Resenha: O caçador de pipas

“O caçador de pipas é considerado um dos maiores sucessos da literatura mundial dos últimos tempos. Este romance conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970. Amir é rico e bem-nascido, um pouco covarde, e sempre em busca da aprovação de seu próprio pai. Hassan, que não sabe ler nem escrever, é conhecido por coragem e bondade. Os dois, no entanto, são loucos por histórias antigas de grandes guerreiros, filmes de caubói americanos e pipas. E é justamente durante um campeonato de pipas, no inverno de 1975, que Hassan dá a Amir a chance de ser um grande homem, mas ele não enxerga sua redenção. Após desperdiçar a última chance, Amir vai para os Estados Unidos, fugindo da invasão soviética ao Afeganistão, mas vinte anos depois Hassan e a pipa azul o fazem voltar à sua terra natal para acertar contas com o passado.” Fonte

É muito, muito difícil falar de algo que seja muito bom. Ainda mais difícil se você está escrevendo uma resenha sobre um livro muito bom. A gente nunca se sente à altura disso. Parece que você é um pontinho insignificante no meio do oceano. Afinal, quem a gente pensa que é para escrever qualquer coisa sobre algo tão sublime?

Acho que “sublime” é uma palavra interessante aqui. Define esse livro. Ele é sublime em sua infinita simplicidade, a simplicidade da vida, e ao mesmo tempo, a complexidade dela. Porque é isso que o livro faz: narra vidas. Vidas que poderiam passar despercebidas se não estivessem nas páginas de um livro. E quantas vidas não passam despercebidas por justamente não serem escritas? Toda vida tem sua importância, sua poesia. Há uma pequena linha dividindo ficção e realidade. Nesse livro, essa linha é ainda mais tênue: tudo parece tão real, tão palpável, que você fica pensando se esse livro não acontece ou aconteceu, em diferentes graus, em diferentes lugares, cada página em um espaço e tempo.

Esse é um livro excepcionalmente fantástico. E, na mesma proporção, excepcionalmente triste. No livro, em algum momento, se fala que histórias tristes dão boas histórias. Talvez seja verdade. Mas se prepare para ficar inútil e depressivo pelo resto do dia. O livro é muito, muito triste. Uma das histórias mais tristes que eu já li. Só que você não quer parar de ler. É meio como uma tortura fascinante; você se machuca a cada página virada, mas não consegue deixar de virá-las. Quando finalmente termina, a história continua martelando na sua cabeça, você chora e chora, e depois fica o resto do dia inteiro deprimido. Mas feliz por ter lido algo tão bom. Feliz e triste. Faz sentido?

Se pensar bem, faz… porque é como é a vida. A gente fica feliz e triste, triste e feliz, parece que a vida é uma sequência disso. O livro fala também sobre temas tão pertinentes ao nosso caminho, como a culpa, redenção, egoísmo, amizade, paternidade, preconceito, fidelidade. É um livro muito sobre a amizade, em seus vários tons. Fala sobre lealdade, na figura de Hassan, que é a figura mais sensível e bondosa que eu já vi em um livro, mas de um jeito real que é difícil escrever… Ele é uma pessoa boa, mas mesmo assim, é verdadeiro, é possível acreditar que em algum lugar deve existir alguém como ele. Se você conhecer alguém assim, agradeça aos céus, pois são pessoas difíceis de encontrar.

Li em algumas resenhas e comentários que é muito fácil não gostar de Amir, o narrador e protagonista da história. No entanto, eu gosto dele. É um personagem real, uma alma torturada, cheia de defeitos, boas intenções e sentimentos contraditórios. Criticá-lo seria hipocrisia, pois quanto de Amir existe em nós mesmos? Quantas vezes não cometemos, nem que fosse um pouquinho, os erros que ele cometeu? Mas apesar de tudo, o livro mostra que é possível “ser bom de novo”. É possível se redimir de nossos erros, é possível fazer alguma coisa de boa na vida. E Amir realmente o faz. Ele tenta, e isso é o que importa; ele faz o que pode, no final do livro, e de coração aberto. O livro é a grande jornada de sua vida, escrita belamente pelas mãos de Khaled Hosseini. E se eu queria mais alguma coisa para me afeiçoar a Amir, não poderia ser algo melhor do que o fato de que ele é escritor; e é nas palavras que ele extravasa todos os seus demônios, suas tristezas, sua agonia, sua poesia.

Eu já tinha lido A cidade do sol, outra obra belíssima do autor. Os dois livros são editados no Brasil pela Nova Fronteira, que fez um ótimo trabalho. Porém, não consigo definir o meu preferido entre os dois; são duas histórias sensíveis, que se passam no mesmo lugar tortuoso, o Afeganistão. É até triste admitir que o pouco que conhecemos desse país seja aquilo que aparece na TV, geralmente as piores coisas, sendo que o país tem tanta cultura, tantas coisas interessantes e, certamente, tantas histórias de pessoas como as personagens desses livros. Talvez a diferença fundamental entre os dois livros seja que, enquanto A cidade do sol é centrado nas mulheres, O caçador de pipas é centrado em homens. Porém, a sensibilidade está presente nos dois livros, bem como a cultura, a história e o sofrimento dessas pessoas.

Um personagem que me cativou imensamente foi o pai de Amir, seu baba. Assim como o filho, outra alma torturada, que evolui de maneira magnífica durante a história e tem um final de arrancar lágrimas do leitor. Bem, no meu caso foram muitas. Porém, também há outros personagens notáveis, cada um com algo especial a acrescentar à história. É incrível que Hosseini faz até mesmo de meros coadjuvantes personagens incríveis.

O caçador de pipas é uma jornada pessoal sem precedentes do narrador. Uma história bela e triste, recomendadíssima para qualquer tipo de leitor. Khaled Hosseini é um autor sublime, bem como suas histórias.

O livro tem uma adaptação para o cinema, que eu ainda não vi, mas dizem que o livro supera e muito sua versão cinematográfica. Geralmente é assim mesmo. Mas estou curiosa para assistir.

Ficha Técnica

Título: O caçador de pipas

Autor: Khaled Hosseini

Editora: Nova Fronteira

Páginas: 365

Onde comprar: Livraria Cultura

Avaliação: 

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  • Vania disse:

    Que linda sua resenha, Parceira!! Me emocionei aqui… eu comecei a ler O Caçador de Pipas em 2007, e estava indo bem até chegar a primeira cena forte do livro. Eu lembro como se fosse ontem, estava no trem pra Nova York e quando li aquilo comecei a chorar descontroladamente (ainda bem que estava sozinha no vagão). Guardei o livro na mochila e lá ele ficou o restante da viagem. Hoje ele está na casa dos meus pais, esperando pra quando eu voltar e tiver em um momento melhor, com mais maturidade e pronta pra viajar em suas páginas novamente.

  • Karen disse:

    Obrigada, Parceira! Esse livro é muito bom, tentei ao máximo fazer uma resenha à altura dele. Espero que consiga lê-lo em breve até o fim. Apesar de algumas cenas fortes, é um livro maravilhoso, sensível e emocionante. É um livro que nos traz momentos inesquecíveis, como o que você acabou de contar aqui.

  • Lany disse:

    Linda resenha Kakazinha! A palavra “sublime” realmente resume o livro. Nossa, eu chorei muito durante a leitura… Eu não me lembro de detalhes, porque li o livro faz bastante tempo, mas eu lembro que gostei do Amir. Reqlmente, criticá-lo seria hipocrisia e o que importa é que ele tenta se redimir…
    E agora eu tenho que ler A Cidade do Sol!!!

  • Karen disse:

    Esse livro é lindo, e realmente achei o Amir muito verdadeiro. O importante é que ele “tenta ser bom de novo” no final. E se arrependeu do que fez. Cidade do Sol também é maravilhoso, não consigo dizer qual o melhor. Leia sim!

  • Lucy disse:

    Poxa, eu não li ainda esse livro. Vi que teve o filme, mas também não assisti justamente porque quero ler primeiro. hehehe
    Adorei sua resenha, Kakazinha! Cheia de sentimento, você expôs a obra de uma forma tão bonita que me inspirou a ler esse livro. Vai pra lista, com certeza. 😉

  • Karen disse:

    Obrigada, Lu! Fico feliz, porque é muito difícil falar de algo tão bom. A gente nunca se sente à altura. Espero que leia e goste do livro!

  • Carolina disse:

    Bom dia Karen, tudo bem?
    O livro é simplesmente… tudo ….. Adorei a sua resenha, comecei a chorar quando li, pois eu me emociono muito com esse livro. Eu ganhei a versão ilustrada dele e toda vez que eu o olho, meus olhos enchem de lágrimas.
    Beijos

  • Karen disse:

    Carol, se não fosse por você eu não leria o livro! Obrigada pela troca! 🙂 Depois quero saber o que achou de o Hipnotista!
    Caçador de Pipas é lindo demais e muito tocante. A gente se emociona só de falar nele.
    Beijão!

  • Lain disse:

    Eu li já esse livro… não lembro se chorei mas lembro exatamente disso que a Vania falou! A cena forte do livro é demais pra mim…. o livro é mto bom mas não recomendaria justamente pela cena forte! Acho demais pra mim…mesmo hoje em dia depois de anos que já li…enfim! mto boa a resenha!

  • Karen disse:

    A cena forte é bem forte mesmo, mas recomendo passarem por ela, porque é importante e o livro compensa. É um livro maravilhoso, Lain!

  • Jullyane Prado disse:

    Eu li esse livro quando tinha uns 13 anos e nossa chorei demais, quase entrei em depressão, por isso eu recomendo ter mais idade e maturidade pra lê-lo, ao mesmo tempo que ele é um livro triste ( porque os personagens tem vidas sofridas e não só no aspecto financeiro, mas também no lado emocional e psicológico) o livro nos traz uma grande e profunda reflexão, através da simplicidade o autor conseguiu nos emocionar e mostrar o verdadeiro valor da vida! A adaptação eu ainda não assisti, as creio que não seja lá essas coisas, porque dificilmente um filme supera um livro, rsrs.

  • Sexta do Sebo #33 « Por Essas Páginas disse:

    […] Potter (e olha, eu ficaria tentada também), mas eu pensei, pensei, pensei… e escolheria O Caçador de Pipas. Só lendo para […]

  • Resenha: O silêncio das montanhas « Por Essas Páginas disse:

    […] autor. Oficialmente, agora, posso dizer que li todas as suas obras: aqui no blog tem a resenha de O caçador de pipas e Cidade do Sol (meu preferido de todos). Porém, apesar de ter elegido meu favorito, é […]

  • Jéssica Castro Paim disse:

    Esse é simplesmente um dos melhores livros que já li, colocou Khaled Hosseini no topo da minha lista de favoritos, a sensibilidade com que escreve me emociona até hoje, por isso tenho todos os livros dele!

  • Dâmaris Carvalho Lima disse:

    Gostei muito desse livro, também o considero muito bom!! Assisti o filme também, e devo dizer que achei o livro mais forte, o filme suavizou muito o que aconteceu com amigo de Amir, é uma história triste, mas vale a pena ler ela =)

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