Resenha: Precisamos Falar Sobre o Kevin

“Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos – o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio dos subúrbios de Nova York –, Lionel Shriver não apresenta apenas mais uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu. Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional “onde foi que eu errei?” a narradora desnuda, assombrada, uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos?” Fonte

Já fazia um bom tempo que eu andava intrigada com esse livro. Quando ele finalmente caiu nas minhas mãos, no começo do mês, eu pensei “agora tenho que lê-lo”, e foi um sentimento único de urgência, que fazia um bom tempo eu não tinha. Terminei minha leitura anterior e logo depois comecei o Kevin. E de começo já posso dizer que não era o que eu estava esperando – não, o livro é muito , muito melhor do eu estava esperando, na realidade.

A grande questão do enredo já é dita logo de cara, no começo do livro, na sinopse, enfim, em todo lugar: Kevin Khatchadourian, 16 anos, é autor de um massacre em uma boa escola do subúrbio de Nova York. Isso quer dizer que todo mundo começa lendo o livro já sabendo o final, correto? Errado. A autora consegue manter o leitor na ponta da cadeira durante todo o livro e ainda chega no final conseguindo surpreender – e muito – e você sente o pé indo de encontro ao seu estômago muito acomodado e feliz em sua vidinha comum. E ainda fica feliz por isso, porque percebe porque o livro realmente merece ser um best-seller.

Vejam só, comecei essa resenha pelo final, mas como o livro também faz isso, acho que não preciso me sentir culpada, não?

Aliás, o livro é muito sobre esse tema: culpa. É um livro sobre as decisões que tomamos na vida – às vezes por impulso, às vezes para agradar alguém – e como isso pode mudar tudo depois, quase sempre para pior. É sobre casamento, maternidade, trabalho, carreira, dedicação, abnegação, revolta, amor e ódio. E a grande pergunta: é possível odiar nossos filhos?

A história é narrada em cartas pela protagonista, Eva, mãe de Kevin, escritas para o marido ausente, Franklin. Desde o começo até o final, Eva esmiúça cada particularidade sobre seu relacionamento com Franklin, a maternidade e seus relacionamentos com os filhos, tudo com um toque muito pessoal. Ela já conta bem no começo o que aconteceu, a funesta quinta-feira em que sua vida mudou quando Kevin cometeu o ato que é o motivador do livro. Na cronologia das cartas, já fazem quase dois anos que o fato aconteceu. E Eva conta como está sua vida no momento e relembra, analisando cada pormenor, a sua vida e o que levou Kevin a ser Kevin.

Eva tinha um casamento aparentemente maravilhoso – não perfeito, porque nada é perfeito, como se descobre no livro – com seu marido Franklin. Mas eles estavam chegando ao momento que precisavam de mais algum sentido – ao menos era o que Franklin pensava – e aos poucos Eva começa também a achar isso necessário, mesmo que não tenha certeza do que quer. É quando ela engravida do primeiro filho deles, Kevin, e ela percebe que definitivamente não era isso que queria. Desde o início há uma antipatia clara entre o menino e a mãe.

Kevin sempre foi um garoto difícil, e Eva logo percebe que está travando uma guerra com o próprio filho, mesmo quando ele ainda está na fase das fraldas. O leitor acompanha embasbacado cada parágrafo e cada desenvolvimento das personagens, no caso de Eva, e a cortina que vai levantando até finalmente conhecermos Kevin, o que, na minha opinião, só ocorre de fato nas últimas duas páginas do livro. Não vou negar que no início, você sente até um pouco de raiva da Eva e seu comportamente nefasto com o próprio filho; aos poucos, o leitor a compreende e começa a sentí-la melhor, e até se emociona em alguns momentos. Há passagens sublimes no livro, que são de deixar um nó na garganta de qualquer um.

Mas ainda mais importante que a história em si, é a reflexão que ela traz a cada linha. Até onde vai a responsabilidade dos pais para com seus filhos? Até onde pais e filhos são obrigados a se amarem incondicionalmente, como se fosse uma obrigação adquirida no momento da fecundação? Será que podemos encará-los como pessoas distintas, sem diferenciá-los da multidão, só porque são nossos filhos? Por que um filho pode ser tão diferente do outro, se tiveram os mesmos pais? O que se passa dentro de uma mente que é capaz de comenter esse tipo de ato?

A cada página, um tapa. No final, um chute certeiro no meio do estômago. Mas eu adorei apanhar.

O livro também tem uma adaptação para o cinema, que estreou na mostra competitiva de Cannes e foi eleito o melhor do Festival de Londres. A capa da edição mais recente é inspirada no longa, mas eu ainda prefiro a capa original (na foto em preto-e-branco). A atriz Tilda Swinton, que interpreta Eva, foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz por sua interpretação da protagonista. Ainda não vi o filme, mas se for um terço do que é o livro, será um dos melhores que eu já assisti.

Ficha Técnica

Título: Precisamos Falar Sobre o Kevin

Autor: Lionel Shriver

Editora: Intrínseca

Páginas: 464

Onde comprar: Amazon

Avaliação:

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  • Lain Lang disse:

    wow! Eu tbm fiquei super intrigada com esse livro MAS nao quero le-lo! hahahaha ainda bem que fizeram a resenha! mto bom! parabens!

  • Mi disse:

    Eu adorei esse livro. Muito bom mesmo.
    Parabéns pela resenha, Kakazinha. Tá perfeita. bjks

  • Lany disse:

    Kakazinha, fiquei arrepiada lendo a sua resenha! Eu fiquei bastante curiosa sobre esse livro logo quando ele foi lançado. E agora, sabendo que ele trata tão bem esse tema tão delicado… Eu quero muito ler esse livro! Está na minha enorme pilha de livros para ler hahaha!

  • Melissa disse:

    Eu morro de medo da capa original do livro! Sério. Me assusta MUITO!

    Então, também fiquei intrigada com esse livro. Não é um tema confortável, definitivamente, mas é algo que ninguém fala: amor incondicional entre pais e filhos é natural?

    Não sei se é minha prioridade, mas se um dia tiver chance, vou ler esse livro sim ou pelo menos assistir o filme. Eu gosto muito dessas abordagens realistas e polêmicas, mas que não são apelativas no sentido violência/sexo/o escambau pra deixar o leitor/espectador chocado. Tem outras formas de se chocar sem usar isso.

    Adorei a resenha! Ficou ótima!

  • Nik disse:

    Bom, eu sempre fugi desse livro desde que soube da existência dele. Você deve saber porque, amiga. rs Por mais que uma tragédia não tenha acontecido, esse livro me lembra muito algo que vivi e ainda vivo, de certa forma.

    Eu tenho certeza absoluta de que amor entre pais e filhos não é algo natural. Ou melhor, não é obrigatório. Então, lendo sua resenha, além de confirmar o que já sei, fiquei feliz que tenha gostado e refletido sobre um tema tão delicado e assombroso como esse… quem quer pensar nisso, né?

    Ficou ótima a resenha de verdade. Um dia, acho que tomo coragem e leio.

  • Karen Alvares disse:

    Meninas, realmente, para quem leu sabe, e quem não leu vai saber quando ler: o livro trata o tema com uma sinceridade que incomoda por nos tirar da zona de conforto, mas há momentos com uma certa delicadeza de emocionar. O livro mostra a verdade, mas não tem a intenção fria de apenas chocar; ele quer fazer o leitor refletir, e isso você faz durante todo o livro mesmo. Uma cena que me tocou muito foi da Eva na sala de espera da prisão de menores, conversando com uma outra mãe, negra, e contando que era a mãe do KK e dizendo como se sentindo culpada; esperando nada menos que acusações ou olhares arregalados, ela teve a surpresa da outra mãe ser compreensiva, delicada e ter dito a ela que não deixasse os outros culpá-la pelo erro do filho. Foi emocionante.

    Eu vi o filme ontem, e foi uma adaptação impecável. Bem delicada e cheia de detalhes que só quem leu percebe: o eterno sorrisinho de esgar, de um lado só, do Kevin; os sapatos amarelos que a Eva quebra a arma de esguiço do filho após ele aprontar mais uma com ela. Coisas pequenas, que você fica, uau, eles foram muito atenciosos com o livro. Vale a pena. Mas acho que é um filme muito mais bem aproveitado se você leu o livro.

    Lain, Mi, obrigada, meninas! Lain, não fique com medo do livro, como eu disse, ele não tem a pretensão de chocar, pelo contrário. Mi, o livro é demais mesmo, né? Uma das minhas melhores leituras.

    Lany, leia sim o livro! Ele é muito muito bom. Mas prepare o estômago para os chutes hahaha 🙂

    Mel, a capa original é de arrepiar né? Tu já fica tremendo antes mesmo de ler. Eu não acho que o amor entre pais e filhos seja natural, e também acho que há diferença. Não tem amor igual, porque as pessoas são sempre diferentes. A abordagem do livro sacode muito mais do jeito que é, verdadeira e honesta, do que se fosse apelativa. Tu se sente muito mais próximo, é tudo muito mais real e palpável. Você começa a pensar que aquilo pode acontecer com qualquer um, tira realmente da zona de conforto.

    Nikota, eu te entendo. O livro é maravilhoso, mas não sei seria algo bom para você. Machucaria com certeza. Como eu disse, não acho que o amor entre pais e filhos seja natural, nem que se ame da mesma medida. Não existe amor igual, como não existem pessoas iguais. O livro faz a gente refletir mesmo sobre esse tema; ele me fez lembrar um pouco também o conto que tu escreveu. Bem pesado, mas uma ótima leitura, e muito reflexiva.

  • Lucy disse:

    Eu acho que choraria muito com esse livro. Com certeza sairia da minha zona de conforto, porque eu encaro mesmo o amor dos pais como algo incondiscional. Quero mto ler pra ter uma noção melhor do outro lado da moeda do relacionamento entre pais e filhos. Provavelmente ficarei chocada, mas mesmo assim, às vezes a gente tem que levar tapas na cara a cada página de um livro pra entender melhor o que se passa ao redor também, não ficar presa na nossa bolha – que também não é perfeita.

    Gostei mto da resenha, Kakazinha! (ow, me empresta esse livro? hahahahah)

  • Karen Alvares disse:

    Ah, Lucy, você choraria sim. Eu chorei. Tem partes que você perde o chão, e tem trechos que te tocam fundo. É bom ler para ver que nem tudo é preto no branco, as coisas às vezes podem sair diferentes do que a gente acredita. De qualquer jeito é uma ótima leitura.
    Ow, eu empresto, mas é melhor a gente se encontrar pra emprestar, porque ele é tão grande e pesado que pra enviar por correio nós duas juntas íamos gastar o mesmo que seria pra comprá-lo! hahaha

  • Vania disse:

    Parceira, sua resenha só me deixou com mais vontade ainda de ler o livro. Quase fui ver o filme no cinema, mas gosto de ler o livro antes, então ainda estou esperando pra pegá-lo emprestado na biblioteca hehe.

  • Karen disse:

    Parceira, não tenha pressa de ver o filme, leia o livro antes. Você não vai se arrepender, e depois vai apreciar bem mais o filme. O livro é espetacular. Se você ver o filme antes, vai te tirar algumas surpresas. 😉

  • Carolina disse:

    Oi Karen, tudo bem? Eu ainda não tive a oportunidade de ler o livro, porém essa temática tem sido discutida de uns tempos pra cá, principalmente em filmes. Nós sempre culpamos a família do atirador achando que o massacre poderia ser evitado. Mas até que ponto realmente conhecemos alguém, principalmente alguém realmente problemático? Estou para comprar esse livro, e após ler a sua resenha, tenho certeza de que não vou me arrepender. Beijoss

  • Jéssica de Sá disse:

    Gostei muito da sua resenha Karen! Era o empurrão que faltava para eu finalmente pegar esse livro na biblioteca.

    Parabéns!

  • Karen disse:

    Obrigada, Jéssica! Leia o livro sim, é muito, muito bom. Perturbador, mas ótimo.

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