Resenha: O menino no alto da montanha

Sabe aquele momento que você está bloqueado? Nada está bom, nenhuma leitura progride, por mais que o livro não seja ruim, o problema é você. Bem, eu estava assim. E o que melhor para sair de uma vibe ruim dessas do que um dos seus autores favoritos? John Boyne nunca desaponta. Esse homem tem o dom de deixar cada história que toca perfeita. E em O menino no alto da montanha, ele conseguiu criar uma obra-prima tão marcante quanto seu livro mais conhecido, O menino do pijama listrado. Perturbador e inesquecível, é impossível não devorar esse livro, mesmo na pior ressaca literária.

meninoaltomontanha“Quando Pierrot fica órfão, precisa ir embora de sua casa em Paris para começar uma nova vida com sua tia Beatrix, governanta de um casarão no topo das montanhas alemãs. Mas essa não é uma época qualquer: estamos em 1935, e a Segunda Guerra Mundial se aproxima. E esse não é um casarão qualquer, mas a casa de Adolf Hitler. Logo Pierrot se torna um dos protegidos do Führer e se junta à Juventude Hitlerista. O novo mundo que se abre ao garoto é cada vez mais perigoso, repleto de medo, segredos e traição. E pode ser que Pierrot nunca consiga escapar.” Fonte

A primeira coisa que pensei ao ler a sinopse foi “nada de bom pode resultar disso”. Como, se um garotinho vai parar na mesma que ninguém menos que Adolf Hitler? Você já começa o livro pensando que sim, ele vai doer. E dói.

A maestria do livro, além da narrativa, é claro, reside no fato de que Boyne envolve o leitor com o personagem principal de tal maneira que é impossível não amá-lo. Pierrot é apenas um garotinho órfão, que perdeu o pai muito cedo, um homem martirizado pelas cicatrizes da Primeira Guerra Mundial e que machucou demais a família. A mãe vai logo em seguida, alguns anos depois, vítima de uma doença fatal. Pierrot fica sozinho no mundo. Ele até tinha um melhor amigo, judeu, mas ele era criado apenas pela mãe, que não tinha condições de sustentar duas crianças. Pierrot perde até mesmo seu cachorro, que não tem condições de cuidar, e acaba indo para um orfanato. Um destino ruim, certo? Depois você até lamenta que ele não tenha ficado por lá.

O menino é adotado pela tia, irmã do pai, uma parente sobre a qual a família nunca incluía nas conversas. O motivo? Tia Beatrix é governanta na casa de ninguém menos que Adolf Hitler. Logo de início, Pierrot precisa abdicar do próprio nome, porque era “francês demais” e se torna Pieter. “Um pouco menos francês, um pouco mais alemão”. Não só o nome lhe é roubado, mas, aos poucos, sua identidade. É terrível e penoso assistir àquele menino doce crescer e, influenciado por Hitler, pela Juventude Hitlerista e pela Guerra, tornar-se outra pessoa completamente diferente. E apesar de odiar isso, de odiar suas ações, é impossível para o leitor odiar o personagem. Tudo o que a gente sente é um enorme pesar, uma imensa dor no peito que não passa, nem mesmo quando o livro termina.

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Você até pode pensar “essa é mais uma história sobre a Segunda Guerra Mundial”, mas no fundo, não é. É uma história contemporânea, e nossa sociedade quebrada pode muito bem se identificar. É um livro para refletir: uma criança nasce ruim? Difícil acreditar nisso, não? Que um bebê, uma criança, nasça destinada a ser uma pessoa cruel, um bandido, um assassino. Aquele bebê de colo que só faz dormir e chorar? Aquela criança que brinca de pega-pega e pique-esconde? Como um ser como esse pode se tornar um adulto horrível? Um dia todos os tiranos, grandes ou pequenos, foram crianças. Foram inocentes.

Como sempre, John Boyne traz uma obra brilhante, com uma narrativa impecável e envolvente, personagens inesquecíveis e um final inteligente e surpreendente. A edição da Seguinte está muitíssimo confortável, como sempre, com uma ótima revisão e diagramação. A capa segue o padrão dos livros de Boyne que saem pela Companhia das Letras, mas dessa vez ela realmente faz sentido e não é apenas mais uma cópia da famosa capa de O menino do pijama listrado. É um livro curto, com uma linguagem simples e considerada jovem, mas não o subestime; é também um livro duro e cruel, e nenhum leitor sairá ileso dessa leitura.

Livro gentilmente cedido para leitura e resenha pela Editora Seguinte!

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Ficha Técnica

Título: O menino no alto da montanha
Autor: John Boyne
Editora: Seguinte
Páginas: 225
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon / Saraiva / Livraria da Folha / Submarino / Shoptime
Avaliação: 

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  • Aline Santos disse:

    Olá! Boyne realmente sabe como prender leitores e admiradores, adoreeeei sua resenha, tinha lido uma rápida resenha do livro, agora mais q nunca qro ler!
    Bjs!

  • Thais Lima disse:

    Oi!
    Gostei muito da sua resenha, nunca li esse livros mas já li resenha falando muito bem dele apesar de ser um livro triste que retrata a historia de um garotinho e como ele vai perder a sua inocência tenho muita vontade de ler esse livro. Achei a capa bem bonita, a editora caprichou mesmo.
    Parabéns pela resenha e beijos!!!

  • Shadai disse:

    eu só li um livro do Boyne, “Fique onde está e então corra”, e achei apenas bom! já li outras resenhas sempre favoráveis a seus trabalhos, ele escreve muito bem, mas me incomoda um pouco que ele só sabe trabalhar suas histórias com garotos como protagonistas e ambientado na segunda guerra mundial.
    após essa minha pequena crítica, vai parecer contraditório, mas a trajetória do personagem desse livro chega a ser interessante e bastante curioso.

  • Rônida Lorenzoni disse:

    Doida querendo ler este livro. Amei a forma descrita pelo autor em O menino do pijama listrado e pelas resenhas que li, já vi que vou chorar horrores como chorei no outro livro dele.

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