Resenha: O Capítulo do Julian

Não é segredo pra ninguém que Extraordinário foi escolhido como o melhor livro lido em 2013 por mim. Auggie é o meu queridinho e não tem como eu não sorrir quando ele é mencionado. Quando a Intrínseca informou que o capítulo de Julian seria lançado, eu logo me animei. Primeiro, porque era o universo de Auggie; segundo porque eu queria entender um pouco o Julian, que podemos considerar como um dos “vilões”, se não o “grande vilão” de Extraordinário.

O_CAPITULO_DO_JULIANSinopse: O capítulo que você queria ler em Extraordinário Mais de 1 milhão de leitores já se encantaram com Extraordinário e a bela história de Auggie Pullman – um garotinho de feições incomuns que tem pela frente uma difícil missão: convencer as pessoas de que, apesar da aparência, é uma criança igual a qualquer outra. Agora todos terão a chance de saber o que se passa na cabeça do personagem mais controverso do romance: Julian, o menino que lidera a cruzada de bullying contra Auggie. Por que Julian trata Auggie tão mal? Será que ele pode ser perdoado? Em O capítulo do Julian R. J. Palacio faz uma comovente incursão no mundo de uma criança que tem o coração muito maior do que seus atos de bullying e crueldade podem fazer mostrar, mas precisa de ajuda para enxergar isso. Fonte

Uma vez, uma pessoa que é muito dada à filosofia de para-choque de caminhão, posta no facebook que “deveríamos todos agir e pensar como as crianças, porque as crianças são sinceras, não são cruéis como os adultos, são inocentes…” Bem, fora a vontade de vomitar tendo em vista o tom meloso da mensagem (sério, a pessoa posta e parece que a estou vendo fazendo uma voz mais etérea, de quem é super sábia), eu tive vontade de rir. Uma criança pode ser inocente e sincera. Mas consequentemente e, mesmo sem saber, ela acaba sendo cruel porque sua sinceridade é tão pura que ela não sabe ainda medir as palavras para não ferir os outros.

Em outros casos, a criança pode ter uma leve (ou até completa) noção do que pode ser errado, mas não considera cruel se o que ela disser fizer os outros rirem. Como chamar alguém que usa aparelho de “ferrovia”, ou pessoas que usam óculos de “quatro olhos”. Ou de “monstro”… Ainda mais se a pessoa em questão que está sendo xingada não souber do que está sendo chamado. Afinal de contas, nada foi dito diretamente para ele e é tudo uma grande brincadeira!

“… as pessoas têm que começar a ser um pouco menos sensíveis! É só uma piada, gente! Não me levem tão a sério! Não estou sendo cruel. Só engraçado.”

Pois bem, é aí que Julian se enquadra. Ele nunca pensou que suas brincadeiras pudessem ter consequências desastrosas para Auggie e para a construção de seu próprio caráter. E o pior é que todas essas ações eram simplesmente porque Julian tinha medo de Auggie. As brincadeiras” nada mais eram que uma rota de fuga para Julian. Já ouviram falar que nós temos tendência a não gostar do desconhecido, a ter medo do que não conhecemos? Pois bem: Julian tinha medo de Auggie a ponto de ter pesadelos.

No entanto, o medo não justifica as “brincadeiras” de Julian. A verdade é que Julian mal se dava conta de que suas ações pioravam. Não eram mais apenas os cochichos maldosos entre os mais chegados, eram brincadeiras mais cruéis, como “a peste” e também o isolamento social que ele fez com que Jack passasse.

Então, começaram os bilhetes. Como a ofensiva de Julian não cessava, só piorava cada vez mais, a diretoria da escola resolveu intervir e Julian finalmente foi punido. Nem ele, nem os pais dele aceitaram de muito bom grado a punição, principalmente porque os pais tentavam justificar as atitudes de Julian.

Aqui cabe falar que o livro não trata especificamente de julgar e condenar Julian por ele ser um bully. Como eu disse antes, ele não considerava seus próprios atos tão ofensivos assim, embora concordasse que não eram brincadeiras muito legais. O livro é uma forma de primeiro entender o que se passava na cabeça de Julian, o que o motivou a fazer o que fez, e também acompanhar o crescimento desse personagem e suas atitudes posteriores. O que ele fez foi errado, mas isso faz dele uma pessoa tão desprezível assim? Um menino de 11 anos que não aprendeu ainda o que é empatia porque não viu nenhum exemplo disso em casa? Sério mesmo que ele merece tantas pedradas assim?

Bem, toda ação tem uma reação. Todo ato tem suas consequências e Julian aprendeu isso de uma forma bem difícil para uma criança. Confesso que ele teve sorte, tem pessoas que só aprendem depois de muito, muito, muito tempo agindo errado. Outras, então, nem aprendem.

“Um novo começo nos dá a chance de refletir sobre o passado, pesar as coisas que fizemos e aplicar aquilo que aprendemos com isso em nosso novo caminho. Se não examinarmos o passado, não aprendemos com ele.”

Com sua suspensão e, posteriormente, viagem de férias, Julian teve a oportunidade de refletir sobre o que fez, inclusive recebendo conselhos de seu professor favorito, o Sr. Browne (para quem não sabe, o Sr. Browne pedia aos alunos para escreverem preceitos – inclusive, teremos um livro de preceitos em breve!) e conhecer a história de sua avó, que foi muito emocionante e decisiva para Julian.

“Você sabe que as coisas que fez não estavam certas. Mas isso não significa que você não seja capaz de fazer o que é certo. Significa apenas que escolheu o caminho errado”.

O livro é todo narrado por Julian e é dividido em duas partes: Antes e Depois. O Antes, narrado enquanto estava em período de aula, mostra como Julian pensava e como agia com Auggie. Já no Depois, mostra Julian de férias, na casa da avó. Quando Julian começou a descrevê-la, eu achei que ela seria tão superficial quanto a mãe de Julian era, mas depois você simplesmente tem vontade de dar um abraço bem grande nessa senhora por tudo o que ela passou. Foi graças a ela – e também ao Sr. Browne – que Julian pôde refletir verdadeiramente sobre o que estava fazendo.

“Mas o bom da vida, Julian, é que às vezes podemos consertar nossos erros. Aprendemos com eles. (…) Um erro não define quem você é (…). Você pode simplesmente fazer a coisa certa da próxima vez”.

“… tudo o que importa é que você se perdoe.”

Não tem como não gostar desse livro. Embora na maior parte do tempo, principalmente no “Antes” você queira dar um puxão de orelha no Julian e uns bons tabefes na mãe dele, você passa a entender melhor o que motivou Julian e passa a torcer para que ele consiga enxergar todas as coisas que fez de errado. No final, até a mãe dele passa a ser menos pior aos olhos de quem lê. Super recomendo a leitura e se vocês não leram Extraordinário, leiam! Prometo que não vão se arrepender.

Ficha técnica:

Nome: O capítulo do Julian
Autor: R. J. Palacio
Páginas: 96
Editora: Intrínseca
Onde comprar: Livraria Cultura (e-book) /  Amazon
Minha avaliação:

 

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  • Suelen Mendes disse:

    Fiquei bem curiosa quando vi que esse livro ia ser lançado,pra conhecer um pouco mais da cabeça de Julian.Fiquei curiosa tbm com o livro de preceitos,vou aguardar a resenha!
    Bjus

  • Lucy disse:

    Oi, Suelen! Espero que tenha oportunidade de ler e goste! 🙂
    Bjos!

  • Patrini Viero disse:

    Gosto muito da ideia que o autor explorou em Extraordinário, é tema sempre atual e acho muito importante discutirmos sobre isso. Também gosto da estratégia de dar uma chance ao vilão, e de conhecermos seus motivos e razões para fazer o que faz. Muito interessante a forma como o autor escreveu os dois livros, complementando um ao outro.

  • Lucy disse:

    Oi, Patrini!
    De fato, quando vemos o ponto de vista do Julian, fica difícil classificá-lo inteiramente como “vilão”. A forma como o livro foi escrito foi ótima! Espero que possa ler um dia!
    bjs

  • Marília Sena disse:

    Estou ansiosa para ler O capítulo do Julian, afinal é um outro ponto de vista em uma história e eu acho isso fantástico. Se Extraordinário é tão bom, imagino que esse livro dê um “toque especial”. E ansiosa também para o livro de preceitos do Sr. Browne! Beijos!

  • Lucy disse:

    Oi, Marília!
    Esse livro dá um toque mais que especial! Também estou ansiosa pelo livro de preceitos! *__*
    Bjos

  • Patricia Moreira disse:

    Ainda não li Extraordinário, mas achei legal ter esse lado do “vilão” até porque nós sempre vemos só um lado né? E entender a razão do outro ser assim é uma boa.

    Bjs

  • Lucy disse:

    Oi, Patrícia! Corra então para ler Extraordinário! É muito lindo! Ver o ponto de vista do Julian foi bem importante, mas tem que ler Extraordinário primeiro para entender.
    Bjos!

  • Gustavo disse:

    Eu tinha tanto ódio desse personagem que muitas vezes tinha que parar de ler pra não rasgar o livro (que era a única maneira de “punir” o Julian já que não posso entrar no livro e degolar o mini cretino kkkk). Até hoje nem sei como consegui acabar o livro em um dia de tanto que trave a leitura dele kkk mas enfim. Antes de ler a resenha tava com raiva de ter um livro só dele (porque ele não merecia, mas sei la né), e já tava com o pensamento de passar longe desse livro (mesmo eu tendo adorado a escrita do R. J. Palácio) mas mudei de idéia. Mesmo ainda achando que o que ele fez foi inenarrável de tão cruel ainda assim vou dar uma chance a ele nesse livro (só que ainda não o perdôo, porque não tem desculpas suficientes pela maldade (kkk guardo rancor mesmo kkk))

  • Lucy disse:

    Oi, Gustavo!
    Hahaha! Eu também tinha raiva dele! Acho que tinha mais raiva da mãe dele, pra falar a verdade! Dê uma chance ao Julian, afinal, é bem o que eu falei: às vezes a criança acaba sendo cruel sem nem ter noção do que está fazendo. Acho que no início você ainda vai sentir um pouco de raiva do Julian, mas persista até o fim! 😉
    Bjos!

  • Douglas Fernandes disse:

    Ainda nao li Extraordinario mas tenho muita, mas muita vontade mesmo, to pensando em comprar o livro na minha proxima compra…rsrs
    Essa sua resenha só me deixou mais curioso ainda em ler Extraordinario e querer conhecer um pouco mais sobre esse “vilão” Julian.

  • Lucy disse:

    Oi, Douglas! Extraordinário é um livro que deve ser lido! Aproveita para comprar que ele não é caro. rsrs
    Leia Extraordinário e depois lê o capítulo do Julian e volta aqui pra contar o que achou! 😉
    Bjos!

  • Nathalia Simião disse:

    Não li Extraordinário ainda mas sei que é um livro considerado muito bom. Achei legal fazerem esses outros livros, dão um complemento a história, dá uma chance pro personagem “mal” se justificar e tal.

  • Lucy disse:

    Oi, Nathalia!
    Acho que esse complemento do Julian foi mais do que uma justificativa, foi meio que um reconhecimento do que ele fez e também amadurecimento do personagem. Vale a pena ler os dois. 😉
    Bjos!

  • Amanda Ribeiro disse:

    Olá, tudo bom? Adorei a sua resenha, li o livro (uma pena que não o possa ter em mãos, por quê, particularmente, prefiro livros no papel) e achei MARAVILHOSO, como um extraordinário parte 2. Mas confesso que a última frase em Francês ficou um pouco confusa pra mim, você pode me “traduzí-la”? Obrigada.

  • Resenha: Shingaling « Por Essas Páginas disse:

    […] pode ler cada um dos contos lançados separadamente dos personagens de Extraordinário. Já lemos O capítulo de Julian, Plutão, sobre Christopher, o amigo de Auggie e agora é a vez de […]

  • Top Ten Tuesday: Dez personagens infantis que quero rever daqui a 10 anos « Por Essas Páginas disse:

    […] Eu me emocionei demais com a leitura e adoraria saber como Auggie, Jack, Summer, Charlotte, Julian e Christopher cresceram e amadureceram. Será que mudaram? Será que continuam amigos? (Será que […]

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