Resenha: O Clube dos Oito

Peguei O Clube dos Oito para ler por dois motivos: era um YA e uma história bastante sombria.Flannery Culp tem uma história para contar“, diz na capa. “A história de como se tornou uma assassina.” Tenso, não? Pois é, assim eu esperava que fosse. Mas não foi bem assim que o livro se desenvolveu durante a leitura.

“Como um grupo de jovens estudantes bem-educados acabou se envolvendo num escândalo que chocou um país? Por que tantos especialistas em comportamento juvenil têm algo a dizer quando o assunto é o Clube dos Oito? Até quando inúmeras manchetes de jornal e programas de TV sensacionalistas vão explorar o caso nos mínimos detalhes? Para fazer com que a verdade venha à tona, Flannery Culp, a dita líder do Clube, decide tornar público o diário que manteve ao longo do seu desastroso último ano de ensino médio. Agora que está presa por cometer um assassinato, a garota tem tempo de editar o que escreveu e revisitar a rotina que levava ao lado de seus sete melhores amigos. A narrativa de Flan, permeada de professores da pior índole, um amor não correspondido, aulas complicadas e jantares pomposos, comprova que ela pode até ser uma adolescente criminosa — mas, pelo menos, é uma adolescente criminosa muito inteligente.” Fonte

Começamos o livro descobrindo que Flannery Culp está presa e é uma assassina, mesmo sendo pouco mais que uma adolescente. Ela tem dezoito anos e está presa há um ano. Ela não nega que é uma assassina, mas diz que a história não foi bem contada, e que agora ela quer fazê-lo, com seu diário, ao qual ela está editando. A obra, portanto, é basicamente o seu diário da época do incidente, que ela está editando e acrescentando comentários. A linguagem é simples e acessível, mas às vezes desnecessariamente pueril, forçadamente adolescente, daquele tipo que está tentando se sentir divertido, mas acaba falhando. E essa linguagem não combina com os assuntos sérios que o livro aborda ou tenta abordar.

Quando li a sinopse, pensei que fosse encontrar uma personagem inteligente e persuasiva, uma narradora pouco confiável, como é descrito. Porém, Flannery poucas vezes é algo mais que irritante. Ela começa o livro escrevendo cartas na Europa para um garoto que mal conhece, por quem descobre – sem maiores explicações ou desenvolvimentos – que está apaixonada. Quando ela retorna, conhecemos seus amigos e o famigerado Clube dos Oito, que nada mais é que um grupo de seus amigos ricos como ela, que andam juntos e fazem jantares pretensiosos para seu clubinho e alguns convidados. Mas nada sinistro (por muito, muito tempo) acontece. Eles apenas são adolescentes que se acham muito espertos, aproveitando a vida. E nem precisa de tantos personagens (o que é outro problema da obra); no final, o autor não consegue gerenciar com sucesso tantos personagens e imprimir personalidade a eles, de maneira que, às vezes, o leitor até os confunde e não se importa com nenhum.

Não tem como dizer de outro jeito: o começo do livro, ao menos suas primeiras 150, 200 páginas, é incrivelmente chato. O autor se perde nos pequenos problemas da vida de Flannery na escola, suas fracassadas investidas amorosas e descreve em detalhes enfadonhos a vida e os pensamentos de uma adolescente americana. E nisso o autor também falha bastante: em como montar personagens femininas verossímeis. Ele cai em clichês insuportáveis de como os homens ACHAM que garotas são e não desenvolve com profundidade nenhuma das personagens, nem mesmo sua protagonista, cujas preocupações são basicamente seu corpo e garotos. Porque, claro, para alguns homens, é só isso que eles acham que mulheres se preocupam. Às vezes, ele dá a impressão de que vai aprofundar um pouco o assunto, sugerindo que, talvez, Flannery tenha algum transtorno alimentar, mas logo depois ele cai novamente na simplicidade e resume tudo a “problemas de garotas”. Não dá para acreditar, nem por um segundo, que aquelas personagens, desde Flannery às suas amigas insossas – talvez se salvando, um pouco, Natasha, mas que também é um clichê ambulante grande parte do tempo -, são garotas de verdade. E isso é muito frustrante durante a leitura.

Mas o suspense talvez salve o livro, certo? Errado. Os ganchos são fracos e não dá vontade de continuar a leitura. Você sabe que houve um assassinato e o livro deveria te instigar a descobrir o que aconteceu, mas a maior parte do tempo você pouco se importa. Mesmo porque, a vítima do assassinato tampouco é carismática: você não sente nem apego ou raiva, que provavelmente é o que o autor queria que sentíssemos, pela pessoa; tudo o que você sente é um vazio de indiferença. Às vezes, você se pega pensando: vamos, mata logo e acaba com isso, não aguento mais.

Mais ou menos no meio do livro, há um acontecimento bastante impactante e preciso dizer o que é para me explicar melhor aqui: o livro aborda um estupro. E aí você pensa “nossa, que horrível, agora as coisas ruins estão acontecendo, agora entenderemos melhor tudo”. Só que não. O estupro é abordado de maneira quase leviana, a reação da personagem em questão não é crível. Claro, não existe uma “reação certa” a um absurdo como esse, óbvio que não. Cada mulher que passa por algo assim reage de um jeito. Mas, como uma mulher lendo o livro, você sente que aquilo não parece verdadeiro: é um homem tentando dizer o que uma garota sente ao ser estuprada, um homem que por todo o resto do livro não conseguiu passar dos clichês superficiais sobre mulheres em seu desenvolvimento de personagens femininas. E, mais uma vez, o autor falha, e com algo tão importante.

À medida que o livro vai se aproximando do final, você começa a sentir mais curiosidade sobre como as coisas aconteceram. E, de fato, há um momento bastante brutal, e que impressiona. Porém, ele é intermeado por narrações extremamente confusas; dá pra entender que o autor quis passar uma mistura de desequilíbrio mental e uso de drogas, mas não, a coisa não convence (de novo) e fica apenas confuso. De certa forma, é até triste, porque o livro tinha potencial, mas pouco foi entregue.

Talvez vocês conheçam o autor Daniel Handler pelo seu pseudônimo: Lemony Snicket, de Desventuras em Série. Esta foi a primeira obra do autor e sim, dá para sentir a imaturidade dela. Eu já ouvi coisas boas e ruins sobre a obra mais famosa dele, com o pseudônimo, mas não tenho como dizer nada, já que não a li. Mas, pelo que eu li em O Clube dos Oito, encontrei um autor confuso, uma narrativa rasa e personagens femininas desenvolvidas de maneira clichê e incipiente. Se tiver interesse, leia com ressalvas e tire suas próprias conclusões.

Este livro foi gentilmente cedido para resenha pela Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras.

Ficha técnica:

Nome: O Clube dos Oito
Autor: Daniel Handler
Páginas: 400
Editora: Seguinte
Onde comprar: Livraria Cultura / SaraivaAmazon / Submarino / Livraria da Folha / Livraria da TravessaAmericanas
Minha avaliação: 

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  • Fernanda Serejo disse:

    Chato quando as nossas expectativas não se confirmam, mas como você disse isso talvez se deva a imaturidade da escrita de um primeiro livro do autor.

    bjs

  • thami disse:

    nossa, que chato :( gosto muito de Desventuras em Série, é uma das minhas favoritas. estava com altas expectativas em relação a Clube dos Oito, ia até ler em inglês mesmo, mas aí vi que ia ser lançado aqui e resolvi esperar. mas depois de ler sua resenha, acho que não vou gostar. detesto qdo escritorEs não se dedicam ao criar personagens femininas críveis

    bjs

  • Garotas Devorando Livros disse:

    Olá!!!

    Não conhecia o livro nem o autor, até você explicar quem o cara é. Enfim, comecei vendo a capa e a sinopse e pensei como você “esse livro tem potencial”, mas a medida que vou dizendo suas verdades e impressões eu fui afundando em um mar de “coloca essa coisa longe de mim”, fico triste que você tenha lido algo que não te agradou, mas a vida não é feita apenas de coisas boas não é mesmo? Gostei da sua sinceridade. Parabéns. Beijos

  • Karini disse:

    Tudo bem? Dei uma olhada superficial na resenha, pois estou lendo esse livro. Percebi que sua experiência não foi boa. Ainda estou em menos da metade, sendo assim, não posso falar muito a respeito.
    Fiquei um pouco desanimada.. Mas vou prosseguir e ver por mim mesma quais minhas impressões.

    Bjs.

    http://www.alempaginas.com

  • Aline M. Oliveira disse:

    Mas menina, que coisa foi essa leitura! Comecei achando maravilhoso, um clube de adolescentes, a menina presa por assassinato, mas aí fui lendo, e lendo a resenha, pensei, que b*osta de livro é esse? Já desisti de ler na parte que você diz sobre a maneira rasa e errada que o autor tentou criar os personagens femininos. Muito fúteis e superficiais! Parece que ele não teve convivência com uma mulher, ou uma jovem nunca na vida! Obrigada por resenhar e me salvar desta cilada! Não li Desventuras, mas acredito que por ser uma obra infanto juvenil, possa se salvar, porque essa, já tá é morta..

    Bjoxx

  • Carolina Durães de Castro disse:

    Oi Karen, tudo bem? Ainda não tive a oportunidade de ler esse livro, mas após ler sua resenha confesso que fiquei bem desanimada. É triste quando o autor desvirtua do foco principal e torna a história confusa. Parabéns pela resenha.
    Bjkas

  • Jessie disse:

    Oi Karen!

    Tudo bem? Já tinha visto a capa e a sinopse de O Clube dos Oito por aí (até porque eu faço o post de lançamentos mensais do blog), mas definitivamente não chamou a minha atenção.

    Pelo visto estou certa em não apostar na obra. É uma pena que nem mesmo o suspense tenha salvado o livro. É horrível quando a trama é fraca e mal desenvolvida. É absurdo que o livro trate uma questão como estupro de uma maneira tão pouco comprometida. Definitivamente não vou ler.

    Beijinhos
    http://www.paraisoliterario.com

  • Driely Meira Almeida disse:

    Oiee ^^
    Felizmente eu consegui gostar do suspense, fiquei me perguntando como é que tal pessoa seria assassinada, e acho que foi isso o que me fez continuar lendo verozmente. Mas o autor pecou quando tentou desenvolver as personagens, hein? Eu não percebi que me irritava com as personagens femininas até o final do livro, quando finalmente parei e pensei “nossa, elas ficaram o livro todo falando sobre homens, querendo homens ou imaginando o que eles pensam delas”! Achei o livro bacana, mas….
    MilkMilks ♥

  • Naylane Sartor disse:

    Oie!

    Que pena que a leitura não funcionou com você, achei que a obra seria muito boa, mas infelizmente nos duas nos decepcionamos, espero que sua próxima leitura seja melhor e mais interessante!

    Bjss

  • Shadai disse:

    Chega a ser estranho a Editora Seguinte ter publicado um livro tão mal desenvolvido quanto esse. Parece subestimar o seu público jovem. Mas, no final quando você conta o autor, então está explicado. Muitas editoras se baseiam simplesmente no autor que tem fãs (ainda mais um com agora série na netflix) e f***-se a história ser ruim, mesmo que tenha nela elementos bem interessantes como dramas adolescentes, com estupro e assassinato.
    Mesmo se aparecer na minha estante, não lerei.

  • Bruna Bueno disse:

    eu cheguei a ver esse livro no insta ate anotei o nome, uma pena que a leitura nao foi tao boa para voce
    BLOG♥ Coisas da bueno

  • Suzzy Chiu disse:

    Heiii, tudo bem?
    Eu estou com o livro aqui pra ler e estava bem curiosa com tudo.
    Amei a premissa, mas fiquei bem triste ao ler as suas impressoes, que pena que o autor criou uma história tao rasa e sem nexo.
    Ainda vou ler, mas agora vou com baixas expectativas.
    Beijos.

    Livros e SushiFacebookInstagramTwitter

  • Thayenne disse:

    Olá,

    Estou fazendo essa leitura no momento e tenho sido bacana por enquanto. O que me motivou a ler esse livro foi já ter lido um outro do autor, inclusive Por isso a gente acabou é um dos meus livros favoritos da vida. Enfim, gostei de saber que esse foi o primeiro livro que o Daniel escreveu, assim controlo minhas expectativas.

    Beijos,
    oculoselivrosblog.blogspot.com.br/

  • Marijleite disse:

    Olá, a capa e o título tinham chamado a minha atenção, mas que pena que na sua opinião a história tinha potencial pra ser muito melhor. Achei interessante você comentar que o autor criou personagens femininas rasas, muitas vezes vejo críticas às personagens femininas e nunca dizem que o motivo foi seu mau desenvolvimento pelo autor.

  • Pollyanna Campos disse:

    Olá, tudo bom?
    Todas as minhas expectativas em relação a esse livro caíram por terra depois da sua resenha. Tinha esperança de ver uma personagem bem construída, com um suspense de tirar o fôlego, com uma dessas escritas que nos apresentam personagens complexos e só parece uma trama adolescente mal escrita com uma personagem feminina extremamente esteriotipada na versão que os homens acreditam ser verídica. A vontade de ler este livro passou totalmente. Adorei a resenha bem escrita e sincera!
    Beijos!

  • Ana Souza disse:

    Caramba!
    Mas pela sinopse, tinha tudo para dar certo!!!
    Que coisa!!!
    Tinha ficado super empolgada em ler, mas já desisti completamente.
    Obrigado pela resenha!!

    Beijinhos!

    #Ana Souza
    https://literakaos.wordpress.com

  • Bruna Costabeber disse:

    Hey, tudo bem?
    Quando soube sobre esse lançamento, pensei em fazer a leitura dele, mas acabei desistindo na última hora e repassando para uma amiga. Eu gostei muito da sua sinceridade e fiquei decepcionada por o livro ser tão monótono assim, não gosto de obras com essa pegada. Eu sabia que era o mesmo autor de Desventuras e acho que isso contribuiu para que eu não quisesse ler. Vou passar a dica.
    Beijos

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