Resenha: O Cisne e o Chacal

A série Na Companhia de Assassinos foge um pouco da minha zona de conforto literária, é verdade, mas os dois primeiros livros (A Morte de Sarai O Retorno de Izabel) foram leituras empolgantes, que possuíam romance e sensualidade na dose certa e muito suspense e ação, o que realmente me interessava. A combinação era ótima e eu esperava que J. A. Redmerski continuasse mantendo a receita que parecia funcionar tão bem. Na verdade fiquei bem feliz quando li o aviso da autora no início de O Cisne e o Chacal, no qual ela diz que se você quer ler um romance, leia outro dos seus livros (como Entre o Agora e o Nunca), porque essa série não é sobre romance. “Oba!”, é o que eu penso. O aviso, porém, cabe direitinho quando o assunto são os dois primeiros livros. Quanto a esse, bem, ele é um romance sim, e infelizmente não é um romance bom.

o-cisne-e-o-chacal“Fredrik Gustavsson nunca considerou a possibilidade de se apaixonar certamente nenhuma mulher entenderia seu estilo de vida sombrio e sangrento. Até que encontra Seraphina, uma mulher tão perversa e sedenta de sangue quanto ele. Eles passam dois anos juntos, em uma relação obscura e cheia de luxúria. Então Seraphina desaparece. Seis anos depois, Fredrik ainda tenta descobrir onde está a mulher que virou seu mundo de cabeça para baixo. Quando está próximo de descobrir seu paradeiro, ele conhece Cassia, a única pessoa capaz de lhe dar a informação que tanto deseja. Mas Cassia está ferida após escapar de um incêndio, e não se lembra de nada. Fredrik não tem escolha a não ser manter a mulher por perto, porém, depois de um ano convivendo com seu jeito delicado e piedoso, ele se descobre em uma batalha interna entre o que sente por Seraphina e o que sente por Cassia. Porque ele sabe que, para manter o amor de uma, a outra deve morrer.” Fonte

Apesar de achar que a série fechou muito bem, obrigado, no segundo livro, eu estava curiosa para ler esse novo volume, uma vez que ele é sobre um dos personagens mais interessantes de O Retorno de Izabel. Porém, Fredrik Gustavsson é um personagem que funciona muito melhor como coadjuvante que protagonista. Quando você tem acesso a seus “sentimentos” e pensamentos, bem, fica difícil achá-lo tão atraente. E nem é porque ele é um assassino frio e perverso, que gosta de torturar e matar pessoas, coisa que é horrível, mas nessa série é algo interessante, ela não se chama Na Companhia de Assassinos por nada, afinal. O motivo pelo qual Fredrik é um personagem odioso (e chato, em vários momentos) é porque ele é um cara extremamente machista e pedante, abusivo e dramático. Ele fica falando o tempo todo sobre as trevas e a escuridão no seu coração, e cara, essa história já cansou. Supere. A melhor comparação que posso fazer: o cara é muito parecido com Christian GreyE, pra mim, esse tipo de personagem não desce.

Para completar temos Cassia (que também é muito parecida com uma tal de Anastacia Steele, conhecem? Parece que a autora andou lendo muito Cinquenta Tons de Cinza antes de escrever esse livro…), uma personagem insossa, completamente submissa, com cara de anjo de candura, capaz de arrebatar e mudar o coração de um homem. Ugh. Fredrik, que está à procura de sua esposa sádica, Seraphina, mantém Cassia presa no porão de sua casa acorrentada pelos tornozelos porque acha que ela pode levá-lo de alguma maneira à sua mulher, que o traiu e quase matou. Só que Fredrik diz o tempo todo que Cassia é inocente, que se sente culpado por mantê-la assim (mas continua mantendo) e, bem, ela não fica lá no porão só para ser interrogada, ela também sacia ocasionalmente os desejos sexuais de Fredrik, e ela gosta. Ela não quer ir embora porque tem medo que Seraphina a mate e diz que ama Fredrik mesmo que, bem, ele a mantenha presa em um porão por mais de um ano, acorrentada, e transe com ela quando quer (isso para não dar o verdadeiro nome aos bois aqui).

“- Ela quer ficar com você? Meu Deus, Fredrik, ela está com uma corrente no tornozelo. Está trancada em um porão. (…)

Se ela acha que o único motivo pelo qual estou mantendo Cassia encarcerada é porque estou apaixonado por ela, isso vai parecer menos cruel (…)

“- (…) e agora está sendo mantida prisioneira, acorrentada em um porão como um animal, e o que torna tudo isso mais doentio é que ela acha que está apaixonada por você!” Páginas 145 a 147.

Não, gente. Não dá. Não dá pra ler um livro sobre um relacionamento abusivo e achar que é legal só porque tem umas cenas picantes aqui e ali e um romancinho. Não desce, não dá pra engolir. A escrita é boa, como nos outros livros, mas aqui é só boa o suficiente para que eu tenha chegado ao final do livro, mas não tão boa para que eu não tenha tido vontade de largá-lo (ou de vomitar) em alguns momentos. O livro até dá uma “explicação” para o que Fredrik está fazendo, e a trama que se desenrola daí é interessante, mas não o bastante para ignorar o desconforto. Não dá pra gostar de Fredrik, não dá pra gostar de Cassia e definitivamente não dá pra gostar da ideia deles juntos. Gostaria que Seraphina tivesse aparecido mais, uma vez que ela é o motor de toda a história e bem mais interessante, mas ela não aparece muito. Uma pena.

Mas vamos esquecer o fato de que esse é um romance sobre um relacionamento abusivo (como se desse pra esquecer). O que realmente me deixou irritada foi que eu esperava, assim como a nota da autora no começo avisava, um livro de suspense, um thriller psicológico, um mistério e, às vezes, um suspense romântico. Temos isso? A resposta é não. Temos aqui exatamente o que autora avisa que o livro não é: um romance, uma história de amor, literatura erótica, um New Adult. Mais romance, menos suspense, uma cena aqui e ali de ação, mas o romance sempre está lá, tomando conta da história. E aí eu, como leitora, me senti completamente traída.

cisnechacal

Os personagens dos outros livros, especialmente Izabel Victor, aparecem um pouco no livro. Izabel, aliás, é dona do que talvez seja o melhor diálogo do livro, quando ela diz umas boas verdades para Fredrik. Pena que depois ela esfria, fica com pena dele e, bem, só lendo o livro para saber o resto. Pelo menos a essência da personagem que me fez gostar dos dois primeiros livros ainda está lá, o que já é um consolo.

A edição da Suma de Letras está bonita e confortável, com a qualidade de sempre. A capa é de um material diferente, mais espesso e granulado, o que foi muito interessante. A imagem, porém, não é das minhas favoritas, prefiro as capas anteriores.

“- Se eu já tivesse ficado com outros homens, você me manteria aqui mesmo assim?
Minha mão fica rígida em seu cabelo, e eu a abraço com força, pondo a outra mão em suas costas.
Não sei.” Página 178

Na Companhia de Assassinos é uma série de cinco livros, e eu não sei se vou ler todos, especialmente depois desse. A história principal, ao menos para mim, que é a de Izabel, ainda não foi azedada, mas tenho medo que isso aconteça. Às vezes, e eu já disse isso na resenha de O Retorno de Izabel, a melhor coisa é parar quando o time está vencendo e sair por cima. E depois de ler O Cisne e o Chacal, uma obra pobre em comparação com suas antecessoras, com personagens rasos e tediosos, e que não cumpre com seu papel de suspense, bem, eu tenho certeza que algumas séries deveriam ser mais curtas.

Livro gentilmente cedido para resenha pela Suma de Letras, selo do Grupo Companhia das Letras.

Ficha Técnica

Título: O Cisne e o Chacal
Autor: J. A. Redmerski
Editora: Suma de Letras
Páginas: 248
Onde comprar: Livraria Cultura / Amazon / Saraiva / Livraria da Folha / Livraria da Travessa / Submarino / Shoptime
Avaliação: 

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  • Nivia Fernandes disse:

    Caramba, é difícil mesmo uma série se manter firme depois de tantos volumes. Mas essa variação de foco nos personagens e o revival de Cinquenta Tons são bem complicados pra administrar…
    Torturar alguém e a pessoa gostar é questão de escolha (e questões psiquiátricas profundas!), mas é preocupante colocar essa situação como romance nos livros. Acaba re-significando algo que, embora esteja sendo mostrado como praticado com consenso, envolve sentimentos de motivação muito diferentes de amor ou paixão.

    Uma pena mesmo. É legal a gente mergulhar na leitura ao menos tendo a expectativa principal atendida – especialmente se o autor já nos deu algo para esperar.

    Essa série eu passo, mas infelizmente desde a primeira resenha… Essas obsessões meio tortas sempre me dão medo do que viram.

  • Aline Santos disse:

    Olá!
    Adorei!!!!!! Conheci á pouco dias, mas não tinha lido resenha da obra, gostei bastante, esse gênero têm me conquistado dmais…
    Qro!
    Bjs!

  • Maristela G Rezende disse:

    Não conhecia a série e acho que esse livro nunca me chamou a atenção. Gostei do que li em sua resenha e vou procurar saber mais sobre o livro e os demais também. Espero ter uma boa leitura quando puder lê-los.

  • Lana Silva disse:

    Como tenho vontade de ler essa trilogia, li os dois romances da autora e sei muito bem o que esperar de sua escrita, e da construção da história. Mesmo que essa trama apresente uma leitura que foge da minha zona de conforto ainda si me desperta curiosidade. E uma pena que nesse terceiro livro, a autora opta por aborda um romance, meio estanho por assim dizer, porque vejo que ambos não tem química e mais um relacionamento abusivo sem pé nem cabeça. Ainda sim da para ver pela sua resenha que essa leitura vale muito a pena.

  • Francisca Elizabete disse:

    Fredrik Gustavsson parece ser um homem impiedoso e ambicioso, mas parece que ele conheceu e se envolveu com uma pessoa pior do que ele, Seraphina!! E quem está envolvida no meio dessa confusão toda é Cassia, uma pessoa que aparentemente é boa!! Mas o que será que de fato aconteceu com a mulher de Fredrik? E quem realmente é Cassia?!! Ansiosa para ler!!

  • Rônida Lorenzoni disse:

    Não conheço a trilogia, mas vou procurar as resenhas dos outros volumes e ver se vão me interessar a ler, pois eu além de gostar de suspense eu amo romance. Bjs

  • Sexta do Sebo #202 « Por Essas Páginas disse:

    […] trilogia Bill Hodges, de Stephen King (e não dá pra escolher só um deles!). E a pior leitura foi O Cisne e o Chacal (parei com essa série, não dá mais pra […]

  • Gizeli Regina Meister disse:

    Não conhecia essa serie de livros. Gostei muito da sua resenha a premissa parece interessante, gosto de suspense e drama em um enredo, talvez um dia, se tiver oportunidade, venha a ler.

  • Kemmy Oliveira disse:

    Blé. Jamais imaginei que teria romance nesse livro, pra ser bem sincera.
    Concordo com você quando diz que esse papo de cara machista, abusivo e cheio de trevas no coração já deu o que tinha que dar.

    bjs

  • Adriana C. Sousa disse:

    A capa é bem sensual, e o livro bem parecido com Cinquenta Tons de Cinza ( apesar de que não li, apenas li resenhas ). Me chamou a atenção sim, gostei, acho interessante esses romances um tanto ousados.

  • ELIZABETH DE SALLES NEWBOLD disse:

    Não conhecia a série a fundo ainda e nem sei se vou querer conhecer depois de sua resenha. Não tinha ideia que a história era assim. Decepcionada.
    Valeu pela resena.
    Beijos.

  • Rudynalva Correia Soares disse:

    Tenho os dois primeiros volumes dessa série, mas como me impus de só começar a ler uma série quando tivesse todos, me falta justamente esse que espero adquirir em breve.
    Relacionamentos abusivos são realmente chocante e dolorosos de serem lidos, mas se a série fechou a contento, é o que vale, né?
    “Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy

    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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