Resenha: Passarinho

Passarinho é o livro de estreia da autora Crystal Chan. E, talvez exatamente por esse motivo, a obra é uma montanha russa de estilo, misturando inexperiência literária, evolução de escrita e uma história sensível que poderia tocar mais se a escritora tivesse trabalhado mais no livro e em sua escrita. Confesso que esperava mais da obra esperava me emocionar e não foi o que aconteceu. Ainda assim, Passarinho é um belo livro sobre amizade, família e luto.

PASSARINHO“O avô de Joia parou de falar no dia em que matou o irmão dela. O menino se chamava John, e achava que tinha asas. Subia e saltava do alto de qualquer coisa, até ganhar do avô o apelido de Passarinho. Joia não teve a chance de conhecê-lo, pois Passarinho se jogou do penhasco bem no dia em que ela nasceu. Ainda assim, por muito tempo ela viveu à sombra de suas asas. Agora, aos doze anos, Joia mora em uma casa tomada por silêncio e segredos. Os pais culpam o avô pela tragédia do passado, atribuem a ele a má sorte da família. Joia tem certeza de que nunca será tão amada quanto o irmão, até que ela conhece um garoto misterioso no alto de uma árvore. Um garoto que também se chama John. O avô está convencido de que esse novo amigo é um duppy — um espírito maldoso —, mas Joia sabe que isso não é verdade. E talvez em John esteja a chave para quebrar a maldição que recaiu sobre sua família desde que Passarinho morreu.” Fonte

Joia é uma menina de 12 anos que nasceu no mesmo dia que seu irmão John faleceu. Ele se foi muito novo, com apenas 5 anos, ao pular de um penhasco. O avô de Joia apelidou o neto de Passarinho e, segundo o livro, por causa disso o menino achava que poderia voar (digo “segundo o livro” porque não acho que John tenha pulado apenas por isso; é ser muito superficial achar que a culpa é toda do avô, como os pais de Joia fazem, é a velha história das pessoas acharem um único culpado e se isentarem de sua própria culpa). Essa tragédia roubou toda a vida que Joia poderia ter; sua mãe é triste, o pai é amargurado, o avô nunca mais falou. Todos na casa vivem sob um silêncio pesado e escuro que sufoca Joia. Ela encontra refúgio no mesmo penhasco que o irmão morreu, em meio às suas pedras, a terra e seu sonho de ser geóloga. É nesse momento que ela faz amizade com um menino que se chama… John.

“A felicidade é como uma criança. percebi, futucando o tronco perto das minhas pernas. Ou a alimenta, ou ela morre.” Página 177

O meu problema com esse livro foram as suas primeiras 150 páginas, mais ou menos (o que não é um problema pequeno, já que o livro tem no total 222 páginas e essas 150 são quase o livro inteiro). O começo do livro é um pouco arrastado e sem movimento; parece que nada de verdade está acontecendo, que o livro não caminha para lugar algum. É como se a autora tentasse ambientar o leitor por 100 páginas e isso é demais para uma ambientação. Outro problema foi que Joia e John não se pareciam com crianças de 12 anos. Isso é ainda mais perceptível porque a narração do livro é feita em primeira pessoa, com a voz de Joia, e ela, por todas essas 150 páginas, não parece ser uma menina de 12 anos, mas sim uma mulher de 30. É uma narração até mesmo complicada em alguns momentos, que pouco reflete o jeito de falar e de encarar o mundo de uma criança. Tudo bem, Joia não é uma menina comum: ela é inteligente e madura, muito mais do que a maioria das meninas de sua idade, porém, mesmo assim, ela ainda é uma criança. Já li vários livros narrados por crianças e você sente quando o autor conseguiu captar essa voz, relembrar sua criança interior. Crystal Chan não consegue esse feito, ao menos nesse início do livro, onde sua escrita ainda é inexperiente e turbulenta. E não é apenas um problema de Joia, porque John, que tem a mesma idade que ela, também não consegue manter diálogos coerentes com sua idade.

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Outro problema é que a autora insiste demais nas crenças jamaicanas da família. Certo, isso era muito importante para o livro, mas a autora bate demais nessa tecla, chegando a se tornar cansativo. Perdi a noção de quantas vezes encontrei as palavras duppy/duppies no livro (na crença, são como espíritos que influenciam as pessoas, geralmente de maneiras ruins). A família de Joia acredita que um duppy influenciou Passarinho a se matar, e grande parte da história gira em torno dessa crença, só que às vezes isso se torna excessivo, como se apenas isso importasse, quando, na realidade, há muito mais na obra a ser explorado, como a amizade de Joia e John, os relacionamentos familiares e, em especial, o relacionamento de Joia e seu avô.

No entanto, um livro pode sempre melhorar, e por isso me recuso a abandonar livros. Após esse início, o livro dá uma guinada, em parte na história, em parte na escrita da autora. O livro melhora substancialmente quando o avô de Joia, o melhor personagem do livro, começa a aparecer mais e se envolver com a neta. Joia passa a conhecê-lo melhor, bem como se envolver mais com a família, e nós penetramos nesse lar triste e amargurado deles. É como se, por várias e várias páginas, a autora tivesse mantido uma porta fechada na nossa frente e não nos tenha deixado entrar e, de repente, ela abrisse essa porta. É claramente perceptível a evolução da escrita da autora do metade para o final do livro, tanto que demorei dias para ler as primeiras páginas e, da 150 pra frente, devorei em uma noite.

“Não gosto de chorar na frente das pessoas, porque isso revela os buracos que temos por dentro.” Página 181

Valeu a pena? Valeu, o livro tem uma história bonita, passa mensagens extremamente sensíveis e termina de um jeito brilhante. No entanto, ele seria muito melhor e mais emocionante se tivesse sido escrito com mais calma, talvez muito mais reescrito e passado por uma leitura crítica e uma revisão mais rigorosas. Isso que digo não é função da editora brasileira, a Intrínseca, que fez um trabalho competente com a tradução, revisão para o português e uma boa diagramação (não gostei muito da capa, confesso); é, sim, um trabalho da editora americana, que preparou esse original. Recomendo o livro, mas com parcimônia.

Esse livro foi gentilmente cedido para leitura e resenha pela Editora Intrínseca.

Ficha Técnica

Título: Passarinho
Autor: Crystal Chan
Editora: Intrínseca
Páginas: 222
Onde comprar: Livraria Cultura / Livraria Cultura (e-book) / Amazon (e-book)
Avaliação: 

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  • Patrini Viero disse:

    Logo que li a sinopse desse livro eu realmente senti muita vontade de ler, porque achei a história comovente e interessantíssima, mas depois de ler a tua resenha fiquei meio receosa por ter criado expectativas demais em relação à leitura. Apesar disso, ainda vou ler o livro, mas esperando menos dele.

  • Suelen Mendes disse:

    E eu já adorei a capa kkkk
    Pelo que vc falou o livro é bem cansativo,não gosto de escritas repetitivas e acho que não ia me dar bem com ele então!
    Embora a história pela sinopse tenha tudo pra ter dado certo.
    Eu tbm nunca abandono um livro por mais entediante que seja,e esses mais intediantes,no final tem uma tendência a dar uma guinada que nos faz não ter muito aquele sentimento de tempo perdido! kkkk

  • Fabiana Strehlow disse:

    Sério mesmo, Karen?
    E eu que pensei que esse livro fosse o máximo.
    Não que seja de todo ruim, mas pelo visto, não é aquilo tudo. E se faltou preparo da Crystal Chan, não vai ser dessa vez…

  • Michele Lopez disse:

    Oie…
    Fiquei um pouco decepcionada lendo a resenha. O livro realmente parecia ser incrível, mas pelo jeito que vc o descreveu parece ser bem cansativo de ler e desestimulante durante as 150 primeiras páginas, o que também achei que é muito.
    Embora vc tenha citado que ele melhora bastante, não fiquei animada para lê-lo.

  • Solange Cristina disse:

    Ahh .. eu tinha ficado com muuita vontade de ler.
    Esse problema de começar devagaar eu até consigo relevar, mas tem uma coisa que não cai é personagens infantis com mente de adulto.
    O último que eu li e era assim era A Mão Esquerda de Deus e nem terminei a trilogia de tão desanimada.
    Mas a história desse é bonita :)

  • Nathalia Simião disse:

    Esse negócio de culparem o avô só porque ele apelidou o menino é meio sem noção né?! Mais fácil falar que o menino tinha problema u.u Enfim, não gostei e não senti vontade de ler esse livro. beijos

  • Gustavo disse:

    Estou com vontade de ler esse livro quase desde que saiu, eu adorei a capa, e adorei a sinopse, pena que as primeiras páginas não foi um espaço tão bem aproveitado quanto as últimas, mas ainda sim eu me interesso pelo livro e espero obter e ler ele o mais breve possível kkk

  • Michely Reis disse:

    Oiiie..
    para ser sincera a capa não me chamou muita atenção não e pela sua resenha me pareceu que o livro é um pouco cansativo e acho que não iria me prender..apesar de você dizer que ele melhora..não me deixou nem um pouco animada de ler..*–* beiijos

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