Resenha: O Lado Mais Sombrio

Fazia muito, muito tempo que eu queria ler esse livro. Eu o conheci ainda quando havia somente a edição americana, Splintered, e quando descobri que os direitos foram adquiridos pela Novo Conceito fiquei bem feliz e aguardei ansiosamente o lançamento no Brasil – que demorou muito. Quando o livro chegou, corri para lê-lo, cheia de expectativas, mas, infelizmente, o livro não alcançou nem metade delas. Descritivo em excesso e com protagonistas fracos e sem graça, O Lado Mais Sombrio tem uma boa premissa, mas um desenvolvimento tedioso e muita, muita enrolação.

“Alyssa Gardner ouve os pensamentos das plantas e animais. Por enquanto ela consegue esconder as alucinações, mas já conhece o seu destino: terminará num sanatório como sua mãe. A insanidade faz parte da família desde que a sua tataravó, Alice Liddell, falava a Lewis Carroll sobre os seus estranhos sonhos, inspirando-o a escrever o clássico Alice no País das Maravilhas. Mas talvez ela não seja louca. E talvez as histórias de Carroll não sejam tão fantasiosas quanto possam parecer. Para quebrar a maldição da loucura na família, Alyssa precisa entrar na toca do coelho e consertar alguns erros cometidos no País das Maravilhas, um lugar repleto de seres estranhos com intenções não reveladas. Alyssa leva consigo o seu amigo da vida real – o superprotetor Jeb –, mas, assim que a jornada começa, ela se vê dividida entre a sensatez deste e a magia perigosa e encantadora de Morfeu, o seu guia no País das Maravilhas. Ninguém é o que parece no País das Maravilhas. Nem mesmo Alyssa…” Fonte

A sinopse atrativa já explica muito bem sobre o que é o livro, nem há necessidade de explicar mais; no entanto, ela obviamente não expõe seus problemas. Para salvar sua mãe – e a si mesma – de uma maldição que leva todas as mulheres em sua família à loucura, Alyssa atravessa o espelho e entra na toca do coelho, seguindo pistas escondidas da mãe, Alisson, e penetra no insano País das Maravilhas. Porém, o lugar não é exatamente o que é descrito no livro de Lewis Carroll: sombrio, gótico, macabro, o País das Maravilhas é um lugar perigoso, especialmente para a mente de Alyssa. Na verdade, o próprio leitor se sente um pouco perdido em meio a tanta insanidade. É como se todos os elementos que conhecemos da história de Alice – que já eram bem malucos – estivessem deteriorados e misturados em um liquidificador. Desesperada por um pouco de sanidade, segurança e até mesmo humanidade, Alyssa convoca seu melhor amigo Jeb em um desejo louco de seu coração e materializa-o no País das Maravilhas. E aí, quando o livro parecia que ficaria bom, descamba para um romance melado como as tortas e os bolinhos da festa do chá maluco.

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Jeb é um personagem que estraga grande parte do livro. Ele é chato – não há outra palavra para descrever – e irritantemente superprotetor. Na verdade, ele é um babaca disfarçado de bom moço. Alyssa é completamente apaixonada por ele e, por ele, torna-se uma personagem fraca e sem atitude. Ele controla tudo e, como diz Morfeu (o melhor personagem do livro, na verdade), sufoca Alyssa como se ela não fosse capaz de fazer nada sozinha. Jeb é incapaz de confiar na garota e trata-a como uma garotinha frágil e indefesa, uma joia a ser protegida e cuidada, o que é frustrante. Isso torna também Alyssa uma personagem fraca, pois, por estar apaixonada, ela cede a Jeb, derrete em seus braços e perde muito do seu potencial. Ela fica apagada por grande parte do livro até que Morfeu aparece – e a desafia.

Morfeu é um único personagem que faz o livro valer a pena. No livro de Carroll, ele seria a representação da Lagarta, mas na realidade nessa história ele é mais como uma mariposa – um homem mariposa, de fato. É ele quem conduz toda a história e orquestra os acontecimentos do livro, porém, mesmo sendo astuto e manipulador, ele incentiva Alyssa a agir por si mesma, a ser forte e a resolver seus problemas. Ele a protege, mas não a sufoca, e incentiva sua independência. Sinceramente não entendo essa de nos livros – e em outras mídias – os autores colocarem como amor ideal esse tipinho sufocante que transforma a mulher em um mero ornamento, frágil e dependente. Acho que isso é a herança de alguns livros por aí… (desculpem-me os fãs). E isso me irrita. Sem contar que o romance de Alyssa e Jeb era melado e pegajoso, chegando a ser enervante; páginas e páginas desperdiçadas com um açúcar infinito. Não consigo aguentar esse tipo de coisa. Com Morfeu, não, as coisas eram muito mais sedutoras, misteriosas, inteligentes. Mas, sim, é claro que temos um triângulo amoroso e uma personagem sem graça que parece conquistar todos os homens do livro. Argh.

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A parte do País das Maravilhas é bem construída, mas excessivamente descritiva. A autora parece querer mostrar seu novo mundo nos mínimos detalhes, o que acaba sendo cansativo. Demorei muito para ler esse livro porque simplesmente não tinha vontade de fazê-lo. A leitura me deixava exausta e muitas vezes com sono. O livro só melhorou lá pelas últimas cem páginas, quando Alyssa começou a tomar as rédeas de sua aventura e Jeb desapareceu um pouco da história (ufa!). Mas o triste é que aí você vê todo o potencial desperdiçado do livro e, quando olha para trás, para todas as muitas páginas anteriores, sente também que desperdiçou seu tempo. Se o livro tivesse menos enrolação, menos descrição (e menos Alyssa/Jeb), seria muito melhor. Alyssa tem que fazer essas “tarefas” para desfazer os erros de Alice e salvar sua família, como por exemplo, enxugar o mar de lágrimas de Alice, porém, no final, há uma revelação surpreendente que muda tudo e deixa o livro muito mais interessante. Vale a pena por isso, mas recomendo ler as primeiras duzentas páginas em velocidade acelerada. Talvez até mesmo pulando algumas coisas…

Novamente a Novo Conceito caprichou na edição: usaram a capa original, que é linda, e dentro do livro todas as páginas são enfeitadas com ramos e folhas. O papel é super confortável e não encontrei problemas de diagramação, revisão ou tradução.

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O que achei muito estranho foi que, segundo o Skoob (porque no livro, como sempre, não há nenhuma menção a isso), o livro é o primeiro de uma série. No entanto, a história fecha perfeitamente bem, sem nenhum gancho ou nenhuma questão em aberto. Para mim isso foi ótimo: posso me dar como satisfeita e parar de ler a série aqui mesmo. Mas fica a pergunta: de onde a autora vai tirar mais história e, ainda, será que essas continuações são realmente necessárias? Aliás, essa última pergunta eu faço bastante ultimamente em várias séries…

O Lado Mais Sombrio vale a pena se você gosta de fantasia, aventura e não se importa com uma grande dose de romance açucarado. E, claro, é uma leitura interessante se você já leu – e gosta – de Alice no País das Maravilhas. Mas é um livro que poderia ser bem melhor se tivesse menos enrolação. Uma boa leitura, mas que várias vezes é bastante cansativa.

Livro gentilmente cedido em parceria para resenha pela Editora Novo Conceito.

Ficha Técnica

Título: O Lado Mais Sombrio
Autor: A. G. Howard
Editora: Novo Conceito
Páginas: 368
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Samuel Cardeal disse:

    A capa desse livro é lindissima, mas o romance meloso me diz pra ficar longe dele. Isso me incomoda muito, enfiar romances adolescentes em todas as histórias. E em uma história derivada de Alice não cabe um romance, na minha opinião descartável, ainda mais um meloso.

    Parece coisa de novela da globo, todo mundo tem que ter um par na história, desperdiçando boas ideias.

    Obrigado pela resenha, mais um riscado da minha lista, afinal, a estrada é longa e a vida é curta para perder tempo com o que não tem importância.

    Até breve! 😀

  • Marília Sena disse:

    Bem, eu estava bem ansiosa para ler esse livro (digo estava porque sua resenha desestimulou um pouco), mas não deixarei de lê-lo porque ainda me resta a curiosidade. Personagens fracos, romances água-com-açúcar e muito detalhismo é o que muitas vezes acaba com um bom livro, e por esse se tratar e fazer menção à uma história maravilhosa como Alice no País das Maravilhas, é quase impossível não fazer uma comparação.
    PS.: sobre o seu comentário “maldita herança de Crepúsculo”, achei desnecessário. Na minha opinião devemos respeitar (o que inclui não fazer comentários ofensivos) os fãs e a saga. Fora isso, ótima resenha, como sempre. Beijos!

  • Fabiana Strehlow disse:

    Olá, Karen!
    Acabei de comprar este livro por ouvir falar muito bem dele.
    Agora fiquei preocupada e confusa!

  • Gustavo disse:

    Eu acho a capa desse livro simplesmente sem palavras. Foi um ótimo trabalho gráfico, e muito chamativo. As capas da editora Novo Conceito estão cada vez mais bonitas e bem trabalhadas. A sinopse é extremamente chamativa, principalmente pra quem gosta da história de Lewis Carroll, coisa que eu amo e que só faz eu querer mais o livro. Mas agora estou com um pé atrás, romances melosos demais me deixam irritado, mas hoje em dia a maior parte dos romances é construído com essa premissa, o que enche a paciência. A personagem se tornar fraca por um menino realmente é bem ruim hein, gosto de gente com atitude, coragem, porque bonequinhos de porcelana o mundo já ta muito cheio. Já gostei desse Morfeu só pela “bronca” que ele da no moleque por tratar a menina como uma incompetente frágil. E concordo com você, essa coisa de transformar a mulher em uma ferramenta frágil e sem competência já esgotou, já não gostava disso antes de crepúsculo, mas era uma coisa pouco comum, agora só vejo livros assim. Cadê as guerreiras que mulheres são?
    Achei que fosse uma série, porque hoje em dia é só o que sai kkk por favor, qual é o nome do segundo livro? E tem previsão de lançamento? Adorei a resenha *-*

  • Michelli Santos Prado disse:

    A cada resenha que vejo desse livro, minha vontade de lê-lo só aumenta. Espero conseguir adquiri-lo em breve. Gostei bastante de conferir tua resenha e os pontos que te agradaram tanto no livro, pois quando for ler não terei uma expectativa tão alta.A história parece ser ótima e a diagramação é linda!

  • Ketlen Patricio disse:

    Logo quando soube do lançamento do livro fiquei bem interessada e li a sinopse mas ainda não tinha lido nenhuma resenha ainda. Gostei bastante do gênero da história pois gosto de Alice no país das maravilhas porém não gostei de saber que o livro tem muita enrolação e romance meloso, eu gosto de romance mas na medida certa e sem muito drama, principalmente não gostei por ter um personagens chato como o Jeb. Apesar de tudo eu leria só pra tirar minhas próprias conclusões.
    A editora fez um ótimo trabalho com a capa e a diagramação.
    Beijos

  • Nayara disse:

    Estava tão curiosa quanto você Karen! Sempre que via a capa do livro ficava “Uau deve ser incrível” (e sem falar que a menina da capa me lembra muito a Carrie Fletcher!!). E bom, depois de ler a resenha (muito boa, por sinal) desanimei um pouco! =/
    A sinopse é bem legal, cheia de mistério, mas pelo que você contou, a autora não soube trabalhar muito bem… (uns exageram muito na descrição, outros descrevem de menos… =SSS)
    Muito triste quando um livro tem tudo pra ser bom e não é =((
    Beijos

  • Douglas Fernandes disse:

    Esse era um livro que eu tinha grandes expectativas tbm… agora ja vi que posso le-lo e não esperar tanto assim
    Achei a capa do livro bonita e a sinopse bem interessante, gosto do filme Alice e fiquei muito curioso pra ler essa historia a pesar da enrolação…. hahahaha

  • Lais Cavalcante disse:

    A Novo Conceito fez tanta propaganda desse livro, tanto marketing e eu vejo taaaantas pessoas curtindo essa leitura que eu fiquei meio assim por não ter curtido desde o princípio. A sua é a primeira resenha que eu leio que não foi tão a favor assim.

  • Thalia disse:

    eu gostei do livro 🙂 amo a história da Alice no País das Maravilhas. e adorei o lado mais sombrio estou lendo o segundo livro também pensei a mesma coisa (da onde ela vai tirar mais historia?) e é ela conseguiu achar historia, talvez você não va gostar mas eu amei o segundo. confesso que odiei a narrativa pra mim foi a única coisa que estragou o livro

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