Resenha: O Clone de Cristo

O Clone de Cristo foi o segundo livro que solicitei à Saída de Emergência Brasil, editora cuja promessa é trazer o melhor da fantasia, ficção científica e horror. Quando li a sinopse desse livro, bem antes do lançamento, interessei-me imediatamente. No entanto, apesar da ótima ideia, a execução foi terrível. O Clone de Cristo foi uma grande decepção. Extremamente descritivo, personagens fracos, religiosidade em excesso: com uma proposta interessantíssima, O Clone de Cristo é um livro maçante e cansativo da primeira à última página.

O_CLONE_DE_CRISTO“O Clone de Cristo é uma história fantástica sobre uma experiência secreta que pode mudar o mundo: a tentativa de clonar Jesus Cristo a partir do Santo Sudário. O Dr.Felix Rossi é o chefe da pesquisa, um conceituado cientista obcecado com duas perguntas: Será que o tecido do Sudário contém mesmo o sangue de Cristo? E o DNA ainda estará intacto? Apesar do caráter sigiloso do experimento, forças obscuras tentam impedi-lo e Rossi não tem tempo a perder: precisa encontrar uma mulher para gerar a criança. Esta trama policial arrepiante nos leva numa viagem inesquecível da alta sociedade nova-iorquina aos bares irlandeses, das igrejas do Harlem à Catedral de Turim. Uma narrativa bem construída sobre laços familiares perdidos, um homem à procura de Deus, uma mulher em busca de um sentido para a própria vida¿ e uma inesperada história de amor.” Fonte

A primeira coisa muito errada em O Clone de Cristo é a sua classificação: na contracapa está escrito “Policial/Suspense e Ação”. Discordo por completo. O livro é muito mais um drama/romance religioso. O que deveria ser um livro de ação é completamente centrado nos questionamentos religiosos do protagonista, o Dr. Felix Rossi, um cientista católico que após uma revelação deseja clonar Jesus Cristo a partir do sangue do Santo Sudário; a outra trama é a relação romântica entre Maggie Sam. Maggie é a empregada negra dos Rossi (e realmente é assim que ela é descrita, como se isso fosse uma descrição válida…) e Sam é o o porteiro do prédio onde eles vivem, um homem bruto com vida dupla, que serve a um homem poderoso e misterioso.

Felix, católico devoto, descobre a verdade sobre sua família: ele, na realidade, é judeu, e seus pais fugiram para os EUA na época da Segunda Guerra Mundial. Isso gera um enorme conflito no cientista e é o pivô da sua decisão de clonar Cristo. O problema é que ele se envergonha de ser judeu, tendo ele mesmo um preconceito contra eles, culpando-os da morte de Jesus. É então que ele passa páginas e páginas fazendo um drama cansativo sobre sua descendência, em um conflito interno completamente desnecessário. Acredito que a humanidade, ainda mais um homem da ciência que supostamente deveria ser esclarecido, já tivesse superado esse preconceito estúpido. Para mim todo o conflito de Felix é inútil e maçante, e só serve para encher páginas de enrolação. Aliás, esse livro tem muita enrolação: enormes descrições e cenas que não contribuem para a trama, nem mesmo para o desenvolvimento dos personagens, que são extremamente insossos. Eles não cativam. Não consegui me importar com nenhum. Além disso, todos falam da mesma maneira, mesmo quando são descritos como pouco instruídos; nenhum deles tem características marcantes e parecem a mesma pessoa, todos falam a voz da autora.

“Fazia votos para que Maggie acreditasse nele. Teria que acertar essa mentira com Deus no dia do Juízo Final, juntamente com todas as outras coisas erradas que fizera. Hoje, não queria que o fato de que precisava fazer com mulheres sexualmente atraentes pudesse trazer a Maggie algum desgosto.” Página 260

A autora tenta fazer um mistério até revelar quem seria a escolhida para ser a mãe do clone, a “Maria moderna”, o que na realidade foi uma trama inútil e cansativa desprovida de finalidade, já que o leitor percebe quem seria essa mulher desde o início do livro. É muito, muito claro que ela seria a escolhida. Aliás, o papel feminino nesse livro é enervante. Aqui as mulheres são mães ou vadias. É o típico pensamento lá do primeiro século e da época de Cristo que não cabe mais em uma trama contemporânea. Sabem o teste de Bechdel? É, o livro não passa. Ele tem quatro personagens femininas e, mesmo assim, não passa. Todas as mulheres nesse livro têm como finalidade servir a homens; nenhuma tem personalidade – se bem que nenhum personagem realmente é profundo aqui. Enquanto isso, os homens são praticamente isentos de culpa por sua sexualidade animal e sua falta de controle; é claro que as mulheres é que os seduzem e são as culpadas pelos homens “caírem em tentação”. Todos eles parecem servir a uma finalidade assemelhando-se a uma encenação do nascimento de Cristo: há o “Arcanjo Gabriel”, “Maria”, “José” e até mesmo “Herodes”.

Falando em “Herodes” e o personagem que o representa no livro, o mesmo é um vilão deslocado e sem motivo para estar ali – a não ser fazer essa representação da natividade. Um vilão que quase não aparece em cena e que não prova sua própria periculosidade. Há vários furos na trama, especialmente em relação a essa trama do vilão, que nada acrescenta à história e só serve para criar a única cena de perseguição do livro que poderia muito bem ocorrer sem a existência dele.

O romance não convence. Ele é todo envolvido em misticismo e não em construção de um relacionamento e personagens e, claramente, força uma representação de Maria e José, e só isso é muito pouco para sustentá-lo. Na verdade, o livro nem precisava disso, já que que supostamente deveria ser do gênero policial/suspense/ação (o que quase não encontramos na história, como já mencionei).

“Provavelmente não o fizera conscientemente. Os hormônios estavam no ar. Rossi tinha duas mulheres cativas que deviam estar nos braços de seus homens.” Página 192

Há muita religião, um recurso que deveria ser utilizado, dado o tema, claro, mas não dessa maneira exaustiva. Há inclusive orações descritas na íntegra e discussões religiosas que não acrescentam em nada à história. Sinceramente, lendo a sinopse eu esperava que fosse um livro muito mais científico: e nesse sentido, o próprio personagem, Felix, não é crível e é extremamente contraditório. Sendo um cientista, eu acreditava que ele fosse um pouco mais racional, mas ele é completamente religioso e toma decisões passionais em razão disso. A própria clonagem de Jesus é um mero capricho injustificado dele.

A edição da Saída de Emergência Brasil é caprichosa novamente, como já percebi ser um cuidado da editora em todos os seus livros, mas um bonito exemplar não sustenta uma obra. O final, então, é fraquíssimo e dá a sensação de uma falta de conclusão – o que é corroborado pelo fato de esse ser, novamente, o primeiro livro de uma série, o que foi totalmente desnecessário. Esse fato não é dito no livro, apenas descobri quando li o final e vi no Skoob que este é o “livro um”, ou seja, fiquei irritadíssima, como sempre fico com essas coisas e provavelmente não vou acompanhar essa série. Com uma história fraca, uma narração cansativa e personagens insípidos, O Clone de Cristo não convence e decepciona fãs de ficção científica e do gênero de suspense policial. Não recomendo.

Livro gentilmente cedido em parceria para resenha pela Editora Saída de Emergência Brasil.

Ficha Técnica

Título: O Clone de Cristo
Autor: J. R. Lankford
Editora: Saída de Emergência Brasil
Páginas: 384
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Marília Sena disse:

    A proposta não me encantou mesmo sem ter lido sua resenha, e agora muito menos.

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    Karen Reply:

    Nem perca seu tempo, Marília!

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  • Duda Menezes disse:

    Oi, Karen,
    Já não tinha interesse, mas, mesmo que tivesse, depois de ler tudo que você disse se esvairia completamente. Claro que opinião é algo relativo, mas há casos que a gente já percebe quando um livro não irá nos agradar.
    Por tudo que li só fiquei admirada por você ainda ter dado nota 2 hehe e por ter dito que “provavelmente” não irá ler o 2º. Depois dessas impressões comigo seria uma certeza.

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    Karen Reply:

    Eu ainda dei 2 porque ao menos a narrativa dá pra entender; o outro livro, A Corte do Ar (também da mesma editora) é tão mal escrito que até agora eu ainda não entendi do que a história se tratava. Pelo menos esse deu pra entender, mesmo sendo horrível.
    Onde está “provavelmente” leia-se “com certeza”. Tenho muitos livros pra ler pra perder tempo com isso.
    Mas foi bem frustrante, porque eu realmente tinha esperanças com ele. A sinopse parecia boa.

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  • Sabrina disse:

    Uau, lendo a sinopse parece realmente interessante, com um ar de “Jesus Cristo Superstar”, uma HQ muito boa, de premissa parecida, que a Vertigo lançou. Sua resenha me fez mudar de ideia… Muito bom seu texto, a propósito.

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  • Nayara disse:

    Nossa, a história tinha tudo pra ser legal pelo que você contou, mas a autora falhou bonito! Uma pena……
    E pelo que parece, não tem ação e nem suspense, já que dá pra perceber quem é a “escolhida” hhahaha.
    Fail! =/
    Beijos

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  • Melissa de Sá disse:

    Super entendo essa sua raiva com o livro. Eu já tive uma experiência com um livro chamado “A Conspiração Franciscana” que prometia um super thriller emocionante mas deu só essa coisa religiosa também… É frustrante. Dá raiva demais.

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  • Julliany disse:

    Nossaaaaaaa, estou chocada kk
    Já comecei não gostando da capa, eu sei que não devemos julgar um livro pela capa, mas sei lá é meio inevitável, as capas me atraem.
    Eu o descobri pelo skoob, e sei lá não me chamou a atenção k eu acho o ó, quando a sinopse é melhor que o livro, tipo meu era pra ser um resuminho do enredo, mas algumas tentam passar uma emoção que não tem no livro.

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  • Jaynne Souza disse:

    Nunca li nenhum livro publicado por essa editora e sua resenha me convenceu de não começar por esse kkk’
    Adoro livros de ficção/policial,provavelmente teria largado a leitura :s

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  • Dâmaris Carvalho Lima disse:

    Já tinha ouvido falar do livro, mas não faz meu estilo =/

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  • Jaynne Souza disse:

    Já não planejava ler ele,depois da sua resenha então :s tenho certeza de que não iria gostar…

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  • camila rosa disse:

    Nossa o livro já começou errado né, hahaha que classificação é essa e pelo visto você tem razão, o livro parece ser interessante, mas nada que tenha me deixado muito animada para ler, quem sabe um dia eu mude de ideia.
    Beijos!!!

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  • David Galan disse:

    Acho que a ideia era se assemelhar a Dan Brown, com a mistura do tema religião e suspense, pelo que li na sua resenha suspense nem chegou perto desse livro, uma pena mesmo, a premissa se fosse bem desenvolvida tinha tudo para tornar esse livro fantástico, clonar Jesus Cristo. É claro que conflitos tinham que existir, agora colocar orações inteiras (a biblia serve para isso), enfim mais um livro riscado da minha lista se o primeiro foi assim tenho medo de pensar o que virá nos próximos.

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  • Caroline Evans disse:

    Eu pensei em pedir esse livro para resenha, mas acabei mudando de ideia, o que parece positivo, pois só li resenhas negativas até o momento. =(

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  • Resenha: A Filha do Sangue « Por Essas Páginas disse:

    […] dois lançamentos da Saída de Emergência Brasil que não me agradaram: A Corte do Ar e O Clone de Cristo, confesso que eu estava bastante reticente quando a ler esse novo lançamento: A Filha do Sangue. […]

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