessante é que a minha mãe curtiu mais do que eu.

    Vc acredita que eu nunca li Agatha Christie? D:
    Minha amiga me emprestou “Um gato entre os pombos”. Minha mãe leu a alguns anos e disse que é muito bom! Tenho quase certeza que vou gostar.

  • ana paula ramos disse:

    Oie
    Não conhecia o autor, mas qdo vi que era um genero policial, fiquei bem animada! Outro ponto positivo para mim, é que mesmo sendo uma serie, podemos ler separados, sem ser uma sequencia….. adoro qdo isso acontece.
    Dos personagens que vc descreveu, gostei do Jack Hardwick, nesse genero, imagino que sempre tem que ter um policial mais velho, que adora fazer piadinhas e ser irônico… acho que dá uma quebrada na tensão e fica mais gostosa de ler!!
    Fiquei curiosa tbem sobre os assassinatos, e se agente não espera pelo final e mesmo assim acha que é inteligente e coeso… o autor caprichou mesmo!

    vlw pela dica, vou procurar os outros livros dele tbem

    bjos

  • Jullyane Prado disse:

    Aaaah não faço nem ideia de quem seja o bom pastor, fiquei curiosa, é tão bo quando a gente lê um livro em que o autor consegue nos enganar perfeitamente! Eu gosto de livros policias e esse parece ser ótimo e que bom que pra entendê-lo não precisa ler toda a serie, as vezes eu perco a paciência com esse livros em serie, porque eu falto comer os dedos, porque as unhas né? Já se foram a muito tempo!! HAHAHA!! Parabéns pela resenha!!

  • Michelle Agda disse:

    Adorei conhecer um pouco mais sobre ‘Não Brinque com Fogo’, livro que eu já tinha ouvido falar mas não sabia que era assim tão excitante!

  • Ana Paula Candido da Silva disse:

    Só lendo a resenha me senti em um filme, adorei

  • Evelim disse:

    Já li todos os livros do John, super recomendo. Os outros livros explicam o que lhe ficou incoerente. A serie pode ser lida fora de ordem mas recomendo ler a partir do primeiro mesmo (que é o que eu considero o melhor ^^), e o segundo eu também acho melhor que este então sem decepções imagino ^^~.
    Leia =)

  • Resenha: Peter Pan tem que morrer « Por Essas Páginas disse:

    […] Verdon que li. Da mesma série do detetive David Gurney, também li Não Brinque com Fogo (leia a resenha), que foi um livro bom, mas que não me conquistou a fundo. Nunca mais pensei no autor ou na série […]

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