Resenha: Passarinha


Para vocês verem o quanto eu queria ler esse livro, furei a fila, passei a perna na Lucy e pedi o livro pra mim. Calma, gente, eu explico! Eu, a Lany e a Lucy dividimos os livros da Editora Valentina e cada vez é uma que lê. Quando vi que Passarinha seria lançado, mesmo após ter sido a última a ler um livro da editora, a próxima ser a Lucy e depois a Lany, eu pedi (pedi pedi pedi insisti pedi e pedi mais um pouquinho) para ler esse livro. Como a Lucy é legal (e a Lany também, afinal, ela era a próxima depois da Lucy e me deixou furar fila!)… ela disse um dos seus “tudo bem… bru bru… e tal >.<” (mas agora eu vou emprestar o livro pra ela e ela vai poder fazer isso de passar na minha frente em outra situação rs). Obrigada, meninas! Estou usando a MINHA educação, viu, gente? Vou ganhar um adesivo que nem a linda da Caitlin!

Resumindo tudo isso que eu falei: Passarinha é tão ou melhor do que eu esperava. Criei expectativas GIGANTES e elas foram muito, muito superadas. Descubra o porquê nessa resenha.

“No mundo de Caitlin tudo é preto ou branco. As coisas são boas ou más. Qualquer coisa no meio do caminho é confuso. Essa é a máxima que o irmão mais velho de Caitlin sempre repetiu. Mas agora Devon está morto e o pai não está ajudando em nada. Caitlin quer ajudar o pai – a si mesma e a todos a sua volta -, mas sendo uma menina de dez anos de idade, com Síndrome de Asperger, ela não sabe como lidar com isso. Quando ela lê a definição de desfecho no dicionário, ela percebe que é o que ela e seu pai precisam. Em sua busca por ele, Caitlin descobre que nem tudo é preto ou branco: o mundo está cheio de cores, confuso e bonito.” Fonte

Caitlin é uma menina de dez anos, inteligente, perspicaz, educada e prestativa, que possui um detalhe especial: é portadora da Síndrome de Asperger. Nas orelhas do livro também se fala que ela é autista, porém, dentro do livro, Caitlin insiste que não é. Como fiquei com a dúvida, fui procurar mais sobre o assunto (e sinceramente, não é muito bom quando um livro é tão interessante que nos faz ir além e pesquisar sobre o assunto?).

“Síndrome de Asperger era um transtorno do espectro autista, diferenciava-se do autismo clássico pelo portador ter fala compreensível. (…) a síndrome foi enquadrada como uma parte do autismo leve no transtorno do espectro do autismo.” Fonte: Wikipedia

Acho que Captei O Sentido depois disso. Síndrome de Asperger é uma forma um pouco mais branda do autismo. Algumas características da síndrome:

“(…) dificuldade de interação social, dificuldades em processar e expressar emoções (este problema leva a que as outras pessoas se afastem por pensarem que o indivíduo não sente empatia), interpretação muito literal da linguagem, dificuldade com mudanças em sua rotina, pessoas desconhecidas, ou que não vêem há muito tempo (…)” Fonte: Wikipedia

E vocês, Captaram O Sentido agora?

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Pois é. Mas além disso, Caitlin perdeu o irmão, Devon, que era o único que realmente a ouvia, tentava entendê-la e lhe ensinava habilidades comportamentais úteis – nas palavras da própria autora em nota no final do livro. Depois do Dia Em Que Tudo Desmoronou, Caitlin precisa lidar, sozinha, com a ausência do irmão, com a tristeza do pai e com a vida. Na escola, ela tem orientação psicológica, porém ainda tem dificuldades em se relacionar, não tem amigos e a grande parte dos outros alunos a vê como esquisita, doida e vivem tirando sarro dela. É interessante ver como Caitlin Lida Com Isso: grande parte das vezes ela parece não se importar com o que os outros pensam e descreve sua rejeição como um fato simples e até desimportante. O leitor, porém, sente e muito a empatia com essa personagem e, acentuada pela narração em primeira pessoa, nós nos colocamos no lugar de Caitlin, enxergamos o mundo com seus olhos.

“(…) Mas gosto de cachorros. Eles sentam perto da gente e deitam a cabeça no nosso colo. Os cachorros são doces e amorosos. Fico feliz se as pessoas acham que sou um cachorro.” Página 37.

Isso é algo muito, muito importante e sensível nesse livro. Ele é um livro para se colocar no lugar dos outros. Dá uma boa chacoalhada na gente. Durante toda a história, a Sra. Brook, terapeuta de Caitlin, tenta fazê-la desenvolver sua empatia. Só que, à medida que a leitura avança, nós percebemos o quanto todos nós precisamos desenvolver nossa empatia. Caitlin, com sua síndrome, tem essa característica natural, física. Mas e nós? Quantas vezes nós realmente nos colocamos no lugar dos outros? Quantas vezes tentamos entender seus sentimentos, sua dor? Você já parou para pensar nisso? Aquele familiar ou amigo que nós brigamos, discutimos ou que nos afastamos… como ele está se sentindo? Aquela pessoa que agride os outros no trabalho, na rua, em casa… Por que ela está fazendo isso? Muitas vezes, no livro, percebemos o quanto os outros não estão sentindo empatia, seja com Caitlin, seja entre si, ao mesmo tempo que a menina está aprendendo isso, como se fosse mais uma matéria escolar. Talvez a gente tenha que descer do pedestal e também aprender, como Caitlin, e Trabalhar Nisso.

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Caitlin tem dificuldade de lidar com emoções e, portanto, faz algumas coisas que, para alguém visto de fora, podem parecer bizarras, mas fazem muito, muito sentido, quando nós as vemos por seus olhos na sua narração. Ela escreve as palavras especiais com letras maiúsculas, mesmo que sejam substantivos comuns. Ela também agita as mãos descontroladamente, mas quando ela nos explica o porquê, parece realmente simples e nós entendemos. Quando não quer ver ou sentir alguma coisa, Caitlin faz bicho de pelúcia, que nada mais é do borrar toda a visão para não ver o que está acontecendo. Ela diz também que quando está triste ou chateada, tem uma sensação de recreio no estômago; isso porque a hora do recreio é a pior matéria para Caitlin – e ela acha que é uma matéria, já que é obrigada a frequentá-lo. Sinceridade? Quando eu era bem pequena também detestava o recreio. Era quando tinha todo aquele barulho, eu era obrigada a comer a comida horrível da escola, as crianças corriam e batiam umas nas outras, gritavam e brigavam entre elas, muitas vezes comigo, e tiravam sarro da gente. Lembrei de tudo isso quando Caitlin descrevia o recreio. E se você não é aceito nos grupos – e como a gente precisa ser aceito quando está na escola, não é? É quase uma necessidade física – isso acontece no intervalo, não importa em qual ano você esteja. E dá uma sensação de melancolia, de verdade. Percebem como tudo faz sentido quando Caitlin explica pra gente? É isso que acontece no livro inteiro. E acontece porque ela nos coloca em seu lugar.

“Quanto mais olho para o armário mais vou transformando o formato duro do lençol em uma coisa macia. Acho que estou fazendo bicho de pelúcia mesmo sem querer. É fácil quando os olhos da gente já estão embaçados.” Página 125.

Mas não pensem que a síndrome define Caitlin. Ela é uma personagem vibrante, cheia de personalidade, teimosa e muito vívida, talentosa, especialmente para desenhar, e inteligentíssima. Por muitas vezes, o que ela diz nos coloca em xeque – e também os outros personagens, principalmente os adultos. Seu livro preferido é o Dicionário. Quando ela descobre a palavra desfecho, ela entende que é disso que ela precisa – e seu pai também, após o que aconteceu a Devon. Sua busca pelo significado é uma pequena grande aventura, tocante e cheia de sensibilidade. Quando você se dá conta, está completamente encantado e imerso na história, até mesmo pensando como Caitlin, vibrando e torcendo por ela, sentindo o que ela sente (olha a tal da empatia aí), surpreendendo-se e sentindo intensamente. Se você chegar ao final desse livro sem chorar… bem, eu simplesmente duvido que você não vá chorar, só isso.

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Uma das coisas mais legais que vem logo no começo do livro é uma nota muito atenciosa de tradução da Editora ValentinaPassarinha é um romance de símbolos, impossíveis de traduzir fielmente para o português. Chest em inglês, por exemplo, é peito e uma espécie armário, e ambas as palavras trazem uma metáfora para o que aconteceu com Devon, o irmão de Caitlin. Todo o livro fala muito do filme O sol nasce para todos, que se traduzido literalmente do título em inglês seria Matar Passarinho – e foi assim que ele foi traduzido no livro. Para evitar estranhamentos e principalmente tornar a leitura uma experiência completa, a editora colocou a nota logo de cara, explicando tudo e dispensando as desagradáveis (eu, pelo menos, detesto) notas de rodapé, que seriam excessivas caso essa estratégia não fosse tomada. Palmas, pessoal!

Outro detalhe muito interessante: o livro tem pouquíssimas vírgulas, especialmente nas narrações de Caitlin. Não é um erro, mas o estilo da autora: na verdade, o estilo de Caitlin, o jeito que ela pensa e sente. Incrível.

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Confesso para vocês que foi muito, muito difícil fazer essa resenha. Logo depois que eu terminei o livro não parava de chorar. Sério. E depois o livro ficou o dia todo na minha cabeça. Uma ressaca literária das brabas – mas muito doce. Difícil se desprender dessa história. Ela entra dentro da gente e gruda no nosso Coração. Com “C” maiúsculo, porque não existe palavra mais especial… A não ser, é claro, talvez a palavra Livro, especialmente os Livros Que Tocam Nosso Coração, como Passarinha.

“Livros não são como pessoas. Livros são seguros.” Página 42.

Livro cedido em parceria com a Editora Valentina!

Ficha Técnica:

Título: Passarinha
Autor: Kathryn Erskine
Editora: Valentina
Páginas: 224
Onde comprar: Livraria Cultura
Avaliação: 

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  • Jullyane Prado disse:

    Nossa que fascinante, aaah Karen se eu fosse você também tinha furado fila, porque desde que esse livro foi divulgado eu fiquei com vontade de lê-lo! Ele é tão cativante que acredito que é impossível não chorar a o lê-lo. Amo histórias assim, que são reflexivas, que nos fazem questionar sobre nós mesmos e acredito que é isso que Passarinha faz, nos mostra como as vezes é difícil a interação social, como as pessoas tem dificuldades de lidar com os problemas/ e ou deficiências do outro! Ótima resenha!!

  • Gladys Sena disse:

    Essa trama deve ser super emocionante!!
    É a segunda resenha que leio da mesma e fiquei mais curiosa ainda!

    http://meuhobbyliterario.blogspot.com.br/

  • Melissa de Sá disse:

    Esse livro me chamou a atenção também e quero muito ler quando tiver uma brecha. Engraçado porque no livro que estudo pro mestrado (Oryx and Crake, da Margaret Atwood) tem um personagem com Síndrome de Asperger, só que, bem, ele se desenvolve de uma forma completamente diferente. Okay que o livro não é do ponto de vista do personagem, mas sim do melhor amigo dele, então isso faz uma diferença.

    A resenha ficou ótima.

  • Caroline Centeno disse:

    Um livro que adoraria ler tentando não derramar uma lágrima sequer ;—-;
    Fiquei impressionada com a carga emocional que o livro trás consigo, senti empatia pela personagem até mesmo na sua resenha e quero muito ler esse livro *-*
    Seria tão dramático que se meu quarto imundar mandarei a conta para vocês (Y) AHAUHAUHA

  • Rossana Batista disse:

    Tenho vontade de ler esse livro desde que eu vi a capa dele. Tenho uma expectativa gigante também com esse livro e espero que superem elas assim como as suas. Tenho certeza que vou me emocionar com a Caitlin.

  • Roberta Moraes disse:

    Pode ler um livro que seja narradinho por uma garotinha com dez anos de idade já é legal e ainda quando ela tem essa forma de autismo e todas os seus problemas sentimentais. Quero muito ler :)

  • Jessica Lisboa disse:

    ADOREI ADOREI , to vendo qeu vou me banhar de lagrimas ao ler esse livro. Que eu me lembre nunca li nenhum livro que a personagem tinha algum transtorno ou coisa do tipo. Simplesmente quero esse livro, a autora ja em conquistou sem duvida nenhuma!

    xx

  • Sexta do Sebo #36 « Por Essas Páginas disse:

    […] Semana passada perguntamos qual foi sua melhor leitura do mês de outubro. Esse mês minha melhor leitura foi com certeza Passarinha, da Kathryn Eyskine e da Editora Valentina. Lindo demais, gente, vale muito a pena! Confiram a resenha aqui. […]

  • Semana Passarinha de Conscientização do Autismo – Editora Valentina « Por Essas Páginas disse:

    […] Passarinha, de Kathryn Earskine, que aborda o assunto de maneira incrivelmente bela e sensível (leia a resenha). Desde a semana passada venho pensando no que falar para vocês nesse dia… deveria falar […]

  • Fabiana Strehlow disse:

    Esse livro me interessa muito desde o seu lançamento.
    E até agora, ainda não consegui adquiri-lo. Mas, vou fazê-lo em breve.
    Esse tema muito me atrai e a história parece ser linda!

    Abraços!

  • Top Ten Tuesday: Dez livros que celebram a diversidade « Por Essas Páginas disse:

    […] Esse livro é uma obra-prima. Passarinha fala sobre a Síndrome de Asperger sob a ótica da própria Caitlin, portadora dela. É um dos livros mais originais e bem escritos que já li. E é de chorar, muito. Instrutivo sem ser pretensioso, emocionante sem ser piegas, é uma obra inesquecível. Leia a resenha. […]

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